{"id":22938,"date":"2016-10-19T10:00:47","date_gmt":"2016-10-19T13:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=22938"},"modified":"2024-06-20T12:47:55","modified_gmt":"2024-06-20T15:47:55","slug":"isolamento-divida-e-baixa-qualidade-de-vida-nos-conjuntos-habitacionais-no-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=22938","title":{"rendered":"Isolamento, D\u00edvida e Baixa Qualidade de Vida nos Conjuntos Habitacionais do Rio [REFER\u00caNCIA]"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2c7lc1I\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Click Here for English<img decoding=\"async\" width=\"20\" height=\"20\" class=\"alignright wp-image-15790\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/EN-standard-e1439583104716.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Para ler o artigo original de Ad\u00e9le Smith em franc\u00eas publicado no Le Monde clique <\/em><a href=\"http:\/\/bit.ly\/29Yb5y2\u00a0\">aqui<\/a>.\u00a0<em>O RioOnWatch traduz mat\u00e9rias para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar\u00a0temas ou an\u00e1lises cobertos fora do pa\u00eds que nem sempre s\u00e3o cobertos no Brasil.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Era bom demais para ser verdade. Quando Isabella Ribeiro recebeu as chaves de um elegante apartamento de dois quartos em abril de 2015, desatou a chorar \u201cde alegria\u201d, disse Isabella, que morou durante toda a sua vida&#8211;56 anos&#8211;em uma favela. O governo federal fez com que ela se tornasse a feliz propriet\u00e1ria de um apartamento de 45m2 em um pr\u00e9dio de cinco andares rec\u00e9m-constru\u00eddo.<\/p>\n<p>No conjunto\u00a0habitacional <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1hmkvl5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Col\u00f4nia Juliano Moreira<\/a>, constru\u00eddo em territ\u00f3rio anteriormente pertencente a donos de escravos, as\u00a0ruas eram\u00a0pavimentadas, a \u00e1gua corria, haviam grandes lat\u00f5es de lixo cor de laranja do lado de fora e um sistema de esgoto. \u201cEra lindo\u201d lembra Isabela. Ela n\u00e3o poderia imaginar os acontecimentos que se seguiriam. Ap\u00f3s um ano e meio, ela se encontra\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/28Mr03Z\">amea\u00e7ada de ser despejada por falta de pagamento<\/a>. \u201cRecebo cartas amea\u00e7adoras, telefonemas sem fim, algu\u00e9m do banco me chamou de vagabunda ao telefone!\u201d ela diz, desanimada. Caixas com rem\u00e9dios para press\u00e3o est\u00e3o espalhadas na pequena sala, onde se encontra uma pequena est\u00e1tua de Jesus Cristo.<\/p>\n<h3><strong>2,6 milh\u00f5es de benefici\u00e1rios de habita\u00e7\u00f5es populares<\/strong><\/h3>\n<p>Da Isabella \u00e9 uma das 2,6 milh\u00f5es de fam\u00edlias selecionadas de acordo com crit\u00e9rios financeiros e de sa\u00fade para se beneficiar do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2edfLzR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Minha Casa Minha Vida<\/a>, programa social de habita\u00e7\u00e3o lan\u00e7ado em 2009 pelo ex-presidente Lula para, como disse na \u00e9poca, para \u201ctirar as pessoas dessa m****&#8221;. \u00a0Ao escapar de\u00a0[prec\u00e1rias] favelas onde estiveram confinadas durante gera\u00e7\u00f5es, estas pessoas em m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de moradia supostamente escapariam da mis\u00e9ria. Grandes programas contra a pobreza, liderados por Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, deram grandes esperan\u00e7as aos cidad\u00e3os do pa\u00eds, onde a\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2dUJfDU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">desigualdade<\/a> impera. O programa de transfer\u00eancia de dinheiro <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1bVmvbP\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bolsa Fam\u00edlia<\/a>, notadamente, \u00e9 o programa social mais reproduzido no mundo.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o seja inovador nem original, o Minha Casa Minha Vida se tornou, em sete anos, o programa social de habita\u00e7\u00e3o mais ambicioso no Brasil desde o fim da <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1nQlHQA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ditadura<\/a>, com 4,5 milh\u00f5es de pequenas casas e apartamentos entregues ou em constru\u00e7\u00e3o. Houve certo impacto sobre o d\u00e9ficit habitacional, mas o impacto sobre a pobreza \u00e9 question\u00e1vel.