{"id":23033,"date":"2016-11-02T09:44:58","date_gmt":"2016-11-02T12:44:58","guid":{"rendered":"http:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=23033"},"modified":"2018-05-18T08:51:00","modified_gmt":"2018-05-18T11:51:00","slug":"o-midiativismo-de-favela-e-seu-legado-para-o-engajamento-civico-na-cidade-olimpica-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=23033","title":{"rendered":"O Midiativismo de Favela e Seu Legado para o Engajamento C\u00edvico na Cidade Ol\u00edmpica do Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2cwT0IL\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Click Here for English<img decoding=\"async\" width=\"20\" height=\"20\" class=\"alignright wp-image-15790\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/EN-standard-e1439583104716.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<h4><em><strong>Moradores de favelas, sobretudo os mais jovens, v\u00eam usando as m\u00eddias digitais e impressas contra as <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1MsmVsX\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos<\/a> h\u00e1 algum tempo no Rio. As <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1RVjsFT\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">tecnologias de m\u00eddia<\/a> e as t\u00e9cnicas de <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1jEgxaJ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">jornalismo<\/a>\u00a0t\u00eam sido cada vez mais importantes componentes das lutas da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda da periferia. Neste artigo, o Dr. Leonardo Cust\u00f3dio compartilha os resultados de sua pesquisa de doutorado sobre o crescimento da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica gra\u00e7as aos midiativistas de favela, desde que o Rio foi escolhido para sediar os Jogos Ol\u00edmpicos de 2016.<\/strong><\/em><\/h4>\n<p>Nos anos entre o an\u00fancio do Rio como sede das Olimp\u00edadas de 2016, em outubro de 2009, e a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2aVDTVE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cerim\u00f4nia de abertura Ol\u00edmpica<\/a>, ocorrida no dia 5 de agosto de 2016, houve in\u00fameros casos em que os <a href=\"http:\/\/bit.ly\/11VbppF\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">moradores das favelas utilizaram as m\u00eddias<\/a> como instrumentos e plataformas de troca de informa\u00e7\u00f5es a fim de organizar publicamente diversas formas de atividades pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Este midiativismo comunit\u00e1rio abrangeu a circula\u00e7\u00e3o de jornais comunit\u00e1rios, postagens em blogs, v\u00eddeos de celular, document\u00e1rios e fotos que denunciaram a viol\u00eancia das autoridades da prefeitura nas\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/X51Qvb\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">remo\u00e7\u00f5es<\/a>, e tamb\u00e9m realizaram discuss\u00f5es online e mobiliza\u00e7\u00f5es ap\u00f3s casos de <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1i0t9Hc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">viol\u00eancia por parte da pol\u00edcia<\/a>. Al\u00e9m disso, houveram media\u00e7\u00f5es de debates que objetivavam <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2d30Pnn\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">problematizar o preconceito<\/a> e a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1XXLTLJ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">discrimina\u00e7\u00e3o contra os moradores das favelas<\/a>.<\/p>\n<p>Refiro-me a esse fen\u00f4meno como midiativismo de favela, ou seja, as a\u00e7\u00f5es individuais e coletivas dos moradores de favelas na m\u00eddia, atrav\u00e9s dela e sobre ela. Tais a\u00e7\u00f5es de contesta\u00e7\u00e3o decorrem ou conduzem \u00e0 difus\u00e3o da <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1Ce678W\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cidadania<\/a> entre\u00a0os envolvidos. Ao se engajarem no midiativismo dentro, fora e por todas as favelas, os moradores elevam a consci\u00eancia cr\u00edtica dentro da favela, geram debates p\u00fablicos e mobilizam a\u00e7\u00f5es contra ou em rea\u00e7\u00e3o \u00e0s consequ\u00eancias da <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1owRf9p\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">desigualdade<\/a> social em seu dia a dia.<\/p>\n<p>Para entender o midiativismo de favela, podemos observar dois eventos tr\u00e1gicos e as rea\u00e7\u00f5es a eles antes e durante as prepara\u00e7\u00f5es para as\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/PkLXlQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Olimp\u00edadas Rio 2016<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/movimento_12.