{"id":26789,"date":"2017-07-16T23:45:49","date_gmt":"2017-07-17T02:45:49","guid":{"rendered":"http:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=26789"},"modified":"2017-09-20T13:30:01","modified_gmt":"2017-09-20T16:30:01","slug":"historia-do-projeto-rio-na-mare-parte-1-o-canto-da-sereia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=26789","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria do \u2018Projeto Rio\u2019 na Mar\u00e9 Parte 1: O Canto da Sereia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2tszBSE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Click Here for English<img decoding=\"async\" width=\"20\" height=\"20\" class=\"alignright wp-image-15790\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/EN-standard-e1439583104716.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Esta \u00e9 a primeira mat\u00e9ria de uma\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2upxtLo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">s\u00e9rie de tr\u00eas sobre a hist\u00f3ria do programa de renova\u00e7\u00e3o urbana Projeto Rio na Mar\u00e9<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na tarde do dia 10 de junho de 1981, Presidente Jo\u00e3o Baptista Figueiredo visitou o <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/ZGmfPw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Morro do Timbau<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, uma das comunidades que comp\u00f5em o\u00a0<\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/10BvARw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Complexo da Mar\u00e9<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> na <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/WximDf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Zona Norte<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> do Rio. Figueiredo, juntamente com o Governador Antonio Chagas Freitas e o Ministro do Interior, M\u00e1rio Andreazza, estiveram na Mar\u00e9 para conceder t\u00edtulos de propriedade para mais de trezentos moradores da \u00e1rea. As a\u00e7\u00f5es, anunciadas como o \u201cprimeiro resultado pr\u00e1tico\u201d do <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2snDTpr\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Projeto Rio<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">&#8212;<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">uma iniciativa governamental multin\u00edvel de infraestrutura urbana&#8211;tinham um ar festivo, com uma multid\u00e3o estimada de cinco mil pessoas entretidas por uma banda de fuzileiros navais e M\u00e1rio Andreazza proferindo um discurso triunfante antes da cerim\u00f4nia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apenas dois anos antes, ningu\u00e9m poderia prever que o <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2hk0rWe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Projeto Rio<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> resultaria na celebra\u00e7\u00e3o no Timbau. Em junho de 1979, o Minist\u00e9rio do Interior anunciou um enorme aterro a ser realizado pelo Departamento Nacional de Obras\u00a0de Saneamento (DNOS) que criaria mais de 2300 novos hectares de terras na borda noroeste da <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1i8xoT1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ba\u00eda de Guanabara<\/a>. Estas novas terras, supostamente suficientes para abrigar 1,2 milh\u00f5es de pessoas&#8211;um quarto da popula\u00e7\u00e3o do Rio na \u00e9poca&#8211;forneceriam espa\u00e7o para maior infraestrutura de transporte, ind\u00fastria e habita\u00e7\u00e3o na \u00e1rea valiosa e altamente vis\u00edvel entre o Centro do Rio, o aeroporto internacional e a universidade federal. O projeto, no entanto, dependia da <a href=\"http:\/\/bit.ly\/X51Qvb\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">erradica\u00e7\u00e3o<\/a> da Mar\u00e9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entretanto, 1979 foi um ano de mudan\u00e7a no governo e sua pol\u00edtica quanto \u00e0s favelas. Figueiredo tornou-se o \u00faltimo presidente da ditadura militar naquele ano e come\u00e7ou a conduzir o pa\u00eds atrav\u00e9s de um processo de abertura. A sua administra\u00e7\u00e3o passou uma controversa lei de anistia que se aplicava tanto aos inimigos quanto aos agentes do regime e legalizava a cria\u00e7\u00e3o de novos partidos pol\u00edticos. A pol\u00edtica antiga de remover os moradores das favelas para projetos habitacionais distantes que havia caracterizado a <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/1oR0Kkz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">abordagem da ditadura<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> para &#8220;resolver&#8221; o \u201cproblema\u201d das favelas mudou para uma pol\u00edtica a favor da\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1aRkVxr\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">urbaniza\u00e7\u00e3o<\/a><\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0da infraestrutura no local. O Projeto Rio serviria como modelo desta nova pol\u00edtica. Em junho de 