{"id":40940,"date":"2019-06-05T14:43:28","date_gmt":"2019-06-05T17:43:28","guid":{"rendered":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=40940"},"modified":"2024-06-20T13:46:12","modified_gmt":"2024-06-20T16:46:12","slug":"familias-da-chacara-do-algodao-no-valorizado-horto-lutam-pelo-futuro-por-lembrar-de-seu-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=40940","title":{"rendered":"Fam\u00edlias da Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o no Horto Lutam pelo Futuro Lembrando do Seu Passado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2JYcLL0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Click Here for English<\/a><a href=\"http:\/\/bit.ly\/2JYcLL0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img decoding=\"async\" width=\"20\" height=\"20\" class=\"alignright wp-image-15790\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/EN-standard-e1439583104716.jpg\" \/><\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Originalmente constru\u00edda como uma vila oper\u00e1ria para os trabalhadores da f\u00e1brica local, de tecido, a Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o \u00e9 uma pequena comunidade com uma longa hist\u00f3ria entrela\u00e7ada com a ascens\u00e3o da ind\u00fastria t\u00eaxtil brasileira, localizada no bairro do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2w37GqM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Horto<\/a>, na <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2WL6FUi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Zona Sul<\/a> do Rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os primeiros moinhos de algod\u00e3o foram inaugurados no Brasil por volta de 1845, <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2HSCOAS\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">e cresceram rapidamente<\/a>, o que mais tarde transformou-se na ind\u00fastria t\u00eaxtil, um dos bens mais importantes do pa\u00eds at\u00e9 o s\u00e9culo XX. Segundo o <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2Z7pb6Q\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">historiador Stanley J. Stein<\/a>, a ind\u00fastria t\u00eaxtil de algod\u00e3o foi a grande respons\u00e1vel por alavancar a industrializa\u00e7\u00e3o do Brasil e de aliviar a depend\u00eancia do pa\u00eds da exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria bruta. A f\u00e1brica de tecidos <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2OJsFYY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Companhia Am\u00e9rica Fabril<\/a> foi uma das principais protagonistas desta hist\u00f3ria. Em 1915, talvez no auge de suas opera\u00e7\u00f5es, a empresa <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2HdaI33\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">empregava 3.100 trabalhadores, tinha 2.170 teares e 85.205 fusos<\/a> em quatro f\u00e1bricas. Foi a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2TTzbxt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">maior empresa t\u00eaxtil<\/a> do Rio de Janeiro na \u00e9poca e, em determinado momento, a maior do Brasil. A f\u00e1brica foi fundada com um nome diferente em 1878 (quando o Rio era a capital do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/31a8edO\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Imp\u00e9rio do Brasil<\/a>) em <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2XxYcB7\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Mag\u00e9<\/a>, um munic\u00edpio do Grande Rio, e ficou conhecida como Am\u00e9rica Fabril ap\u00f3s a fus\u00e3o com outra grande f\u00e1brica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ap\u00f3s a declara\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia do Brasil, o governo da <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2IkJ4QO\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rep\u00fablica Velha<\/a> procurou estimular a industrializa\u00e7\u00e3o. Beneficiando-se das pol\u00edticas promulgadas sob a orienta\u00e7\u00e3o do ministro das