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-23152 size-full\" title=\"O fot\u00f3grafo Comunit\u00e1rio Naldinho Louren\u00e7o documentou a cena no Complexo da Mar\u00e9, onde Matheus, de 8 anos, foi morto com esta moeda para o p\u00e3o na m\u00e3o. Foto por Naldinho Louren\u00e7o \/ Imagens do Povo\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/movimento_12.jpg\" alt=\"movimento_12\" width=\"350\" height=\"220\" \/><\/a>O primeiro caso ocorreu em dezembro de 2008 na <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2erwhBx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Baixa do Sapateiro<\/a>, uma das favelas do\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/10BvARw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Complexo da Mar\u00e9<\/a>, na <a href=\"http:\/\/bit.ly\/WximDf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zona Norte<\/a> do Rio. Matheus Rodrigues, um menino de oito anos, pegou uma moeda e correu em dire\u00e7\u00e3o a uma padaria local. Ao abrir o port\u00e3o de sua casa, uma <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1RwntCt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">bala de fuzil atingiu sua cabe\u00e7a<\/a>. Imediatamente ap\u00f3s o tiro, pessoas que estavam no local gritaram que um policial havia matado uma crian\u00e7a. Quando a m\u00e3e de Matheus correu para fora, encontrou o corpo de seu filho sem vida, em frente ao port\u00e3o.<\/p>\n<p>O segundo caso ocorreu em abril de 2015 no <a href=\"http:\/\/bit.ly\/U0MiGm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Complexo do Alem\u00e3o<\/a>, tamb\u00e9m na Zona Norte. O complexo de favelas tinha\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/19QHUcr\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cinco v\u00edtimas de tiros<\/a>\u00a0em menos de 24 horas, incluindo o menino <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1qxWuyB\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eduardo de Jesus Ferreira<\/a>, de 10 anos, no dia 2 de abril. Assim como no Complexo da Mar\u00e9, testemunhas apontaram os policiais como autores dos tiros.<\/p>\n<p>No caso do Complexo da Mar\u00e9, testemunhas do assassinato de Matheus Rodrigues imediatamente mobilizaram pessoas que acreditavam ser \u00fateis, o que incluiu jornalistas volunt\u00e1rios do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1mk1XUj\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">jornal O <em>Cidad\u00e3o<\/em><\/a>, baseado em favelas. Desde sua cria\u00e7\u00e3o em 1999 pela ONG local <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1zyfb2g\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">CEASM<\/a>, <em>O Cidad\u00e3o<\/em>\u00a0se tornou um dos jornais mais conhecidos\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2ef7j6c\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">baseado em favela<\/a>.<\/p>\n<p>Sete anos depois, no Complexo do Alem\u00e3o, testemunhas usaram o Facebook para fazer circularem\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1J0JR2v\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">v\u00eddeos<\/a> de celular e <a href=\"http:\/\/on.fb.me\/1Cga6fm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fotos<\/a>\u00a0do corpo de Eduardo de Jesus em uma escadaria estreita. Algumas pessoas enviaram os v\u00eddeos e as fotos como mensagens privadas aos coletivos de m\u00eddia como o <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1tlZuis\">Coletivo Papo Reto<\/a> e o <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2c7SIot\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">#OcupaAlem\u00e3o<\/a>, e para p\u00e1ginas an\u00f4nimas do Facebook como a <a href=\"http:\/\/on.fb.me\/1UoOMzP\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alem\u00e3o Morro<\/a> (que desde ent\u00e3o mudou seu nome e n\u00e3o \u00e9 mais an\u00f4nima) e a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2cG6HaH\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jornal Alem\u00e3o Not\u00edcias<\/a>. Ao longo dos anos, esses grupos se tornaram refer\u00eancias em informa\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, moradores engajados circularam as vers\u00f5es das testemunhas dos crimes no local, por todas as favelas e para al\u00e9m das favelas. Na Mar\u00e9, alguns jornalistas volunt\u00e1rios da favela\u00a0se dirigiram imediatamente \u00e0 cena do crime a fim de coletar declara\u00e7\u00f5es das testemunhas, enquanto outros contataram organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos e pol\u00edticos progressistas. <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1McM8XD\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Naldinho Louren\u00e7o<\/a>, um fotojornalista volunt\u00e1rio, documentou a cena do crime no caso da pol\u00edcia\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1jQvmax\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">manipul\u00e1-la<\/a> antes que a