{"id":83277,"date":"2026-08-31T04:16:00","date_gmt":"2026-08-31T07:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=83277"},"modified":"2026-09-06T04:51:11","modified_gmt":"2026-09-06T07:51:11","slug":"eu-voltei-a-morar-em-favela-pra-nao-morrer-de-fome-no-condominio-um-relato-etnografico-sobre-a-experiencia-do-reassentamento-olimpico-no-parque-carioca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=83277","title":{"rendered":"&#8216;Eu Voltei a Morar em Favela Pra N\u00e3o Morrer de Fome no Condom\u00ednio&#8217;: Um Relato Etnogr\u00e1fico Sobre a Experi\u00eancia do Reassentamento Ol\u00edmpico no Parque Carioca"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_83286\" aria-describedby=\"caption-attachment-83286\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Parque-Carioca-10-Anos-Apos-as-Olimpiadas.-Foto-Barbara-Dias.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-83286 size-full\" title=\"Parque Carioca 10 Anos Ap\u00f3s as Olimp\u00edadas. Foto: B\u00e1rbara Dias\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Parque-Carioca-10-Anos-Apos-as-Olimpiadas.-Foto-Barbara-Dias.jpg\" alt=\"Parque Carioca 10 Anos Ap\u00f3s as Olimp\u00edadas. Foto: B\u00e1rbara Dias\" width=\"2048\" height=\"1367\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Parque-Carioca-10-Anos-Apos-as-Olimpiadas.-Foto-Barbara-Dias.jpg 2048w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Parque-Carioca-10-Anos-Apos-as-Olimpiadas.-Foto-Barbara-Dias-620x414.jpg 620w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Parque-Carioca-10-Anos-Apos-as-Olimpiadas.-Foto-Barbara-Dias-768x513.jpg 768w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Parque-Carioca-10-Anos-Apos-as-Olimpiadas.-Foto-Barbara-Dias-1536x1025.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-83286\" class=\"wp-caption-text\">Parque Carioca 10 Anos Ap\u00f3s as Olimp\u00edadas. Foto: B\u00e1rbara Dias<\/figcaption><\/figure>\n<p dir=\"auto\" data-pm-slice=\"1 1 []\"><i><em>Esta mat\u00e9ria faz parte da nossa s\u00e9rie que reflete sobre os impactos dos megaeventos no Rio de Janeiro\u00a0<a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?cat=2051\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">10 anos ap\u00f3s os Jogos Ol\u00edmpicos Rio2016<\/a>.<\/em>\u00a0Foi<\/i><em>\u00a0realizada em parceria entre o RioOnWatch e o\u00a0<a href=\"https:\/\/bit.ly\/3RGLa52\" rel=\"noopener\">Grupo CASA: Estudos Sociais Sobre Moradia e Cidade<\/a>, sediado no\u00a0<a href=\"https:\/\/bit.ly\/433VRRM\" rel=\"noopener\">IESP<\/a>. A s\u00e9rie integra um projeto de extens\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/bit.ly\/2KQx9xm\" rel=\"noopener\">UERJ<\/a>\u00a0e inaugura seu esfor\u00e7o de divulgar, para um p\u00fablico amplo, os resultados de pesquisas acad\u00eamicas realizadas por pesquisadores da rede do Grupo CASA. Com essa colabora\u00e7\u00e3o, o grupo espera constituir um arquivo por meio do qual possa seguir monitorando de modo cr\u00edtico a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas na regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro.<\/em><\/p>\n<p dir=\"auto\" data-pm-slice=\"1 1 []\"><em>A partir de uma pesquisa etnogr\u00e1fica realizada ao longo de anos pela antrop\u00f3loga Daniela Petti, que culminou em sua tese de doutorado <a href=\"https:\/\/bit.ly\/4cslHUx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Economia na Vida Cotidiana: entre casas, valores e fam\u00edlias<\/a>, esta mat\u00e9ria acompanha as transforma\u00e7\u00f5es na vida de moradores do Parque Carioca dez anos ap\u00f3s \u00e0 remo\u00e7\u00e3o da Vila Aut\u00f3dromo: como t\u00eam reconstru\u00eddo suas vidas em um territ\u00f3rio verticalizado, pela circula\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias de diferentes locais de origem e pela press\u00e3o imobili\u00e1ria. Alguns encontraram no reassentamento uma oportunidade de reorganizar a vida e estruturas