{"id":28435,"date":"2017-10-03T09:56:40","date_gmt":"2017-10-03T12:56:40","guid":{"rendered":"http:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=28435"},"modified":"2017-11-16T09:20:08","modified_gmt":"2017-11-16T12:20:08","slug":"indigenas-em-contexto-urbano-uma-entrevista-com-jose-urutau-guajajara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=28435","title":{"rendered":"Ind\u00edgenas em Contexto Urbano: Uma Entrevista com Jos\u00e9 Urutau Guajajara"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2yzHyUQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Click Here for English<img decoding=\"async\" width=\"20\" height=\"20\" class=\"alignright wp-image-15790\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/EN-standard-e1439583104716.jpg\" \/><\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2fgCcK5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jos\u00e9 Urutau Guajajara<\/a>\u00a0\u00e9 um dos grandes l\u00edderes no <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2heyUDT\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">movimento pelos direitos ind\u00edgenas<\/a> na cidade do Rio de Janeiro. Criado na Aldeia <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2wsX4Ff\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Guajajara<\/a> no estado de Maranh\u00e3o, ele veio para o Rio ainda jovem para estudar e trabalhar. Em 2006, ele participou do grupo de ind\u00edgenas de v\u00e1rias etnias que fundou a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/15BSkDc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aldeia Maracan\u00e3<\/a> no pr\u00e9dio abandonado do antigo Museu do \u00cdndio, ao lado do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1nid1lU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Est\u00e1dio do Maracan\u00e3<\/a>. Embora tenha sofrido m\u00faltiplas <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2maxqvU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">remo\u00e7\u00f5es<\/a> durante os megaeventos&#8211;<a href=\"http:\/\/bit.ly\/WfaiMR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Copa do Mundo<\/a> e\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/PkLXlQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jogos Ol\u00edmpicos<\/a>&#8211;a Aldeia Maracan\u00e3 ainda ocupa o pr\u00e9dio e est\u00e1 em processo de formar uma universidade ind\u00edgena no local. Jos\u00e9 \u00e9 pesquisador de lingu\u00edstica do Museu Nacional da UFRJ e professor de l\u00edngua e cultura ind\u00edgena na FAETEC-ISERJ. Ele mora no <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2ybuzby\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Centro de Etnoconhecimento Sociocultural e Ambiental Caiur\u00e9<\/a>\u00a0(CESAC) em <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2xza2yy\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tom\u00e1s Coelho<\/a>, um espa\u00e7o comunit\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena urbana. O RioOnWatch falou com Jos\u00e9 sobre sua vida, seu trabalho e o movimento ind\u00edgena no Rio.<\/em><\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Qual \u00e9 o seu nome completo? O que significa ser Urutau e usar um nome ind\u00edgena?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: Jos\u00e9 Urutau Guajajara. Urutau \u00e9 uma esp\u00e9cie de coruja, no Maranh\u00e3o tem muito coruja. Mas meu nome \u00e9 crist\u00e3o, \u00e9 da Igreja Cat\u00f3lica pr\u00f3xima de minha aldeia. Ent\u00e3o, colocaram o nome de Jos\u00e9 Wilhame Pinto Ara\u00fajo por causa da influ\u00eancia crist\u00e3. S\u00f3 a partir da <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2wsYkrU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conven\u00e7\u00e3o de 1988<\/a>, n\u00f3s ganhamos o direito de colocar o nosso nome <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2hx8gq5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ze&#8217;egt\u00e9<\/a>, o nome na [nossa] l\u00edngua.<\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Voc\u00ea sabe quantos falantes da l\u00edngua ze&#8217;egt\u00e9 existem?