unidade de homic\u00eddios chegasse. No Alem\u00e3o, os coletivos de m\u00eddia primeiro circularam os \u201cplant\u00f5es jornal\u00edsticos\u201d no Facebook e solicitaram mais informa\u00e7\u00f5es de seus seguidores que moravam na favela. Depois, publicaram an\u00e1lises <a href=\"http:\/\/on.fb.me\/1P2JQzo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">indignadas e emocionais<\/a> <a href=\"http:\/\/on.fb.me\/1EL0pNq\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">denunciando a recorr\u00eancia<\/a> de crimes comandados pelo estado nas favelas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_23154\" aria-describedby=\"caption-attachment-23154\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Alemao-reaction-to-Eduardo.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-23154 size-thumbnail\" title=\"P\u00e1gina de comunidade no Facebook relatando o assassinato de Eduardo de Jesus Ferreira.\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Alemao-reaction-to-Eduardo-620x210.jpg\" alt=\"alemao-reaction-to-eduardo\" width=\"620\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Alemao-reaction-to-Eduardo-620x210.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Alemao-reaction-to-Eduardo-768x260.jpg 768w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Alemao-reaction-to-Eduardo.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-23154\" class=\"wp-caption-text\">P\u00e1gina no Facebook relatando o assassinato de Eduardo de Jesus Ferreira.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Tais rea\u00e7\u00f5es imediatas representam a instrumentaliza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e do jornalismo para os <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1iqdzi3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">direitos humanos<\/a> e a justi\u00e7a. Esses jornalistas, moradores do local, n\u00e3o t\u00eam nenhuma pretens\u00e3o de neutralidade. Nas favelas, os crimes contra um indiv\u00edduo s\u00e3o vistos como atos contra todos os moradores. Um exemplo desse senso de uni\u00e3o\u00a0\u00e9 a frase \u201cn\u00f3s por n\u00f3s\u201d, que os ativistas das favelas usam frequentemente para destacar seu comprometimento com as causas das favelas\u00a0como seu principal objetivo social.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o assassinato dos meninos, jornalistas volunt\u00e1rios do Complexo da Mar\u00e9 e membros de coletivos do Complexo do Alem\u00e3o se engajaram em formas simult\u00e2neas de ativismo na m\u00eddia, com seus pr\u00f3prios canais e atrav\u00e9s da m\u00eddia como um todo.<\/p>\n<h3>Ativismo na m\u00eddia<\/h3>\n<p>Na m\u00eddia, os jornalistas volunt\u00e1rios do jornal <em>O Cidad\u00e3o<\/em>, na \u00e9poca desprovidos da maioria dos dispositivos digitais dispon\u00edveis hoje em dia, produziram um <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2c4GYVg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">relat\u00f3rio escrito<\/a> e o distribu\u00edram a sites de organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, blogs de ativistas, outras m\u00eddias alternativas e tamb\u00e9m aos principais meios de comunica\u00e7\u00e3o privados. Ademais, utilizaram suas redes sociais pessoais para informar aos jornalistas da grande m\u00eddia a vers\u00e3o da hist\u00f3ria dada pelos moradores, o que foi de encontro \u00e0s declara\u00e7\u00f5es oficiais da pol\u00edcia de que o menino tinha sido morto em uma troca de tiros. Algumas semanas depois, publicaram um editorial e um relat\u00f3rio especial sobre o crime na vers\u00e3o impressa de <em>O Cidad\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>No Complexo do Alem\u00e3o, membros de coletivos circularam informa\u00e7\u00f5es, comentaram os casos e interagiram com suas extensivas plataformas de seguidores online. Uma importante a\u00e7\u00e3o dos coletivos e de p\u00e1ginas an\u00f4nimas foi negar os rumores de que Eduardo de Jesus, de 10 anos de idade, estivesse envolvido no tr\u00e1fico de drogas. Al\u00e9m disso, um membro do coletivo Papo Reto, que trabalhava para a <em>Globo<\/em>, conseguiu <a href=\"http:\/\/glo.bo\/1aW4EcB\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">relatar o crime<\/a> na <em>Globo News<\/em>, o canal a cabo da emissora.<\/p>\n<h3>Ativismo sobre a m\u00eddia<\/h3>\n<p>O ativismo dos moradores da favela sobre a m\u00eddia surgiu do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2crZojj\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">contraste<\/a> entre os discursos dos ativistas das favelas e aqueles dos\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1n71CIt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">principais meios de comunica\u00e7\u00e3o<\/a>. No geral, quando os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o cobrem os crimes ocorridos nas favelas, a tend\u00eancia \u00e9 buscarem fontes oficiais para esclarecimentos, enquanto as vozes dos moradores aparecem como um elemento dram\u00e1tico, com um valor mais emocional do que informacional. Isso \u00e9 problem\u00e1tico quando as principais fontes oficiais, a pol\u00edcia e o governo s\u00e3o direta ou indiretamente respons\u00e1veis pelos crimes.