familiares, outros enfrentaram o aumento dos custos habitacionais, a perda de atividades econ\u00f4micas realizadas dentro de casa e o enfraquecimento de antigos v\u00ednculos comunit\u00e1rios. A experi\u00eancia de mais de dez anos do condom\u00ednio do <span style=\"font-weight: 400;\">Minha Casa Minha Vida (<a href=\"https:\/\/bit.ly\/2wYPD6w\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">MCMV<\/a>)<\/span> mostra que a mudan\u00e7a para um apartamento n\u00e3o representa, por si s\u00f3, uma trajet\u00f3ria de ascens\u00e3o social, tampouco uma vida melhor. A partir da trajet\u00f3ria de Arlinda, a mat\u00e9ria revela contradi\u00e7\u00f5es que atravessam a vida de centenas de fam\u00edlias removidas da Vila Aut\u00f3dromo no contexto das remo\u00e7\u00f5es pr\u00e9-ol\u00edmpicas.<\/em><\/p>\n<h3 dir=\"auto\">&#8216;Eu Voltei a Morar em Favela pra N\u00e3o Morrer de Fome no Condom\u00ednio&#8217;<\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Arlinda*, 45 anos, veio da Para\u00edba para o Rio de Janeiro e morou em alguns bairros da <a href=\"https:\/\/bit.ly\/32JVvht\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Baixada Fluminense<\/a> at\u00e9 se instalar na comunidade <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3lHVbww\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vila Aut\u00f3dromo<\/a>, na <a href=\"https:\/\/bit.ly\/4rk7XAM\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zona Sudoeste<\/a>, no final dos anos 1990. L\u00e1, viveu com seus tr\u00eas filhos, seu ent\u00e3o marido e sogro por mais de 15 anos. No terreno que pertencia a seu sogro, o casal construiu uma casa. O an\u00fancio da remo\u00e7\u00e3o da favela em 2012 provocou in\u00fameras negocia\u00e7\u00f5es familiares. Apesar de morar sob o mesmo teto do pai de seus filhos, o casamento de Arlinda j\u00e1 havia terminado na pr\u00e1tica. As negocia\u00e7\u00f5es com a Prefeitura em torno das indeniza\u00e7\u00f5es em dinheiro e das unidades habitacionais do Minha Casa Minha Vida vieram acompanhadas por rearranjos familiares, \u00e0 medida que parentes que residiam na mesma casa ou no mesmo quintal (configura\u00e7\u00e3o de moradia muito comum na Vila) tiveram que decidir como distribuir as indeniza\u00e7\u00f5es entre todos. No caso de muitas mulheres, essas negocia\u00e7\u00f5es foram decisivas. Assim como Arlinda, outras mulheres da Vila Aut\u00f3dromo j\u00e1 haviam rompido o matrim\u00f4nio com seus esposos, mas seguiam vivendo nas mesmas casas e quintais familiares, ao se verem sem condi\u00e7\u00f5es de se mudarem. Nesses casos, os casais dividiam as indeniza\u00e7\u00f5es (dinheiro e\/ou apartamentos), de forma a efetivar a separa\u00e7\u00e3o de casas. A remo\u00e7\u00e3o acabou se tornando uma oportunidade para a constitui\u00e7\u00e3o da autonomia residencial destas mulheres. Arlinda foi indenizada com uma unidade habitacional e seu ex-marido recebeu outra. Ambas no <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3fQJyxU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Parque Carioca<\/a>, condom\u00ednio do MCMV, destino da maior parte dos moradores da Vila Aut\u00f3dromo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu n\u00e3o conheci Arlinda no <a href=\"https:\/\/bit.ly\/4lOlv3Q\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">per\u00edodo das remo\u00e7\u00f5es<\/a>. Nessa \u00e9poca, eu participava da resist\u00eancia popular contra essa interven\u00e7\u00e3o urbana. Assim como v\u00e1rios outros moradores, Arlinda n\u00e3o se somou \u00e0 luta e aceitou o reassentamento. Ela me contou sua hist\u00f3ria quando aluguei uma unidade habitacional no Parque Carioca para realizar minha pesquisa de mestrado. O objetivo da pesquisa foi compreender a experi\u00eancia do reassentamento. Anos depois, no doutorado, aluguei um quarto dentro de um apartamento de outra moradora, dessa vez para compreender a economia na vida