finan\u00e7as <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2QJH3S8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ruy Barbosa<\/a>, a Am\u00e9rica Fabril cresceu rapidamente e acabou adquirindo uma f\u00e1brica no Horto, a F\u00e1brica Carioca, em 1920. Situada onde hoje est\u00e1 a Rede Globo, a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2Yqn0uN\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">f\u00e1brica recebeu licen\u00e7a para construir em terras federais em 1889<\/a>, na esperan\u00e7a de que a ind\u00fastria estimulasse a economia e atra\u00edsse trabalhadores para o Brasil. Um desses trabalhadores era o av\u00f4 de Maria da Gl\u00f3ria Alves, que continua morando na comunidade da Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Fabrica-Carioca.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-40949 size-content\" title=\"Imagem hist\u00f3rica da F\u00e1brica Carioca, f\u00e1brica de tecidos administrada pela Companhia Am\u00e9rica Fabril no Horto. Foto: Cidade do Rio\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Fabrica-Carioca-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Fabrica-Carioca-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Fabrica-Carioca-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&#8220;Eu tive uma inf\u00e2ncia sadia, aqui tinha tudo. Tinha cinema ao ar livre, tinha futebol. O col\u00e9gio era aqui mesmo. A gente brincava dia e noite, aqui na rua. No carnaval, tinha o Bloco da F\u00e1brica. No Natal, todas as crian\u00e7as sa\u00edam com brinquedo, uma roupa. Minha cria\u00e7\u00e3o foi aqui dentro junto com as fam\u00edlias que aqui tinham. Aqui eram todas \u2018tia\u2019, \u00e9ramos amigos uns dos outros. Na \u00e9poca, uma casa s\u00f3 tinha televis\u00e3o, e eles chamavam a gente para aquela pipocada. Era uma fam\u00edlia&#8221;, Gl\u00f3ria relembra.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Clube-na-Chacara-do-Algodao.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-40951 size-content\" title=\"Clube desportivo na Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Clube-na-Chacara-do-Algodao-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Clube-na-Chacara-do-Algodao-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Clube-na-Chacara-do-Algodao-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Gl\u00f3ria se referia \u00e0 vila oper\u00e1ria, a moradia de trabalhadores que atra\u00eda pessoas de toda a regi\u00e3o e do mundo para trabalhar na f\u00e1brica. N\u00e3o foi a \u00fanica vila oper\u00e1ria na \u00e1rea; v\u00e1rias outras institui\u00e7\u00f5es, inclusive o pr\u00f3prio Jardim Bot\u00e2nico, criaram moradias para seus funcion\u00e1rios. A vila oper\u00e1ria da Am\u00e9rica Fabril no Horto ficou conhecida como Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o. Como disse Gl\u00f3ria, a Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o tinha tudo que uma comunidade pode precisar: uma escola, um clube esportivo, \u00e1reas de lazer, eventos e festas\u2014como a famosa festa de carnaval. O av\u00f4 de Gl\u00f3ria, m\u00e3e, tia e outros membros da fam\u00edlia trabalhavam na f\u00e1brica; foi realmente uma experi\u00eancia familiar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, uma crise atingiu a ind\u00fastria t\u00eaxtil no in\u00edcio dos anos 1960 e a f\u00e1brica no Horto foi fechada logo em seguida, em 1962. Na tentativa de salvar a empresa, o Banco Central do Brasil (BCB) <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2HbWsYa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">transferiu fundos<\/a> para um banco de investimento, que depois investiu na empresa. No entanto, a tentativa falhou e o controle dos ativos da empresa foi entregue ao banco. Enquanto a empresa tecnicamente ainda existia, grande parte da terra foi <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2OJsFYY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">vendida para a Rede Globo<\/a>, enquanto os ex-empregados foram deixados em suas casas.