
Desde 2022, 30 de março foi instituído pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional do Resíduo Zero, uma data que chama atenção para a gestão sustentável de resíduos diante da alarmante crise ambiental causada pela superprodução de lixo, que, globalmente, alcança 2,3 bilhões de toneladas por ano, podendo chegar a 3,8 bilhões até 2050. Em 2025, a ONU conclama o mundo a se conscientizar sobre os impactos socioambientais do lixo, com foco do ano sendo no setor da moda.
Assim sendo, o RioOnWatch conversou com Isanete Bernardo da Silva, artesã de Acari, favela da Zona Norte do Rio de Janeiro, que desenvolve roupas e outros objetos, com materiais reutilizados, mitigando a produção excessiva de lixo e promovendo a moda sustentável em sua comunidade. Com orgulho afirma que escolheu “transformar o lixo em matérias-primas” como uma de suas missões de vida.

Dona Nete: Vanguarda da Moda Sustentável
Isanete, melhor conhecida como Nete, nos encontrou em frente ao Hospital de Acari. Caminhamos pelas ruas em direção ao Espaço Faveleira, onde a artesã nos apresentou suas últimas confecções de roupas e acessórios. Dona Nete vive em Acari desde 1978. Aos 67 anos, com 20 dedicados ao reaproveitamento de materiais, conta que sua relação com trabalhos manuais existe desde seus tempos de colégio.
“Têm muitos anos. [Na época da escola] eu me apaixonei por trabalhos manuais. E dali fui prosseguindo com esse trabalho, até que hoje cheguei no trabalho com reciclados. Tudo que eu vejo, eu tento reciclar. Por quê? Porque eu acho o trabalho reciclado muito lindo. E cada vez mais vai despertando você para coisas maravilhosas. Você olha assim e pensa, ‘peraí, eu posso transformar isso aqui. Eu tenho um poder para transformar esse lixo em luxo. Eu tenho esse poder’. Então, isso fica me motivando cada vez mais.” — Dona Nete

As inquietações de sua mente criativa são o que, segundo Nete, a motivam a reaproveitar materiais. Além de reutilizar materiais descartados para elaborar uma nova peça, Dona Nete também confecciona roupas e acessórios com matéria orgânica, como folhas de árvores secas e sementes.
“Eu uso vários tipos de materiais, da casca da cebola à folha seca de goiabeira. Eu faço flores. Roupas velhas, eu corto, transformo. Enfim, eu uso tudo que é tipo de material… Do rolo de papel higiênico você faz coisas belíssimas. Faz brinco, faz cordão, faz cesto. Faz coisas belíssimas. Então, quer dizer, eu acho que não tem limite. A nossa imaginação não tem limite pra nada.” — Dona Nete
Observando as roupas, vestidos, bolsas e chapéus de Dona Nete, não é difícil perceber a grande variedade de materiais que ela utiliza para desenvolver seus produtos. Enquanto Nete recolhe uma parte desses materiais em Acari, outra parte, ela diz comprar de catadores de materiais recicláveis que vivem na comunidade.
“A dificuldade que eu tenho mais é de conseguir a garrafa de refrigerante ou de cerveja. Eu não faço uso nem de um e nem de outro, então, eu tenho que comprar, né? Aqui tem muitos catadores (de materiais recicláveis). O Guaravita é mais fácil, porque em qualquer esquina você acha o [copinho de] Guaravita. É só sair de casa com uma bolsa e ir fazer exercício: subindo e descendo para pegar os copinhos. Do corpo do copo, você faz uma bolsa. Da borda do copo, você também faz bolsa. Você aproveita ele todinho.” — Dona Nete

