{"id":37187,"date":"2018-10-26T10:16:12","date_gmt":"2018-10-26T13:16:12","guid":{"rendered":"http:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=37187"},"modified":"2018-10-29T16:41:02","modified_gmt":"2018-10-29T19:41:02","slug":"como-a-onda-de-extrema-direita-de-bolsonaro-virou-popular-e-o-que-precisa-ser-feito-para-desembaraca-la","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=37187","title":{"rendered":"Como a Onda de Extrema-direita no Brasil se Tornou &#8216;Popular&#8217; e o Que Pode Ser Feito para Desembara\u00e7\u00e1-la"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right; padding-left: 30px;\"><em><strong><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2P5HiIP\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Click Here for English<\/a><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2QzhW33\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" width=\"20\" height=\"20\" class=\"alignright wp-image-15790\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/EN-standard-e1439583104716.jpg\" \/><\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Leia a mat\u00e9ria original por <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2Jfqee1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Matthew Aaron Richmond<\/span><\/a> em ingl\u00eas no site Jacobin <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2P5HiIP\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>. O RioOnWatch traduz mat\u00e9rias do ingl\u00eas para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar temas ou an\u00e1lises cobertos fora do pa\u00eds que nem sempre s\u00e3o cobertos no Brasil. <\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O n\u00facleo de apoio de <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2q9148e\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jair Bolsonaro<\/a> est\u00e1 <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2yziShl\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">entre os brasileiros ricos<\/a>. Mas a figura da <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2z4nFXJ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">extrema-direita<\/a> n\u00e3o teria chegado t\u00e3o longe se n\u00e3o tivesse tamb\u00e9m estabelecido uma base formid\u00e1vel <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2ym5qwk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">entre os pobres<\/a>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 Dia de Elei\u00e7\u00e3o na periferia de Santo Andr\u00e9, um munic\u00edpio da regi\u00e3o industrial do ABC, na Grande <a href=\"http:\/\/bit.ly\/1ublIlF\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">S\u00e3o Paulo<\/a>. Um homem com seus cinquenta anos vende caldo de cana, de sua van. Enquanto ele empurra a cana atrav\u00e9s do triturador, dois homens aproximadamente da mesma idade, sentados em cadeiras brancas de pl\u00e1stico, conversam com entusiasmo. O t\u00f3pico \u00e9 o mesmo que est\u00e1 na boca de todos neste dia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Eu n\u00e3o gosto do Bolsonaro, mas pelo menos ele vai dar uma surra nos bandidos&#8221;, diz um dos homens. &#8220;E dar um fim ao Bolsa Fam\u00edlia&#8221;, lan\u00e7a o outro, referindo-se ao famoso programa de transfer\u00eancia monet\u00e1ria condicionada do Brasil. &#8220;Eles n\u00e3o querem trabalhar, e se voc\u00ea tira o dinheiro eles apenas saem e roubam&#8221;. O primeiro homem aponta seus dedos como se segurasse um par de rev\u00f3lveres, um gesto popularizado pelo presidenci\u00e1vel favorito da extrema-direita, Jair Bolsonaro, cuja plataforma extrema de lei e ordem pode ser descrita com precis\u00e3o como exterminadora. Seu amigo imita o ato. Todos os tr\u00eas homens riem. Ainda gargalhando, o vendedor de bebidas entrega meu caldo de cana e o troco: &#8220;Obrigado, tenha um bom dia!&#8221;<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/bolsonaro1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-37174 size-content\" title=\"Em Goi\u00e2nia (GO), Bolsonaro incentiva crian\u00e7a a fazer gesto de arma com as m\u00e3os (Reprodu\u00e7\u00e3o\/Reprodu\u00e7\u00e3o G1)\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/bolsonaro1-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Naquela noite, enquanto chegavam os resultados, ficava claro que o <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2pFsMt8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Partido Social Liberal<\/a> (PSL), de Bolsonaro, havia sido o grande vencedor. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">O pr\u00f3prio Bolsonaro <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2ArRR0U\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">conquistou 46% dos votos<\/a>, comparado a 29% para o candidato do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2OcbEWR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Partido dos Trabalhadores<\/a> (PT), <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2CEGqUV\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Fernando Haddad<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Foi uma vit\u00f3ria esmagadora, mas n\u00e3o com a maioria absoluta que ele precisava a fim de evitar um segundo turno, que ocorrer\u00e1 em 28 de outubro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto isso, seu partido\u2014no qual ele se filiou h\u00e1 seis meses e que previamente tinha apenas uma cadeira no Congresso\u2014cresceu a ponto de se tornar o segundo maior partido, com <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2z3BOV1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">52 representantes na C\u00e2mara dos Deputados<\/a>, apenas atr\u00e1s dos <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2PS314d\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">56 do PT<\/a>. Com ganhos para uma safra de outros partidos conservadores simp\u00e1ticos \u00e0 agenda de Bolsonaro, ele parece estar bem colocado o suficiente para conseguir passar a maior parte de seu programa legislativo. Candidatos da direita alinhados, ou pelo menos flertando com Bolsonaro, aparentemente ser\u00e3o eleitos para governadores em diversos estados, incluindo os tr\u00eas mais populosos do pa\u00eds\u2014S\u00e3o Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar de machucado, o PT sobreviveu, com seus votos permanecendo especialmente entre os <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2yZwBNY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mais pobres das regi\u00f5es Norte e Nordeste<\/a>. Juntamente com outros partidos de esquerda e centro-esquerda, eles reunir\u00e3o cerca de um quinto das cadeiras no Congresso. De fato, o PT de alguma forma melhorou em rela\u00e7\u00e3o a performance desastrosa nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2016, que se seguiram pouco depois do impeachment da presidenta <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2ORKgBB\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dilma Rousseff<\/a>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em contraste, os tradicionais partidos de direita, o <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2E5Bdb6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Partido Social Democrata Brasileiro<\/a> (PSDB) e o <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2C2HEcq\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro<\/a> (MDB), foram dizimados, reduzidos ao segundo escal\u00e3o de partidos medianos. Estes foram os dois partidos mais instrumentais no impeachment de Rousseff, mas posteriormente se envolveram em seus pr\u00f3prios esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o e foram contaminados pela imensa impopularidade do governo sucessor de <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2SiPKmU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Michel Temer<\/a>.<\/span><\/p>\n<p>Para resumir, a esquerda est\u00e1 atr\u00e1s e a direita tradicional colapsou, sendo substitu\u00edda por um novo, antidemocr\u00e1tico, polo da extrema-direita que orbita ao redor de Bolsonaro. A pol\u00edtica brasileira foi virada do avesso.<\/p>\n<h3><strong>Uma Nova Coaliz\u00e3o que Atravessa Classes<\/strong><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As raz\u00f5es para essa onda reacion\u00e1ria s\u00e3o diversas. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Como foi poss\u00edvel notar <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2z2oBMk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">em outros lugares<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">,<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> desde a vit\u00f3ria estreita do PT contra o PSDB em 2014 tem havido uma radicaliza\u00e7\u00e3o predominantemente entre as classes m\u00e9dia a alta em dire\u00e7\u00e3o a solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Esta era a parte da popula\u00e7\u00e3o que dominava os protestos nas ruas clamando pelo impeachment de Dilma em 2016, mas que se desiludiu com a direita tradicional. Nem todos t\u00eam prefer\u00eancias autorit\u00e1rias, obviamente, e muitos prefeririam que o PSDB continuasse a representar uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Muitos n\u00e3o gostam de Bolsonaro, mas seu <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">antipetismo<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> virulento os leva em dire\u00e7\u00e3o a enxergarem o candidato como um mal menor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mesmo que o apoio deste grupo a Bolsonaro seja primariamente ideol\u00f3gico ou t\u00e1tico, essa popula\u00e7\u00e3o gravita ao redor de um conjunto de atitudes que caem amplamente sob a bandeira da &#8220;<\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2Pr3GwI\"><span style=\"font-weight: 400;\">Nova Direita<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;\u2014 uma corrente que emergiu no Brasil em meados dos anos 2000 em rea\u00e7\u00e3o ao PT. O discurso da direita se alternava desde posi\u00e7\u00f5es tradicionalmente elitistas e autorit\u00e1rias a uma \u00eanfase \u00e0 &#8220;meritocracia&#8221;.