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: 30.000 no Maranh\u00e3o. Aqui no Rio s\u00e3o 150 Guajajaras, embora espalhados, mas falantes do ze&#8217;egt\u00e9. Tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o em grupo, n\u00e3o est\u00e3o em aldeias. Por isso, eu tenho necessidade de falar a l\u00edngua. Porque a \u00fanica forma da <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1piRAgk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">resist\u00eancia<\/a> de um povo e de uma na\u00e7\u00e3o \u00e9 sua l\u00edngua. Ent\u00e3o dizer que nos grandes centros [urbanos] tamb\u00e9m se pr\u00e1tica uma l\u00edngua ind\u00edgena \u00e9 muito importante.<\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Voc\u00ea pode me contar um pouco de sua hist\u00f3ria? Onde voc\u00ea nasceu e como foi a sua inf\u00e2ncia? Por que veio para o Rio de Janeiro?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: Eu nasci numa aldeia chamada Lagoa Comprida, no estado do Maranh\u00e3o pr\u00f3ximo da cidade de Jenipapo dos Vieiras. Eu vim para o Rio de Janeiro para estudar e tamb\u00e9m para trabalhar. Quando sa\u00ed da minha reserva eu tinha uns 13, 14 anos mais ou menos. Mas eu vim para a Barra do Corda [no Maranh\u00e3o] para estudar. A\u00ed, passei quase dez anos estudando na Barra do Corda. Eu tinha parentes no Rio de Janeiro e eles me convidaram para vir. Eu vim para o Rio de Janeiro e conclui os estudos. Fiquei mais de 15 anos sem estudar, depois resolvi continuar. Me ofereceram uma bolsa para estudar pedagogia na Universidade Est\u00e1cio de S\u00e1 (UNESA), e logo em seguida, anos 2000 por a\u00ed, me falaram de um curso de l\u00ednguas ind\u00edgenas na UFF em Niter\u00f3i. Eu fui estudar l\u00ednguas em um curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Logo em seguida, 2007 por a\u00ed, 2008, a UFRJ atrav\u00e9s do\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2hcoXKZ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social do Museu Nacional<\/a> (PPGAS) ofereceu um curso de l\u00ednguas ind\u00edgenas, [no campo de] lingu\u00edstica. Eu fui para l\u00e1. A\u00ed eu preparei meu projeto, que era [pesquisar a] estrutura de ze&#8217;egt\u00e9, l\u00edngua dos Teneteh\u00e1ra-Guajajara. E tive que me preparar para o mestrado. Eu fiz meu mestrado em l\u00ednguas ind\u00edgenas.<\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Como era sua pesquisa?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: Era um estudo comparativo [da] estrutura de ze&#8217;egt\u00e9. Fiz inclusive uma compara\u00e7\u00e3o com a l\u00edngua inglesa, que tem uma estrutura mais ou menos pr\u00f3xima, muitas vezes mesmo de tr\u00e1s para frente. E tamb\u00e9m com o portugu\u00eas. Eu tive que fazer essa an\u00e1lise comparativa da estrutura, da frase. Mas [minha pesquisa] d\u00e1 conta tamb\u00e9m das diferen\u00e7as fon\u00e9ticas dos pr\u00f3prios Guajajaras, as diferen\u00e7as dos Guajajaras de reservas distantes.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Jos\u00e9-Guajajara-Thesis.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-28479 size-content\" title=\"Tese de Jos\u00e9 Guajajara na UFRJ\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Jos\u00e9-Guajajara-Thesis-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Jos\u00e9-Guajajara-Thesis-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Jos\u00e9-Guajajara-Thesis-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Para mim, \u00e9 muito interessante a l\u00edngua porque \u00e9 um retorno para o meu povo, um retorno para o Brasil. S\u00e3o poucas pesquisas de l\u00ednguas [ind\u00edgenas] assim bem espec\u00edficas, comparativas \u00e0 estrutura de outras l\u00ednguas. \u00c9 muito fechada a quest\u00e3o das l\u00ednguas ind\u00edgenas, s\u00f3 h\u00e1 alguns te\u00f3ricos [que] estudam. Nem fala-se nas escolas, no ensino fundamental, m\u00e9dio e menos ainda na universidade. Depois de 517 anos, n\u00e3o tem no Brasil nenhuma tem\u00e1tica nas escolas da quest\u00e3o ind\u00edgena. Nos movimentos ind\u00edgenas estamos tentando implementar uma mat\u00e9ria.