cotidiana em um contexto de crise decorrente da <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2xOpNGB\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pandemia de Covid-19<\/a>. Minha hist\u00f3ria com o Parque Carioca se iniciou em 2019, quando me instalei l\u00e1 pela primeira vez e se estende at\u00e9 os dias de hoje, j\u00e1 que mesmo tendo defendido a tese de doutorado, sigo frequentando o local, devido \u00e0s amizades que cultivei. Por isso, me aproveito dessa experi\u00eancia de longa dura\u00e7\u00e3o de pesquisa na localidade para dar um salto no tempo e transportar o leitor para o ano de 2021, cinco anos depois do reassentamento de Arlinda no condom\u00ednio em quest\u00e3o. Espero com esse relato apresentar uma perspectiva etnogr\u00e1fica sobre essa localidade em seus pouco mais de dez anos de vida.<\/span><\/p>\n<p>Era o segundo ano de pandemia e Arlinda passava um \u201csufoco\u201d em casa. Ela <a href=\"https:\/\/bit.ly\/3eC1pYX\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">parou de vender doces na rua<\/a> com o in\u00edcio da pandemia e cumpriu estritamente o isolamento social durante o ano de 2020. Recebeu o Aux\u00edlio Emergencial do governo por alguns meses e depois desse per\u00edodo come\u00e7ou a vender comida na praia. A flexibiliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de isolamento em 2021 permitiu voltar a trabalhar. Apesar da renda que fazia na praia, que caiu consideravelmente depois do ver\u00e3o, seguia enfrentando muitas dificuldades para pagar as contas e manter a casa. Cogitava voltar a morar em favela, onde n\u00e3o teria mais que pagar tantas contas, como no condom\u00ednio. No Parque Carioca, os moradores passaram a pagar in\u00fameras taxas: conta de luz, conta de g\u00e1s, taxa condominial, taxa de inc\u00eandio, <a href=\"http:\/\/bit.ly\/2v3ZPIi\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">IPTU<\/a>, al\u00e9m de tarifas extras relativas ao condom\u00ednio e at\u00e9 mesmo ao crime organizado. Conciliar os gastos com a alimenta\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e o pagamento de todas essas taxas era um desafio desde a mudan\u00e7a para o condom\u00ednio, mas na pandemia isso havia se tornado uma tarefa \u00e1rdua. Pensava em locar seu apartamento para algu\u00e9m e com esse dinheiro alugar uma quitinete barata para sua fam\u00edlia em uma favela pr\u00f3xima, onde teria que se preocupar apenas com a alimenta\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o com outras contas.<\/p>\n<p>Arlinda n\u00e3o foi a \u00fanica no Parque Carioca a passar dificuldades financeiras durante a pandemia. De acordo com uma pesquisa que realizei no lote tr\u00eas do condom\u00ednio no ano de 2022, 52% dos moradores entrevistados perderam o trabalho desde o in\u00edcio da pandemia. Al\u00e9m disso, 58% desses alegaram ter enfrentado dificuldades para comprar comida nesse per\u00edodo, enquanto 40% disseram n\u00e3o conseguir pagar as contas do condom\u00ednio em dia. O n\u00edvel de endividamento das fam\u00edlias tamb\u00e9m \u00e9 alto. Dos entrevistados, 59% est\u00e3o endividados, sendo que 34% dessas d\u00edvidas se referem ao pagamento de servi\u00e7os b\u00e1sicos, a exemplo das contas mencionadas anteriormente. O reassentamento provocou n\u00e3o apenas uma reconfigura\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, como tamb\u00e9m econ\u00f4mica. Muitos moradores que possu\u00edam estabelecimentos comerciais em suas casas na favela tiveram que se reinventar com o reassentamento. A restri\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o no apartamento os obrigou a buscar novas formas de trabalho. A parte da renda familiar destinada aos custos habitacionais aumentou, declinando o bem-estar das fam\u00edlias, ao prejudicar atividades vitais como a alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico aspecto da experi\u00eancia do reassentamento. A