\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/20H3WDe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O futuro do programa \u00e9 incerto<\/a>. Com o fim do milagre econ\u00f4mico brasileiro e a imensa decep\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 Presidente Dilma Rousseff, as cr\u00edticas engessaram as pol\u00edticas sociais de esquerda, consideradas caras demais. O governo de Michel Temer pretende reformar o Minha Casa Minha Vida.<\/p>\n<p>No Rio, o programa teve uma particularidade adicional nas <a href=\"http:\/\/bit.ly\/PkLXlQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Olimp\u00edadas<\/a>. A prefeitura do Rio usou o programa, com exagerada\u00a0falta de transpar\u00eancia, para deslocar moradores de favelas [em muitos casos funcionais] que foram destru\u00eddas para os Jogos Ol\u00edmpicos. O Prefeito Eduardo Paes prometeu habita\u00e7\u00e3o compensat\u00f3ria gr\u00e1tis, deixando a responsabilidade de pagar o financiamento da propriedade ao munic\u00edpio ao inv\u00e9s de aos propriet\u00e1rios. Mas na Col\u00f4nia, os moradores continuaram a receber avisos de d\u00e9bito dos credores e agora s\u00e3o chamados de \u201cmaus pagadores&#8221;.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/IMG_20160531_112106502-1024x576-e1469471445455.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-22944 size-medium\" title=\"Habita\u00e7\u00e3o p\u00fablica Minha Casa Minha Vida. Foto por P\u00fablica\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/IMG_20160531_112106502-1024x576-e1469471445455-620x317.jpg\" alt=\"img_20160531_112106502-1024x576-e1469471445455\" width=\"620\" height=\"317\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/IMG_20160531_112106502-1024x576-e1469471445455-620x317.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/IMG_20160531_112106502-1024x576-e1469471445455-516x264.jpg 516w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/IMG_20160531_112106502-1024x576-e1469471445455-768x393.jpg 768w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/IMG_20160531_112106502-1024x576-e1469471445455.jpg 1021w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Longas filas de espera<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, o programa, melhor conhecido pelo seu acr\u00f4nimo MCMV, \u00e9 generoso. \u00c9 subsidiado em at\u00e9 95% pelo estado para quase a metade dos seus benefici\u00e1rios, aqueles com renda muito baixa como Isabella (menos de R$1.800 por m\u00eas). Tamb\u00e9m \u00e9 muito popular. As filas de espera s\u00e3o longas. Mas depende de uma\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1Rq1j7H\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">parceria p\u00fablico-privada<\/a> entre o governo federal e o setor imobili\u00e1rio, facilitada pelas autoridades locais. Em outras palavras, as empresas de obras p\u00fablicas escolhem terrenos com baixo valor de mercado na periferia das cidades e visam torn\u00e1-los lucrativos. Isso nem sempre contribui para o bem-estar da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4nia, hoje, h\u00e1 l\u00e1grimas no escrit\u00f3rio da s\u00edndica Julia de Oliveira, que atua tanto como seguran\u00e7a, quanto como\u00a0Madre Teresa. Os lembretes dos credores est\u00e3o longe de serem os \u00fanicos problemas. Assim como em outros projetos do MCMV, a palavra \u201cconta\u201d produz ansiedade em todos. Apesar do seu desenvolvimento desenfreado e fora do padr\u00e3o, as favelas tinham um lado bom: as pessoas n\u00e3o eram arruinadas financeiramente. Aqui, naturalmente, paga-se por tudo: g\u00e1s, televis\u00e3o, internet, e tamb\u00e9m taxas de eletricidade e condom\u00ednio.<\/p>\n<p>E ao se mudar para o sub\u00farbio, isolado e longe do centro da cidade, muitos perderam os seus empregos. Francisca Bezerra, dona de casa, nunca voltaria para a sua favela, mas precisou desistir da internet e agora est\u00e1 impedida de ter acesso a cr\u00e9dito. Um estudo recente de sociologia da Escola de Economia de Londres demonstra as crescentes dificuldades financeiras em um n\u00famero maior destes projetos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/90700871_isabel_3.