Ainda que o trabalho dos catadores de materiais recicláveis contribua para a redução do lixo indevidamente acumulado em Acari, Dona Nete argumenta que o consumo excessivo, além da má gestão pública dos resíduos sólidos, é o principal fator que põe em risco a saúde e o bem-estar dos moradores.
“Se o pessoal consumisse mais coisas naturais, haveria bem menos lixo. Tudo é embalagem, embalagem, embalagem, né? Mas em relação às coisas recicláveis, como latinhas, garrafa PET de refrigerante, tem bastante catador aqui… Eles catam e levam pra vender.” — Dona Nete
Conhecida na comunidade por seu trabalho, Dona Nete conta, hoje, com moradores que separam seus recicláveis e doam para a artesã. Essa rede de apoio fortalece sua produção e contribui para a redução do lixo em Acari.
Após 20 anos manejando resíduos de forma criativa e ecologicamente consciente, Dona Nete, hoje, transmite sua sabedoria para a comunidade. Desde 2022, toda segunda-feira na Clínica da Família Edna Valadão, ela ensina às vizinhas suas técnicas de artesanato com materiais reaproveitados.
“Estou ensinando agora… tenho um grupo de terapia ocupacional. Que são pessoas que tomam remédios… ‘tarja preta’ para dormir, que têm depressão, essas coisas todas. Elas [participantes do projeto] já me falaram: ‘Poxa, Nete… Eu estou amando reciclar. Eu não sabia que era tão gostoso assim’. Outra já chegou para mim e falou… ‘Poxa, Nete, agradeço muito a você, porque meus remédios estão diminuindo. Aos pouquinhos, estou começando a me liberar deles’. E sabe por quê? Porque a gente começa a ocupar a nossa mente, a botar a nossa mente pra funcionar.” — Dona Nete

Atualmente, algumas alunas de Dona Nete já produzem e vendem suas próprias peças de materiais reutilizados. Dona Nete, no entanto, caminha na contramão do sistema e se recusa a vender suas peças.
“Eu não vendo. Porque é o tal negócio: minhas peças são únicas. Eu faço elas com o objetivo de ensinar. Você quer um vestido daquele? Você vai fazer o seu vestido. A gente ensina a pescar, a gente não dá o peixe. Eu sou assim… Têm pessoas que pensam muito no dinheiro. Eu não sou assim. Eu não gosto disso. Gosto de passar aquilo que eu sei [para os outros]. Então, eu vou ensinar você a fazer.” — Dona Nete
Dona Nete, que trabalha com enfermagem e como cuidadora de idosos, é apaixonada pelo que faz com materiais reutilizados. Além de ensinar mulheres a produzir suas próprias peças sustentáveis de roupa, a artesã propõe a suas pupilas uma forma de repensar o consumo e sua relação com o lixo.
“Eu uso as minhas coisas [que eu confecciono], por incrível que pareça. Eu uso minhas roupas, eu uso minhas bolsas. Eu vou pra minha igreja com as minhas roupas, as irmãs chegam lá e falam assim… ‘Nete, que roupa é essa?’ Só eu que tenho. É fabricada por mim.” — Dona Nete

Ao refletir sobre o futuro, Dona Nete afirma acreditar no potencial de transformação que seu trabalho pode alcançar:
“Tanta coisa que você pode fazer para você transformar, sabe? A nossa vida aqui na Terra, o nosso viver tem mais tempo prolongado. A natureza agradece tanto… Gostaria de ensinar, principalmente para as comunidades. Que as comunidades em si, de maneira geral, é uma classe de pessoas que tem… Vamos dizer assim, tem pouco meio de sobrevivência. Você ensinando à comunidade, o lixo vai reduzir bastante. A pessoa vai aprender a saber o que é economizar. A pessoa vai aprender e se reeducar. Eu gostaria muito que meu projeto passasse pelas comunidades, para reeducar tanto as crianças, quanto os adultos. Aprender a cuidar mais da natureza, sabe? Cuidar mais daquilo que a gente necessita tanto, que é a água, é a natureza. E parar com tanta miséria, com tanta desgraça que tem [por causa da superprodução de lixo], porque hoje, qualquer chuvinha que dá, os rios transbordam.” — Dona Nete
Sobre a autora e fotógrafa: Bárbara Dias, cria de Bangu, possui licenciatura em Ciências Biológicas, mestrado em Educação Ambiental e atua como professora da rede pública desde 2006. É fotojornalista e trabalha também com fotografia documental. É comunicadora popular formada pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e co-fundadora do Coletivo Fotoguerrilha.