{"id":24492,"date":"2017-02-14T12:09:08","date_gmt":"2017-02-14T15:09:08","guid":{"rendered":"http:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=24492"},"modified":"2024-06-20T12:45:04","modified_gmt":"2024-06-20T15:45:04","slug":"a-economia-informal-no-rio-historias-da-pedra-do-sal-e-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=24492","title":{"rendered":"A Economia Informal no Rio: Hist\u00f3rias da Pedra do Sal e Al\u00e9m [REFER\u00caNCIA]"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2kdWHo2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Click Here for English<img decoding=\"async\" width=\"20\" height=\"20\" class=\"alignright wp-image-15790\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/EN-standard-e1439583104716.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<h3><em>&#8220;Uma promo\u00e7\u00e3o pra voc\u00ea: dez Reais, tr\u00eas Ant\u00e1rticas!&#8221; &#8220;Queijo Minas! Queijo Minas! Cinco Reais!&#8221;<\/em><\/h3>\n<p>Os gritos dos vendedores ecoam na noite abafada, sobressaindo-se ao burburinho das risadas dos foli\u00f5es e ao som das batidas das rodas de samba. \u00c0 luz baixa, o tr\u00e1fego de pedestres para por um momento quando uma mulher com roupas coloridas em pernas de pau abre caminho pela multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Para o visitante de primeira viagem, essa pode parecer uma ocasi\u00e3o especial, mas \u00e9 s\u00f3 mais uma noite de segunda-feira na\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2klorrA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pedra do Sal<\/a>\u00a0no bairro\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2klnZti\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gamboa<\/a>\u00a0na <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1cVBDvL\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Regi\u00e3o do Porto<\/a> do Rio, uma\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1QR5w2C\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">comunidade quilombola hist\u00f3rica<\/a>\u00a0conhecida por ser o ber\u00e7o do\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1wD7WsD\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">samba<\/a> e considerada hoje o local das festas semanais mais populares da cidade.<\/p>\n<p>A mundialmente reconhecida vida noturna no Rio, como tantos outros aspectos da cidade,\u00a0\u00e9 marcada pela informalidade e improvisa\u00e7\u00e3o, inclusive na Zona Sul. Depois que escurece, da Lapa at\u00e9 a G\u00e1vea, de Botafogo \u00e0 Pra\u00e7a S\u00e3o Salvador, espa\u00e7os oficiais ficam em segundo plano enquanto\u00a0um aglomerado de foli\u00f5es conforme a festa que\u00a0toma a rua, junto \u00e0 cacha\u00e7a, m\u00fasica e dan\u00e7as improvisadas.<\/p>\n<p>Espalhados pela cidade, por\u00e9m, h\u00e1 milhares de vendedores ambulantes, que passam despercebidos, mas abastecem a festa com caipirinhas, churrasco e \u00e1gua, mantendo-a viva e crescente at\u00e9 de manh\u00e3. Muitos desses trabalhadores moram em favelas da Zona Norte e Oeste, e na\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/NjmYR6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Baixada Fluminense<\/a>, e se deslocam por longas dist\u00e2ncias trabalhando fora do mercado formal, como empreendedores independentes, alguns por escolha pr\u00f3pria, outros por necessidade.<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o apenas uma pequena parte da grande &#8220;economia informal&#8221; do Rio, que, de acordo com algumas estimativas,\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2ktXbtw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">compreende cerca de 60% da for\u00e7a de trabalho<\/a>\u00a0nesta cidade de 6,5 milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<figure id=\"attachment_24502\" aria-describedby=\"caption-attachment-24502\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8173.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-24502 size-content\" title=\"Festa na rua: Milhares de pessoas v\u00e3o para a Lapa todos os fins de semana, onde as festas de rua geralmente v\u00e3o at\u00e9 o amanhecer. \u00c9 uma \u00e1rea tanto lucrativa quanto arriscada para os vendedores--a demanda \u00e9 alta, mas a a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia \u00e9 comum e imprevis\u00edvel.