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-22945 size-content\" title=\"Isabel Ribeiro. Foto por Camilla Costa\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/90700871_isabel_3-620x264.jpg\" alt=\"90700871_isabel_3\" width=\"620\" height=\"264\" \/><\/a><\/p>\n<p>Isabella Ribeiro era costureira na favela. Ela alugou um ateli\u00ea perto da Col\u00f4nia, mas acabou desistindo, incapaz de enfrentar as dificuldades financeiras que isso acarretou. A sua m\u00e1quina de costura e os carret\u00e9is de linha est\u00e3o acumulando poeira em um canto. Esses projetos s\u00e3o constru\u00eddos apenas para habita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o para fins comerciais ou de servi\u00e7os. No entanto, como diz o ditado, a necessidade \u00e9 a m\u00e3e da inven\u00e7\u00e3o; assim podemos ver, aqui e ali, placas nas janelas oferecendo pequenos servi\u00e7os, tais como cabeleireiros e manicures, como na favela.<\/p>\n<p>Isolada por uma via expressa, Col\u00f4nia foi constru\u00edda na <a href=\"http:\/\/bit.ly\/11tBmFR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zona Oeste<\/a> do Rio, sem acesso \u00e0s linhas do metr\u00f4. \u00c9 distante da Zona Norte e do Centro da cidade, onde se encontra a maior parte dos empregos. O n\u00famero de\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1PHlaNC\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00f4nibus tradicionais foi reduzido<\/a> e os novos, embora mais r\u00e1pidos, s\u00e3o bem menos frequentes. \u201cTamb\u00e9m estamos aguardando a cl\u00ednica que nos foi prometida. A mais pr\u00f3xima se encontra a uma hora de carro\u201d, diz Ariana, m\u00e3e de um menino de 5 anos. E, para piorar, os cortes de \u00e1gua e luz s\u00e3o frequentes. No meio da conversa, a s\u00edndica Julia de Oliveira parou a conversa para impedir a entrada de um agente da distribuidora local de \u00e1gua, que veio cortar o fornecimento sem aviso pr\u00e9vio.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma luta constante\u201d, ela explica depois de convencer o homem a deixar de fazer o seu trabalho. Os moradores se recusam a pagar as contas da \u00e1gua que lhes foi prometida de gra\u00e7a. Julia de Oliveira culpa a crise econ\u00f4mica pela degrada\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os municipais. Por outro lado, outros moradores suspeitam do desprezo do governo pelos \u201cpobres\u201d. O projeto de habita\u00e7\u00e3o vizinho <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1dpuC3i\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Parque Carioca<\/a>, apresentado como \u201cmodelo\u201d, j\u00e1 se encontra em um\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1rd8iG1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">estado med\u00edocre<\/a>. A piscina, destinada para os moradores, encontra-se abandonada.<\/p>\n<p>\u201cInfelizmente o programa MCMV reproduz esquemas de\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1hvVsxW\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">segrega\u00e7\u00e3o<\/a> e injusti\u00e7a social\u201d, diz <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2ekjviu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meg Healy<\/a>, pesquisadora e colaboradora da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental <a href=\"http:\/\/comcat.org\/\">Comunidades Catalisadoras<\/a>. Estaria a Col\u00f4nia correndo o risco de se transformar em uma favela a longo prazo? \u201cDe jeito nenhum, as pessoas encontraram a sua dignidade aqui\u201d, afirma Julia de Oliveira com otimismo. Sem marido ou filhos, mas com dois empregos diferentes, ela passa bem os seus dias, mas reconhece que o efeito conjunto da crise econ\u00f4mica e da solid\u00e3o \u00e9 um fator de inseguran\u00e7a. \u201c\u00c9 mais dif\u00edcil para aqueles que n\u00e3o podem ou n\u00e3o querem trabalhar\u201d, ela diz.<\/p>\n<h3><strong>Um plano visando sustentar o setor imobili\u00e1rio<\/strong><\/h3>\n<p>A ex-relatora especial da ONU sobre o direito \u00e0 moradia adequada, <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2edjUDQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Raquel Rolnik<\/a>, teme que o programa criar\u00e1 \u201cfuturos guetos de pobreza&#8221;. Autora do recente livro <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1QRFMiN\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Guerra dos Lugares<\/em><\/a><em>, <\/em>ela considera que ele \u00e9 \u201cprincipalmente um sucesso para os setores de obras p\u00fablicas e financeiro&#8221;. \u00a0\u00c9 importante lembrar a origem deste plano, lan\u00e7ado no meio da campanha eleitoral, que de acordo com Raquel, foi apresentado como uma pol\u00edtica de habita\u00e7\u00e3o social e tinha como objetivo maior apoiar o setor de constru\u00e7\u00e3o e enfrentar a crise financeira global de 2008.