{"id":68480,"date":"2023-06-12T15:02:25","date_gmt":"2023-06-12T18:02:25","guid":{"rendered":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=68480"},"modified":"2024-09-05T13:06:44","modified_gmt":"2024-09-05T16:06:44","slug":"1a-roda-de-memoria-climatica-das-favelas-no-museu-da-mare-a-palafita-foi-uma-estrategia-de-sobrevivencia-um-saber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=68480","title":{"rendered":"1\u00aa Roda de Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica das Favelas no Museu da Mar\u00e9: &#8216;A Palafita [foi] uma Estrat\u00e9gia de Sobreviv\u00eancia, Um Saber&#8217;"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_68837\" aria-describedby=\"caption-attachment-68837\" style=\"width: 2000px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-68837\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Participantes-da-Roda-de-Memoria-Climatica-do-Museu-da-Mare-1.png\" alt=\"Participantes da 1\u00aa Roda de Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica, no Complexo da Mar\u00e9. Foto: Alexandre Cerqueira\" width=\"2000\" height=\"852\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Participantes-da-Roda-de-Memoria-Climatica-do-Museu-da-Mare-1.png 2000w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Participantes-da-Roda-de-Memoria-Climatica-do-Museu-da-Mare-1-620x264.png 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Participantes-da-Roda-de-Memoria-Climatica-do-Museu-da-Mare-1-1477x629.png 1477w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Participantes-da-Roda-de-Memoria-Climatica-do-Museu-da-Mare-1-1030x439.png 1030w\" sizes=\"(max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-68837\" class=\"wp-caption-text\">Participantes da 1\u00aa Roda de Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica, no Complexo da Mar\u00e9. Foto: Alexandre Cerqueira<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><a href=\"https:\/\/bit.ly\/MareClimateMemory\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em><strong>Click Here for English<img decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-15790\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/EN-standard-e1439583104716.jpg\" alt=\"\" width=\"20\" height=\"20\" \/><\/strong><\/em><\/a><\/p>\n<h4>No dia 17 de junho de 2023, <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3NwhSSj\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ser\u00e1 realizado<\/a> o lan\u00e7amento da Exposi\u00e7\u00e3o de Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica da Rede Favela Sustent\u00e1vel (<a href=\"https:\/\/bit.ly\/RFSnoROW\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">RFS<\/a>)*. Para dar um gostinho, estaremos at\u00e9 l\u00e1 publicando uma <a href=\"https:\/\/bit.ly\/MemoriaClimaticaDasFavelasROW\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">s\u00e9rie de mat\u00e9rias<\/a> que resumem a din\u00e2mica de cada roda de mem\u00f3ria realizada, em cinco museus comunit\u00e1rios, entre janeiro e mar\u00e7o deste ano, que comp\u00f5e a exposi\u00e7\u00e3o. Esta primeira mat\u00e9ria <a href=\"https:\/\/bit.ly\/MemoriaClimaticaDasFavelasROW\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">da s\u00e9rie<\/a> apresenta a primeira roda, realizada no dia 28 de janeiro, pelo <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2CF6gXA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Museu da Mar\u00e9<\/a>. O projeto foi desenvolvido pelo Eixo Cultura e Mem\u00f3ria Local da RFS, composto por <a href=\"https:\/\/bit.ly\/RFSMuseus\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">museus comunit\u00e1rios integrantes<\/a>, aliados t\u00e9cnicos e mobilizadores de diversas favelas do Grande Rio.<\/h4>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As Rodas de Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica da Rede Favela Sustent\u00e1vel t\u00eam como objetivo resgatar e registrar as mem\u00f3rias e hist\u00f3rias que guardam os moradores de longa data das favelas do Rio de Janeiro, sobre o tema do clima, para que possamos enxergar formas de nos preparar para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que est\u00e3o por vir. O tema tradicionalmente \u00e9 raramente abordado, apesar de, como mostraram as rodas, ser muito presente no cotidiano das favelas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em uma s\u00e9rie de rodas que acontecem ao longo de um dia, desenvolvidas para focar e aprofundar este assunto, os moradores convidados pelos museus trocam vis\u00f5es sobre suas viv\u00eancias e experi\u00eancias com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, resgatam mem\u00f3rias sobre a rela\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o de suas comunidades com a natureza e clima, dialogam sobre a rela\u00e7\u00e3o do clima com a realiza\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 moradia, e abordam as solu\u00e7\u00f5es e mobiliza\u00e7\u00f5es feitas pelos pr\u00f3prios moradores, destacando as prioridades equivocadas do Estado, que tende a ver remo\u00e7\u00e3o como uma solu\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_68505\" aria-describedby=\"caption-attachment-68505\" style=\"width: 2047px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Participantes-da-1a-Roda-de-Memoria-Climatica-no-Museu-da-Mare-reunidos-em-roda.-Foto-Alexandre-Cerqueira.