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">A esquerda est\u00e1 atr\u00e1s e a direita tradicional colapsou, sendo substitu\u00edda por um novo, antidemocr\u00e1tico, polo da extrema-direita que orbita ao redor de Bolsonaro.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/bolsobrasilacima-e1539113656857.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-37176 size-content\" title=\"Slogan de Bolsonaro, &quot;Brasil acima de tudo, Deus acima de todos&quot;, faz refer\u00eancia ao da Alemanha nazista (Reprodu\u00e7\u00e3o- Revista Forum)\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/bolsobrasilacima-e1539113656857-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A oposi\u00e7\u00e3o a programas de bem-estar como o Bolsa Fam\u00edlia e a\u00e7\u00f5es afirmativas em universidades p\u00fablicas se tornaram gritos de guerra chave. Apesar da ret\u00f3rica, contudo, essas atitudes, em seu \u00e2mago, foram motivadas por sentimentos profundamente antidemocr\u00e1ticos\u2014um desejo de bloquear o acesso dos pobres ascendentes, frequentemente &#8220;n\u00e3o brancos&#8221;, aos espa\u00e7os da elite. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">(Um exemplo infame disso foi a <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2EK5xIB\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">reclama\u00e7\u00e3o<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> da colunista Danuza Le\u00e3o de que n\u00e3o tinha mais gra\u00e7a viajar para o exterior, agora que ela poderia esbarrar com seu porteiro em Nova York).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A divis\u00e3o demogr\u00e1fica das inten\u00e7\u00f5es de voto no primeiro turno, reveladas pelas pesquisas do <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2RgxedE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">Datafolha<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0alguns dias antes das elei\u00e7\u00f5es, mostrava que 51% dos eleitores que recebem entre cinco e dez sal\u00e1rios m\u00ednimos (R$4.685 e R$9.370 por m\u00eas) e 44% daqueles que recebem mais de dez sal\u00e1rios m\u00ednimos (R$9.370) planejavam votar em Bolsonaro, comparado a 12% e 15%, respectivamente, em <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2PljFvX\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Haddad<\/a>.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Enquanto isso, 42% daqueles que se autodefinem como brancos planejavam votar em Bolsonaro, comparado a 15% em Haddad. (Dito isto, <a href=\"https:\/\/tgam.ca\/2ssJyOc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a rela\u00e7\u00e3o entre ra\u00e7a e classe no Brasil \u00e9 complexa<\/a> e deve ser tratada com cuidado. Enquanto as classes m\u00e9dia e alta s\u00e3o predominantemente brancas, os brancos n\u00e3o s\u00e3o, em sua maioria, bem de vida. Al\u00e9m disso, a autoclassifica\u00e7\u00e3o por ra\u00e7a varia de maneira significante de acordo com o n\u00edvel de sal\u00e1rio e com a regi\u00e3o do pa\u00eds.)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Contudo, a crescente radicaliza\u00e7\u00e3o e o autoritarismo das tradicionais classes m\u00e9dia e alta do Brasil s\u00e3o insuficientes para explicar a &#8220;onda Bolsonaro&#8221;. Afinal, como o PSDB descobriu depois de quatro perdas eleitorais para o PT entre 2002 e 2014, esse grupo perfaz um pouco mais de um quarto da popula\u00e7\u00e3o e \u00e9 insuficiente para garantir a vit\u00f3ria da presid\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na verdade, a vit\u00f3ria de Bolsonaro representa a constru\u00e7\u00e3o de uma nova coaliz\u00e3o eleitoral que apresenta mais apelo entre diversas classes do que o PSDB conseguiu atingir desde o fim dos anos 1990. Os mesmos dados de pesquisa revelaram que, entre eleitores que recebem de dois a cinco sal\u00e1rios m\u00ednimos (R$1.874-R$4.685), 39% planejavam votar em Bolsonaro, comparado a 18% em Haddad. Mesmo entre aqueles que recebem menos de dois sal\u00e1rios m\u00ednimos (R$1.874), 21% favoreceram Bolsonaro em compara\u00e7\u00e3o a 28% que prefere Haddad. Os dados sobre ra\u00e7a contam uma hist\u00f3ria similar. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Entre aqueles que se autodefinem como &#8220;pardos&#8221;, 30% preferiram Bolsonaro, comparados a 23% referente a Haddad, enquanto entre &#8220;pretos&#8221; (negros), os n\u00fameros foram de 18% contra 23%.