<\/p>\n<p>\u201cDe qualquer maneira n\u00e3o \u00e9 um programa de habita\u00e7\u00e3o social\u201d, ela repete, dizendo que os interesses dos especuladores imobili\u00e1rios s\u00e3o \u201cincompat\u00edveis\u201d com os dos moradores. Hoje, o setor de obras p\u00fablicas est\u00e1 pressionando o governo para mant\u00ea-lo. \u201cN\u00e3o seria sensato reduzir ou interromper um programa de tamanha envergadura\u201d, confirma o presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobili\u00e1rio (Ademi), Jo\u00e3o Paulo. R$300 bilh\u00f5es (US$92 bilh\u00f5es) foram investidos desde 2009.<\/p>\n<p>De tamanho modesto e menos isolada do que os outros, a Col\u00f4nia \u00e9 uma vers\u00e3o \u201clight\u201d destes complexos gigantes constru\u00eddos no Brasil, mas \u00e9 o mesmo modelo de constru\u00e7\u00e3o encontrado praticamente em todos os lugares. Numa tarde como hoje, Patricia Fernandes encontra-se na parte de baixo do seu pr\u00e9dio, matando o tempo junto com seus vizinhos. Como n\u00e3o h\u00e1 bancos, sentam-se no ch\u00e3o. Aparentemente o arquiteto do complexo optou por um projeto minimalista.<\/p>\n<p>Um toque de amarelo e rosa aqui e ali alegra o complexo. Mas Col\u00f4nia poderia ter mais \u00e1rvores, neste pa\u00eds onde tudo cresce t\u00e3o facilmente. No horizonte, os morros verdes nos lembram que \u00e9 a natureza, e n\u00e3o a arquitetura, que torna o Rio uma das cidades mais lindas do mundo. Quando o t\u00e9dio no complexo \u00e9 demais, os moradores acabam no sof\u00e1 assistindo novelas&#8211;Patricia e sua filha amam \u201cMeu Cora\u00e7\u00e3o \u00e9 Teu&#8221;. N\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua quente na cozinha, nem espelho no banheiro, nem l\u00e2mpada no teto, mas a tela de plasma \u00e9 sagrada no Brasil.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Screen-Shot-2016-09-06-at-13.56.37.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-22946 size-medium\" title=\"Patr\u00edcia Fernandes em sua casa. Foto por Vicent Catala\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Screen-Shot-2016-09-06-at-13.56.37-620x524.png\" alt=\"screen-shot-2016-09-06-at-13-56-37\" width=\"620\" height=\"524\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Screen-Shot-2016-09-06-at-13.56.37-620x524.png 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Screen-Shot-2016-09-06-at-13.56.37-312x264.png 312w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Screen-Shot-2016-09-06-at-13.56.37.png 622w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A jovem tem um apartamento id\u00eantico ao de Isabella Ribeiro mas a fam\u00edlia Fernandes est\u00e1 amontoada. Seis pessoas neste apartamento de dois quartos: ela, seu marido, seus filhos de 11 e 18 anos de idade, e sua irm\u00e3, que divide uma cama de solteiro com seu filho de 5 anos. Patricia n\u00e3o \u00e9 conhecedora de arquitetura, mas n\u00e3o entende porque todos os apartamentos s\u00e3o constru\u00eddos com uma grande abertura na parede da cozinha sem uma janela para complement\u00e1-la. O quadro \u00e9 o mesmo nos outros complexos. Quando chove, \u00e9 preciso enxugar o ch\u00e3o. As chuvas tropicais no Brasil podem transformar a cozinha numa piscina se n\u00e3o houver cuidado.<\/p>\n<p>Diferente dos outros moradores, ela n\u00e3o tem o problema de pisos que afundam ou rachaduras nas paredes. A qualidade da constru\u00e7\u00e3o MCMV \u00e9 constantemente <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2edg7GK\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">alvo de cr\u00edtica<\/a>. Em 2013, um projeto de habita\u00e7\u00e3o rec\u00e9m-constru\u00eddo precisou ser <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2dX8576\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">demolido antes que os novos moradores entrassem<\/a>. Ao caminharmos pela Col\u00f4nia nos perguntamos: quantos anos levar\u00e3o at\u00e9 que o lugar se torne decr\u00e9pito?