{"id":7404,"date":"2013-08-28T09:48:22","date_gmt":"2013-08-28T12:48:22","guid":{"rendered":"http:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=7404"},"modified":"2016-12-22T23:14:10","modified_gmt":"2016-12-23T02:14:10","slug":"morro-do-tuiuti-o-morro-que-conta-a-historia-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=7404","title":{"rendered":"Morro do Tuiuti: O Morro que Conta a Hist\u00f3ria do Rio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong><a href=\"http:\/\/bit.ly\/1I8WQ2q\" target=\"_blank\">Click Here for English<img decoding=\"async\" width=\"20\" height=\"20\" class=\"alignright wp-image-15790\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/EN-standard-e1439583104716.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Se os morros falassem, o Morro do Tuiuti teria muito o que dizer. Por mais de 200 anos foi testemunha de muitas das principais transforma\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e sociais no Rio de Janeiro<\/em>.<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<h3><strong>Muita hist\u00f3ria<\/strong><\/h3>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Maracana\u0303.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-thumbnail wp-image-24269\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Maracana\u0303-352x264.jpg\" alt=\"\" width=\"352\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Maracana\u0303-352x264.jpg 352w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Maracana\u0303-620x465.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Maracana\u0303-768x576.jpg 768w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Maracana\u0303-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Maracana\u0303-174x131.jpg 174w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Maracana\u0303-300x225.jpg 300w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Maracana\u0303-70x53.jpg 70w\" sizes=\"(max-width: 352px) 100vw, 352px\" \/><\/a>Quando a fam\u00edlia real portuguesa aportou no Rio em 1808 fugindo do ex\u00e9rcito de Napole\u00e3o, a cidade se transformou, da noite para o dia, de um remanso colonial adormecido em uma metr\u00f3pole imperial. A nova sede do poder passou a ser o Pal\u00e1cio Real de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, na Quinta da Boa Vista, a um passo do Morro do Tuiuti. Popularmente conhecido como a Versalhes dos Tr\u00f3picos, o pal\u00e1cio estava localizado fora dos limites da cidade. Contudo, a gradual expans\u00e3o urbana, acelerada pela inaugura\u00e7\u00e3o de uma linha de trem em 1858 e um novo sistema de bonde em 1870, trouxe o pal\u00e1cio para dentro da cidade. O car\u00e1ter aristocr\u00e1tico desse processo de instala\u00e7\u00e3o ainda hoje \u00e9 vis\u00edvel na riqueza desbotada de grande parte da arquitetura na \u00e1rea.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Tuiti_Rua-Marechal-Jardim-s.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-10847\" title=\"Rua Marechal Jardim\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Tuiti_Rua-Marechal-Jardim-s.jpg\" alt=\"\" width=\"270\" height=\"360\" \/><\/a><\/p>\n<p>Foi a curiosidade que levou Gleice Valadares, nascida e criada na favela do Tuiuti, a mergulhar nos arquivos da cidade e revelar a hist\u00f3ria do morro. Ela descobriu um mapa antigo que mostrava um reservat\u00f3rio no fim do morro e uma estrada ao lado do morro que conectava Tuiuti \u00e0 S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. Deve ter sido a fonte de \u00e1gua da \u00e1rea ao redor e presumivelmente tamb\u00e9m do Pal\u00e1cio. \u201cO morro faz parte da hist\u00f3ria, mas ningu\u00e9m liga isso \u00e0 hist\u00f3ria do morro&#8221;,\u00a0diz Gleice. Da inf\u00e2ncia ela tamb\u00e9m se lembra uma velha e grande mans\u00e3o no morro, que foi abandonada e eventualmente derrubada. Acredita que deve ter sido da mesma \u00e9poca, mas parece n\u00e3o haver registro sobre o uso que era dado \u00e0 mans\u00e3o. \u201cA gente aqui\u2026 tamb\u00e9m fazendo parte da hist\u00f3ria poderia ter preservado a hist\u00f3ria de uma forma melhor. Mas a gente tem um problema muito s\u00e9rio de mem\u00f3ria, de guardar a memoria&#8221;.