<\/span><\/p>\n<h3><strong>Neg\u00f3cio Sujo<\/strong><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por um tempo, a vida continuou. Os trabalhadores encontraram novos empregos; a m\u00e3e de Gl\u00f3ria continuou na Am\u00e9rica Fabril na f\u00e1brica da <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2WHCU6B\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Tijuca<\/a>, na <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2ETpYR1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Zona Norte<\/a>. A prefeitura do Rio de Janeiro chegou a aprovar o <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2HbqtHH\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Decreto Municipal 7313<\/a>, em 1987, autorizando a preserva\u00e7\u00e3o cultural da vila oper\u00e1ria da Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o, citando sua import\u00e2ncia para a hist\u00f3ria da cidade e para aquelas fam\u00edlias que precisam de moradia a pre\u00e7os acess\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pouco depois, no entanto, a Am\u00e9rica Fabril come\u00e7ou a pressionar os moradores a sair apesar do decreto municipal. Em resposta, a comunidade entrou com uma a\u00e7\u00e3o federal para iniciar um processo de titula\u00e7\u00e3o coletiva das terras, que come\u00e7ou em 1989. Enquanto a ordem de remo\u00e7\u00e3o foi interrompida, a empresa <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2HU1h8V\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">tentou dividir a comunidade<\/a>, processando cada fam\u00edlia separadamente em tribunais estaduais em 2001 por negligenciar o pagamento do aluguel. Ent\u00e3o veio a cortina de fuma\u00e7a que alteraria para sempre a composi\u00e7\u00e3o da comunidade.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Vila-Operaria-Chacara-do-Algodao.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-40954 size-content\" title=\"Rua na Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Vila-Operaria-Chacara-do-Algodao-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Vila-Operaria-Chacara-do-Algodao-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Vila-Operaria-Chacara-do-Algodao-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A Am\u00e9rica Fabril contratou um advogado para convencer membros individuais das fam\u00edlias a venderem suas casas ou compr\u00e1-las \u201coficialmente\u201d, desistindo de sua participa\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o federal de titula\u00e7\u00e3o coletiva das terras. As casas foram posteriormente revendidas a um custo muito mais alto, plausivelmente em um esfor\u00e7o para pagar as d\u00edvidas da Am\u00e9rica Fabril ao Banco Central. &#8220;Ela [a f\u00e1brica] fez uma cortina de fuma\u00e7a para que a gente n\u00e3o visse que era uma a\u00e7\u00e3o coletiva, individualizou, criminalizou a a\u00e7\u00e3o [da titula\u00e7\u00e3o das terras] para poder fazer esse tipo de coisa. Essas terras foram cedidas a Am\u00e9rica Fabril com a finalidade de fazer um bem social, para montar uma f\u00e1brica, o que abrangia a m\u00e3o de obra qualificada [que veio] para c\u00e1&#8230; Cediam a casa e a pessoa morava ao lado. Mas o governo quando cedeu, cedeu para fins sociais\u2014n\u00e3o para fins especulativos. Eles pegaram e fizeram especula\u00e7\u00e3o em cima da terra da Uni\u00e3o. Eles pegaram, lotearam, e venderam tudo que n\u00e3o era deles. Essas terras foram dadas a fins de gerar imposto para o governo, emprego\u2014todas essas coisas\u2014para uma finalidade social&#8221;, afirmou Jorge Alves, morador de longa data.