<\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Qual \u00e9 a sua percep\u00e7\u00e3o sobre os ind\u00edgenas que moram na cidade?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: Como a cultura dominante \u00e9 muito forte, eles mudam. A cabe\u00e7a muda e a pessoa muda. Os ind\u00edgenas n\u00e3o se auto afirmam, os ind\u00edgenas mesmos se negam. Ent\u00e3o, essa nega\u00e7\u00e3o \u00e9 dada pela influ\u00eancia da cultura dominante, em todas as formas: seja espiritual, seja \u00e9tnico, seja na l\u00edngua, seja por toda a cultura em geral. \u00c9 um apagamento psicol\u00f3gico, um apagamento total. \u00c9 muito dif\u00edcil principalmente no espa\u00e7o urbano e nas comunidades praticar a cultura. Tem que ter uma viv\u00eancia com outros parentes ou n\u00e3o pratica e \u00e9 engolido pela cultura dominante. Ent\u00e3o, n\u00e3o tem como negar, a dificuldade de estudo e trabalho \u00e9 muito grande para quem quer tentar entender como se deu esse apagamento&#8211;\u00e9 o meu caso. Mudando agora para meu doutorado em antropologia social na UFRJ&#8211;como entender essas quest\u00f5es no contexto urbano? Dar conta disso \u00e9 uma coisa que \u00e9 pouco falada, poucos te\u00f3ricos falam sobre isso. Os te\u00f3ricos querem pesquisar os ind\u00edgenas no Amazonas, no Mato Grosso. Por que pensam o ind\u00edgena na vis\u00e3o em que o ind\u00edgena est\u00e1 pelado com arco e flecha? \u00c9 aquela imagem do ind\u00edgena selvagem, que n\u00e3o fala portugu\u00eas direito, s\u00f3 fala sua l\u00edngua materna. Ent\u00e3o, todos os estudos est\u00e3o baseados nesse ind\u00edgena virtual, ind\u00edgena fict\u00edcio, os povos ind\u00edgenas de 1500 e antes de 1500. Ent\u00e3o falar de uma quest\u00e3o cruel, real, atual&#8230; isso, sim, \u00e9 um desafio.<\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Voc\u00ea falou sobre a planta\u00e7\u00e3o de hortas e plantas medicinais como um projeto da Aldeia e do CESAC. O que significa isso para o povo e a cultura ind\u00edgena?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: N\u00f3s estamos muito ligados a quest\u00e3o da fitoterapia, do rem\u00e9dio medicinal, das plantas medicinais, <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2sOLMp0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">plant\u00e1-las em quintal, em aldeia<\/a>. Somos m\u00e9dicos por excel\u00eancia. Se est\u00e1 com dor de barriga, diarreia: use o broto da goiaba, \u00e9 muito bom. Coma goiaba, coma o broto, coma a folha que passa r\u00e1pido.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Jos\u00e9-Guajajara-at-CESAC.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-28480 size-content\" title=\"Jos\u00e9 Guajajara no CESAC \" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Jos\u00e9-Guajajara-at-CESAC-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Jos\u00e9-Guajajara-at-CESAC-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Jos\u00e9-Guajajara-at-CESAC-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: \u00c9 uma maneira de preservar os saberes ind\u00edgenas?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: Os saberes tradicionais est\u00e3o tamb\u00e9m no sangue do pr\u00f3prio brasileiro em si. Enquanto h\u00e1 a ind\u00fastria farmac\u00eautica completamente contr\u00e1ria a isso, tentando roubar toda a sabedoria tradicional. Bem recentemente, essa comunidade [Parque Nova Marac\u00e1] n\u00e3o tinha farm\u00e1cia nenhuma. A comunidade inteira n\u00e3o tinha. A farm\u00e1cia era aqui, todo tipo de planta\u00e7\u00e3o, todo tipo de erva medicinal estava aqui. Na Aldeia Maracan\u00e3 n\u00e3o \u00e9 diferente, \u00e9 a mesma coisa. S\u00e3o plantas caseiras, s\u00e3o plantas de toda uma vida, e vamos vivendo disso, aprendendo e praticando.<\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: De onde surgiu a ideia de criar o CESAC? Como foi o processo da sua cria\u00e7\u00e3o?