‘É O Lugar de Resistência da Nossa Existência’: Em Duque de Caxias, Casarão da Cultura É Pólo de Arte, Educação e Lazer

'Eu Não Quero Que as Crianças do Bairro Precisem Ir ao Centro do Rio para Ver Arte'

À direita, Angélica Baptista, consultoria de beleza e bem estar; na frente, Dayse Alves, gestora do Casarão de Cultura de Duque de Caxias, radialista, produtora cultural, coreógrafa e professora de balé; atrás de Dayse, Rosa Arruda, professora de inglês e de português, além de criadora do Canal no YouTube "About Brazil". À esquerda, Alice Safira, professora de dança do ventre e dança cigana. Foto: Fabio Leon
À direita, Angélica Baptista, consultora de beleza e bem-estar; na frente, Dayse Alves, gestora do Casarão da Cultura, radialista, produtora cultural, coreógrafa e professora de balé; atrás de Dayse, Rosa Arruda, professora de inglês e de português, e criadora do canal no YouTube “About Brazil”. À esquerda, Alice Safira, professora de dança do ventre e dança cigana. Foto: Fabio Leon

Batalha de rap, oficinas ministradas por DJs, shows de rock, festas juninas, festas de Dia das Bruxas, aulas de inglês, reuniões políticas para decidir o futuro do município. Nos últimos anos, de tudo um pouco já foi feito em um terreno localizado em uma bucólica avenida no bairro Jardim Primavera, em Duque de Caxias, cidade da Baixada Fluminense. Encontra-se, ali, o Instituto Casarão Cultural, conhecido como Casarão da Cultura e palco de múltiplas manifestações de arte, cultura, educação e engajamento político.

O local é, também, um retrato das transformações socioeconômicas pelas quais o bairro Jardim Primavera passou nas últimas seis décadas: um oásis da burguesia que aprendeu a conviver com sua porção mais periférica. O perímetro do imóvel, construído no início da década de 1950, mistura-se ao verde e quase pode ser confundido com uma chácara. Pertencente a uma família de descendentes de alemães, os Steiner, o Casarão é a síntese de um passado em que moradores endinheirados sonhavam em transformar o Jardim Primavera na “Suíça Brasileira“.

Jardim Primavera: Projeto Habitacional da Burguesia Caxiense

Mas como tudo começou? Esse conceito de bairro surgiu com o músico e ex-piloto Nelson Cintra, que mobilizou grande parte da chamada “alta sociedade” caxiense e de outros poderosos da cidade do Rio para concretizar seu sonho. Campeão de circuitos de rua, inspirados em corridas similares às de Mônaco desde 1929, Cintra ajudou a popularizar esses campeonatos que sequer tinham nome. Cintra foi várias vezes campeão, dirigindo o seu Renault Gordini em cidades como Petrópolis.

A fama ajudou Cintra a fazer desse projeto um objetivo de vida e a viabilizar sua execução de todas as formas possíveis. Fez um incansável trabalho de lobby junto a autoridades de Duque de Caxias, da cidade do Rio e de São Paulo, já que, além de professor de música no Theatro Municipal do Rio, era corretor de imóveis nos dois estados. Cintra era tão bem relacionado socialmente que, entre seus amigos, estava o Presidente João Goulart. Com o tempo, fundou sua própria imobiliária, além de ter se tornado um bem-sucedido empresário do ramo da construção civil.

Assim, fruto, em grande parte, do trabalho de Nelson Cintra, surge, em 1947, ao lado da hoje Rodovia Washington Luis, o bairro Jardim Primavera. Segundo a revista Pilares da História de setembro de 2014, Cintra deu sangue, suor e lágrimas para transformar Jardim Primavera, uma antiga plantação de abacaxis, em um empreendimento imobiliário nunca antes visto na Baixada Fluminense. Segundo a publicação, Cintra “cuidou para que as ruas tivessem meio-fio, arborização e redes pluviais, estendeu a rede elétrica para a região, demarcou áreas para a construção de praças, igrejas, mandou furar poços artesianos para o consumo de água potável, providenciou a construção de um colégio e até de uma estação ferroviária”.

Hino ao Jardim Primavera. Fonte: Revista Pilares da História, Ano 13, Setembro de 2014/Câmara Municipal de Duque de Caxias
Hino ao Jardim Primavera. Fonte: Revista Pilares da História, Ano 13, Setembro de 2014/Câmara Municipal de Duque de Caxias

Foram criados 451 lotes entre 500 e 1.500 m². Entretanto, o que era para ser um paraíso para poloneses, alemães, italianos, ingleses e outros europeus endinheirados não resistiu à fuga das populações de menor poder aquisitivo, que foram removidas de outras regiões ou que precisavam de moradia para fugir dos altos aluguéis em áreas mais centrais e urbanizadas do Grande Rio.

