A Trilogia ‘Cemitério dos Pretos Novos do Valongo’ Trás à Tona Raízes Profundas do Racismo Estrutural e Desigualdade Urbana do Rio

Obras do VLT redescobriram o cemitério e milhares de restos mortais de africanos mortos nos tumbeiros ao chegarem no Cais do Valongo. Eles eram enterrados em valas comuns em frente à Igreja de Santa Rita, no Centro, hoje Largo de Santa Rita. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Obras do VLT redescobriram restos mortais de africanos mortos nos tumbeiros ao chegarem no Cais do Valongo. Eles eram enterrados em valas comuns em frente à Igreja de Santa Rita, no Centro, hoje Largo de Santa Rita. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Lançada de forma completa em 2025, a trilogia Cemitério dos Pretos Novos do Valongo – Uma Jornada Impactante pela História da Escravidão no Brasil, organizada pelo Instituto Pretos Novos (IPN) e por João Carlos Nara Jr., coloca em evidência uma parte da história do Rio de Janeiro que, durante muito tempo, foi apagada: o registro da morte negra.

Trilogia Cemitério dos Pretos Novos do Valongo – Uma Jornada Impactante pela História da Escravidão no Brasil, organizada pelo Instituto Pretos Novos e por João Carlos Nara Jr. Foto: Redes Sociais Instituto Pretos Novos
Trilogia Cemitério dos Pretos Novos do Valongo – Uma Jornada Impactante pela História da Escravidão no Brasil, organizada pelo Instituto Pretos Novos e por João Carlos Nara Jr. Foto: Instituto Pretos Novos

Nos três volumes, O Cais e o Cemitério: da Vinda da Corte ao Rio de Janeiro até as Primeiras Restrições ao Tráfico, A Morte no Valongo: História e Memória dos Africanos no Rio de Janeiro e Silêncios que Gritam: Testemunhos da Escravidão Africana no Rio de Janeiro, o autor utiliza documentos históricos reais, especialmente os livros de óbitos da Igreja de Santa Rita, os poucos que sobreviveram ao mofo e ao cupim, e os registros ligados ao Cemitério dos Pretos Novos para reconstruir como africanos escravizados foram tratados desde o desembarque até a morte na Pequena África, no Centro do Rio.

Esses documentos revelam uma rotina brutal: corpos enterrados às pressas, mortes ignoradas e uma completa desumanização institucionalizada.

O autor João Carlos Nara Jr. revelou inúmeras informações, levantadas a partir dos obituários, entre elas a Marca de Carregação, que era aplicada com ferro em brasa na pele de pessoas escravizadas.

“Talvez uma das coisas que mais sejam marcantes do livro seja a chamada ‘Marca da Carregação’, um selo na mercadoria [nos escravizados]. O pessoal pegava um ferrete em brasa, deste que você usa para marcar o gado e marcava a pessoa que seria exportada. É duro falar dessa forma, mas é isso. Então, o livro tem essa característica singular, que o distingue dos demais livros de óbitos que você vai encontrar nos registros eclesiásticos. Aquelas pessoas são inominadas, mas você as identifica pela marca que elas têm na pele. E o fato é que além das ‘Marcas da Carregação’, as pessoas carregavam no corpo também as marcas de sua terra, ou seja, as tatuagens de sua cultura, elas já traziam de casa. Então, havia uma convivência dos dois tipos de marca: a marca imposta pela violência pelo comércio e a marca da cultura. Havia ali uma simbiose.” — João Carlos Nara Jr.

Ao transformar esses registros em narrativa, o autor nos lembra que a cidade não foi construída apenas por cima desses corpos, mas também por cima de uma política de esquecimento. A trilogia faz o que o poder público nunca fez: devolve origem, contexto e integridade a vidas que foram apagadas dos mapas oficiais. 

Segundo a presidente do Instituto Pretos Novos, Merced Guimarães dos Anjos, resgatar essas histórias é fundamental para redesenhar o futuro.

“Muito triste quando você vê essa transcrição, o silêncio que grita. [Os documentos/registros] não têm idade, não têm nome, mas têm uns lugares [de onde] eles vieram, os navios que os trouxeram. E [informações], mais ou menos: se era uma menina, um menino, um “preto novo” ou uma cria como eles falavam naquela época, né? É muito triste isso. E nada mudou… continuamos perdendo os jovens e crianças até hoje. Eu tenho uma visão de mundo que a escravidão continua, né? O Cemitério dos Pretos Novos tem muito pra contar sobre essa história do passado do Brasil, da cidade, que querem silenciar. Eles [as elites até hoje] querem excluir a Pequena África da modernidade. Eles querem destruir o cemitério porque é um lugar de dor, é um lugar que mostra a verdade do que aconteceu. Eles querem preservar o Cais do Valongo, [querendo reduzir a história a] ‘Ah, Cais do Valongo, [eles] chegaram por aqui, ‘o pessoal’ [da Africa] e isso não dói tanto quanto dói quando chega lá no Cemitério dos Pretos Novos e encontra [os corpos dos pretos novos assassinados pelo tráfico negreiro].” — Merced Guimarães dos Anjos