verticaliza\u00e7\u00e3o da moradia impactou as rela\u00e7\u00f5es sociais. Como visto na <a href=\"https:\/\/bit.ly\/4xnWbbC\">entrevista com Concei\u00e7\u00e3o Queiroz<\/a>\u00a0nessa mesma s\u00e9rie de textos, o reassentamento afetou as rela\u00e7\u00f5es vicinais a ponto de fraturar o que a moradora chamou de \u201cgrande fam\u00edlia da Vila Aut\u00f3dromo\u201d. O Parque Carioca recebeu fam\u00edlias removidas de diferentes comunidades da cidade. A maior parte das fam\u00edlias veio da Vila Aut\u00f3dromo. Entretanto, h\u00e1 tamb\u00e9m muitas oriundas de outras comunidades da <a href=\"https:\/\/bit.ly\/47yGIJv\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Curicica<\/a>, na Zona Sudoeste, bem como da <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2ETpYR1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Zona Norte<\/a> do Rio. Outra caracter\u00edstica do condom\u00ednio \u00e9 a alta circula\u00e7\u00e3o de moradores decorrente dos mercados imobili\u00e1rios de unidades habitacionais que, normalmente, se formam em empreendimentos do MCMV. Sua localiza\u00e7\u00e3o em \u00e1rea de plena <a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?tag=especulacao-imobiliaria\">valoriza\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria<\/a> intensifica a procura pelos apartamentos. A composi\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias de diferentes origens territoriais, assim como a alta circula\u00e7\u00e3o de pessoas, produz nos moradores uma sensa\u00e7\u00e3o de que \u201caqui tem muita gente estranha, que a gente n\u00e3o conhece\u201d, como muitos relatam.<\/p>\n<figure id=\"attachment_83287\" aria-describedby=\"caption-attachment-83287\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Verticalizacao-do-Parque-Carioca.-Foto-Barbara-Dias.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-83287\" title=\"Verticaliza\u00e7\u00e3o do Parque Carioca. Foto: B\u00e1rbara Dias\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Verticalizacao-do-Parque-Carioca.-Foto-Barbara-Dias-414x620.jpg\" alt=\"Verticaliza\u00e7\u00e3o do Parque Carioca. Foto: B\u00e1rbara Dias\" width=\"500\" height=\"749\" srcset=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Verticalizacao-do-Parque-Carioca.-Foto-Barbara-Dias-414x620.jpg 414w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Verticalizacao-do-Parque-Carioca.-Foto-Barbara-Dias-1001x1500.jpg 1001w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Verticalizacao-do-Parque-Carioca.-Foto-Barbara-Dias-768x1151.jpg 768w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Verticalizacao-do-Parque-Carioca.-Foto-Barbara-Dias-1025x1536.jpg 1025w, https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Verticalizacao-do-Parque-Carioca.-Foto-Barbara-Dias.jpg 1367w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-83287\" class=\"wp-caption-text\">Parque Carioca, moradia verticalizada. Foto: B\u00e1rbara Dias<\/figcaption><\/figure>\n<p>A individualiza\u00e7\u00e3o produzida pela verticaliza\u00e7\u00e3o da moradia, junto \u00e0 composi\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias de diferentes origens territoriais, somada \u00e0 alta circula\u00e7\u00e3o de pessoas envolvidas nos mercados imobili\u00e1rios, cria certo anonimato que penetra, em alguma medida, as rela\u00e7\u00f5es sociais. Ainda assim, \u00e9 poss\u00edvel notar que os moradores seguem fazendo e refazendo os v\u00ednculos sociais legados da comunidade de origem a fim de seguir vivendo em um novo contexto habitacional. Apesar dos impactos da verticaliza\u00e7\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es vicinais, as ruas do condom\u00ednio funcionam como espa\u00e7os onde todos se encontram, conversam, rememoram a favela, trocam, se ajudam e seguem cultivando v\u00ednculos sociais que lhes proporcionam seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ressignificarem cotidianamente os espa\u00e7os