<\/p>\n<h3><strong>Regras severas, clima pesado<\/strong><\/h3>\n<p>Durante as conversas com os moradores, um assunto surge com frequ\u00eancia. Um apartamento novo e limpo ao inv\u00e9s de um casebre esqu\u00e1lido \u00e9 uma ideia maravilhosa no papel. Mas, na realidade, esses novos projetos causam uma transforma\u00e7\u00e3o profunda no sistema urbano e nos estilos de vida. A higiene e a boa ilumina\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito apreciadas, mas a austeridade e o ar pesado nem tanto.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 m\u00fasica nem churrascos ao ar livre que eram o charme da vida comunit\u00e1ria nas favelas. H\u00e1 uma cerca alta ao redor da Col\u00f4nia, e cada pr\u00e9dio s\u00f3 pode ser acessado por interfone. Somente convidados podem entrar aqui. As regras s\u00e3o severas, as vezes arbitr\u00e1rias.<\/p>\n<p>Alguns n\u00e3o se adaptam bem. Patricia precisou abandonar o seu cachorro, Jack. \u201cPreferia voltar para a favela. A casa da fam\u00edlia era maior e mais confort\u00e1vel. Sent\u00edamos-nos mais livres\u201d, ela explica. Alguns j\u00e1 alugaram o seu apartamento para voltar \u00e0 favela ou ganhar um dinheiro extra. Outros est\u00e3o pensando em vender, apesar de ser proibido por dez anos: um aspecto da habita\u00e7\u00e3o social que n\u00e3o \u00e9 muito \u201csocial\u201d em si.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/IMG_04321.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-22947 size-content\" title=\"Habita\u00e7\u00e3o p\u00fablica Minha Casa Minha Vida em Bangu, uma \u00e1rea da Zona Oeste para onde muitas fam\u00edlias removidas de favelas s\u00e3o realocadas.\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/IMG_04321-620x264.jpg\" alt=\"img_04321\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/IMG_04321-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/IMG_04321-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A segunda parte do programa \u00e9 reservada \u00e0s pessoas de classe m\u00e9dia com rendas de US$540 a US$1.900 por m\u00eas, aquelas para as quais o governo Temer pretende dar prioridade. Elas t\u00eam uma ampla escolha de localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e apartamentos de qualidade ligeiramente melhor, mas s\u00e3o menos afetadas pela falta de moradias e de qualquer modo est\u00e3o confinadas a grandes parcelas monol\u00edticas. Pelo menos o programa MCMV permitiu-lhes o acesso ao cr\u00e9dito no mercado imobili\u00e1rio, realmente um progresso no Brasil, admite Raquel Rolnik.<\/p>\n<p>Muitos consideram que, para um programa t\u00e3o vital ao desenvolvimento urbano no Brasil, o MCMV sofre de um s\u00e9rio d\u00e9ficit democr\u00e1tico. Daniel Ferreira, um senhor jovial com mais de sessenta anos, sempre morou na favela. Ele <a href=\"http:\/\/bit.ly\/29QMo7N\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">levou 20 anos para construir a sua casa<\/a> de 57m2\u00a0e criou seus filhos nela. O governo ofereceu-lhe um apartamento de 45m2&#8211;uma redu\u00e7\u00e3o de 12m2. Ele recusou. \u201cPorque somos pobres, as pessoas querem que aceitemos qualquer coisa enquanto a Prefeitura e os construtores especulam \u00e0s nossas costas. Isto n\u00e3o \u00e9 democracia\u201d, diz Daniel.<\/p>\n<p>O presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), S\u00e9rgio Magalh\u00e3es, \u00e9 da mesma opini\u00e3o. A cidade, defende ele, deve ser constru\u00edda de maneira inclusiva. No entanto, nem os planejadores urbanos nem os arquitetos, nem aqueles mais preocupados est\u00e3o realmente associados ao programa, que por for\u00e7a \u00e9 conduzido pelos empreiteiros imobili\u00e1rios e pelo governo. \u201c80% das moradias no Brasil foi constru\u00eddo por pessoas frequentemente muito pobres, sem qualquer ajuda. As favelas s\u00e3o o resultado direto disso. Oferecer-lhes o modelo MCMV \u00e9 falta de respeito\u201d, afirma Magalh\u00e3es, que defende a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2em3idJ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">urbaniza\u00e7\u00e3o<\/a> das favelas.<\/p>\n<p>Na verdade \u00e9 um <a href=\"http:\/\/abr.ai\/2dULRl2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">desastre para o futuro das cidades<\/a>, ele acrescenta. \u201cA expans\u00e3o horizontal das cidades em detrimento da densidade populacional, sem a infraestrutura ou os servi\u00e7os que a acompanham, \u00e9 uma bomba-rel\u00f3gio social, urbana e ambiental\u201d, ele conclui do seu escrit\u00f3rio no Rio. Os governos \u00e0s vezes t\u00eam mem\u00f3ria curta.