1979, o projeto tornou-se parte de um programa nacional chamado Promorar, que agendou favelas em sete cidades de todo o Brasil para receber urbaniza\u00e7\u00e3o, inclusive o Projeto Rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os supostos benef\u00edcios do <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2s3sLid\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Projeto Rio<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, no entanto,<\/span> <a href=\"http:\/\/bit.ly\/VV4Ddn\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">tinham um lado sombrio<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Embora n\u00e3o fosse uma remo\u00e7\u00e3o em grande escala que levaria os moradores da Mar\u00e9 para projetos habitacionais na periferia do Rio, o objetivo do projeto era demolir as casas que os moradores haviam constru\u00eddo durante d\u00e9cadas, e construir conjuntos habitacionais no seu lugar. Na aus\u00eancia de t\u00edtulo de propriedade do terreno onde moravam, no entanto, as casas representavam toda uma vida de investimento e em nada se pareciam com os barracos esqu\u00e1lidos que os governos reportavam que fossem. Os conjuntos habitacionais do governo, mesmo no local, representavam um passo atr\u00e1s para muitos moradores da Mar\u00e9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O aterro proposto tamb\u00e9m ignorou <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2gP53mp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">o trabalho que milhares de moradores do complexo haviam executado durante d\u00e9cadas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> para aterrar, eles mesmos, o terreno pantanoso \u00e0 beira da Baia de Guanabara. Fam\u00edlias individuais executavam um processo em m\u00faltiplas etapas para finalmente construir uma casa de alvenaria sobre uma funda\u00e7\u00e3o s\u00f3lida, primeiro construindo uma casa sobre estacas conhecida como palafita sobre a \u00e1gua e depois preenchendo de terra sob a estrutura.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Palafita-1.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-26798 size-content\" title=\"Imagem de duas crian\u00e7as em p\u00e9 nas palafitas de Mar\u00e9, publicada no Ultima Hora em setembro de 1979.\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Palafita-1-620x264.png\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Embora estas palafitas representassem uma grande realiza\u00e7\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o pelos moradores da Mar\u00e9, as autoridades federais e municipais as viam como uma praga a ser removida. A ditadura investira em v\u00e1rios projetos de obras p\u00fablicas em larga escala no Rio, entre as quais a ponte Rio-Niter\u00f3i, o parque do Aterro do Flamengo logo ao sul do Centro e a inaugura\u00e7\u00e3o do sistema de metr\u00f4 do Rio em 1979. Mesmo nos \u00faltimos anos do regime militar, o governo n\u00e3o queria uma grande favela ocupando o local proeminente onde ficava a Mar\u00e9, ligando muitas \u00e1reas diferentes da cidade. A irregularidade da arquitetura da favela e principalmente as palafitas entravam em choque com a imagem moderna do Rio e do Brasil que as autoridades queriam projetar em 1979 e proporcionaram a motiva\u00e7\u00e3o para o plano de substituir a Mar\u00e9 por conjuntos habitacionais p\u00fablicos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Assim como o restante das favelas do Rio, a Mar\u00e9 foi sujeita a per\u00edodos de hostilidade entre longos per\u00edodos de neglig\u00eancia geral por parte do governo <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2jQgHwX\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por toda a sua hist\u00f3ria<\/a>. Apenas alguns anos ap\u00f3s os primeiros assentamentos, um regimento militar mudou-se para o Morro do Timbau em 1947, criando condi\u00e7\u00f5es repressivas para os moradores e exigindo \u201cimpostos de ocupa\u00e7\u00e3o\u201d dos moradores para evitar a remo\u00e7\u00e3o das suas casas. Na comunidade\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2erwhBx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Baixa do Sapateiro<\/a>, uma outra parte do complexo, nos anos cinquenta a pol\u00edcia demoliu casas e for\u00e7ou os ocupantes a restringirem a constru\u00e7\u00e3o das suas casas para o per\u00edodo da noite devido ao medo de chamar aten\u00e7\u00e3o. Estes abusos levaram \u00e0 funda\u00e7\u00e3o de algumas das <a href=\"http:\/\/bit.ly\/17504Fy\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">primeiras associa\u00e7\u00f5es de moradores de favelas na Mar\u00e9 nos anos cinquenta<\/a> no Rio.