E é justamente nesse ponto que sua obra dialoga com o presente. O território onde esses registros foram feitos, ou seja, a região portuária, o Valongo, o entorno do Cemitério dos Pretos Novos são áreas que se tornaram, com o passar das décadas, um espaço de abandono urbano, de violência racial e de criminalização da pobreza. A mesma área onde corpos escravizados eram descartados se transformou, mais tarde, em área destinada à moradia precária de trabalhadores pobres.

Esse movimento não é coincidência: ele mostra como a lógica de desumanização que aparece nos livros de óbito se prolonga na forma como a cidade distribui direitos, infraestrutura e humanidade. As primeiras ocupações populares da região portuária carregam essa herança e antecipam o processo que espalharia favelas por toda a cidade.

Charge "Oswaldo Cruz passa o pente fino da “Delegacia da Hygiene no Morro da Favela".
Charge “Oswaldo Cruz passa o pente fino da Delegacia da Hygiene no Morro da Favela”.

A trilogia de Nara Jr. ajuda a enxergar esse fio histórico. O que está nos documentos são vidas marcadas pelo descaso, não registradas como cidadãos, mas como propriedade descartada. Isso ressoa até hoje na forma como o Estado administra territórios de maioria negra. É o que o filósofo Achille Mbembe chama de necropolítica: uma política que escolhe quem morre, quem vive, e também quem só sobrevive, com menos direitos, menos proteção e menos valor social.

Quando se olha para as favelas do Rio sob a perspectiva da manutenção da violência racial do sistema escravocrata, percebe-se que este ciclo de violência e de negação de direitos não surgiu por acaso. É a continuidade de uma lógica antiga, estrutural: a de destinar determinados corpos e territórios ao abandono e à morte. Segundo João Carlos, transformar estes óbitos em livros é essencial para a reparação.

“É gente demais para um cemitério exíguo. É muita gente! Então, isso causa um impacto danado. E eu confesso a vocês que quando eu estava trabalhando nisso me doía muito, porque você vai lendo um registro, um outro registro, e é tudo muito igual. E aquilo ali parece que você vai se acostumando. Mas não dá para acostumar, sabe?

Você está lidando com dor, morte, com as dores dos parentes, com as pessoas que estão ao redor. Porque eu penso que mesmo as pessoas que estavam ali mais diretamente envolvidas, o padre que estava fazendo o registo, o coveiro que estava fazendo o enterro, a pessoa lá que era empregada lá [funcionário] que estava levando o defunto. Para essas pessoas, tudo isso era muito amargurante. Quando a gente pega essa documentação de época que se fala do fim do tráfico, todo mundo admite que o tráfico é ruim mesmo. Havia um estranhamento com aquela situação. É claro que [também] tinha gente que enriquecia para caramba [com a escravidão].” — João Carlos Nara Jr.

A trilogia do autor abre a perspectiva de que, até os dias de hoje em relação às favelas, por exemplo, há um modo de governar vidas negras que naturaliza a morte das maneiras mais indignas possíveis. Documento de que aos negros era negado o direito de luto, ao rito fúnebre ou a qualquer tipo de respeito com os corpos, algo também presente em cenas contemporâneas.

Público no evento de lançamento da Cemitério dos Pretos Novos do Valongo - Uma Jornada Impactante pela História da Escravidão no Brasil. Foto: Amanda Baroni
Público no evento de lançamento da obra ‘Cemitério dos Pretos Novos do Valongo – Uma Jornada Impactante pela História da Escravidão no Brasil’. Foto: Amanda Baroni

Ao recuperar os livros de óbito dos Pretos Novos e de Santa Rita, a trilogia nos obriga a confrontar o fato de que a desigualdade urbana carioca tem raízes profundas, que, apesar das tentativas de apagamento, ainda estão documentadas, e que persistem até os dias de hoje. É preciso reconhecer que a cidade do Rio de Janeiro foi construída sobre pilhas de corpos negros e que este passado, como cantou Mangueira no Carnaval 2025, ainda está “à flor da terra”.

Sobre o autor: Paulo Gabriel dos Santos é estudante da graduação em Ciências Sociais na UERJ. Paulo trabalhou como educador de crianças especiais em um escola pública próximo ao Morro do São Carlos e agora inicia seu caminho como comunicador popular para que conhecimentos e informações comunitárias cheguem ao máximo de pessoas.


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