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O motivo pelo qual brasileiros ricos e brancos se deslocaram da direita tradicional para a extrema \u00e9 relativamente claro. Uma quest\u00e3o mais interessante, e importante, \u00e9 a de por que um n\u00famero significativo de brasileiros com rendas mais baixas e n\u00e3o brancos est\u00e3o agora expressando apoio a Bolsonaro. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Como Bolsonaro conseguiu reunir as elites desejantes do bloqueio \u00e0 mobilidade social das classes populares, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">e<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> uma propor\u00e7\u00e3o significativa justamente <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2ym5qwk\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">daqueles que essa elite tenta bloquear<\/a>, na mesma coaliz\u00e3o eleitoral?<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> E por quanto tempo isso pode durar?<\/span><\/p>\n<h3><strong>Entendendo o &#8220;Bolsonarismo Popular&#8221;<\/strong><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como ocorre com qualquer tend\u00eancia envolvendo grandes n\u00fameros de pessoas, n\u00e3o ha uma explica\u00e7\u00e3o \u00fanica para o &#8220;bolsonarismo popular&#8221;\u2014ou seja,<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> o apelo de Bolsonaro para pessoas de baixa renda. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Alguns, gra\u00e7as aos ataques implac\u00e1veis da m\u00eddia contra o PT, desenvolveram atitudes antipetistas similares \u00e0quelas das elites, reclamando sobre tudo, da corrup\u00e7\u00e3o do PT aos altos impostos, at\u00e9 a injusti\u00e7a das cotas raciais em universidades.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Contudo, pela minha experi\u00eancia, estas atitudes s\u00e3o relativamente raras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu n\u00e3o vejo uma grande onda de &#8220;liberalismo popular&#8221; [&#8220;liberal&#8221;, no contexto brasileiro, referindo-se a uma atitude mais conservadora e amig\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o ao mercado] nas periferias, ao contr\u00e1rio das reivindica\u00e7\u00f5es de um controverso <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2Pre4US\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">relat\u00f3rio<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> publicado ap\u00f3s a derrota do PT nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2016.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> A propaganda boca-a-boca que muitas pessoas de baixa renda podem fazer para a meritocracia e a autossufici\u00eancia \u00e9 ultrapassada pelo desejo por melhores servi\u00e7os p\u00fablicos e pela indigna\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos privil\u00e9gios da elite. Se voc\u00ea passar da superf\u00edcie, ver\u00e1 que a maioria deseja mais igualdade e que os ricos paguem mais para que isso aconte\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outros optaram por Bolsonaro <a href=\"https:\/\/glo.bo\/2yuH5pd\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">por motivos religiosos<\/a>. Igrejas neopentecostais cresceram imensamente nos \u00faltimos anos, particularmente nas periferias urbanas pobres. Em elei\u00e7\u00f5es recentes, essas igrejas alavancaram sua influ\u00eancia entre os congregantes para alcan\u00e7ar n\u00fameros crescentes de deputados conservadores eleitos para o congresso, <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2yuPtVC\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">inchando a bancada evang\u00e9lica<\/a> e dando poder a sua agenda pol\u00edtica altamente reacion\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Evang\u00e9licos-Congresso.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-37180 size-content\" title=\"Parlamentares evang\u00e9licos em momento de ora\u00e7\u00e3o no Congresso Nacional. (Foto Saulo Cruz: Ag\u00eancia C\u00e2mara)\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/Evang\u00e9licos-Congresso-620x264.jpeg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">Como Bolsonaro conseguiu reunir as elites desejantes do bloqueio \u00e0 mobilidade social das classes populares, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">e<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> uma propor\u00e7\u00e3o significativa justamente daqueles que essa elite tenta bloquear, na mesma coaliz\u00e3o eleitoral? E por quanto tempo isso pode durar?