A partir das décadas de 1960 e 1970, diversos estudos apontam que, com a expansão desordenada da Região Metropolitana do Rio e o avanço da industrialização na Baixada Fluminense, houve um processo de esvaziamento da elite local, acompanhado pelo declínio dos investimentos públicos e pelo aumento da precarização urbana. Cidades como Duque de Caxias e Belford Roxo começaram a receber um fluxo migratório de regiões empobrecidas, seja de outras partes do país ou deslocadas de outras áreas dentro do próprio Grande Rio. Com a negligência do Estado e a sistemática falta de políticas públicas, uma nova realidade socioeconômica se impôs à região. Ao longo deste período, Jardim Primavera testemunhou o crescimento da Favela do Rasta e do Complexo do Cangulo, sobretudo a partir dos anos 2000.

O Casarão permaneceu em plenas condições de uso até 1994, quando faleceu sua última moradora, a bióloga Áurea Steiner. A família acabou se descuidando do terreno e, assim, mais de 25 anos se passaram.

“Com o abandono, acontecia de tudo ali. Já estavam fazendo festas clandestinas. Os móveis que estavam na casa foram roubados. Pessoas começaram a fazer a residência de motel. O Casarão estava virando ponto de consumo de drogas e estava deixando o bairro mais perigoso.” — Dayse Alves

A Nova Fase do Casarão

Nos últimos cinco anos, o multifacetado Casarão tem sido administrado pela radialista, produtora cultural, coreógrafa e professora de balé, Dayse Alves. Criada pelos avós, desde muito nova teve que aprender a ganhar dinheiro. Foi balconista, bartender, recreadora infantil, dentre várias outras coisas. “Tive que aprender a me virar sozinha e a fazer dinheiro para sustentar seis filhos. Acho que nunca parei um minuto na vida. Raras são as vezes em que tiro folga ou férias”, afirma Dayse.

Em 2019, ela foi procurada pelo pintor Juan Wallace Pinto, conhecido como Ronan, artista da região, que promovia algumas reformas no perímetro do Casarão havia dois anos. Com a idade avançada, ele comentou com a comunicadora que temia que o Casarão sofresse invasões e virasse cena de uso de drogas. Ele tentou convencê-la a se mudar para o Casarão e transformá-lo em um ponto de cultura. Em 2020, ela aceitou a proposta e decidiu habitar o Casarão, já que precisava de um espaço maior para compartilhar com os filhos pequenos. Ela também assumiu o compromisso de que o local ofereceria atividades culturais à comunidade.

Nos últimos cinco anos, o Casarão da Cultura de Duque de Caxias tem sido administrado pela radialista, produtora cultural, coreógrafa e professora de balé, Dayse Alves. Foto: Fabio Leon
Nos últimos cinco anos, o Casarão da Cultura tem sido administrado pela radialista, produtora cultural, coreógrafa e professora de balé, Dayse Alves. Foto: Fabio Leon

Como ele conhecia Dayse e seu envolvimento com várias iniciativas e projetos culturais, como o projeto Luar de Dança—que também funciona em Jardim Primavera e onde ela atua como coreógrafa e professora—o convite para que ela assumisse o Casarão surgiu naturalmente.  

“A família, de início, não gostou dessa troca, dizendo que não me conheciam. Mas Ronan conseguiu convencê-los de que se não fosse eu a assumir a administração do imóvel, ninguém mais o faria. Eu tenho mais de 20 anos de participação em ações sociais no bairro, fui coordenadora de ONG, sei fazer captação de recursos, aprendi a aprovar recursos públicos para o terceiro setor. Ou seja, eram credenciais que davam confiança a essa nova etapa.” — Dayse Alves

Pixações no Casarão, hoje em dia, são símbolos de identidade e pertencimento, são expressão artística, longe do passado de depredação do imóvel. Foto: Fabio Leon
Pixações no Casarão, hoje em dia, são símbolos de identidade e pertencimento, são expressão artística, longe do passado de depredação do imóvel. Foto: Fabio Leon

Começando do Zero

Reunindo amigos e alguns voluntários do bairro, iniciou-se um processo intensivo de limpeza do Casarão. Em seguida, Dayse e sua família se mudaram da antiga residência, na Rua 2, para a Avenida Primavera, onde o imóvel estava em fase de recuperação. Mas muita coisa ainda necessitava de ser feita: não havia banheiro, água, instalações elétricas, as telhas demandavam conserto… Além disso, sofreram com ameaças dos antigos invasores, que reivindicavam o que não lhes pertencia. Numa dessas ocasiões, Dayse e o ex-marido chegaram a chamar a polícia, que conseguiu flagrar dois suspeitos em fuga, em direção à parte superior do terreno. Isso tudo quando a produtora cultural estava grávida.