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Antes do processo judicial movido pela Am\u00e9rica Fabril, s\u00f3 era cobrado aos moradores uma pequena taxa pela manuten\u00e7\u00e3o da comunidade, e que eles pararam de pagar uma vez que a f\u00e1brica fechou. Segundo moradores, a empresa usou esses recibos alegando que eram pagamentos de aluguel e que os moradores haviam parado de pagar. Em seguida, a empresa contratou um advogado particular para intimidar moradores a venderem ou comprarem suas casas para evitar novas a\u00e7\u00f5es judiciais, desistindo assim de sua participa\u00e7\u00e3o na a\u00e7\u00e3o federal de titula\u00e7\u00e3o coletiva das terras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A venda da terra onde a comunidade est\u00e1 localizada\u2014originalmente cedida \u00e0 f\u00e1brica com o prop\u00f3sito de desenvolver moradia para trabalhadores\u2014aos maiores licitantes, a fim de saldar as d\u00edvidas de uma empresa privada falida, contraria diretamente as Cl\u00e1usulas 22 e 23 do Artigo 5 da <a href=\"http:\/\/bit.ly\/315lIHC\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Constitui\u00e7\u00e3o Brasileira<\/a>, que estabelece que a <a href=\"http:\/\/bit.ly\/315lIHC\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">terra deve ter uma fun\u00e7\u00e3o social<\/a>. Os moradores lembram que as a\u00e7\u00f5es restantes foram decididas muito rapidamente, com a maioria perdendo, incluindo a fam\u00edlia Alves. S\u00f3 quando os defensores p\u00fablicos do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2KttUvh\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">N\u00facleo de Terras e Habita\u00e7\u00e3o<\/a> (NUTH) entraram com uma peti\u00e7\u00e3o para suspender as a\u00e7\u00f5es, at\u00e9 que a a\u00e7\u00e3o federal de titula\u00e7\u00e3o coletiva das terras fosse decidida, que as coisas se acalmaram.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Casa-Vila-Operaria.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-40959 size-content\" title=\"Casa na Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Casa-Vila-Operaria-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Casa-Vila-Operaria-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Casa-Vila-Operaria-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Muito dano j\u00e1 havia sido feito, todavia. A comunidade de 200 fam\u00edlias foi reduzida a 23. Algumas fam\u00edlias \u201ccompraram\u201d o direito de suas casas e terras, mas simultaneamente desistiram de seu lugar na a\u00e7\u00e3o federal de titula\u00e7\u00e3o de terras. Outros venderam por fra\u00e7\u00f5es de seu valor. Enquanto a comunidade ainda est\u00e1 intacta, agora \u00e9 uma pequena colcha de retalhos das fam\u00edlias originais que continuam a resistir. O l\u00edder comunit\u00e1rio Jo\u00e3o Paulo Barbosa Alves afirmou: \u201c<\/span>A gente parte de uma heran\u00e7a do <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2wBfvVI\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pereira Passos<\/a> <span style=\"font-weight: 400;\">[instigador da renova\u00e7\u00e3o urbana do in\u00edcio do s\u00e9culo XX]<\/span> que n\u00e3o acabou. Ela permanece, essa heran\u00e7a de remo\u00e7\u00e3o. Essa heran\u00e7a onde o pobre, o mesti\u00e7o, o negro, o ind\u00edgena, o italiano oper\u00e1rio, n\u00e3o pode ter direito a morar no Horto. Aqui est\u00e1 acontecendo a reciclagem de remo\u00e7\u00f5es que existe dentro do Rio de Janeiro. Territorialmente falando a gente mora num lugar privilegiado, mas financeiramente falando, nossa fam\u00edlia n\u00e3o tem esse privil\u00e9gio&#8221;.<\/p>\n<h3><strong>Gentrifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro tema importante vem \u00e0 tona quando se estuda o caso da comunidade da Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o: gentrifica\u00e7\u00e3o. Por que tentar avan\u00e7ar quando h\u00e1 tantas brechas na a\u00e7\u00e3o do governo federal para a remo\u00e7\u00e3o? Luiz Claudio Barbosa Alves, um l\u00edder comunit\u00e1rio, respondeu: \u201c<\/span>Eu entendo que isto est\u00e1 relacionado com separar os pobres da Zona Sul. Houve at\u00e9 mesmo um discurso de um juiz, na hora que a defensora p\u00fablica foi levar para ele a peti\u00e7\u00e3o de suspens\u00e3o, em que ele falou, &#8216;eu sou juiz e n\u00e3o posso morar l\u00e1, eles querem morar l\u00e1 por que?&#8217; Para mim, fica bem expl\u00edcito quanto que vale essa terra e como a gente n\u00e3o conseguiu superar historicamente essa disputa de classe, com a quest\u00e3o racial tamb\u00e9m&#8221;.