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-68505 size-full\" title=\"Participantes da 1\u00aa Roda de Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica, no Museu da Mar\u00e9, reunidos em roda. Foto: Alexandre Cerqueira\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Participantes-da-1a-Roda-de-Memoria-Climatica-no-Museu-da-Mare-reunidos-em-roda.-Foto-Alexandre-Cerqueira.jpg\" alt=\"Participantes da 1\u00aa Roda de Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica, no Museu da Mar\u00e9, reunidos em roda. Foto: Alexandre Cerqueira\" width=\"2047\" height=\"1365\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Participantes-da-1a-Roda-de-Memoria-Climatica-no-Museu-da-Mare-reunidos-em-roda.-Foto-Alexandre-Cerqueira.jpg 2047w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Participantes-da-1a-Roda-de-Memoria-Climatica-no-Museu-da-Mare-reunidos-em-roda.-Foto-Alexandre-Cerqueira-620x413.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Participantes-da-1a-Roda-de-Memoria-Climatica-no-Museu-da-Mare-reunidos-em-roda.-Foto-Alexandre-Cerqueira-943x629.jpg 943w\" sizes=\"(max-width: 2047px) 100vw, 2047px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-68505\" class=\"wp-caption-text\">Participantes da 1\u00aa Roda de Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica, no Museu da Mar\u00e9, reunidos em roda. Foto: Alexandre Cerqueira<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No dia 28 de janeiro de 2023, aconteceu a primeira da s\u00e9rie: a Roda de Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica da Mar\u00e9, realizada pelo <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2CF6gXA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Museu da Mar\u00e9<\/a>, com a participa\u00e7\u00e3o de 57 pessoas, entre os mais antigos do <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3l0WQKR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Complexo da Mar\u00e9<\/a>, at\u00e9 os mais jovens, alguns deles representantes de importantes coletivos mareenses, como o Centro de Estudos e A\u00e7\u00f5es Solid\u00e1rias da Mar\u00e9 (<\/span><a href=\"https:\/\/bit.ly\/430kjl3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"font-weight: 400;\">CEASM<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">), <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3CaBPXK\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Coc\u00f4zap<\/a>, <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2Jsrf2Q\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Muda Mar\u00e9<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/raizesdamata.mare\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ra\u00edzes da Mata<\/a>, entre outros. Outros museus de favela tamb\u00e9m estavam representados.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Logo na entrada do museu, os participantes puderam conferir uma exposi\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica, com <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">banners espalhados contendo fotografias hist\u00f3ricas, em preto e branco, que traziam mem\u00f3rias importantes da forma\u00e7\u00e3o do Complexo da Mar\u00e9, desde as casas de palafitas at\u00e9 imagens a\u00e9reas dos anos 1990, quando a Mar\u00e9 foi oficialmente reconhecida como bairro, apesar de at\u00e9 hoje n\u00e3o ser investida de acordo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O evento se iniciou com duas din\u00e2micas afetivas. Na primeira, proposta por <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Brenda Vit\u00f3ria<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, jovem ativista ambiental do territ\u00f3rio, os participantes se dividiram em grupos de tr\u00eas, que se apresentaram e relataram curiosidades sobre si.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> Criando uma conex\u00e3o entre os participantes, houve o revezamento entre os grupos, at\u00e9 que todos tivessem tido contato uns com os outros. Depois disso, Marilene Nunes, integrante do Museu da Mar\u00e9, convidou a todos para o segundo momento l\u00fadico, onde, de dentro de uma bacia, eram retirados nomes de pessoas que levaram objetos pessoais para apresentar aos demais: itens carregados de mem\u00f3rias afetivas, que dialogam com as tem\u00e1ticas propostas no evento.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dentre muitas falas marcantes, dona Evelina Barth, moradora do Complexo da Mar\u00e9 h\u00e1 mais de trinta anos, emocionou todos ao evidenciar em seu relato um passado de muita pobreza, sua e dos seus semelhantes, e falta de acesso a itens b\u00e1sicos para a sobreviv\u00eancia, como medicamentos, o que culminou em seu trabalho com plantas medicinais. H\u00e1 d\u00e9cadas, ela se transformou em uma refer\u00eancia, muito procurada na comunidade.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cFomos convidados a fazer cursos para poder trabalhar com plantas medicinais. E a\u00ed come\u00e7amos o trabalho na Mar\u00e9, na Vila Pinheiro. A\u00ed tivemos tamb\u00e9m ajuda, podendo fazer assim artesanal, bem simplezinha, n\u00e9, e ali n\u00f3s trabalhamos at\u00e9 hoje. \u00c9 o trabalho preferido da minha vida. A fitoterapia que \u00e9 a planta medicinal, \u00e9 um ch\u00e1 preventivo, mas ele ajuda realmente a pessoa a ficar boa.