\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8173-620x264.jpg\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8173-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8173-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-24502\" class=\"wp-caption-text\"><strong><em>Festa na rua:<\/em>\u00a0<\/strong> Milhares de pessoas v\u00e3o para a Lapa todos os fins de semana, onde as festas de rua geralmente v\u00e3o at\u00e9 o amanhecer. \u00c9 uma \u00e1rea tanto lucrativa quanto arriscada para os vendedores&#8211;a demanda \u00e9 alta, mas a a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia \u00e9 comum e imprevis\u00edvel.<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>A &#8220;Economia Informal&#8221;: Uma breve introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p>Enquanto o nome e escopo s\u00e3o assuntos de debate entre economistas e soci\u00f3logos, a &#8220;economia informal&#8221;&#8211;tamb\u00e9m conhecida como &#8220;economia subterr\u00e2nea&#8221;, &#8220;Sistema D&#8221; ou &#8220;mercado cinza&#8221;&#8211;\u00e9, certamente, uma for\u00e7a na economia global. \u00c9 geralmente caracterizada por trabalhos sem registro e n\u00e3o regulamentados, desprotegidos pelos governos, frequentemente sem contribui\u00e7\u00e3o de impostos e com transa\u00e7\u00f5es, em sua maioria, em dinheiro. \u00c9 considerado um sistema espont\u00e2neo e improvisado por natureza, aparentemente ca\u00f3tico, mas muitas vezes mantido por redes complexas, baseadas em confian\u00e7a e <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1thwVvp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">auto-organiza\u00e7\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>Quando analisados como um todo,\u00a0os valores da economia informal equivalem a 10 trilh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, sendo a <a href=\"http:\/\/abr.ai\/2ku2ngG\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">segunda maior economia do mundo<\/a>, ficando atr\u00e1s dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>E est\u00e1 crescendo rapidamente.<\/p>\n<p>Em 2009, o\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2kwj1Mp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">n\u00famero de habitantes em cidades ultrapassou o n\u00famero de habitantes em \u00e1reas rurais<\/a>\u00a0pela primeira vez na hist\u00f3ria do mundo. Com\u00a0<a href=\"http:\/\/bbc.in\/2kuiYkx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">quase toda a popula\u00e7\u00e3o em crescimento do planeta concentrada em pa\u00edses em desenvolvimento<\/a>, dem\u00f3grafos e economistas estimam que nos pr\u00f3ximos 15 anos, cidades em economias emergentes\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2hlJ1Vy\">corresponder\u00e3o a 50% do crescimento econ\u00f4mico do mundo<\/a>.<\/p>\n<p>Em 2016, estimou-se que 2 bilh\u00f5es de pessoas trabalham sem registro em todo o mundo. Essa fus\u00e3o de mudan\u00e7as demogr\u00e1ficas, globaliza\u00e7\u00e3o e urbaniza\u00e7\u00e3o criou uma economia global e moderna em que, at\u00e9 2020, dois em cada tr\u00eas trabalhadores ter\u00e3o empregos informais, de acordo com a\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2hqWWgm\">Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE)<\/a>.<\/p>\n<p>No Rio, a semanal festa de rua na Pedra do Sal oferece um vislumbre da estrutura de um grande ecossistema econ\u00f4mico informal e uma brecha para as vidas e motiva\u00e7\u00f5es de diversos trabalhadores individuais.<\/p>\n<h3><strong><em>\u2018Caipirinha! Caipirinha!\u2019:\u00a0<\/em><\/strong><strong>Hist\u00f3rias da Pedra do Sal<\/strong><\/h3>\n<p>Apoiado em seu carrinho de supermercado abrigado de modo improvisado por seu guarda-chuva vermelho, um jovem fala sobre seu modelo de neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>&#8220;Eu compro as cervejas, por R$4,00 cada garrafa. Aqui, posso vender por R$6,00, at\u00e9 R$7,00 se estiver lotado&#8221;, comenta Gabriel. &#8220;Se tiver muita gente, ganho R$800,00 em vendas, o que d\u00e1 R$300,00 de lucro&#8221;.<\/p>\n<p>Gabriel cresceu e ainda mora em\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1xSlxft\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Duque de Caxias<\/a>, munic\u00edpio\u00a0vizinho do Rio de quase 1 milh\u00e3o de habitantes e que fica a uma hora ao norte do\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1qX7nZG\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Centro do Rio<\/a>. Devido \u00e0 atual crise econ\u00f4mica no pa\u00eds, oportunidades de empregos formais para jovens sem educa\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada s\u00e3o raras.