p\u00fablicos do condom\u00ednio, diversos moradores modificaram suas unidades habitacionais conforme seus desejos, a fim de se adaptarem a essa nova configura\u00e7\u00e3o de moradia. Muitos trocaram os pisos, as portas e realizaram reformas profundas na infraestrutura dos apartamentos. Outros apenas investiram em pintura e decora\u00e7\u00e3o. E h\u00e1 tamb\u00e9m quem tenha convertido c\u00f4modos dos apartamentos em estabelecimentos comerciais, como, por exemplo, as varandas que se tornaram mercearias em unidades do primeiro andar. \u00c9 difundido na literatura antropol\u00f3gica sobre casas e modos de habitar que as transforma\u00e7\u00f5es residenciais acompanham mudan\u00e7as subjetivas.<\/p>\n<p>O reassentamento no Parque Carioca foi mais um epis\u00f3dio nas trajet\u00f3rias residenciais de fam\u00edlias que s\u00e3o, historicamente, expostas a vulnerabilidades em suas experi\u00eancias habitacionais. A sa\u00edda da favela \u00e9 narrada por muitos como mais uma remo\u00e7\u00e3o e mais um deslocamento dentre outros pelos quais suas fam\u00edlias j\u00e1 passaram. Esses deslocamentos urbanos afetam os planos e os desejos dos sujeitos, assim como provocam rearranjos familiares, tais como as separa\u00e7\u00f5es de casais narradas no in\u00edcio do texto. A chegada ao condom\u00ednio, um lugar \u201cestranho\u201d em face do \u201cfamiliar\u201d que representa a comunidade, suscitou esfor\u00e7os de adapta\u00e7\u00e3o a essa nova realidade. A reforma das casas consiste em um recurso material dotado de sentidos subjetivos, que expressam como as pessoas seguem atribuindo significados a seus espa\u00e7os de moradia a fim de viver uma vida desej\u00e1vel e de acordo com seus planos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/bit.ly\/2Xgzmbx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Se sentir em casa<\/a> ap\u00f3s um reassentamento n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil. Esse evento transformou espa\u00e7os, subjetividades e tamb\u00e9m as configura\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas da vida dom\u00e9stica. A remo\u00e7\u00e3o da favela e o reassentamento no condom\u00ednio s\u00e3o fen\u00f4menos urbanos complexos, que podem ser vividos de muitos modos e resultar em experi\u00eancias marcadas por ambival\u00eancias. Muitas fam\u00edlias se recusaram a sair da Vila Aut\u00f3dromo e algumas <a href=\"https:\/\/bit.ly\/2aWmvRL\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">conquistaram a perman\u00eancia naquela terra<\/a>, por meio da luta pelo direito \u00e0 moradia.<\/p>\n<p>Outras fam\u00edlias que conheci viram na remo\u00e7\u00e3o uma oportunidade de melhorar de vida com a aquisi\u00e7\u00e3o de unidades habitacionais e indeniza\u00e7\u00f5es em dinheiro. Registrei na pesquisa in\u00fameras tentativas de maximiza\u00e7\u00e3o das indeniza\u00e7\u00f5es, como, por exemplo, a cria\u00e7\u00e3o de novas unidades habitacionais por meio de obras e transforma\u00e7\u00f5es espaciais realizadas por seus moradores nas casas a serem demolidas na Vila Aut\u00f3dromo. Casas maiores e mais unidades renderiam maiores indeniza\u00e7\u00f5es. Alguns refizeram suas vidas com as indeniza\u00e7\u00f5es, outros se arrependeram de ter negociado com a Prefeitura e deixado a comunidade. Como foi dito, muitas mulheres puderam afirmar sua autonomia residencial longe do dom\u00ednio de seus ex-esposos. H\u00e1 quem tenha gostado de se mudar para o condom\u00ednio e tamb\u00e9m quem sinta falta da favela. Muitas vezes, todas essas sensa\u00e7\u00f5es se misturam em uma mesma experi\u00eancia. O fen\u00f4meno, al\u00e9m de ser complexo, provocou muitos caminhos. Para al\u00e9m dos moradores que se instalaram no Parque Carioca, outros utilizaram o dinheiro das indeniza\u00e7\u00f5es para construir ou comprar casas em outros locais da cidade. Alguns moraram por um tempo no condom\u00ednio e depois tiveram que deixar o local. Esse \u00e9 o caso de Arlinda.