\u201d \u2014 Evelina Barth<\/span><\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_68503\" aria-describedby=\"caption-attachment-68503\" style=\"width: 2047px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Dona-Evelina-apresentando-seu-objeto-afetivo-a-garrafada-remedio-fitoterapico-feito-por-ela-mesma.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-68503 size-full\" title=\"Dona Evelina, apresentando seu objeto afetivo, a garrafada, fitoter\u00e1pico, fruto de seu trabalho de mais de 30 anos com plantas medicinais na Mar\u00e9. Foto: Alexandre Cerqueira\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Dona-Evelina-apresentando-seu-objeto-afetivo-a-garrafada-remedio-fitoterapico-feito-por-ela-mesma.jpg\" alt=\"Dona Evelina, apresentando seu objeto afetivo, a garrafada, fitoter\u00e1pico, fruto de seu trabalho de mais de 30 anos com plantas medicinais na Mar\u00e9. Foto: Alexandre Cerqueira\" width=\"2047\" height=\"1365\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Dona-Evelina-apresentando-seu-objeto-afetivo-a-garrafada-remedio-fitoterapico-feito-por-ela-mesma.jpg 2047w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Dona-Evelina-apresentando-seu-objeto-afetivo-a-garrafada-remedio-fitoterapico-feito-por-ela-mesma-620x413.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Dona-Evelina-apresentando-seu-objeto-afetivo-a-garrafada-remedio-fitoterapico-feito-por-ela-mesma-943x629.jpg 943w\" sizes=\"(max-width: 2047px) 100vw, 2047px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-68503\" class=\"wp-caption-text\">Dona Evelina, apresentando seu objeto afetivo, a garrafada, fitoter\u00e1pico, fruto de seu trabalho de mais de 30 anos com plantas medicinais na Mar\u00e9. Foto: Alexandre Cerqueira<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro tema de destaque durante a din\u00e2mica foram as remo\u00e7\u00f5es ocorridas nos anos 1970, no Complexo da Mar\u00e9, quando 450 fam\u00edlias foram retiradas da Praia de Inha\u00fama e levadas para <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2WQxncM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Antares<\/a>, favela localizada em <a href=\"https:\/\/bit.ly\/30JK5uW\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Santa Cruz<\/a>, <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2VcmBwc\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zona Oeste<\/a> do Rio de Janeiro. Leonardo Ribeiro de Sousa, cria de Antares, estudante de licenciatura em Hist\u00f3ria e pesquisador, participou da roda como representante do N\u00facleo de Orienta\u00e7\u00e3o e Pesquisa Hist\u00f3rica de Santa Cruz<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0(<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3O20h2E\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">NOPH<\/a>). Em suas falas Leonardo<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0contextualiza esse processo de remo\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 ligado intimamente \u00e0 sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria de vida. Ele falou, mostrando o <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">caderno com todas as suas anota\u00e7\u00f5es de pesquisa sobre o <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3JpN83F\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">processo de ocupa\u00e7\u00e3o da favela de Antares<\/a>.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cDentro desse processo, existe a remo\u00e7\u00e3o de 450 fam\u00edlias que foram retiradas da Mar\u00e9, da Praia de Inha\u00fama, em mar\u00e7o de 1975. Dentre elas, a minha m\u00e3e, que saiu daqui da <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3q4Diwz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Praia de Inha\u00fama<\/a>&#8230; Uma vez, eu vim aqui na Mar\u00e9 e tirei uma foto da casa de palafita que tem ali [dentro do museu] e mostrei pra minha m\u00e3e. Ela chorou e eu fiquei emocionado&#8230; N\u00e3o participei [desse processo de remo\u00e7\u00e3o], eu j\u00e1 nasci em Antares. Mas isso me trouxe uma mem\u00f3ria afetiva muito grande, pelas hist\u00f3rias que minha m\u00e3e conta pra mim sobre as quest\u00f5es que aconteciam aqui. Meu irm\u00e3o caiu em uma das passarelas [entre as palafitas, que serviam de ruas sobre as \u00e1guas da Ba\u00eda de Guanabara], e a\u00ed foi aquela como\u00e7\u00e3o da comunidade inteira pra poder resgatar meu irm\u00e3o. Ent\u00e3o, eu fa\u00e7o essa pesquisa que liga a Mar\u00e9 e Antares, nesse processo de remo\u00e7\u00e3o super agressivo. Por isso, fiz quest\u00e3o de colocar essa pesquisa [na bacia, para compartilhar com os participantes da roda]. Eu t\u00f4 muito feliz de estar aqui, como museu NOPH, como convidado da RFS e aqui na Mar\u00e9, de onde a minha fam\u00edlia veio, parte da minha raiz. Ent\u00e3o, eu agrade\u00e7o muito.\u201d \u2014 Leonardo Ribeiro de Sousa<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h3>O Que S\u00e3o as Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas?<\/h3>\n<p>Ap\u00f3s o momento de introdu\u00e7\u00e3o afetiva do evento, deu-se in\u00edcio ao ciclo de quatro rodas de conversa e constru\u00e7\u00e3o coletiva sobre os temas propostos em cada uma. Na primeira roda, com o tema \u201cO que s\u00e3o as <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3HKvHZR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/a>?