<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">At\u00e9 este momento, o movimento n\u00e3o havia exercido um impacto percept\u00edvel sobre a presid\u00eancia, porque os votos presidenciais s\u00e3o menos sujeitos \u00e0 influ\u00eancia clientelista e tamb\u00e9m porque um grande conservador assumidamente religioso n\u00e3o havia, at\u00e9 ent\u00e3o, contestado a presid\u00eancia. Nesse sentido, Bolsonaro\u2014ele mesmo um evang\u00e9lico que se op\u00f5e de forma virulenta aos direitos de mulheres e LGBTs\u2014representa a &#8220;sa\u00edda do arm\u00e1rio&#8221; desse crescente e silencioso movimento. O fato de que muitos cat\u00f3licos apoiam Bolsonaro por raz\u00f5es semelhantes, enquanto isso, sugere que ele representa uma faixa mais ampla, em vez de uma estreita corrente sect\u00e1ria, de opini\u00f5es religiosas conservadoras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 verdade que igrejas neopentecostais t\u00eam crescido precipitadamente entre os pobres e t\u00eam constru\u00eddo uma m\u00e1quina clientelista poderosa. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a agenda de Bolsonaro serve a um conservadorismo popular mais amplo entre grupos de baixa renda. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Como mostrado em uma <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2Q17m5m\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">pesquisa Datafolha<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> no ano passado sobre atitudes sociais dos brasileiros, os mais pobres t\u00eam mais tend\u00eancia a acreditar que aqueles que creem em Deus s\u00e3o pessoas melhores, que o aborto \u00e9 um crime que deve ser punido, e que as drogas devem ser proibidas.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Eles respondem bem \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de Bolsonaro de estar resistindo \u00e0 &#8220;desconstru\u00e7\u00e3o da heteronormatividade&#8221; e a propostas de interna\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de viciados em drogas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Contudo, isso n\u00e3o significa que o apoio a Bolsonaro represente um conservadorismo doutrin\u00e1rio religioso entre os pobres. Enquanto alguns auto-identificados como evang\u00e9licos absorvem inteiramente a doutrina, a maioria n\u00e3o o faz. De fato, essas igrejas lutam para controlar seus membros que se movimentam entre diferentes denomina\u00e7\u00f5es e misturam diferentes cren\u00e7as espirituais. At\u00e9 enquanto as igrejas evang\u00e9licas crescem massivamente, o sincretismo brasileiro permanece vivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, uma atitude &#8220;viva e deixe viver&#8221; ainda tende a reinar entre os pobres em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maioria das quest\u00f5es. Enquanto muitos brasileiros de baixa renda pensam em termos de pap\u00e9is de g\u00eanero tradicionais e est\u00e3o desconfort\u00e1veis a ideia do casamento entre pessoas do mesmo g\u00eanero, a maioria acredita que a homossexualidade deve ser aceita pela sociedade e que as mulheres deveriam poder se vestir da maneira como quisessem sem ter de temer o estupro. Pelo menos podemos afirmar que uma campanha centrada em quest\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade n\u00e3o iria, por si s\u00f3, persuadir grandes n\u00fameros a votarem na extrema-direita.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o o que iria? Eu colocaria duas raz\u00f5es principais. A primeira \u00e9 um simples efeito de encargo em um momento de crise severa. O PT esteve no poder por treze anos e, assim, acertada ou erroneamente, foram os primeiros a serem culpados quando a economia e os esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o massiva detonaram simultaneamente. O MDB, com o suporte do PSDB, assumiu o poder por dois anos e as coisas n\u00e3o melhoraram, ent\u00e3o ele tamb\u00e9m se tornou contaminado pelas crises.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Contudo, \u00e9 preciso observar que, entre os pobres, a insatisfa\u00e7\u00e3o com esses partidos principais tinha uma l\u00f3gica bem diferente da raiva altamente partid\u00e1ria dos antipetistas ricos. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> A maioria dos eleitores mais pobres nunca acreditou que o PT fosse mais corrupto ou incompetente do que outros partidos e, apesar de n\u00e3o terem se oposto ativamente a ele, n\u00e3o ficaram especialmente entusiasmados pelo impeachment de Dilma. Seu cinismo foi logo justificado pelo desastre absoluto do governo de Temer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essas atitudes revelam a resigna\u00e7\u00e3o difundida entre os pobres em rela\u00e7\u00e3o a pol\u00edticos em geral, de quem eles aprenderam a esperar pouco. No entanto, muitos tamb\u00e9m expressam um apoio residual ao PT e especialmente a Lula, que permaneceu como o presidente que tirou muitos da