<\/p>\n<p>Em 2022, ela tomou a decis\u00e3o de deixar o condom\u00ednio e voltar a morar em favela. Assim como outras pessoas, Arlinda n\u00e3o suportou os altos custos habitacionais, que se somaram \u00e0 crise econ\u00f4mica e \u00e0 alta infla\u00e7\u00e3o que acometeram o Brasil durante a pandemia. Insatisfeita por deixar o apartamento que era seu por direito, Arlinda se mudou para uma favela pr\u00f3xima dali. Vendeu seu apartamento e comprou uma quitinete em um local onde ela pode direcionar grande parte de seus ganhos para a alimenta\u00e7\u00e3o de sua fam\u00edlia. Sente falta do condom\u00ednio, pois entende que l\u00e1 vivia com mais \u201cdignidade\u201d, por se tratar de um espa\u00e7o mais organizado do que a favela. Apesar disso, deixar o condom\u00ednio e voltar a morar em favela foi o caminho que encontrou para viver melhor. Como ela mesma me disse:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEu voltei a morar em favela pra n\u00e3o morrer de fome no condom\u00ednio.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_83288\" aria-describedby=\"caption-attachment-83288\" style=\"width: 2048px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Parque-Carioca-foi-construido-em-uma-area-valorizada-com-grande-pressao-imobiliaria.-Foto-Barbara-Dias.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-83288 size-full\" title=\"Parque Carioca foi constru\u00eddo em uma \u00e1rea valorizada, com grande press\u00e3o imobili\u00e1ria. Foto: B\u00e1rbara Dias\" src=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Parque-Carioca-foi-construido-em-uma-area-valorizada-com-grande-pressao-imobiliaria.-Foto-Barbara-Dias.jpg\" alt=\"Parque Carioca foi constru\u00eddo em uma \u00e1rea valorizada, com grande press\u00e3o imobili\u00e1ria. 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Foto: B\u00e1rbara Dias<\/figcaption><\/figure>\n<p>O MCMV foi respons\u00e1vel pela verticaliza\u00e7\u00e3o da moradia popular, promovida por pol\u00edticas p\u00fablicas de produ\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o de interesse social no Brasil. A t\u00f4nica do programa e dos agentes estatais que o promovem imprime nos apartamentos um horizonte de ascens\u00e3o social. A verticaliza\u00e7\u00e3o da moradia, a nucleariza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias e a reconfigura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es vicinais operada por esses processos expressam formas de resid\u00eancia entendidas nessa perspectiva como superiores \u00e0s constitu\u00eddas na favela.<\/p>\n<p>Portanto, a experi\u00eancia de Arlinda n\u00e3o expressa uma trajet\u00f3ria de ascens\u00e3o social e denuncia as ilus\u00f5es e as falhas da pol\u00edtica habitacional. <a href=\"https:\/\/comcat.org\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Favela-vs.-Asphalt-in-Comparative-Approaches-to-Informal-Housing-Around-the-Globe.pdf\">Favela e condom\u00ednio n\u00e3o figuram como lados opostos<\/a> de uma linha evolutiva, segundo este racioc\u00ednio de certas pol\u00edticas p\u00fablicas. As linhas de continuidade entre ambos se expressam em uma s\u00e9rie de vulnerabilidades \u00e0s quais os moradores seguem expostos ap\u00f3s o reassentamento. Al\u00e9m dos fatores de produ\u00e7\u00e3o de risco e vulnerabilidade j\u00e1 mencionados nesse texto, me refiro a condi\u00e7\u00f5es como a inseguran\u00e7a jur\u00eddica do im\u00f3vel, j\u00e1 que muitos moradores ainda n\u00e3o receberam o documento definitivo do apartamento, e ao fato de que o condom\u00ednio se tornou um territ\u00f3rio de disputa entre agentes do crime organizado. Tanto traficantes como milicianos se fazem presentes no local, operando pr\u00e1ticas de restri\u00e7\u00e3o de liberdade e confrontos violentos.