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando o Projeto amea\u00e7ou o complexo com erradica\u00e7\u00e3o, <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/1hbVyYn\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">a Mar\u00e9 valeu-se desta hist\u00f3ria de organiza\u00e7\u00e3o<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> para mobilizar-se rapidamente contra os planos do governo. Muitos dos membros da rec\u00e9m-formada Comiss\u00e3o de Defesa das Favelas da Mar\u00e9 (Codefam) j\u00e1 eram lideran\u00e7as em v\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es de moradores na favela. A Codefam promoveu uma s\u00e9rie de reuni\u00f5es com as autoridades municipais e estaduais, argumentando que, ao inv\u00e9s de erradicar a favela, o governo deveria dar o t\u00edtulo da sua terra aos moradores e encoraj\u00e1-los a construir suas pr\u00f3prias casas, ao inv\u00e9s de hipocritamente entrar para demolir e reconstruir toda a favela ap\u00f3s ignor\u00e1-la durante d\u00e9cadas. A imprensa aproveitou-se do abrandamento da censura com a abertura para <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/1DmUKgx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">ajudar a divulgar a oposi\u00e7\u00e3o ao Projeto Rio<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Em junho de 1979, por exemplo, o jornal <em>O Globo<\/em> sediou uma reuni\u00e3o com uma mesa redonda de alto n\u00edvel entre a Codefam, os representantes do DNOS e v\u00e1rias ag\u00eancias estaduais. Os moradores da favela aproveitaram a reuni\u00e3o cara a cara com os representantes do governo para criticar duramente o Projeto Rio, chamando-o de \u201ccanto da sereia\u201d, que pretendia somente destruir a favela e limpar a \u00e1rea para novos projetos de constru\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Mesa-redonda.png\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-26800 size-content\" title=\"Imagem da mesa redonda entre o Codefam e representantes do munic\u00edpio, estado e governo federal sobre Projeto Rio, julho de 1979.\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Mesa-redonda-620x264.png\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c0 medida que as semanas passaram, os moradores n\u00e3o diminu\u00edram a press\u00e3o sobre as autoridades. A esperan\u00e7a n\u00e3o estava completamente fora de quest\u00e3o, pois os moradores que viviam \u00e0 merc\u00ea das autoridades durante d\u00e9cadas sabiam como as mudan\u00e7as das mar\u00e9s pol\u00edticas ou as dificuldades significativas podiam repentinamente deter os planos de remo\u00e7\u00e3o complicados e caros.\u00a0A sua forte rea\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m reflete o fato de que, sob muitos aspectos, o Projeto Rio n\u00e3o era um tipo de amea\u00e7a inteiramente novo para a favela. A comunidade precisara solucionar os seus pr\u00f3prios problemas de infraestrutura e ao mesmo tempo se desviar da interfer\u00eancia do governo ao longo da sua hist\u00f3ria. De fato, naquele mesmo ano, em mar\u00e7o de 1979, os moradores organizaram-se para protestar contra a viol\u00eancia policial que estava agravando ainda mais as m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e saneamento no complexo. Ao se oporem ao Projeto Rio, moradores da Mar\u00e9 valeram-se das habilidades de mobiliza\u00e7\u00e3o que haviam desenvolvido atrav\u00e9s de uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia e usaram-nas na <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/1oR0Kkz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">atmosfera pol\u00edtica mais aberta de 1979<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, nem todos os moradores estavam igualmente comprometidos com a resist\u00eancia. Na mesa redonda, um dos representantes da Codefam mencionou que alguns moradores da Mar\u00e9 escolheriam mudar-se das palafitas para os conjuntos. Eram fam\u00edlias que n\u00e3o podiam arcar com as despesas de converter essas moradias em estruturas mais est\u00e1veis. Na mesa redonda, os representantes da Codefam reconheceram que as palafitas n\u00e3o possu\u00edam condi\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o permanente ideais, o que sem d\u00favida contribuiu para o sucesso do governo para erradicar aquelas partes da Mar\u00e9. No entanto, quanto \u00e0 quest\u00e3o principal de prevenir a erradica\u00e7\u00e3o em massa, e\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">obter o respeito b\u00e1sico e aten\u00e7\u00e3o do governo<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, todos os membros da Codefam mantiveram-se firmes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No m\u00eas seguinte, em julho, a Codefam convidou o arquiteto Oscar Niemeyer \u00e0 Mar\u00e9 para avaliar a qualidade urbana do complexo&#8211;Niemeyer havia voltado recentemente ao pa\u00eds gra\u00e7as \u00e0 lei de anistia de Figueiredo, pois suas convic\u00e7\u00f5es esquerdistas for\u00e7aram-no a passar a ditadura no ex\u00edlio na Fran\u00e7a. Ap\u00f3s ser apresentado a diferentes \u00e1reas do complexo pelos l\u00edderes da comunidade, Niemeyer declarou estar muito impressionado com a constru\u00e7\u00e3o da favela, mas negou-se a aventurar-se sobre as palafitas inst\u00e1veis. O arquiteto tamb\u00e9m chamou a sua visita \u00e0 Mar\u00e9 de parte de um \u201cmovimento de solidariedade com os favelados\u201d.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Niemeyer.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-26802 size-content\" title=\"O arquiteto Oscar Niemeyer e o presidente do Codefam, Manoelino da Silva, visitaram as palafitas em julho de 1979, publicado em O Globo.