pobreza e colocou jovens nas universidades. Claro que tamb\u00e9m h\u00e1 um desapontamento amplo com o partido, n\u00e3o apenas por falhar em manter o progresso quando a crise chegou, mas tamb\u00e9m por sua falha a longo prazo em melhorar servi\u00e7os p\u00fablicos centrais, como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Contudo, poucas pessoas pobres enxergaram a direita tradicional como oferecedora de uma alternativa significativa. Eu diria que sua raiva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise econ\u00f4mica e aos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o s\u00e3o motivadas fundamentalmente por um desejo por maior redistribui\u00e7\u00e3o, enquanto a elite incorpora indigna\u00e7\u00e3o acerca da pouca redistribui\u00e7\u00e3o que j\u00e1 ocorria sob o governo do PT. De qualquer forma, com os principais partidos todos implicados em crises, ambos os grupos se tornaram receptivos a qualquer candidato que fosse suficientemente distante dos governantes em quest\u00e3o para se parecer como algu\u00e9m de fora e que tivesse tanta raiva quanto eles mesmos tinham.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas de todos os autointitulados &#8220;outsiders&#8221; que foram elogiados como poss\u00edveis salvadores da p\u00e1tria nos \u00faltimos dos anos\u2014incluindo empres\u00e1rios libert\u00e1rios, ju\u00edzes em cruzadas, pastores fundamentalistas, celebridades e ex-jogadores de futebol\u2014por que foi Bolsonaro quem foi capaz de capitalizar o t\u00edtulo? <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Isso me leva ao segundo direcionador chave do Bolsonarismo popular, o qual acredito ser decisivo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Diferentemente de candidatos que est\u00e3o preocupados, em primeiro lugar, com quest\u00f5es que, para a maioria dos pobres, s\u00e3o preocupa\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias (se n\u00e3o amplamente irrelevantes), como educa\u00e7\u00e3o sexual, o livre mercado ou os pormenores de investiga\u00e7\u00f5es sobre corrup\u00e7\u00e3o, a campanha de Bolsonaro \u00e9 retoricamente centralizada em um problema que \u00e9 uma prioridade genu\u00edna para aqueles que vivem nas favelas e nas periferias de cidades de grande e m\u00e9dio porte ao redor do pa\u00eds: a seguran\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nacionalmente, os n\u00edveis de <a href=\"https:\/\/glo.bo\/2OPPI84\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">crimes violentos t\u00eam aumentado constantemente<\/a> por anos a fio. Em S\u00e3o Paulo e no Rio de Janeiro, a despeito de picos recentes, a tend\u00eancia a longo prazo tem sido de <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2z1BSVp\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">queda na viol\u00eancia<\/a>. No entanto, isso se deve, em grande parte, \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o do controle territorial por fac\u00e7\u00f5es criminosas. Em muitas outras cidades, a viol\u00eancia explodiu. O Estado tem sido incapaz de tratar do problema.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pacifica\u00e7\u00e3o das favelas no Rio, inicialmente, foi popular e bem-sucedida em reduzir a viol\u00eancia na cidade, mas se provou muito cara para ser sustent\u00e1vel, principalmente quando o estado faliu. Uma pol\u00edtica de encarceramento em massa em S\u00e3o Paulo apenas <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2EhmU1T\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fortaleceu e expandiu o alcance da poderosa fac\u00e7\u00e3o criminosa<\/a> Primeiro Comando da Capital (<a href=\"http:\/\/bit.ly\/29xnyGC\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">PCC<\/a>) a partir das pris\u00f5es estaduais. Em outros lugares, a pol\u00edcia parece ser incapaz de prevenir atividades criminosas de grupos armados, sendo com frequ\u00eancia exposta como c\u00famplice destes.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/encarceramento-em-massa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-37190 size-content\" title=\"Celas lotadas em pris\u00e3o brasileira. (Fonte: Brasil 247)\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/encarceramento-em-massa-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto isso, atores criminosos de baixo n\u00edvel e aqueles confundidos com estes criminosos (adolescentes negros e pardos, em sua esmagadora maioria) morrem em n\u00fameros extraordinariamente altos. Com a pol\u00edcia incapaz de prevenir a criminalidade cotidiana dentro dos limites legais, policiais fora de servi\u00e7o e mil\u00edcias vigilantes locais crescentemente <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2yzA32y\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">buscam por vingan\u00e7a fora da lei<\/a>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A verdade desconfort\u00e1vel \u00e9 que uma guerra paramilitar oculta e difusa contra criminosos prolet\u00e1rios j\u00e1 \u00e9 uma realidade no Brasil. O que \u00e9 ainda mais desconfort\u00e1vel \u00e9 que essa guerra \u00e9 apoiada por um grande n\u00famero de moradores de favelas e periferias. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto partidos da esquerda e da direita tradicional condenam publicamente tais atos, Bolsonaro <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2Plsq9y\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">os defende<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. De fato, ao afrouxar meios de controle de armas de fogo e remover restri\u00e7\u00f5es legais \u00e0 viol\u00eancia policial, ele deseja tornar essa guerra, que era secreta, agora em guerra oficial e intensific\u00e1-la. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Muitos nas periferias de cidades como Santo Andr\u00e9 n\u00e3o gostam de Bolsonaro, mas acreditam que &#8220;pelo menos ele vai dar uma surra nos bandidos&#8221;.<\/span><\/p>\n<h3><strong>Das Cinzas<\/strong><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A onda Bolsonaro \u00e9 um momento dram\u00e1tico na pol\u00edtica brasileira, mas que vem se construindo a partir de diferentes dire\u00e7\u00f5es por algum tempo. Tem havido uma radicaliza\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dia e alta reacion\u00e1rias, determinadas a destruir o PT e seu projeto de redistribui\u00e7\u00e3o moderada por quaisquer meios necess\u00e1rios. Tem havido o crescimento gradual e silencioso do conservadorismo religioso radical, amplificado pela influ\u00eancia desproporcional da bancada evang\u00e9lica no Congresso quando comparada \u00e0s suas ra\u00edzes menos firmes na sociedade.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">A verdade desconfort\u00e1vel \u00e9 que uma guerra paramilitar oculta e difusa contra criminosos prolet\u00e1rios j\u00e1 \u00e9 uma realidade no Brasil. O que \u00e9 ainda mais desconfort\u00e1vel \u00e9 que essa guerra \u00e9 apoiada por um grande n\u00famero de moradores de favelas e periferias.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E h\u00e1 o crescimento do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2PW17zF\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">populismo penal<\/a>, que se encontra difundido atrav\u00e9s de todo o espectro social, mas que constitui um elemento particularmente significativo do apelo de Bolsonaro entre as classes populares. Bolsonaro re\u00fane essas tend\u00eancias diferentes de um modo que a direita tradicional nunca foi capaz de fazer. Derrotar essa onda depende da identifica\u00e7\u00e3o dos contornos dessa nova coaliz\u00e3o eleitoral e da explora\u00e7\u00e3o de suas contradi\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>A mais \u00f3bvia delas \u00e9 que os eleitores de Bolsonaro que s\u00e3o parte da elite querem voltar no tempo para a era pr\u00e9-PT, quando n\u00e3o tinham de compartilhar universidades e aeroportos com aqueles que eles ainda acreditam ser seus inferiores. Eles desejam diminui\u00e7\u00e3o de impostos para eles mesmos e querem ver a previd\u00eancia social e os servi\u00e7os p\u00fablicos (que eles n\u00e3o usam mesmo) estripados. Em todas essas frentes, os apoiadores de Bolsonaro de baixa renda querem justamente o oposto.<\/p>\n<p>O prov\u00e1vel ministro da fazenda em um eventual governo de Bolsonaro, <a href=\"https:\/\/abr.ai\/2JhqWHY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Paulo Guedes<\/a>, disc\u00edpulo da Universidade de Chicago, ir\u00e1 pressionar para dar aos bolsonaristas da elite tudo aquilo que querem. \u00c9 essencial que isso seja amplamente compreendido como o resultado pretendido de uma agenda econ\u00f4mica elitista. At\u00e9 agora, Bolsonaro tem cultivado uma ambiguidade em rela\u00e7\u00e3o a esse tema, dando margem \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de que ele pode ser um nacionalista amigo dos trabalhadores nos moldes de Get\u00falio Vargas. Em vez disso, ele precisa ser entendido mais como um antipopulista nos moldes de Augusto Pinochet.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/paulo-guedes.