<\/p>\n<p>Creio que esse relato etnogr\u00e1fico sobre a remo\u00e7\u00e3o da Vila Aut\u00f3dromo e o reassentamento no Parque Carioca tenha demonstrado a import\u00e2ncia de pensar as pol\u00edticas habitacionais a partir de quest\u00f5es mais amplas, como a economia, as rela\u00e7\u00f5es sociais e as subjetividades. O entrecruzamento da pol\u00edtica de remo\u00e7\u00e3o de favelas com o MCMV no contexto do Rio Ol\u00edmpico redirecionou o caminho de muitas pessoas e alterou seus modos de vida. Em torno de 700 fam\u00edlias foram removidas da Vila Aut\u00f3dromo e a escala desse n\u00famero corresponde \u00e0 diversidade de formas de se viver a experi\u00eancia do reassentamento. Esse relato de pesquisa buscou dar visibilidade a outros pontos de vista sobre essa experi\u00eancia que complementem o que vem sendo dito h\u00e1 anos sobre o tema.<\/p>\n<p><em>*Arlinda <\/em><em>\u00e9 um pseud\u00f4nimo escolhido para preservar a identidade da entrevistada.<\/em><\/p>\n<p><em>Sobre a autora: Daniela Petti \u00e9 graduada em Ci\u00eancias Sociais pela Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, mestre em Sociologia (com concentra\u00e7\u00e3o em Antropologia) pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora em Antropologia Social pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social (PPGAS) do Museu Nacional da UFRJ, al\u00e9m de tamb\u00e9m ser doutora em Sociologia pela Escola Interdisciplinar de Altos Estudos Sociais (IDAES) da Universidade de San Mart\u00edn (UNSAN) na Argentina. Realiza pesquisas etnogr\u00e1ficas a respeito de moradia popular, movimentos sociais urbanos, casas, valores e economia na vida cotidiana.<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<h4><b data-stringify-type=\"bold\">Apoie nossos esfor\u00e7os para fornecer apoio estrat\u00e9gico \u00e0s favelas do Rio, incluindo o jornalismo hiperlocal, cr\u00edtico, inovador e incans\u00e1vel do\u00a0<\/b><b data-stringify-type=\"bold\"><i data-stringify-type=\"italic\">RioOnWatch<\/i><\/b>\u2014<a class=\"c-link\" href=\"http:\/\/www.bit.ly\/ApoieROW\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-stringify-link=\"http:\/\/www.bit.ly\/ApoieROW\" data-sk=\"tooltip_parent\">doe aqui<\/a>.<\/h4>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Esta mat\u00e9ria faz parte da nossa s\u00e9rie que reflete sobre os impactos dos megaeventos no Rio de Janeiro\u00a010 anos ap\u00f3s os Jogos Ol\u00edmpicos Rio2016.\u00a0Foi\u00a0realizada em parceria entre o RioOnWatch e o\u00a0Grupo CASA: Estudos Sociais Sobre <a class=\"mh-excerpt-more\" href=\"https:\/\/rioonwatch.org.br\/?p=83277\" title=\"&#8216;Eu Voltei a Morar em Favela Pra N\u00e3o Morrer de Fome no Condom\u00ednio&#8217;: Um Relato Etnogr\u00e1fico Sobre a Experi\u00eancia do Reassentamento Ol\u00edmpico no Parque Carioca\">[&#8230;]<\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":167,"featured_media":83286,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"template-full.php","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1614,2051,1635,1631,1626],"tags":[959,1917,813,2748,446,396,3681,1040,722,246,680,588,14,2588,578,55,218,3616],"writer":[3711],"translator":[],"source":[],"ilustrador":[],"fotografo":[],"class_list":{"0":"post-83277","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-olhonasremocoes","8":"category-olhonolegado","9":"category-1635","10":"category-entendendo-o-rio","11":"category-por-observadores-internacionais","12":"tag-baixada-fluminense","13":"tag-comunidade-x-academia","14":"tag-condominios-fechados","15":"tag-coronavirus","16":"tag-curicica","17":"tag-especulacao-imobiliaria","18":"tag-habitacao-social","19":"tag-iptu","20":"tag-legado","21":"tag-minha-casa-minha-vida","22":"tag-parque-carioca","23":"tag-pesquisa","24":"tag-remocao","25":"tag-resultados-da-pesquisa","26":"tag-trabalho-e-renda","27":"tag-vila-autodromo","28":"tag-zona-norte","29":"tag-zona-sudoeste","30":"writer-daniela-petti"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v25.6 - 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