<\/p>\n<p>Assim, ele improvisa.<\/p>\n<p>S\u00e3o duas viagens por semana a um\u00a0dep\u00f3sito, onde ele pode comprar caixas de Heineken, Brahma e Ant\u00e1rctica a pre\u00e7o de custo. Toda segunda-feira de manh\u00e3, ele vai at\u00e9 a casa de seu amigo Francis, no Morro da Provid\u00eancia, nas proximidades da Pedra do Sal, onde guarda seus produtos em seu carrinho.<\/p>\n<p>\u201cO objetivo \u00e9 simples. Tento vender tudo que tem no meu carrinho\u201d, ele conta. &#8220;\u00c0s vezes leva algumas horas, \u00e0s vezes a noite toda, mas quando eu vendo tudo, vou pra casa, porque significa que foi uma noite boa&#8221;.<\/p>\n<p>Francis, seu companheiro mais experiente, ri. \u201cVoc\u00ea \u00e9 pregui\u00e7oso, cara! Quando eu vendo tudo r\u00e1pido e ainda tem muito movimento, eu pego um t\u00e1xi para casa e pego mais cerveja para vender\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_24509\" aria-describedby=\"caption-attachment-24509\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8116-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-24509 size-medium\" title=\"Neg\u00f3cio de fam\u00edlia: Gabriel (\u00e0 esquerda) guarda seus produtos na garagem de Francis (\u00e0 direita) na favela da Provid\u00eancia. A esposa de Francis \u00e9 tia da noiva de Gabriel. Toda segunda, Gabriel vai at\u00e9 o Rio de trem e se encontra com Francis na Provid\u00eancia para ent\u00e3o fazer o trajeto de meia hora com seu carrinho at\u00e9 a Pedra do Sal.\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8116-1-620x620.jpg\" width=\"620\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8116-1-620x620.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8116-1-264x264.jpg 264w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8116-1-768x768.jpg 768w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8116-1-1024x1024.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-24509\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>Neg\u00f3cio de fam\u00edlia:<\/strong> Gabriel (\u00e0 esquerda) guarda seus produtos na garagem de Francis (\u00e0 direita) no Morro da Provid\u00eancia. A esposa de Francis \u00e9 tia da noiva de Gabriel. Toda segunda, Gabriel vai at\u00e9 o Rio de trem e se encontra com Francis na Provid\u00eancia para ent\u00e3o fazer o trajeto de meia hora com seu carrinho at\u00e9 a Pedra do Sal.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Para Gabriel e tantos outros jovens vendedores exclu\u00eddos da formalidade, a venda de cerveja se tornou um meio de vida em tempo integral. Eles buscam festas e eventos no Facebook e outras redes sociais e algumas vezes chegam horas antes para instalar seus carrinhos nos melhores lugares, com base na ordem de chegada.<\/p>\n<p>Mas para outros, o neg\u00f3cio informal na madrugada \u00e9 apenas uma forma de fazer as contas fecharem em uma economia cada vez mais opressiva para a classe trabalhadora. <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2k0hOtM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O sal\u00e1rio m\u00ednimo<\/a> no Brasil de R$5,85 por hora, junto a um crescente custo de vida, contribu\u00edram para o aumento do setor informal.<\/p>\n<p>Rafael, vendedor de meia idade na Pedra do Sal, tem um emprego formal como recepcionista e ajudante de cozinha em um restaurante italiano h\u00e1 22 anos. Ele ganha mais do que o sal\u00e1rio m\u00ednimo, mas mal chegando a R$1400,00 por m\u00eas. O sal\u00e1rio cobre as necessidades b\u00e1sicas da fam\u00edlia que mora em uma favela pr\u00f3xima, mas n\u00e3o deixa margem para investimentos, como a escola particular que ele gostaria que as duas filhas frequentassem, devido \u00e0 baixa qualidade da\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1acNApR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">rede p\u00fablica no Rio<\/a>.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes eu ganho mais dinheiro em poucas horas vendendo caipirinhas do que em uma semana no restaurante\u201d, ele comenta. \u201cClaro que prefiro n\u00e3o trabalhar at\u00e9 tarde da noite, mas vale a pena para poder ajudar minhas filhas\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_24511\" aria-describedby=\"caption-attachment-24511\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8163.