\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Niemeyer-594x264.png\" alt=\"\" width=\"594\" height=\"264\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O apoio de Niemeyer aos moradores da Mar\u00e9 pressionou o ponto mais fraco da justificativa do governo de erradicar o complexo. Durante a ditadura, <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/1S3J7yL\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">o regime justificara a remo\u00e7\u00e3o da favela citando preocupa\u00e7\u00f5es ambientais e arquitet\u00f4nicas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Ao promover estas narrativas de remo\u00e7\u00e3o, o governo recorreu aos <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/1JVdggj\"><span style=\"font-weight: 400;\">estere\u00f3tipos<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> paternalistas dos favelados como pessoas ignorantes e sem instru\u00e7\u00e3o, impr\u00f3prios para ter direito \u00e0 terra onde viviam. O elogio profissional de Niemeyer \u00e0 Mar\u00e9 desfez esta imagem e fortaleceu as afirma\u00e7\u00f5es dos favelados de que a chamada ajuda do governo era apenas interfer\u00eancia. Niemeyer tamb\u00e9m n\u00e3o foi o \u00fanico profissional a expressar d\u00favidas. Em junho, o <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2pznQIx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB)<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> criticou o plano do governo na imprensa, chamando-o de \u201cideia-Rio\u201d ao inv\u00e9s de um projeto e apontando que muitos dos seus objetivos estavam mal definidos. Em outubro, o Instituto divulgou um relat\u00f3rio com uma avalia\u00e7\u00e3o completa do projeto, que apresentou em maiores detalhes a sua cr\u00edtica ao aterro proposto e acusou o governo de planejar a especula\u00e7\u00e3o da terra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O apoio dos arquitetos, no entanto, apesar de valioso na sua firmeza e <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/Q3WT96\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">motivado tanto pela avalia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica como profissional<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, parece n\u00e3o ter sido o fator principal para prevenir a erradica\u00e7\u00e3o da favela. Alguns dias ap\u00f3s a visita de Niemeyer \u00e0 Mar\u00e9 e bem antes do IAB publicar a sua cr\u00edtica completa sobre o projeto, os jornais anunciaram que, ao contr\u00e1rio do que fora planejado inicialmente, o Projeto Rio n\u00e3o substituiria o complexo inteiro com conjuntos habitacionais do governo. Ao inv\u00e9s disso, o artigo exp\u00f4s qual viria a ser o novo plano para o aterro: as palafitas seriam convertidas em habita\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, enquanto que os moradores que haviam constru\u00eddo as suas pr\u00f3prias casas receberiam o t\u00edtulo do terreno onde as casas se encontravam.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Andreazza.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-26807 size-content\" title=\"O ministro do Interior, M\u00e1rio Andreazza, prometeu: &quot;Ningu\u00e9m sai&quot; da Mar\u00e9 durante uma visita em outubro de 1979, publicada no O Globo.\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/Andreazza-620x264.png\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esta mudan\u00e7a nos planos representou uma vit\u00f3ria enorme para os milhares de moradores da favela que poderiam permanecer nas suas casas. O comunicado nos jornais n\u00e3o deu cr\u00e9dito espec\u00edfico a qualquer grupo por influenciar a decis\u00e3o do governo, apesar de mencionar que Niemeyer formularia um plano para melhorar as palafitas. Este fato sugere que a sua visita \u00e0 Mar\u00e9 n\u00e3o passou despercebida e provavelmente pesou muito na decis\u00e3o de interromper a erradica\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o DNOS pode ter tido a coragem em parte de insistir em levar a cabo a convers\u00e3o das palafitas, porque Niemeyer as evitou visivelmente nervoso. Entretanto, parece improv\u00e1vel que o governo mudaria os seus planos dramaticamente quanto a um enorme projeto de infraestrutura no curto per\u00edodo entre a visita de Niemeyer e o an\u00fancio do abandono da erradica\u00e7\u00e3o. A <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/14fmEEU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">mobiliza\u00e7\u00e3o dos moradores incitou oposi\u00e7\u00e3o ao plano<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, criando complica\u00e7\u00f5es e enfraquecendo a determina\u00e7\u00e3o das autoridades at\u00e9 que os coment\u00e1rios p\u00fablicos de Niemeyer foram o golpe de miseric\u00f3rdia ao Projeto Rio no final de julho. <\/span><\/p>\n<p><em>Esta \u00e9 a primeira mat\u00e9ria de uma\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2upxtLo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">s\u00e9rie de tr\u00eas sobre a hist\u00f3ria do programa de renova\u00e7\u00e3o urbana Projeto Rio na