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de habita\u00e7\u00e3o social dos anos 60 no Brasil, da qual o MCMV \u00e9 considerado uma c\u00f3pia quase perfeita, deu origem, durante duas gera\u00e7\u00f5es, \u00e0s comunidades segregadas de exclus\u00e3o e viol\u00eancia como a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/10BzE4e\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cidade de Deus<\/a>, imortalizada no filme de Fernando Meirelles. Col\u00f4nia foi constru\u00edda perto dessa imensa favela. <a href=\"http:\/\/bit.ly\/NRIxaP\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Traficantes de\u00a0drogas<\/a> perambulam ao redor dos novos projetos de habita\u00e7\u00e3o e a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1fQqGHL\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mil\u00edcia<\/a> extorque os moradores, que t\u00eam medo de falar. Em Col\u00f4nia, a viol\u00eancia j\u00e1 faz parte do cotidiano.<\/p>\n<p>Lucas Mezes, um carpinteiro de 20 anos de idade, nunca imaginou que o acesso \u00e0 propriedade traria um custo humano t\u00e3o significativo para a sua fam\u00edlia. Ele e seus dois irm\u00e3os, Thiago, 18, e Mattheus, 21, todos se tornaram propriet\u00e1rios de apartamentos id\u00eanticos. Dois na\u00a0Col\u00f4nia, e um no Parque Carioca, a alguns quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>No passado, a fam\u00edlia Mezes morava em uma favela que era considerada bem calma, a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/Nfddvg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vila Aut\u00f3dromo<\/a>, agora s\u00edmbolo de <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1piRAgk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">resist\u00eancia<\/a> contra as Olimp\u00edadas. \u201cEra um pequeno para\u00edso\u201d, lembra Lucas, cujo rosto foi desfigurado do olho at\u00e9 o queixo devido a um acidente de motocicleta. Quando a sua casa foi destru\u00edda, o seu pai, um pescador na lagoa, nunca se recuperou, conta o rapaz. A fam\u00edlia de cinco pessoas foi separada geograficamente, todos arbitrariamente. Para os tr\u00eas rapazes, que s\u00e3o muito pr\u00f3ximos, isso foi dif\u00edcil.<\/p>\n<p>No m\u00eas passado, o filho mais velho, Mattheus, foi morto na Col\u00f4nia com quatro tiros nas costas ap\u00f3s um desentendimento. Lucas agora \u00e9 respons\u00e1vel pela sua fam\u00edlia. Um fardo pesado para um rapaz de 20 anos de idade. \u201cMeu sonho hoje \u00e9 que a minha vida n\u00e3o se descontrole\u201d. Mas Lucas manteve a alegria de viver t\u00edpica dos brasileiros: est\u00e1 convencido que a sua fam\u00edlia tem futuro no projeto de habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Click Here for English Para ler o artigo original de Ad\u00e9le Smith em franc\u00eas publicado no Le Monde clique aqui.\u00a0O RioOnWatch traduz mat\u00e9rias para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar\u00a0temas ou an\u00e1lises cobertos fora <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=22938\" title=\"Isolamento, D\u00edvida e Baixa Qualidade de Vida nos Conjuntos Habitacionais do Rio [REFER\u00caNCIA]\">[&#8230;]<\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":151,"featured_media":22943,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1618,1614,1621,1631,344,1634],"tags":[554,475,1057,396,1306,994,1637,246,505,680,14,814,729,55,184],"writer":[2014],"translator":[1875],"source":[946],"ilustrador":[],"fotografo":[],"class_list":{"0":"post-22938","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-olhonaparticipacao","8":"category-olhonasremocoes","9":"category-destaque","10":"category-entendendo-o-rio","11":"category-politicas","12":"category-traducoes","13":"tag-cidade-de-deus","14":"tag-colonia-juliano-moreira","15":"tag-consequencias-das-remocoes-saude","16":"tag-especulacao-imobiliaria","17":"tag-exclusao","18":"tag-habitacao-publica","19":"tag-referencia","20":"tag-minha-casa-minha-vida","21":"tag-parceria-publico-privado","22":"tag-parque-carioca","23":"tag-remocao","24":"tag-segregacao","25":"tag-vidas-que-nao-podem-ser-substituidas-em-habitacao-publica","26":"tag-vila-autodromo","27":"tag-zona-oeste","28":"writer-adele-smith","29":"translator-marina-hennies","30":"source-le-monde"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.6 - 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