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-37191 size-content\" title=\"Paulo Guedes, assessor econ\u00f4mico da campanha de Bolsonaro\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/paulo-guedes-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/paulo-guedes-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/paulo-guedes-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um segundo desafio, mais complicado, \u00e9 encorajar a ruptura entre o fundamentalismo da bancada religiosa e dos l\u00edderes das igrejas, e a relativa modera\u00e7\u00e3o de seus membros. Isso ser\u00e1 mais efetivo se partir de dentro das pr\u00f3prias igrejas. Essa atitude deveria ser enquadrada nos preceitos da toler\u00e2ncia e da n\u00e3o-viol\u00eancia\u2014enfatizando o quanto Bolsonaro deixa de aderir aos princ\u00edpios de sua pr\u00f3pria f\u00e9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Este \u00e9, claro, um dif\u00edcil ato de equil\u00edbrio para as for\u00e7as de esquerda que querem aprofundar os direitos de mulheres e LGBTs. N\u00e3o h\u00e1 um m\u00e9todo m\u00e1gico para resolver essas tens\u00f5es, mas \u00e9 essencial que as linhas do di\u00e1logo permane\u00e7am abertas. Um ponto de partida seria simplesmente reconhecer que em favelas e periferias as igrejas evang\u00e9licas s\u00e3o eixos sociais, em que as pessoas fazem amizades e participam de atividades culturais, pelo menos tanto quanto s\u00e3o locais de adora\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o caso\u00a0especialmente para mulheres negras e pardas pobres que, em geral, s\u00e3o privadas de espa\u00e7os de socializa\u00e7\u00e3o, muitas das quais podem tamb\u00e9m ser m\u00e3es de jovens vitimados pela viol\u00eancia do tr\u00e1fico e da pol\u00edcia. Essas mulheres podem se tornar aliadas cruciais para resistir ao bolsonarismo, mas n\u00f3s precisamos aceitar que elas o far\u00e3o em seus pr\u00f3prios termos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um desafio final se relaciona \u00e0 guerra aos crimes de baixo escal\u00e3o que Bolsonaro pretende desencadear por todo o Brasil urbano. Conforme <\/span><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2yyK8wK\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">outros<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">apontaram<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">,<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 dif\u00edcil acreditar que isso n\u00e3o ir\u00e1 produzir muita viol\u00eancia em um futuro pr\u00f3ximo, direcionada de forma esmagadora contra homens pobres, de pele escura, das favelas e periferias.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Isso n\u00e3o vai reduzir a criminalidade, obviamente, que \u00e9 alimentada por lucrativos mercados ilegais coordenados por poderosas redes que operam atrav\u00e9s e al\u00e9m do territ\u00f3rio nacional.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sabendo disso, a esquerda deveria continuar, sem remorsos, a focar em abordagens de redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. No rastro da pacifica\u00e7\u00e3o da favela e de outros experimentos malsucedidos com o &#8220;policiamento de proximidade&#8221;, n\u00e3o est\u00e1 claro nem mesmo com o que isso deva se parecer, e novas ideias precisam ser exploradas. Enquanto isso, a constru\u00e7\u00e3o lenta em dire\u00e7\u00e3o aos objetivos de longo prazo de desmilitariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia, redu\u00e7\u00e3o da desigualdade e investimento na educa\u00e7\u00e3o e na juventude devem continuar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Contudo, isso n\u00e3o ir\u00e1 satisfazer aqueles que desejam seguran\u00e7a <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">agora<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Talvez o melhor que a esquerda possa fazer no presente seja reconhecer que, para os pobres, isso representa mais do que uma mera sede de sangue. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Preocupa\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 inseguran\u00e7a s\u00e3o leg\u00edtimas, mesmo que a cren\u00e7a em matar e aprisionar um n\u00famero ainda maior de bandidos n\u00e3o seja.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Ser\u00e1 uma batalha penosa, que ir\u00e1 de encontro tanto ao senso comum quanto ao estado de esp\u00edrito predominante vingativo. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Mas os apoiadores de baixa renda de Bolsonaro precisam ser persuadidos de que as mil\u00edcias policiais e os vigias, que eles acreditam poder oferecer maior &#8220;seguran\u00e7a&#8221;, apenas se tornar\u00e3o, eles mesmos, bandidos.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-weight: 400;\">Matthew Aaron Richmond \u00e9 professor visitante no Centro da Am\u00e9rica Latina e Caribe, da London School of Economics, e pesquisador associado do Centro de Estudos da Metr\u00f3pole, na Universidade de S\u00e3o Paulo. Ele escreve sobre desigualdade urbana, moradia, seguran\u00e7a e pol\u00edtica, com foco em favelas e periferias urbanas brasileiras.<\/span><\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Click Here for English Leia a mat\u00e9ria original por Matthew Aaron Richmond em ingl\u00eas no site Jacobin aqui. 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