<\/p>\n<p>No Rio imperial, a decad\u00eancia aristocr\u00e1tica se misturava com uma opress\u00e3o violenta sob a forma da escravid\u00e3o dom\u00e9stica. Contudo, com a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura em 1888 e a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica um ano depois, a desigualdade tomou outra forma. Antigos escravos e pobres migrantes se juntaram nos corti\u00e7os, que se tornaram not\u00f3rios como recantos de pobreza e febre amarela. Durante a primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo vinte, uma crescente preocupa\u00e7\u00e3o da elite com a sa\u00fade p\u00fablica culminou nas reformas urbanas do Prefeito Pereira Passos. Os corti\u00e7os foram destru\u00eddos e substitu\u00eddos por boulevards, pra\u00e7as e pr\u00e9dios que hoje estruturam o centro do Rio. Os assentamentos informais no Morro do Tuiuti come\u00e7aram nessa \u00e9poca e embora n\u00e3o haja registro de quem ocupou o morro primeiro, os relatos locais alegam que foram os trabalhadores que reconstru\u00edram a cidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-10838\" title=\"Dona Margarida\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Tuiti_Margarida_2s.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"259\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o foi muito tempo depois disso que Dona Margarida chegou ao Morro. Com 97 anos, ela \u00e9 um registro vivo das mudan\u00e7as que viu. \u201cCheguei aqui de Minas Gerais com minha m\u00e3e quando tinha 7 anos em 1923. Na \u00e9poca n\u00e3o tinha nada aqui, s\u00f3 grama e alguns barracos&#8221;. Alguns anos depois, Dona Margarida foi trabalhar como bab\u00e1 na casa de uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia na Lapa, viajando para o trabalho no bonde agora j\u00e1 desaparecido. Gostava do trabalho porque era bem tratada por seus patr\u00f5es e porque proporcionava a oportunidade de viajar pelo Rio e conhecer o Centro e a Zona Sul. \u201cO Rio tinha menos ruas, menos condi\u00e7\u00f5es&#8221;, relembra, \u201cera perigoso, mas n\u00e3o tanto como hoje&#8221;. J\u00e1 era um lugar interessante. Nos anos 20 e 30 o samba estava come\u00e7ando a se desenvolver e ela se lembra que frequentava festas de samba no morro vizinho da Mangueira, onde ouvia m\u00fasicos legend\u00e1rios como Cartola e Jamel\u00e3o.<\/p>\n<h3><strong>Ind\u00fastria e a quest\u00e3o de moradia<\/strong><\/h3>\n<p>J\u00e1 em 1890, depois da queda da monarquia, S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o come\u00e7ou a perder seu toque aristocr\u00e1tico. Cariocas ricos come\u00e7aram a optar pelas \u00e1reas costeiras da Zona Sul. Por causa das boas conex\u00f5es de transporte, pr\u00e9dios fortes e a proximidade do porto, S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o virou a localidade ideal para o emergente setor industrial do Rio. Conforme inumer\u00e1veis f\u00e1bricas e oficinas iam surgindo, o \u2018Bairro Imperial\u2019 se tornou o \u2018Bairro Industrial\u2019. Os moradores do Tuiuti aproveitaram a abund\u00e2ncia de oportunidades de emprego. Quando tinha por volta de 20 anos, Dona Margarida come\u00e7ou a trabalhar em uma f\u00e1brica de bebidas. \u201cEu empilhava as caixas de cacha\u00e7a dia e noite, mas nunca bebi nada&#8221;, ela ri. Era trabalho pesado, mas era est\u00e1vel e pagava o suficiente para se viver. Ela passou grande parte de sua vida profissional na mesma empresa.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Tuiti_Minhocao-s.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-10836\" title=\"Minhoc\u00e3o\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Tuiti_Minhocao-s.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"219\" \/><\/a><\/p>\n<p>A industrializa\u00e7\u00e3o do Rio e a imigra\u00e7\u00e3o que isso atra\u00eda instigou um enorme crescimento populacional entre 1940 e 1960, produzindo uma enorme crise de moradia. No come\u00e7o deste processo, um breve e ambicioso programa de constru\u00e7\u00e3o de moradias lan\u00e7ado em 1946, o Minhoc\u00e3o, tinha como objetivo construir habita\u00e7\u00f5es para funcion\u00e1rios p\u00fablicos de baixa renda e acabou deixando sua marca no Morro do Tuiuti. Projetado pelo famoso arquiteto Affonso Reidy e incluindo uma escola e instala\u00e7\u00f5es de lazer, o projeto \u00e9 largamente visto como o momento alto da provis\u00e3o de moradias p\u00fablicas do s\u00e9culo 20. Duas d\u00e9cadas mais tarde, com agravamento da crise, o regime militar do Brasil adotou uma abordagem diferente para o problema de moradia. \u00c1reas centrais seriam liberadas para a valoriza\u00e7\u00e3o da terra atrav\u00e9s de uma campanha brutal de remo\u00e7\u00f5es das favelas. Tuiuti foi poupado por causa da terra barata de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o de eixo industrial. Do outro lado dos trilhos do trem, na \u00e1rea mais rica da Tijuca, a Favela do Esqueleto n\u00e3o teve a mesma sorte. Foi removida para ceder espa\u00e7o para a UERJ.