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-24511 size-medium\" title=\"Rafael prepara uma Caipirinha. Ele complementa sua renda de trabalho, na economia formal, trabalhando na informalidade algumas noites por semana.\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8163-620x620.jpg\" width=\"620\" height=\"620\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8163-620x620.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8163-264x264.jpg 264w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8163-768x768.jpg 768w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8163-1024x1024.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-24511\" class=\"wp-caption-text\">Rafael prepara uma caipirinha. Ele complementa sua renda de trabalho formal trabalhando na economia formal algumas noites por semana.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Rafael n\u00e3o est\u00e1 sozinho. As margens de lucro no setor informal podem ser incrivelmente altas, algumas vezes tirando trabalhadores do setor formal completamente.<\/p>\n<p>Um vendedor de caipirinha chamado Manuel explica como ele compra garrafas inteiras de Cacha\u00e7a 51 por R$8,00 e vende caipirinhas por R$8,00\u00a0cada, sendo uma garrafa suficiente para fazer de oito a nove bebidas. Mesmo considerando o custo dos lim\u00f5es, do a\u00e7\u00facar e do transporte para comprar os ingredientes, ele ainda calcula sua margem de lucro acima de 600%.<\/p>\n<p>\u201cEu vendia cerveja, mas vale mais a pena fazer caipirinhas, porque a margem de lucro \u00e9 bem melhor.\u201d<\/p>\n<p>Essas margens n\u00e3o se restringem \u00e0s bebidas. Robert Neuwirth, jornalista americano cujo trabalho abrange mercados informais, descobriu que a m\u00e9dia de comerciantes de rua que vendem sapatos em Lagos, Nig\u00e9ria\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2iGJLG2\">tem margem de lucro, sobre um par de t\u00eanis, maior do que grandes lojas varejistas internacionais<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_24513\" aria-describedby=\"caption-attachment-24513\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8188-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-24513 size-content\" title=\"N\u00edveis de informalidade: Cantinho do Z\u00e9 funciona como um pop-up bar (bar sazonal) na garagem de uma fam\u00edlia que mora na rua principal na Pedra do Sal. \" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8188-1-620x264.jpg\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8188-1-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8188-1-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-24513\" class=\"wp-caption-text\"><strong><em>N\u00edveis de informalidade:<\/em><\/strong><em> Cantinho do Z\u00e9 funciona como um pop-up bar (bar sazonal) na garagem de uma fam\u00edlia que mora na rua principal na Pedra do Sal.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Informalidade estruturada<\/strong><\/h3>\n<p>Na Pedra do Sal, vendedores de fora da comunidade, como Gabriel e Rafael, operam nas margens de um ecossistema informal em camadas capaz de mover dezenas de milhares de d\u00f3lares em uma noite movimentada.<\/p>\n<p>No n\u00edvel mais formal, operam dois bares na rua principal, sendo que um deles tamb\u00e9m funciona como uma discoteca\u00a0em noites de festa. H\u00e1 tamb\u00e9m diversas casas que abrem suas garagens para vender bebidas e salgados, muitas vezes cobrando at\u00e9 para o uso de banheiros. No n\u00edvel das ruas, pontos de venda no cruzamento da rua central ficam reservados para vinte barracas vermelhas e brancas. Para ter uma\u00a0barraca\u00a0\u00e9 preciso morar na comunidade, em uma esp\u00e9cie de sistema de licenciamento, pagar R$50,00 para um homem que guarda as barracas e oferece servi\u00e7os de &#8220;seguran\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>Caso um vendedor de fora da comunidade, como Gabriel, tente colocar seu carrinho em um ponto reservado para\u00a0as barracas, este homem o expulsa. Ter uma\u00a0barraca\u00a0na rua principal tem seus benef\u00edcios: vendedores dizem que conseguem R$2000,00 em vendas, R$1200,00 em lucro por noite, geralmente divididos entre as duas ou tr\u00eas pessoas que trabalham na barraca. Mais afastado do cora\u00e7\u00e3o dos eventos, ficam os carrinhos e bicicletas de vendedores que n\u00e3o s\u00e3o moradores da comunidade. Eles operam perto das entradas e sa\u00eddas da rua.