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De fato, a gentrifica\u00e7\u00e3o na \u00e1rea \u00e9 vis\u00edvel a partir do momento em que se chega. Como Luiz Claudio Alves e seu irm\u00e3o Jo\u00e3o Paulo explicam, toda a \u00e1rea costumava ser conhecida como Horto quando \u00e9ramos mais jovens. O mapa abaixo, extra\u00eddo do <em>Jornal Vozes do Horto<\/em>, mostra a extens\u00e3o hist\u00f3rica do bairro; o n\u00famero catorze mostra a Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o. De forma lenta, mas constante, o bairro nobre do Jardim Bot\u00e2nico vai crescendo, destruindo o Horto, que j\u00e1 foi considerado como abrangendo toda a \u00e1rea. Casas de celebridades podem ser vistas nas colinas \u00e0 espreita da comunidade. Enquanto as 23 fam\u00edlias que resistem s\u00e3o legalmente proibidas de fazer mudan\u00e7as em suas casas devido ao decreto do patrim\u00f4nio cultural, o resto da comunidade parece rec\u00e9m-pintado e abriga novas lojas e boutiques. Os irm\u00e3os Alves agora dizem que moram no Horto e no Jardim Bot\u00e2nico, dependendo de quem pergunta. Embora a gentrifica\u00e7\u00e3o da \u00e1rea seja altamente vis\u00edvel, o processo que ela envolve n\u00e3o se limita simplesmente \u00e0 est\u00e9tica.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Horto-Mapa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-40964 size-content\" title=\"Mapa do Horto. Fonte: Jornal Vozes do Horto\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Horto-Mapa-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Horto-Mapa-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Horto-Mapa-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&#8220;Um p\u00e3o franc\u00eas aqui \u00e9 R$1. Ent\u00e3o, a remo\u00e7\u00e3o branca vem desde a\u00ed. Voc\u00ea est\u00e1 dentro da bolha da Zona Sul, onde cada vez mais a vida fica muito cara. Voc\u00ea n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es sociais para romper com isso, mas a vida continua ficando cara. Isso \u00e9 remo\u00e7\u00e3o branca, voc\u00ea n\u00e3o sente. A especula\u00e7\u00e3o est\u00e1 levando a consuma\u00e7\u00e3o, elevando o custo de vida e o sal\u00e1rio n\u00e3o acompanha. Para ter uma refer\u00eancia, eu sou o primeiro com ensino superior e meu irm\u00e3o o primeiro na faculdade p\u00fablica. Ent\u00e3o, voc\u00ea caminha com uma estrutura de poder que n\u00e3o te d\u00e1 acesso a trabalhos qualificados onde voc\u00ea recebe para poder pagar R$1 por um p\u00e3o&#8221;, <span style=\"font-weight: 400;\"> afirmou Luiz Claudio.<\/span><\/p>\n<h3><strong>Avan\u00e7ar por Olhar para Tr\u00e1s\u00a0<\/strong><\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A fam\u00edlia Alves n\u00e3o est\u00e1 desistindo sem lutar. Jorge brincou: &#8220;Eles v\u00e3o perturbar at\u00e9 o final, mas nada impede da gente lutar por nossos direitos at\u00e9 o final, porque \u00e9 um direito constitucional&#8221;. A fam\u00edlia Alves acredita que a comunidade da Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o \u00e9 especial e que sua hist\u00f3ria merece ser lembrada, contada e preservada. De fato, no decreto original que declara a Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o uma \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, nota-se que a comunidade serve como um registro valioso da hist\u00f3ria da cidade do Rio de Janeiro.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alvez.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-40966 size-content\" title=\"Irm\u00e3os Alves\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alvez-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alvez-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Alvez-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><br \/>\n<span style=\"font-weight: 400;\">Agora em sua quinta gera\u00e7\u00e3o, a fam\u00edlia Alves est\u00e1 se empenhando para mobilizar a comunidade e educar as pessoas sobre a hist\u00f3ria das vilas oper\u00e1rias. A Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o traz as marcas do trabalho \u00e1rduo para construir a na\u00e7\u00e3o, uma comunidade constru\u00edda em torno da fam\u00edlia. Como Gl\u00f3ria lembrou: \u201cEu sempre morei aqui, 61 anos morando aqui. Aqui foi o lugar onde eu nasci, onde eu casei, onde eu tive minhas filhas, meus netos, e minha bisneta&#8221;.