\u201d, Gleison Carvalho, jovem morador da Mar\u00e9 e facilitador da roda, convidou os presentes a contribuir com a vis\u00e3o pessoal de cada um sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e como elas afetam o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Thamires Ribeiro de Oliveira, da equipe do Museu da Mar\u00e9, compartilhou uma mem\u00f3ria afetiva sobre sua av\u00f3 paterna, j\u00e1 falecida. Nordestina e moradora da Mar\u00e9, ela tinha uma liga\u00e7\u00e3o com a ro\u00e7a e com plantas medicinais. O poder da natureza sempre esteve ao redor de sua fam\u00edlia na Mar\u00e9. Al\u00e9m disso, relembrou, com saudade, os tempos de inf\u00e2ncia na favela, tempos em que o contato com os vizinhos, o cuidado uns com os outros e o compartilhamento eram mais intensos que hoje.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ela tamb\u00e9m falou sobre outro momento marcante de contato com a <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2THofFi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">educa\u00e7\u00e3o ambiental<\/a>, um evento chamado Semana Nacional do Meio Ambiente (SENAMA), que acontecia na <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2L65gQg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Baixa do Sapateiro<\/a>. Mesmo crian\u00e7a, sem compreender, na \u00e9poca, as dimens\u00f5es pol\u00edticas que as atividades promoviam, ela disse ter sido impactada pelas atividades, que lembra at\u00e9 hoje.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Luiz Carlos Santiago \u00e9 um morador da Mar\u00e9 que atua, h\u00e1 vinte anos, com a promo\u00e7\u00e3o da coleta seletiva. Todo seu ativismo tem como base a import\u00e2ncia do descarte correto do lixo, o poder da reciclagem e como ela pode se tornar geradora de renda para as fam\u00edlias. Ele contou aos presentes como come\u00e7ou esse importante trabalho ambiental.<\/span><\/span><\/p>\n<blockquote><p>\u201cAs pessoas estavam desempregadas&#8230; Profiss\u00f5es que v\u00e3o desaparecendo ao longo do tempo&#8230; E a\u00ed n\u00f3s come\u00e7amos a perceber que as pessoas jogavam material recicl\u00e1vel fora e, muitas vezes, n\u00e3o tinham dinheiro pra comprar o p\u00e3o. N\u00e3o entendiam que dava pra vender as garrafas pet e ir na padaria comprar o p\u00e3o&#8230; Ent\u00e3o, tantas coisas que a gente joga fora&#8230; tinha um valor econ\u00f4mico. Tinha n\u00e3o, tem valor econ\u00f4mico. O que n\u00f3s pensamos em fazer foi explicar para a comunidade todo esse valor que tem a garrafa pet, a latinha&#8230; que poderiam ser canalizados para trazer recursos pra dentro da comunidade&#8230; H\u00e1 20 anos, geramos trabalho e renda para as pessoas. H\u00e1 20 anos, geramos condi\u00e7\u00f5es para as pessoas irem ao supermercado, fazer suas compras, pagar sua luz, pagar a sua d\u00edvida, porque n\u00f3s trabalhamos com material recicl\u00e1vel. Ent\u00e3o, n\u00f3s precisamos repensar a quest\u00e3o do lixo, sabe? O que \u00e9 lixo?\u201d \u2014 Luiz Carlos Santiago<\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Luiz Carlos apresentou ainda solu\u00e7\u00f5es para a quest\u00e3o do ac\u00famulo de lixo nas ruas das favelas da Mar\u00e9, problema antigo que atinge a localidade em que mora. Ele refletiu sobre o manejo dos res\u00edduos s\u00f3lidos e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nas favelas:<\/span><\/p>\n<blockquote><p>\u201cAs pessoas ainda n\u00e3o acordaram! N\u00f3s precisamos, dentro da Mar\u00e9, de uma usina de tratamento desse material. Outra coisa que a gente precisa pensar, se articular: gente, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas j\u00e1 chegaram&#8230; n\u00f3s j\u00e1 somos atingidos, mas seremos muito mais, porque n\u00f3s estamos perto do mar&#8230; E a\u00ed, por que a <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2KgADIe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">UFRJ<\/a>, que \u00e9 um centro de pesquisa de excel\u00eancia do Brasil, a maior universidade [federal do pa\u00eds]\u2026 n\u00e3o d\u00e1 um retorno para a comunidade que est\u00e1 no entorno dela? Precisamos pressionar essa universidade para que nos deem respostas&#8230; [temos que] cobrar das autoridades, pol\u00edticas p\u00fablicas que, pelo menos, minimizem o preju\u00edzo e a problem\u00e1tica que vamos ter atrav\u00e9s das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Antonio Carlos Vieira, nascido no<\/span> <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2XOPule\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Morro do Timbau<\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> e ex-presidente da associa\u00e7\u00e3o de moradores desta comunidade do Complexo da Mar\u00e9,\u00a0 questiona o distanciamento das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, como se fossem algo futuro, \u00e0 parte da nossa pr\u00f3pria realidade. Ele alerta que esse processo j\u00e1 est\u00e1 em curso h\u00e1 anos e \u00e9 necess\u00e1rio agir.