<\/p>\n<p>A economia de &#8220;servi\u00e7o de vendedor&#8221; cresceu em torno das vendas informais. Manuel conta que paga R$50,00 por semana a um homem dono de um dep\u00f3sito pr\u00f3ximo para tomar conta de seu carrinho e produtos em estoque, que s\u00e3o muito pesados para levar morro acima at\u00e9 sua casa na favela toda noite. A taxa cobre tanto o armazenamento quanto o seguro, j\u00e1 que este tipo de dep\u00f3sito tem sido\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/21MIkb5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">alvo de batidas policiais organizadas pela prefeitura<\/a>\u00a0nos \u00faltimos anos. Mas o acordo feito com Manuel garante que o dono do dep\u00f3sito ir\u00e1 compens\u00e1-lo caso suas mercadorias sejam confiscadas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_24516\" aria-describedby=\"caption-attachment-24516\" style=\"width: 630px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Screen-Shot-2016-12-21-at-5.04.45-PM.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-24516 size-full\" title=\"Pedra do Sal vista de cima. As barracas no cruzamento central s\u00e3o as mais desej\u00e1veis, e os vendedores devem pagar R$ 50,00 por noite de &quot;aluguel&quot;, para um homem que oferece a seguran\u00e7a do espa\u00e7o. Imagem de Luke Kon.\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Screen-Shot-2016-12-21-at-5.04.45-PM.png\" width=\"630\" height=\"684\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Screen-Shot-2016-12-21-at-5.04.45-PM.png 630w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Screen-Shot-2016-12-21-at-5.04.45-PM-243x264.png 243w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/Screen-Shot-2016-12-21-at-5.04.45-PM-571x620.png 571w\" sizes=\"(max-width: 630px) 100vw, 630px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-24516\" class=\"wp-caption-text\">Pedra do Sal vista de cima. As barracas no cruzamento central s\u00e3o as mais desej\u00e1veis, e os vendedores devem pagar R$50,00 por noite de aluguel, para um homem que oferece a seguran\u00e7a do espa\u00e7o. Imagem de Luke Kon<\/figcaption><\/figure>\n<h3><strong>Debate Pol\u00edtico:\u00a0A formaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o melhor caminho para todos?<\/strong><\/h3>\n<p>Os camel\u00f4s s\u00e3o os exemplos mais vis\u00edveis da economia informal, portanto n\u00e3o \u00e9 surpreendente ver que eles foram alvos da Prefeitura\u00a0para a &#8220;formaliza\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1ZvxO5p\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">limpeza<\/a>&#8221; de sua imagem (<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1FM0mN6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">veja: \u201c\u00c9 Para Ingl\u00eas Ver\u201d<\/a>) antes da Copa do Mundo e dos Jogos Ol\u00edmpicos. O Prefeito Eduardo Paes tratou isto como uma prioridade desde o in\u00edcio de seu mandato, aprovando uma\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/21MIkb5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">variedade de decretos<\/a>\u00a0que regulam o com\u00e9rcio de rua e registram os vendedores ambulantes.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o governo federal instituiu o programa <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2inkIuX\">Microempreendedor Individual (MEI)<\/a>, que pretende encorajar trabalhadores informais a se formalizarem, em um sistema livre de impostos&#8211;para come\u00e7ar a receber os benef\u00edcios do governo \u00e9 preciso pagar uma taxa mensal. Mundialmente elogiado por seu processo online de registro simples e n\u00e3o burocr\u00e1tico, a licen\u00e7a tamb\u00e9m oferece acesso ao sistema financeiro por sua facilidade em gerar uma conta em banco, cria\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cio online sem impostos e subs\u00eddio para m\u00e1quinas de cart\u00e3o de cr\u00e9dito para os vendedores de rua.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/bit.ly\/FavelaModelo\">Irenaldo da Silva<\/a>, presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Moradores de\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/Z0e2US\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pica-Pau<\/a>, uma favela na Zona Norte, onde a maioria dos moradores trabalha informalmente, acredita que o programa de licenciamento \u00e9 um passo na dire\u00e7\u00e3o certa: &#8220;Esta \u00e9 uma pol\u00edtica do governo que eu sou a favor. Encorajo todo mundo na comunidade que tem um neg\u00f3cio a se inscrever, porque traz muitos benef\u00edcios&#8221;.