<\/p>\n<p>A longa estabilidade econ\u00f4mica que protegeu a \u00e1rea da agita\u00e7\u00e3o infligida em outras partes da cidade foi abalada no come\u00e7o da d\u00e9cada de 80 quando se iniciou no Brasil um demorado per\u00edodo de crise econ\u00f4mica. Muitos moradores do Tuiuti perderam seus empregos na ind\u00fastria e no setor p\u00fablico e ingressaram em trabalhos de servi\u00e7o menos seguros ou no setor informal. Neste contexto de dificuldades econ\u00f4micas e altas taxas de desemprego, um novo problema apareceu. O Tuiuti entrou em uma din\u00e2mica de conflito territorial que se espalhava por toda cidade e envolvia disputas entre quadrilhas de tr\u00e1fico de drogas e os confrontos com a\u00a0pol\u00edcia militar. \u201cSofremos muito&#8221;, diz Gleice que cresceu durante a \u00e9poca. Assim como em outras favelas, os moradores tinham que viver com a domin\u00e2ncia dos traficantes de drogas, invas\u00f5es peri\u00f3dicas pela pol\u00edcia e cont\u00ednua viol\u00eancia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/rioonwatch.org\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Tuiti_Favela-Bairro-s.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-10842\" title=\"&quot;Favela-Bairro&quot; Pra\u00e7a do Tuiuti\" src=\"http:\/\/rioonwatch.org\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/Tuiti_Favela-Bairro-s.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"270\" \/><\/a>Apesar do tumulto econ\u00f4mico e social da \u00e9poca, a qualidade das moradias no Tuiuti j\u00e1 era incompar\u00e1vel com os barracos de madeira da inf\u00e2ncia de Dona Margarida. Gera\u00e7\u00f5es ap\u00f3s gera\u00e7\u00f5es, meticulosamente, os moradores melhoraram e expandiram suas casas, primeiro reconstruindo-as com tijolos e depois adicionando andares. As melhorias na favela foram completadas com a chegada tardia do estado nos anos 90, trazendo ruas pavimentadas, um sistema de drenagem e espa\u00e7os p\u00fablicos paisag\u00edsticos. At\u00e9 hoje os moradores chamam a \u00e1rea central do Tuiuti, um p\u00e1tio de onde se tem uma vista espetacular da Zona Norte do Rio, de \u2018Favela Bairro\u2019 em homenagem ao programa do governo que possibilitou a constru\u00e7\u00e3o da \u00e1rea.<\/p>\n<div>\n<h3><strong>Ainda de p\u00e9<\/strong><\/h3>\n<p>Como sempre, Tuiuti hoje est\u00e1 no centro das mudan\u00e7as que est\u00e3o correndo no Rio. A comunidade recebeu uma <a href=\"http:\/\/bit.ly\/R5ueio\" target=\"_blank\">UPP<\/a> junto com a comunidade vizinha da Mangueira em novembro de 2011. Embora tenha havido algumas dificuldades, incluindo um duplo homic\u00eddio e o roubo da arma de um oficial da UPP este ano, a maioria dos moradores parece ter uma opini\u00e3o positiva sobre a pacifica\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, est\u00e3o menos entusiasmados com algumas das mudan\u00e7as que seguiram a pacifica\u00e7\u00e3o. A Light acabou de fazer sua entrada na comunidade, mas vem pressionando os or\u00e7amentos familiares. Enquanto isso, v\u00e1rios servi\u00e7os b\u00e1sicos continuam sendo de m\u00e1 qualidade e praticamente n\u00e3o h\u00e1 atividades educacionais ou de lazer para crian\u00e7as e jovens na \u00e1rea. Tuiuti parece sintetizar muitas frustra\u00e7\u00f5es que levaram <a href=\"http:\/\/bit.ly\/12hqS0g\" target=\"_blank\">milhares \u00e0s ruas do Rio<\/a> em junho. Pela primeira vez em mais de um s\u00e9culo, o valor dos terrenos em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o tem subido rapidamente e os moradores do Tuiuti t\u00eam uma vista para o novo Maracan\u00e3. Contudo, se o \u2018Bairro Imperial\u2019 est\u00e1 recuperando sua coroa, os moradores n\u00e3o se sentem mais ricos.<\/p>\n<\/div>\n<p>Aconte\u00e7a o que acontecer, Dona Margarida est\u00e1 feliz no morro que ela considera sua casa h\u00e1 90 anos. \u201cOutro dia eu estava pensando que j\u00e1 subi e desci este morro tantas vezes\u201d. Mas valeu a pena. \u201c\u00c9 um bom lugar. \u00c9 um morro que sabe receber as pessoas, e nunca ficamos desesperados, gra\u00e7as a Deus&#8221;. Mesmo com tudo que a vida j\u00e1 a atirou, Dona Margarida, assim como o morro, ainda est\u00e3o de p\u00e9.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Click Here for English Se os morros falassem, o Morro do Tuiuti teria muito o que dizer. 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