<\/p>\n<p>No Complexo da Mar\u00e9, por exemplo, a grande m\u00eddia relatou o crime focando em sua brutalidade e no fato de que os moradores locais reagiram a ele bloqueando ruas. Tamb\u00e9m relataram as acusa\u00e7\u00f5es dos moradores contra a pol\u00edcia, mas os pr\u00f3prios esclarecimentos sobre o crime se basearam em declara\u00e7\u00f5es de protocolo dadas por policiais veteranos, como \u201cvamos investigar&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Uma cobertura similar foi observada no caso do Complexo do Alem\u00e3o. Ao mesmo tempo em que os pais de Eduardo apareciam chorando em v\u00e1rios canais, acusando policiais de terem matado seu filho, as explica\u00e7\u00f5es sobre o que tinha acontecido se baseavam em declara\u00e7\u00f5es oficiais do governo. Assim, a cobertura da m\u00eddia sobre os crimes nas favelas tende a se concentrar em casos espec\u00edficos e nas rea\u00e7\u00f5es imediatas de moradores aborrecidos e de autoridades p\u00fablicas, como se as perguntas simplesmente girassem em torno do que aconteceu em um momento espec\u00edfico e por qu\u00ea.<\/p>\n<p>Em contrapartida, as quest\u00f5es centrais no trabalho dos jornalistas comunit\u00e1rios\u00a0da Mar\u00e9 e de membros de coletivos e de p\u00e1ginas an\u00f4nimas do Alem\u00e3o foram de natureza <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1mk1XUj\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mais estrutural<\/a>: por que crimes por parte da pol\u00edcia ocorrem constantemente? Por que sempre h\u00e1 impunidade?<\/p>\n<h3>Ativismo atrav\u00e9s da m\u00eddia<\/h3>\n<p>O ativismo atrav\u00e9s da m\u00eddia surgiu da organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es contra a viol\u00eancia da pol\u00edcia nas favelas. \u00c0 \u00e9poca da morte de Matheus, os jornalistas volunt\u00e1rios de O Cidad\u00e3o ajudaram a organizar passeatas que bloquearam a Avenida Brasil, uma das vias expressas mais movimentadas do Rio de Janeiro. Eles tamb\u00e9m participaram de uma manifesta\u00e7\u00e3o em frente ao pr\u00e9dio da Alerj, dias ap\u00f3s o crime.<\/p>\n<p>No Complexo do Alem\u00e3o, as a\u00e7\u00f5es de <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1qxWuyB\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">articula\u00e7\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es<\/a> por parte de membros de coletivos e de p\u00e1ginas an\u00f4nimas, dentro e fora das redes sociais, foram ainda mais vis\u00edveis. Na sequ\u00eancia de uma mobiliza\u00e7\u00e3o bem-sucedida no Facebook, <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1Dpu2R2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">manifesta\u00e7\u00f5es ocuparam as ruas do Complexo do Alem\u00e3o<\/a> ap\u00f3s a morte de Eduardo. A primeira delas ocorreu no dia 3 de abril com algumas centenas de moradores, incluindo crian\u00e7as, caminhando pacificamente na rua principal da favela. No entanto, a passeata foi interrompida quando policiais usaram spray de pimenta e bombas de fuma\u00e7a para dispersar a multid\u00e3o. Em 4 de abril, a popula\u00e7\u00e3o, coletivos de m\u00eddia e associa\u00e7\u00f5es de moradores, assim como organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e de direitos humanos, <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1Dpu2R2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">organizaram outra manifesta\u00e7\u00e3o<\/a> que incluiu moradores de outras favelas e de fora delas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Protesto-Alemao-Abril-4-2015-620x264-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-23155 size-medium\" title=\"04 de abril, protesto no Alem\u00e3o ap\u00f3s Eduardo de Jesus ter sido morto pela pol\u00edcia.\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/Protesto-Alemao-Abril-4-2015-620x264-4-620x264.jpg\" alt=\"protesto-alemao-abril-4-2015-620x264-4\" width=\"620\" height=\"264\" \/><\/a><\/p>\n<h3>O midiativismo de favela como um decreto de cidadania<\/h3>\n<p>Em um sentido pol\u00edtico mais amplo, o midiativismo de favela representa o decreto de cidadania firmado contra ou em rea\u00e7\u00e3o \u00e0s consequ\u00eancias materiais ou simb\u00f3licas da desigualdade social.