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: Eu fui convidado a participar de um grande encontro que teve chamado\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2fh9Y1P\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Eco-92<\/a>. Aconteceu aqui no Rio de Janeiro no Aterro do Flamengo. Vieram ind\u00edgenas do mundo inteiro. Ent\u00e3o vinte anos depois de ter participado daquele encontro&#8211;nesse intervalo de vinte anos aconteceu muita coisa no movimento ind\u00edgena&#8211;n\u00f3s passamos a entender o movimento ind\u00edgena no centro urbano, do Rio de Janeiro por exemplo. A\u00ed n\u00f3s vimos a necessidade de um espa\u00e7o. N\u00f3s assumimos [o pr\u00e9dio] que era uma antiga esta\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica. Eu vim morar [no CESAC], aqui na favela.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Centro-de-Etnoconhecimento-Sociocultural-e-Ambiental-Cauire-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-28481 size-content\" title=\"Centro de Etnoconhecimento S\u00f3cio Ambiental Cauire\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Centro-de-Etnoconhecimento-Sociocultural-e-Ambiental-Cauire-1-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Centro-de-Etnoconhecimento-Sociocultural-e-Ambiental-Cauire-1-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Centro-de-Etnoconhecimento-Sociocultural-e-Ambiental-Cauire-1-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, em Tom\u00e1s Coelho n\u00f3s j\u00e1 vamos para vinte anos mais ou menos aqui, nessa organiza\u00e7\u00e3o que \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Mas cedemos para outros grupos que s\u00e3o grupos de rua, grupos de circo. Espa\u00e7o de multiuso. Tamb\u00e9m [o usamos] para nos juntar porque \u00e9 um espa\u00e7o muito grande. Sempre \u00e9 um espa\u00e7o para receber parentes, ind\u00edgenas do Brasil inteiro, ind\u00edgenas que vem de passagem e n\u00e3o t\u00eam onde ficar, n\u00e3o t\u00eam como pagar por estadia.<\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Voc\u00ea \u00e9 conhecido como l\u00edder da Aldeia Maracan\u00e3, que \u00e9 outro espa\u00e7o ind\u00edgena na cidade. Como era o processo de recuperar esse lugar e criar uma aldeia urbana?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: Depois [de fundar o CESAC], come\u00e7amos a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/15BSkDc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aldeia Maracan\u00e3<\/a>. Em 2006, 20 de outubro, assumimos o antigo Museu do \u00cdndio no Maracan\u00e3, por estar abandonado de certa forma. Mas era ligado ao Minist\u00e9rio de Agricultura. Ent\u00e3o n\u00f3s <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2aWzg2g\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">assumimos para revitalizar<\/a> aquele velho im\u00f3vel. S\u00f3 que era um espa\u00e7o que a gente n\u00e3o sabia o tamanho do problema e o tamanho da complexidade. S\u00f3 que n\u00f3s entramos, buscamos a hist\u00f3ria que j\u00e1 foi quase que apagada completamente. O pr\u00f3prio governo nacional apagou, trabalhou para apagar a hist\u00f3ria e a mem\u00f3ria. E n\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos o tamanho da invisibilidade que o estado causou naquele pequeno microterrit\u00f3rio. E ent\u00e3o, n\u00f3s refizemos um pouco a mem\u00f3ria daquele espa\u00e7o.<\/p>\n<p>N\u00f3s chegamos a 150 anos de hist\u00f3ria daquele espa\u00e7o, desde o imp\u00e9rio. [O pr\u00e9dio] era do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2f7FVpx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Duque de Saxe<\/a>. Ele fez uma doa\u00e7\u00e3o para D. Pedro II e ele n\u00e3o cita ind\u00edgenas [na doa\u00e7\u00e3o], mas ele cita que era para pesquisa de sementes naturais e os seus domesticadores. Desde este momento ele estava falando [sobre quem era o] domesticador do milho&#8211;n\u00f3s ind\u00edgenas domesticamos o milho. Tamb\u00e9m naquele espa\u00e7o foi criada a primeira faculdade nacional de agricultura. Os ind\u00edgenas e toda a quest\u00e3o ind\u00edgena ficaram aos cuidados do Minist\u00e9rio de Agricultura. Ali tamb\u00e9m funcionou a primeira sede do SPI, <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2ffBigL\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio<\/a>, em 1910 com <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2xuefpo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marechal Rondon<\/a>.