<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Casas-da-Chacara-do-Algodao.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-40968 size-content\" title=\"Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o vista de cima.\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Casas-da-Chacara-do-Algodao-620x264.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Casas-da-Chacara-do-Algodao-620x264.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Casas-da-Chacara-do-Algodao-940x400.jpg 940w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O av\u00f4 de Gl\u00f3ria morreu em um acidente durante o trabalho. Ele deu sua vida servindo seu pa\u00eds, a companhia e a fam\u00edlia. Sua mem\u00f3ria\u2014e a de in\u00fameros outros\u2014vive nas ruas e casas da Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o. Por enquanto, os moradores aguardam a decis\u00e3o da a\u00e7\u00e3o federal de titula\u00e7\u00e3o coletiva das terras, que, dependendo do resultado, poderia potencialmente estabelecer um precedente significativo como uma vit\u00f3ria dos direitos \u00e0 moradia ou desarraigar 23 fam\u00edlias multigeracionais trabalhadoras. Enquanto isso, os moradores est\u00e3o se organizando, na esperan\u00e7a de mostrar a verdadeira import\u00e2ncia de preservar a comunidade. Como Jo\u00e3o Paulo refletiu: \u201cM<\/span>uitas pessoas passaram por essa casa, muitos familiares que lutaram para eu estar aqui hoje. Eu acho que a luta mais importante para mim, nesse momento, \u00e9 conseguir unificar e tentar entender o que \u00e9 uma vila oper\u00e1ria, e o que est\u00e1 em jogo aqui. Para mim, tem a quest\u00e3o da moradia, mas tem uma quest\u00e3o cultural nessa rua e nas outras ruas. \u00c9 uma luta por moradia, mas \u00e9 uma luta pela preserva\u00e7\u00e3o da raiz. Hoje eu luto por uma raiz que \u00e9 da minha fam\u00edlia. Eu n\u00e3o posso falar da minha vida sem [reconhecer] essa casa&#8221;.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Click Here for English Originalmente constru\u00edda como uma vila oper\u00e1ria para os trabalhadores da f\u00e1brica local, de tecido, a Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o \u00e9 uma pequena comunidade com uma longa hist\u00f3ria entrela\u00e7ada com a ascens\u00e3o da <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=40940\" title=\"Fam\u00edlias da Ch\u00e1cara do Algod\u00e3o no Horto Lutam pelo Futuro Lembrando do Seu Passado\">[&#8230;]<\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":129,"featured_media":40942,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1617,1626,1616],"tags":[1226,424,550,396,395,909,128,733,734,1179,469,1037,2216,358,899,1297,14,1367,383],"writer":[2133],"translator":[1971],"source":[],"ilustrador":[],"fotografo":[],"class_list":{"0":"post-40940","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-olhonagentrificacao","8":"category-por-observadores-internacionais","9":"category-qualidades-da-favela","10":"tag-constituicao","11":"tag-direito-a-moradia","12":"tag-direito-a-terra","13":"tag-especulacao-imobiliaria","14":"tag-gentrificacao-remocao-branca","15":"tag-habitacao-acessivel","16":"tag-historia","17":"tag-horto","18":"tag-jardim-botanico","19":"tag-mage","20":"tag-memoria","21":"tag-moradia","22":"tag-nuth","23":"tag-organizacao-comunitaria","24":"tag-preservacao-de-cultura","25":"tag-preservacao-historica","26":"tag-remocao","27":"tag-taticas-de-remocao-dividir-para-conquistar","28":"tag-zona-sul","29":"writer-tyler-strobl","30":"translator-geovanna-giannini"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.6 - 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