<\/p>\n<p>Essa alega\u00e7\u00e3o refere-se diretamente ao uso de \u201cfavela\u201d como sufixo de midiativismo e, ao usar \u201cfavela\u201d como sufixo, n\u00e3o me refiro simplesmente a falar sobre as favelas como ambientes urbanos. Ao inv\u00e9s disso, refiro-me a destacar as caracter\u00edsticas pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas que separam as a\u00e7\u00f5es de midiativismo nas favelas dessas mesmas a\u00e7\u00f5es em outros ambientes. Apesar de haver muita colabora\u00e7\u00e3o e solidariedade entre os ativistas da favela e de fora dela, as condi\u00e7\u00f5es e motiva\u00e7\u00f5es para suas lutas s\u00e3o essencialmente diferentes e irreconcili\u00e1veis.<\/p>\n<p>Os ativistas de fora da favela defendem os direitos humanos e civis com base em ideais e valores, mas, ao final do dia, muitos deles gozam de conforto, estabilidade de vida e seguran\u00e7a. Inversamente, os ativistas das favelas agem contra experi\u00eancias concretas, urgentes, e que amea\u00e7am suas vidas de muitas maneiras.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, quando os moradores das favelas\u00a0reagem \u00e0 morte de suas crian\u00e7as, n\u00e3o o fazem somente por acreditar que o ocorrido \u00e9 inaceit\u00e1vel de acordo com valores humanos, mas tamb\u00e9m porque a pr\u00f3xima v\u00edtima pode ser eles, algum membro de suas fam\u00edlias ou um amigo. Podem ser os pr\u00f3ximos a serem removidos por qualquer tipo de desenvolvimento urbano que os pol\u00edticos decidirem promover. S\u00e3o eles que podem ser discriminados somente por serem moradores da favela.<\/p>\n<p>Meu ponto de vista ao destacar essas diferen\u00e7as irreconcili\u00e1veis entre ativistas da favela e de fora dela n\u00e3o \u00e9 afirmar que o ativismo de um dos grupos \u00e9 mais genu\u00edno que o do outro, mas sim indicar que existe uma diferen\u00e7a, que n\u00e3o \u00e9 intencional, mas estrutural e cultural.<\/p>\n<p>Engajar-se no midiativismo de favela representa tr\u00eas formas de atestar a cidadania: em rela\u00e7\u00e3o ao estado, \u00e0 sociedade e aos moradores das favelas em geral.<\/p>\n<p>Do estado, os ativistas das favelas exigem tratamento digno ao inv\u00e9s da repress\u00e3o policial e da desconsidera\u00e7\u00e3o geral pelo bem-estar dos moradores. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade, agem com o objetivo de denunciar e desconstruir os <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2buISj2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">preconceitos e discrimina\u00e7\u00f5es que sofrem<\/a>. Finalmente, atuam de forma a desafiar seus vizinhos para que todos se enxerguem como cidad\u00e3os. Alguns moradores <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2e2SW2d\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">compartilham os preconceitos<\/a> e desconfian\u00e7as contra outros moradores, que muitas pessoas atribuem, principalmente, \u00e0s popula\u00e7\u00f5es de fora da favela. Por esse motivo, mobilizar outros moradores pode ser desafiador. N\u00e3o \u00e9 raro que aqueles engajados politicamente expressem sua decep\u00e7\u00e3o com o pouco suporte que recebem dentro de suas pr\u00f3prias favelas.<\/p>\n<p>Apesar dos desafios, n\u00e3o h\u00e1 nada mais promissor em termos de a\u00e7\u00f5es dos cidad\u00e3os contra as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos e as desigualdades sociais no Brasil do que o midiativismo da juventude de baixa renda das periferias. Enquanto \u00e9 question\u00e1vel se o Rio ter\u00e1 os <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1rReNPT\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">legados sociais que prometeu em sua candidatura<\/a> para sediar as Olimp\u00edadas 2016, \u00e9 garantido que <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2aWODX2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o midiativismo que cresceu durante esse per\u00edodo levar\u00e1 a mudan\u00e7as importantes na atual desigual e injusta cidade do Rio de Janeiro<\/a>. A mais importante dessas mudan\u00e7as \u00e9 a atitude pol\u00edtica e a cultura do engajamento c\u00edvico, que j\u00e1 est\u00e3o se difundindo ao longo das favelas e de outras \u00e1reas de baixa renda da regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><em>*O Dr. Leonardo Cust\u00f3dio \u00e9 pesquisador na Universidade de Tampere, na Finl\u00e2ndia, e originalmente de Mag\u00e9, munic\u00edpio da regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro. Uma vers\u00e3o mais longa deste artigo est\u00e1 dispon\u00edvel em sua disserta\u00e7\u00e3o de doutorado intitulada \u201c<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2etuR54\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Midiativismo de favela: trajet\u00f3rias pol\u00edticas da juventude brasileira de baixa renda<\/a>\u201d (clique no link &#8220;Avaa tiedosto&#8221; para o download).<\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Click Here for English Moradores de favelas, sobretudo os mais jovens, v\u00eam usando as m\u00eddias digitais e impressas contra as viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos h\u00e1 algum tempo no Rio. 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