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cAntigamente, no ver\u00e3o, [quando] a gente tinha um dia de calor, o que que acontecia no finalzinho da tarde? Vinha uma chuva, um temporal ca\u00eda, a gente tomava banho de chuva, era a maior festa. Quem tem isso hoje? Eu lembro na minha inf\u00e2ncia de ficar quase um m\u00eas sem chover aqui no Rio de Janeiro, n\u00e9? E tamb\u00e9m essa quest\u00e3o que impacta muito a sa\u00fade da gente, n\u00e9, o aumento nas doen\u00e7as respirat\u00f3rias, o aumento dos casos de c\u00e2ncer. O c\u00e2ncer hoje j\u00e1 \u00e9 uma coisa end\u00eamica, ningu\u00e9m fala sobre isso, n\u00e9? Ent\u00e3o, a gente t\u00e1 vendo a\u00ed uma escalada de problemas que a gente precisa estar muito atento. Tem a quest\u00e3o do aumento do n\u00edvel do mar, mas tem outras. Tem outras quest\u00f5es que j\u00e1 est\u00e3o no nosso dia a dia e que a gente tem que estar atento. O aquecimento global, essa mudan\u00e7a clim\u00e1tica, j\u00e1 est\u00e1 acontecendo na nossa vida. Quando a gente era crian\u00e7a, a gente mal tinha um ventilador em casa. Hoje em dia, quem consegue dormir sem um ar condicionado? Ent\u00e3o, quer dizer, esses s\u00e3o elementos que a gente t\u00e1 vendo, que j\u00e1 est\u00e3o impactando a nossa vida e que a gente precisa estar muito atento.\u201d \u2014 Antonio Carlos Vieira<\/span><\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_68511\" aria-describedby=\"caption-attachment-68511\" style=\"width: 2047px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Objeto-que-representa-importantes-trabalhadores-do-territorio-que-sofrem-com-dificuldades-poluicao-lixo-acumulado.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-68511 size-full\" title=\"A rede de pesca exposta na roda representa importantes trabalhadores do territ\u00f3rio, que sofrem com dificuldades relatadas por Edilene Nascimento, da Associa\u00e7\u00e3o dos Pescadores da Vila do Pinheiro (APEMAR), como: polui\u00e7\u00e3o, lixo acumulado e descaso com os manguezais da Mar\u00e9. Foto: Alexandre Cerqueira\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Objeto-que-representa-importantes-trabalhadores-do-territorio-que-sofrem-com-dificuldades-poluicao-lixo-acumulado.jpg\" alt=\"A rede de pesca exposta na roda representa importantes trabalhadores do territ\u00f3rio, que sofrem com dificuldades relatadas por Edilene Nascimento, da Associa\u00e7\u00e3o dos Pescadores da Vila do Pinheiro (APEMAR), como: polui\u00e7\u00e3o, lixo acumulado e descaso com os manguezais da Mar\u00e9. Foto: Alexandre Cerqueira\" width=\"2047\" height=\"1365\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Objeto-que-representa-importantes-trabalhadores-do-territorio-que-sofrem-com-dificuldades-poluicao-lixo-acumulado.jpg 2047w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Objeto-que-representa-importantes-trabalhadores-do-territorio-que-sofrem-com-dificuldades-poluicao-lixo-acumulado-620x413.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Objeto-que-representa-importantes-trabalhadores-do-territorio-que-sofrem-com-dificuldades-poluicao-lixo-acumulado-943x629.jpg 943w\" sizes=\"(max-width: 2047px) 100vw, 2047px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-68511\" class=\"wp-caption-text\">A rede de pesca exposta na roda representa importantes trabalhadores do territ\u00f3rio, que sofrem com dificuldades relatadas por Edilene Nascimento, da Associa\u00e7\u00e3o dos Pescadores da Vila do Pinheiro (APEMAR), como polui\u00e7\u00e3o, lixo acumulado e descaso com os manguezais da Mar\u00e9. Foto: Alexandre Cerqueira<\/figcaption><\/figure>\n<p>Houve muitos mais relatos de extrema import\u00e2ncia, como a fala de Edilene Nascimento, que representava a Associa\u00e7\u00e3o de Pescadores da Vila do Pinheiro (APEMAR). Ela trouxe \u00e0 reflex\u00e3o um pouco dos desafios enfrentados pelos pescadores para realizar suas atividades di\u00e1rias, como a dificuldade do acesso ao <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3t92XAl\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Canal do Cunha<\/a>, devido \u00e0 grande quantidade de <a href=\"https:\/\/bit.ly\/45H5xll\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">lixo presente no manguezal<\/a>. O <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2XvPcl5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">racismo ambiental<\/a> impera, pois a falta de atua\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico na limpeza e recupera\u00e7\u00e3o s\u00e3o \u201cjustificadas\u201d por se tratar de local de \u00e1rea de risco.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cOs pescadores ficam mais de duas, tr\u00eas horas, \u00e0s vezes, tentando acessar a associa\u00e7\u00e3o. O manguezal \u00e9 rico, lindo, por\u00e9m com ra\u00edzes dos mangues todas cheias de lixo. Conforme a mar\u00e9 sobe, \u00e9 muito lixo, j\u00e1 fiz algumas grava\u00e7\u00f5es. Mas n\u00e3o vem ajuda do poder p\u00fablico. Ningu\u00e9m quer entrar na \u00e1rea para poder fazer esse trabalho de limpeza, devido eles alegarem que \u00e9 \u00e1rea de risco.\u201d \u2014 Edilene Nascimento<\/p><\/blockquote>\n<p>Edilene relatou um hist\u00f3rico de cobran\u00e7as ao poder p\u00fablico: apresenta\u00e7\u00e3o de projetos e solu\u00e7\u00f5es propostas pela associa\u00e7\u00e3o, tentativas de acesso a recursos, tentativas de parceria com a UFRJ. Mas o descaso com a localidade continua. Ela finalizou trazendo a import\u00e2ncia dos mangues para a qualidade de vida de quem vive ao redor da Ba\u00eda de Guanabara.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuando h\u00e1 esse tratamento, quando vem a revitaliza\u00e7\u00e3o nos manguezais, n\u00e3o v\u00eam s\u00f3 benef\u00edcio pro pescador, n\u00e3o v\u00eam s\u00f3 benef\u00edcio pros animais, mas tamb\u00e9m para os mangues. Eles trazem melhorias pro ambiente [de forma geral]&#8230; eles melhoram a qualidade do oxig\u00eanio. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos algo rico ao nosso redor, que poderia estar sendo bem cuidado&#8230; [mas] o descaso de \u00f3rg\u00e3os competentes&#8230; est\u00e1 negligenciando [esse ecossistema da favela].&#8221; \u2014 Edilene Nascimento<\/p><\/blockquote>\n<h3>Como Se Deu a Ocupa\u00e7\u00e3o e Qual \u00e9 a Rela\u00e7\u00e3o do Territ\u00f3rio com o Clima e Natureza?<\/h3>\n<p>Em seguida, foi iniciada a segunda roda de conversa, com o tema \u201cComo se deu a ocupa\u00e7\u00e3o e qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio com o clima e natureza?\u201d, refletindo principalmente como o hist\u00f3rico processo de forma\u00e7\u00e3o da cidade do Rio de Janeiro foi fundamental para a constru\u00e7\u00e3o do Complexo da Mar\u00e9 e do aterramento das ilhas e enseadas que constitu\u00edam a Mar\u00e9.<\/p>\n<figure id=\"attachment_68507\" aria-describedby=\"caption-attachment-68507\" style=\"width: 2047px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Claudia-Rose-do-Museu-da-Mare-mostrando-fotografias-da-Mare-que-estao-no-acervo-do-Museu.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-68507 size-full\" title=\"Claudia Rose, coordenadora do Museu da Mar\u00e9, mostrando fotografias da Mar\u00e9, que est\u00e3o no acervo do Museu. Foto: Alexandre Cerqueira\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Claudia-Rose-do-Museu-da-Mare-mostrando-fotografias-da-Mare-que-estao-no-acervo-do-Museu.jpg\" alt=\"Claudia Rose, coordenadora do Museu da Mar\u00e9, mostrando fotografias da Mar\u00e9, que est\u00e3o no acervo do Museu. Foto: Alexandre Cerqueira\" width=\"2047\" height=\"1365\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Claudia-Rose-do-Museu-da-Mare-mostrando-fotografias-da-Mare-que-estao-no-acervo-do-Museu.jpg 2047w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Claudia-Rose-do-Museu-da-Mare-mostrando-fotografias-da-Mare-que-estao-no-acervo-do-Museu-620x413.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Claudia-Rose-do-Museu-da-Mare-mostrando-fotografias-da-Mare-que-estao-no-acervo-do-Museu-943x629.jpg 943w\" sizes=\"(max-width: 2047px) 100vw, 2047px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-68507\" class=\"wp-caption-text\">Claudia Rose, coordenadora do Museu da Mar\u00e9, mostrando fotografias da Mar\u00e9, que est\u00e3o no acervo do Museu. Foto: Alexandre Cerqueira<\/figcaption><\/figure>\n<p>Claudia Rose Ribeiro, coordenadora do Museu da Mar\u00e9, lembrou que toda a hist\u00f3ria desse processo de forma\u00e7\u00e3o das favelas do Complexo da Mar\u00e9 est\u00e1 registrada em imagens e representa\u00e7\u00f5es no museu.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c[Nosso acervo] mostra todo esse processo e como o poder p\u00fablico interv\u00e9m sem um planejamento&#8230; [sem] respeitar o ambiente&#8230; como se deu na constru\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3Wuk0N2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cidade Universit\u00e1ria da UFRJ<\/a> que fica na Ilha do Fund\u00e3o. Na verdade, a Ilha do Fund\u00e3o era uma ilha menor, um arquip\u00e9lago, com v\u00e1rias ilhas. Tinha o projeto de ligar essas v\u00e1rias ilhas por pontes, mas o [presidente] <a href=\"https:\/\/bit.ly\/43mxkoV\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Get\u00falio Vargas<\/a> mandou aterrar tudo e fazer uma ilha s\u00f3. Ent\u00e3o, a gente v\u00ea o quanto os impactos do poder p\u00fablico s\u00e3o os que mais afetam a vida das pessoas&#8230; N\u00e3o \u00e9 o favelado que faz aterro, que joga esgoto na \u00e1gua no rio\u2026 que afeta diretamente esse ambiente e que vai gerar essas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.&#8221; \u2014 Claudia Rose Ribeiro<\/p><\/blockquote>\n<p>Ainda sobre o papel do poder p\u00fablico nos impactos ambientais negativos que a Mar\u00e9 sofreu ao longo da hist\u00f3ria, Luiz Carlos Santiago lembrou da beleza natural que abra\u00e7ava a Mar\u00e9 e as limpas \u00e1guas do Canal do Cunha e da Ba\u00eda de Guanabara.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEsse local aqui era lindo, aqui tinha ilha&#8230; a\u00ed, jogaram uma refinaria ali e come\u00e7ou a se jogar o \u00f3leo dentro deste rio, onde a gente tomava banho, onde as pessoas pescavam&#8230; Se voc\u00ea \u00e9 pobre, tem que morar perto do lix\u00e3o\u2026 Se voc\u00ea \u00e9 pobre, tem que morar perto da polui\u00e7\u00e3o\u2026 Por que o lixo t\u00e1 sempre perto das pessoas pobres?&#8230; todas as praias aqui do Fund\u00e3o eram pr\u00f3prias pra banho. E a\u00ed come\u00e7a o qu\u00ea? A polui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nessas praias. L\u00e1 no meio, de l\u00e1 come\u00e7a a jogar \u00f3leo, v\u00e3o acabando com aquilo ali&#8230; acabam com a <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3WCp5TB\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Praia de Ramos<\/a>, que era uma praia frequentada por toda a Zona Norte&#8230; Outra praia era na <a href=\"https:\/\/bit.ly\/303L5v0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ilha do Governador<\/a>, Jardim Guanabara, [onde tamb\u00e9m] a \u00e1gua era limpinha. O que aconteceu? J\u00e1 sabemos&#8230; Nada disso aconteceu por acaso&#8230; Isso \u00e9 planejado&#8230; Ent\u00e3o, a gente precisa entender que, quando o governo falar &#8216;olha, vou fazer uma interven\u00e7\u00e3o na Mar\u00e9&#8217;, tem que reunir todo mundo e dizer: &#8216;Mas que tipo de interven\u00e7\u00e3o? Como \u00e9 que voc\u00ea vai afetar nossas vidas?