<\/p>\n<p>Um lojista chamado Roberto concorda. \u201cEu vendia roupas caras, mas por causa da crise as pessoas da comunidade n\u00e3o t\u00eam dinheiro para comprar roupas caras, ent\u00e3o eu mudei de neg\u00f3cio, agora vendo material escolar e de escrit\u00f3rio&#8221;, ele explica, mostrando sua nova loja cheia de cadernos e outros materiais escolares. \u201cMe inscrevi no MEI e por ter a licen\u00e7a, consegui descontos em produtos para come\u00e7ar esta loja&#8221;.<\/p>\n<p>Mas alguns propriet\u00e1rios nessa comunidade ainda n\u00e3o se convenceram. Um morador chamado Marcelo, que vende frango assado em frente \u00e0 sua casa reclama que paga R$45,00 mensais pela licen\u00e7a, mas n\u00e3o recebe benef\u00edcios. Irenaldo da Silva sugere\u00a0que alguns propriet\u00e1rios na comunidade talvez n\u00e3o entendam\u00a0completamente os benef\u00edcios que o programa oferece e, portanto, se ressentem.<\/p>\n<p>Falta de conhecimento sobre os benef\u00edcios do programa pode ser uma explica\u00e7\u00e3o para o percentual\u00a0relativamente baixo de ades\u00e3o.\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2iKKOZE\">Outra possibilidade<\/a>, sugerida pelo professor de estudos sociais e pol\u00edticos Adalberto Cardoso, \u00e9 que para pessoas que tiveram toda a sua sociabiliza\u00e7\u00e3o formada em meio \u00e0 informalidade&#8211;desde da casa, acesso \u00e0 eletricidade e seu relacionamento com o estado&#8211;tornar-se formalizado e, portanto, &#8216;vis\u00edvel&#8217; a um\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/29T9kjb\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">governo no qual n\u00e3o vale a pena confiar<\/a>,\u00a0\u00e9 visto como arriscado\u00a0e caro.<\/p>\n<p>Outras cr\u00edticas ao MEI afirmam que ele contribui para a\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2buISj2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">criminaliza\u00e7\u00e3o da pobreza<\/a>. No revitalizado bairro da Lapa, a prefeitura se uniu \u00e0 Ant\u00e1rctica para criar um &#8220;Mercado Noturno&#8221; de 82 boxes de vendas com o patroc\u00ednio da marca, reservando a exclusividade na comercializa\u00e7\u00e3o de cerveja. Vendedores atuando fora dos 82 boxes formalizados s\u00e3o submetidos a frequentes batidas policiais nas quais seus carrinhos e produtos s\u00e3o confiscados.<\/p>\n<p>V\u00e1rios vendedores por toda a cidade afirmam ter receio de trabalhar na regi\u00e3o, apesar das grandes multid\u00f5es e potencial de neg\u00f3cios.<\/p>\n<figure id=\"attachment_24521\" aria-describedby=\"caption-attachment-24521\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8194.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-24521 size-content\" title=\"Alguns vendedores adotaram a nova licen\u00e7a da prefeitura de &quot;microempreendedor&quot;, que, entre outros benef\u00edcios, permite que eles conquistem facilmente um terminal de vendas com cart\u00e3o de cr\u00e9dito. Outros reclamam que os custos da formaliza\u00e7\u00e3o superam os rendimentos.\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8194-620x264.jpg\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8194-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/IMG_8194-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-24521\" class=\"wp-caption-text\">Alguns vendedores adotaram a nova licen\u00e7a da prefeitura de &#8220;microempreendedor&#8221;, que, entre outros benef\u00edcios, permite que eles conquistem facilmente um terminal de vendas com cart\u00e3o de cr\u00e9dito. Outros reclamam que os custos da formaliza\u00e7\u00e3o superam os rendimentos.<\/figcaption><\/figure>\n<p>O relacionamento entre governos, empresas e economia informal ter\u00e1 um papel crucial na forma\u00e7\u00e3o da economia em cidades e pa\u00edses em desenvolvimento no s\u00e9culo 21. Em vez de submeter empreendedores informais \u00e0 condena\u00e7\u00e3o geral e formaliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, uma tentativa para melhor entender o valor da informalidade no trabalho \u00e9 um importante passo inicial para a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que guiar\u00e3o e sustentar\u00e3o a economia global moderna.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Click Here for English &#8220;Uma promo\u00e7\u00e3o pra voc\u00ea: dez Reais, tr\u00eas Ant\u00e1rticas!&#8221; &#8220;Queijo Minas! Queijo Minas! 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