<\/p>\n<h3><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Aldeia-Marcan\u00e3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-28482 size-content\" title=\"A Aldeia Maracan\u00e3\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Aldeia-Marcan\u00e3-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Aldeia-Marcan\u00e3-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Aldeia-Marcan\u00e3-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/h3>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Ent\u00e3o, o lugar tem poder simb\u00f3lico para os povos ind\u00edgenas?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: Simb\u00f3lico mais tamb\u00e9m por escrito, tamb\u00e9m em documentos. A quest\u00e3o do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2wu4dVZ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">genoc\u00eddio ind\u00edgena<\/a> tamb\u00e9m est\u00e1 ligada aquele espa\u00e7o. As expedi\u00e7\u00f5es principais sa\u00edram dali, porque ali era uma sede nacional porque estava na capital do Brasil. A Expedi\u00e7\u00e3o do Tel\u00e9grafo, a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2hfvNf4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Expedi\u00e7\u00e3o Xingu<\/a> saiu dali e mataram muitos ind\u00edgenas. O <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2wDU4Rr\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Relat\u00f3rio Figueiredo<\/a> d\u00e1 conta da d\u00e9cada de 60. E o Presidente M\u00e9dici veio dizer uma frase, ele disse que ia doar \u201c<a href=\"http:\/\/bit.ly\/2wEicne\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">terras sem homens para homens sem terras<\/a>\u201d. Naquele momento esse presidente diz que n\u00f3s ind\u00edgenas, n\u00e3o somos nem seres humanos. Ent\u00e3o \u00e9 um grande simbolismo, mas n\u00e3o s\u00f3 simb\u00f3lico, tamb\u00e9m \u00e9 o real.<\/p>\n<p>No dia 19 de abril de 1953, no dia do \u00edndio, <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2xM7Kio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Darcy Ribeiro<\/a> fundou o Museu Nacional do \u00cdndio. E depois disso veio muita den\u00fancia sobre o SPI: de exterm\u00ednio, de morte e de assassinato de ind\u00edgenas. E com isso o estado nacional extingue o SPI em 1967 e criou apenas uma funda\u00e7\u00e3o, a\u00a0<a href=\"http:\/\/bit.ly\/1qcRRXq\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio<\/a> [FUNAI]. Tamb\u00e9m naquele espa\u00e7o.<\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Quantas fam\u00edlias t\u00eam l\u00e1 na Aldeia Maracan\u00e3 atualmente?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: Agora s\u00f3 t\u00eam tr\u00eas fam\u00edlias, porque elas dependem da venda do artesanato e todo mundo saiu para vender e elas n\u00e3o vendem naquele espa\u00e7o. A \u00fanica forma de sobreviv\u00eancia agora \u00e9 a venda do artesanato.<\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o atual em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 remo\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o? Eles est\u00e3o em perigo de serem removidos outra vez?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: Em 2007, [aconteceu] um grande problema, os Jogos Pan-Americanos entraram para nos tirar [do espa\u00e7o], depois [em] 2012 nos preparativos da Copa do Mundo tamb\u00e9m tentaram nos tirar, e realmente em 2013 nos tiraram pela primeira vez. Fomos presos, fui preso. Voltamos de novo, [nos] tiraram de novo, nos prenderam de novo. Agora t\u00eam [remo\u00e7\u00f5es], hoje mesmo est\u00e1vamos falando sobre isso. E v\u00e3o nos tirar de novo, fazem isso por que eles <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2xRFkj2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">est\u00e3o a servi\u00e7o do capital<\/a>, do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1XkzywK\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">grande capital<\/a>.