Mar\u00e9<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pesquisa para esta mat\u00e9ria foi feita atrav\u00e9s do acervo existente no Arquivo Dona Orosina Vieira do Museu da Mar\u00e9. As fontes de jornais usados foram:\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Assessoria de Comunica\u00e7\u00e3o Social\u00a0<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(1980),\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Dia\u00a0<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(1979-1981),\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Fluminense\u00a0<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(1979),\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Globo\u00a0<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(1979-1980),\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Isto \u00c9\u00a0<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(1979),\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Jornal do Brasil\u00a0<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(1979-1981),\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Jornal do Com\u00e9rcio\u00a0<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(1981),\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Luta\u00a0<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(1979-1981),\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tribuna da Imprensa\u00a0<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(1979),\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00daltima Hora\u00a0<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(1979-1981),\u00a0todos reunidos no arquivo do Museu da Mar\u00e9.<\/span><\/p>\n<h4>Fontes:<\/h4>\n<ol>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Barbassa, Juliana.\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Dan\u00e7ando Com o Diabo na Cidade de Deus: <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Rio de Janeiro \u00e0 Beira<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> Nova Iorque: Simon &amp; Schuster, 2015.<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Freitas, J\u00e2nio de. \u201cImprensa e democracia.\u201d\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Folha de S. Paulo<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0(3 de junho de 2012).<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Guillermoprieto, Alma.\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Samba<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Nova Iorque: Vintage, 1990.<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Jacques, Paola Berenstein. \u201cCartografias da Mar\u00e9.\u201d Na <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Mar\u00e9<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">:<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> Vida Na Favela<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. \u00a0Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"font-weight: 400;\">McCann, Bryan.\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tempos Dif\u00edceis na Cidade Maravilhosa: Da Ditadura \u00e0 Democracia nas Favelas do Rio de Janeiro.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Durham and London: Duke University Press, 2014.<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Perlman, Janice E.\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Favela: Quatro D\u00e9cadas Vivendo \u00e0 Beira no Rio de Janeiro.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> Nova Iorque: Oxford University Press, 2010.<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\">Silva, Cl\u00e1udia Rose Ribeiro da. Mar\u00e9: A Inven\u00e7\u00e3o de um Bairro. Tese de Mestrado. Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas: Centro de Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea do Brasil, 2006.<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Williams, Daryl; Chazkel, Amy; Knauss, Paulo, editores.\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Leitor do Rio de Janeiro:\u00a0Hist\u00f3ria, Cultura, Pol\u00edtica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Duke University Press, 2016.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<h3><em>S\u00e9rie Completa:\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2upxtLo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Hist\u00f3ria do Projeto Rio na Mar\u00e9<\/a><\/em><\/h3>\n<p>Parte 1:\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2uyGr9P\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Canto da Sereia<\/a><br \/>\nParte 2:\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2eCsAW0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aliados Juntem-se \u00e0 Luta<\/a><br \/>\nParte 3: <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2y3zgoG\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Desagrega\u00e7\u00e3o do Governo<\/a><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Click Here for English Esta \u00e9 a primeira mat\u00e9ria de uma\u00a0s\u00e9rie de tr\u00eas sobre a hist\u00f3ria do programa de renova\u00e7\u00e3o urbana Projeto Rio na Mar\u00e9. 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