&#8217;&#8230; n\u00f3s sabemos das mudan\u00e7as que precisamos.\u201d \u2014 Luiz Carlos Santiago<\/p><\/blockquote>\n<p>As mem\u00f3rias expostas no museu ganham vida nas falas de moradores cria da Mar\u00e9. Valdirene Milit\u00e3o, artes\u00e3 que aplica a reciclagem e reutiliza\u00e7\u00e3o de materiais na confec\u00e7\u00e3o de sua arte, moradora da <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3MSdf4s\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Roquete Pinto<\/a>, uma das favelas do Complexo da Mar\u00e9, falou sobre as mem\u00f3rias da remo\u00e7\u00e3o das casas de palafitas da regi\u00e3o, sobre o aterramento da \u00e1rea e da inf\u00e2ncia na Praia de Ramos. Ela tamb\u00e9m chamou aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia de agir localmente.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuando a gente pensa no macro, a gente quer sim fazer uma carta, a gente quer sim fazer mudan\u00e7as. Mas tamb\u00e9m, precisa pensar no pequenininho. De verdade, a gente t\u00e1 falando de responsabilidade [sobre o seu territ\u00f3rio].\u201d \u2014 Valdirene Milit\u00e3o<\/p><\/blockquote>\n<h3>Como as Quest\u00f5es Clim\u00e1ticas e Ambientais Dialogam com o Direito e Acesso \u00e0 Moradia?<\/h3>\n<p>A terceira roda de conversa, focada na pergunta &#8220;como as quest\u00f5es clim\u00e1ticas e ambientais dialogam com o direito e acesso \u00e0 moradia?&#8221;, se iniciou com o relato de Maria da Penha Macena, lideran\u00e7a da <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3lHVbww\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vila Aut\u00f3dromo<\/a>, que falou o quanto as hist\u00f3rias de forma\u00e7\u00e3o das favelas cariocas guardam semelhan\u00e7as entre si, destino fortemente moldado pelo preconceito de classe, racismo estrutural e neglig\u00eancia do Estado.<\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEles n\u00e3o querem que a gente more bem. Por que queriam me tirar da minha comunidade? Porque eu morava na margem da lagoa de <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3CAWMcT\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jacarepagu\u00e1<\/a>. Futuramente, ali, v\u00e3o ser constru\u00eddos 60 pr\u00e9dios, dentro de onde \u00e9 o <a href=\"http:\/\/glo.bo\/3Newnd8\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Parque Ol\u00edmpico<\/a>&#8230; E n\u00e3o queriam pobre morando l\u00e1, porque n\u00f3s pobres n\u00f3s podemos servir, mas n\u00e3o podemos ser vizinhos.\u201d \u2014 Maria da Penha Macena<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Facilitadora da mesa, Victoria Alves, integrante do coletivo Ra\u00edzes da Mata e coordenadora do Coc\u00f4zap Mar\u00e9, denunciou o racismo ambiental nas favelas.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cTudo isso&#8230; tange muito&#8230; a quest\u00e3o do racismo ambiental. A gente t\u00e1 falando da quest\u00e3o do ambiente, mas tamb\u00e9m a gente t\u00e1 falando de uma estrutura social. A gente t\u00e1 falando da n\u00e3o efetiva\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas\u2026 que aqui na Mar\u00e9, acontece de uma maneira e, no Centro do Rio, de outra.\u201d \u2014 Victoria Alves<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse sentido, a import\u00e2ncia da <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3le13du\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">museologia social<\/a> no papel de preserva\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias e da hist\u00f3ria de luta das favelas, ganhou destaque. \u00c9 na sua ess\u00eancia um fen\u00f4meno cultural que incita a autoestima e o orgulho comunit\u00e1rio, al\u00e9m da sistematiza\u00e7\u00e3o do conhecimento sobre si e sobre os territ\u00f3rios.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cOportunidade da gente contar nossas pr\u00f3prias hist\u00f3rias, como pobre, como favelado, como negro. Ent\u00e3o, a gente vai virando uma grande rede. Isso \u00e9 fundamental pra que a gente continue nessa for\u00e7a, um respondendo pelo outro, um conhecendo o outro. Essa cultura vai nos modelando e modelando os jovens para que a gente possa ter um futuro melhor, uma sociedade mais justa e cobrar os nossos direitos, resistir e ficar nos nossos territ\u00f3rios, com muito orgulho de ser favelado, de ser negro e ind\u00edgena.\u201d \u2014 Maria da Penha Macena<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h3>Quais Saberes a Comunidade J\u00e1 Desenvolveu para Responder aos Desafios Impostos pela Natureza e pelo Clima?