<\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Para voc\u00ea, qual \u00e9 o poder da ocupa\u00e7\u00e3o e da resist\u00eancia ao estar l\u00e1 em oposi\u00e7\u00e3o do governo?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: \u00c9 grandioso porque tudo que se vende aqui \u00e9 o futebol e carnaval. E essa press\u00e3o est\u00e1 ali a vinte metros, dez metros. Agora mesmo teve jogo do Flamengo, a tormenta nossa ali s\u00e3o os <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1lgN2VO\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">torcedores do Maracan\u00e3<\/a>. Todos os torcedores bebem cerveja, mas n\u00e3o tem nenhum banheiro l\u00e1 fora. Agora, eles v\u00e3o onde? Na Aldeia Maracan\u00e3. Isso \u00e9 cruel porque nos coloca diretamente em conflito com os torcedores b\u00eabados que querem matar ind\u00edgena, exterminar completamente. Ent\u00e3o \u00e9 muito cruel, mas estamos resistindo l\u00e1.<\/p>\n<p>A cultura dominante, que s\u00f3 quer vender o futebol, carnaval e apagar as culturas tradicionais, nos tirou tudo, concretou, asfaltou tudo. Todas as \u00e1rvores, plantas medicinais, acabaram com tudo, derrubaram mesmo. Reclamamos no IBAMA, fomos at\u00e9 o governo federal, denunciamos. Que nada, den\u00fancia de \u00cdndio. Tira, corta, tira as \u00e1rvores, corta tudo, asfalta, concreta, bota estacionamento.<\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Voc\u00ea tem esperan\u00e7a no futuro?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: N\u00e3o vou desfrutar, vou me apagar qualquer hora dessa a\u00ed. Mas as minhas filhas n\u00e3o. Ao contr\u00e1rio de outros parentes que muitas vezes est\u00e3o sozinhos, est\u00e3o na luta, mas est\u00e3o sozinhos e n\u00e3o deixam ra\u00edzes. Aqui n\u00e3o, n\u00e3o v\u00e3o apagar minhas filhas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/17101260_10210416595945395_441458359_o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-content wp-image-28483\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/17101260_10210416595945395_441458359_o-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/17101260_10210416595945395_441458359_o-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/17101260_10210416595945395_441458359_o-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<h3><em>RioOnWatch<\/em>: Como \u00e9 que uma pessoa pode colaborar com o movimento ind\u00edgena no Rio?<\/h3>\n<p><strong>Jos\u00e9<\/strong>: Primeiro indo, primeiro vendo. Se voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea, se voc\u00ea n\u00e3o chega ali [na Aldeia Maracan\u00e3], n\u00e3o tem como respeitar. Dif\u00edcil \u00e9 entender a resist\u00eancia. Dizem que est\u00e1 tudo bem, tudo tranquilo, mas estamos ali, estamos dizendo, &#8216;n\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1&#8217;. Cultura brasileira n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 futebol, carnaval. Tem a cultura tradicional.<\/p>\n<p>Forma de ajudar? Primeira, denunciar. Por que s\u00f3 a partir do momento que foi denunciado l\u00e1 fora que o governo nacional deu um certo freio, tentou respeitar um pouco. Mas enquanto n\u00e3o h\u00e1 den\u00fancia, enquanto n\u00e3o houver uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, fica sempre atropelado. \u00c9 cruel que n\u00e3o tenha \u00e1gua, nem eletricidade [na Aldeia Maracan\u00e3], mas tem uma for\u00e7a de vontade de manter a resist\u00eancia ali, aut\u00f4noma completamente do estado nacional. Voc\u00ea n\u00e3o compra resist\u00eancia. N\u00f3s j\u00e1 come\u00e7amos entender isso, \u00e9 dif\u00edcil, \u00e9 muito dif\u00edcil entender a resist\u00eancia. Mas estamos ali, estamos ali exatamente para dizer isso, para fazer essa for\u00e7a contr\u00e1ria.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Click Here for English Jos\u00e9 Urutau Guajajara\u00a0\u00e9 um dos grandes l\u00edderes no movimento pelos direitos ind\u00edgenas na cidade do Rio de Janeiro. 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