<\/h3>\n<p>Facilitada por Valdirene Milit\u00e3o, nesta \u00faltima gira do debate, os participantes compartilharam experi\u00eancias e saberes sobre as solu\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e iniciativas atuais que j\u00e1 existiram para tratar das quest\u00f5es levantadas pelo clima, no Complexo da Mar\u00e9. Lorena Froz dos Santos, cria da Mar\u00e9, t\u00e9cnica em meio ambiente e fundadora do <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3rq9dZ9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Projeto Faveleira<\/a>, que atua com comunica\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o ambiental nas redes sociais, destacou alguns projetos ambientais atuais das favelas da Mar\u00e9, como o Ra\u00edzes da Mata, coletivo que atua na revitaliza\u00e7\u00e3o do Parque Ecol\u00f3gico Cadu Barcellos, antigo Parque Ecol\u00f3gico da Mar\u00e9, e o Muda Mar\u00e9, que \u00e9 um projeto de extens\u00e3o da UFRJ que acontece na Mar\u00e9, desenvolvendo pesquisas ligadas \u00e0 quest\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi lembrada a iniciativa realizada por alguns coletivos, lideran\u00e7as e moradores da Mar\u00e9, em 2022, o movimento \u201c<i>Est\u00e1 rolando um clima na Mar\u00e9\u201d. <\/i>Reunidos na Lona Cultural do bairro, elaboraram a <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3BNVo8F\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Carta de Direitos Clim\u00e1ticos da Mar\u00e9<\/a>, que discorre sobre racismo ambiental e a luta por direitos clim\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Jefferson Silva, professor de biologia, destacou o projeto Reciclagem Solid\u00e1ria, que atuou durante muito tempo abrangendo jovens desde o <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3aFj01C\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Conjunto Esperan\u00e7a<\/a> at\u00e9 a <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3WxQNB6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">favela da Kelson\u2019s<\/a>. Eles ganhavam bolsa, recebiam forma\u00e7\u00e3o sobre educa\u00e7\u00e3o ambiental e reciclagem, geravam renda e atuavam como multiplicadores nas suas favelas.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse e outros projetos de impacto ambiental, foram trazidos para a comunidade por Maria Jos\u00e9 da Silva, conhecida como Zez\u00e9, fundadora da Associa\u00e7\u00e3o dos Moradores do Conjunto Bento Ribeiro, que falou em seguida sobre a import\u00e2ncia de aliar os diagn\u00f3sticos coletados pelos coletivos, \u00e0 escrita de projetos e busca de recursos para tirar cada projeto do papel e atuar com a\u00e7\u00f5es concretas nas demandas existentes. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Encerrando o dia, o anfitri\u00e3o Antonio Carlos Vieira, do Museu da Mar\u00e9, estabeleceu uma importante reflex\u00e3o sobre o processo de forma\u00e7\u00e3o. Para ele, a palafita \u00e9 o maior s\u00edmbolo de solu\u00e7\u00e3o para sobreviv\u00eancia do povo da Mar\u00e9, uma tecnologia ancestral local.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cN\u00e3o por acaso o centro do museu \u00e9 uma palafita. Porque a palafita \u00e9 uma estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia, \u00e9 um saber, \u00e9 uma tecnologia pra voc\u00ea saber lidar com aquele fen\u00f4meno natural que \u00e9 a mar\u00e9, sob o qual voc\u00ea n\u00e3o tem controle&#8230; Hoje a gente anda e tudo isso aqui \u00e9 um bairro, aterrado, mas as pessoas vieram morar aqui e pouca coisa era aterrada. A maior parte das casas foram constru\u00eddas em cima da mar\u00e9, em cima da \u00e1gua\u2026 As casas n\u00e3o eram leves, tinham que ter estrutura, porque o telhado era de barro. Em geral, se voc\u00eas olharem as fotos do museu, voc\u00eas v\u00e3o ver que a maioria das casas era de barro&#8230; \u00c9 um peso muito grande. Ent\u00e3o, aquilo ali \u00e9 uma verdadeira obra de engenharia. Eu acho que a gente n\u00e3o pode perder de vista que este saber \u00e9 um s\u00edmbolo, \u00e9 uma refer\u00eancia que a gente tem aqui na Mar\u00e9.\u201d \u2014 Antonio Carlos Vieira<\/span><\/p><\/blockquote>\n<h3>Leia toda a s\u00e9rie &#8220;Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica das Favelas&#8221; <a href=\"https:\/\/bit.ly\/MemoriaClimaticaDasFavelasROW\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/h3>\n<h3>N\u00e3o perca o \u00e1lbum abaixo (ou clique <a href=\"https:\/\/bit.ly\/MemoriaClimaticaMareFotos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a> para ver no Flickr):<\/h3>\n<p><a title=\"Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica na Mar\u00e9 (Museu da Mar\u00e9 \/ Rede Favela Sustent\u00e1vel) 28 de janeiro de 2023\" href=\"https:\/\/www.flickr.com\/photos\/catcomm\/albums\/72177720305718906\" data-flickr-embed=\"true\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/live.staticflickr.com\/65535\/52665675574_fa0a686ca6_b.jpg\" alt=\"Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica na Mar\u00e9 (Museu da Mar\u00e9 \/ Rede Favela Sustent\u00e1vel) 28 de janeiro de 2023\" width=\"1024\" height=\"768\" \/><\/a><script async src=\"\/\/embedr.flickr.com\/assets\/client-code.js\" charset=\"utf-8\"><\/script><\/p>\n<p><em>*A Rede Favela Sustent\u00e1vel (RFS) e o RioOnWatch s\u00e3o articulados pela Comunidades Catalisadoras (ComCat)<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<h4><b data-stringify-type=\"bold\">Apoie nossos esfor\u00e7os para fornecer apoio estrat\u00e9gico \u00e0s favelas do Rio, incluindo o jornalismo hiperlocal, cr\u00edtico, inovador e incans\u00e1vel do\u00a0<\/b><b data-stringify-type=\"bold\"><i data-stringify-type=\"italic\">RioOnWatch<\/i><\/b>\u2014<a class=\"c-link\" href=\"http:\/\/www.bit.ly\/ApoieROW\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-stringify-link=\"http:\/\/www.bit.ly\/ApoieROW\" data-sk=\"tooltip_parent\">doe aqui<\/a>.<\/h4>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Click Here for English No dia 17 de junho de 2023, ser\u00e1 realizado o lan\u00e7amento da Exposi\u00e7\u00e3o de Mem\u00f3ria Clim\u00e1tica da Rede Favela Sustent\u00e1vel (RFS)*. 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