Ainda naquele ano, Dayse realizou os primeiros eventos, com uma estrutura ainda precária. A novidade do ressurgimento precisava ser rápida e vista pelos moradores da vizinhança. Era necessário que todos entendessem que o abandono não era mais uma realidade. 

Com a novidade de que o Casarão abandonado havia sido transformado em um ponto de cultura, uma educadora procurou Dayse e, assim, inauguraram a extensa programação, que se consolidaria a partir daquele momento. A partir de então, Mônica Coelho, mestra em educação, conhecida como Professora Marginal, integrante do Grupo de Ensino, Pesquisa e Extensão de Formação Inicial e Permanente de Educadores de Crianças em Situação de Vulnerabilidade Social (PIPAS), da UFF, tornou-se amiga e parceira de Dayse. A amizade resultou em uma série de eventos. Só na primeira semana de dezembro de 2021 (devidamente protegidos do contágio do coronavírus), realizaram eventos ligados ao rap e à cultura hip hop, além do lançamento do livro Trajetórias e Movimentos, de autoria da própria Mônica.

“Mesmo sem estrutura, foi maravilhoso ter lançado um livro entre meus pares, com pessoas do nosso cotidiano: crianças, jovens, adultos, idosos. O Casarão da Cultura de Duque de Caxias é o lugar de resistência da nossa existência, os marginalizados do sistema.” — Mônica Coelho

Outro exemplo da diversidade de eventos do Casarão é o que aconteceu no dia 26 de julho, com uma oficina e batalhas de DJs. A festa contou com a performance de alguns dos nomes mais destacados da cena caxiense, como o DJ Gustavo Mesquita, que explicou a importância de iniciativas iguais a essa.   

“Isso aqui é muito bom pra divulgar a arte dos DJs nos bairros e projetar os nomes das periferias de nossa cidade. Mas é um mercado difícil pra quem tá entrando agora, porque todo mundo pensa que é só acionar o bluetooth da caixa de som e você já tem um DJ. Nós sabemos medir a temperatura da pista, somos nós que damos vida a uma balada e aos rolês.” — Gustavo Mesquista

No dia 26 de julho, com uma oficina e batalhas de DJs, o Casarão contou com a performance de alguns dos nomes mais destacados da cena caxiense, o DJ Gustavo Mesquita. Foto: Fabio Leon
No dia 26 de julho, com uma oficina e batalhas de DJs, o Casarão contou com a performance de alguns dos nomes mais destacados da cena caxiense, como o DJ Gustavo Mesquita. Foto: Fabio Leon

Quem Vê Cara, Não Vê Corre

Nos últimos quatro anos, entre obras, reparos e a aquisição de itens básicos para a dignidade de qualquer habitação ou estabelecimento cultural, como geladeira e caixa d’água, foram investidos mais de R$ 20.000. Isso sem contar com as doações, negociações de parcelas “a perder de vista” e os esforços individuais da própria família, amigos e voluntários. Só de honorários para a regularização de titularidade de posse do terreno, na modalidade de usucapião, precisou ser investido algo em torno de mais de R$5.000. Ainda falta a Defensoria Pública fornecer a escritura, já que uma técnica de edificações, após conhecer a história de ressurgimento do Casarão, está cuidando de outras etapas da burocracia para formalizar tudo. Os herdeiros da família Steiner reagiram com naturalidade a essa iniciativa, que visa reconhecer legalmente os novos donos da casa: o povo de Jardim Primavera.

Apesar do reconhecimento, Dayse deseja que o Casarão se consolide ainda mais na cidade de Duque de Caxias, como referência na produção e divulgação de cultura local. A gestora afirma que pretende deixar o Casarão da Cultura como legado para os caxienses.

“Eu não quero que as crianças do bairro precisem ir ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Centro da cidade do Rio de Janeiro, para consumir e ver arte. Elas até podem ir, mas, primeiro, elas precisam descobrir que na cidade delas, no bairro onde elas moram, também tem arte e cultura. Depois elas podem ir ao CCBB.” — Dayse Alves

Grafites ajudaram a revitalizar o Casarão da Cultura de Duque de Caxias, revertendo o abandono do imóvel. Foto: Fabio Leon
Grafites ajudaram a revitalizar o Casarão da Cultura de Duque de Caxias, revertendo o abandono do imóvel. Foto: Fabio Leon

Participe e Apoie o Casarão da Cultura de Duque de Caxias

Participe das atividades fixas do espaço, como:

  • Aulas de Dança do Ventre: às terças, quartas, quintas. De manhã de 9h às 11h; à tarde, de 14h às 16h; e à noite, de 19h às 21h.
  • Curso de Produção Musical: Estúdio MSC Music, de segunda a sábado, das 10h às 21h.

O Casarão de Cultura de Duque de Caxias está precisando de trabalho voluntário de pessoas da construção civil, psicólogos, assistente social e educadores sociais. Recebe doações em dinheiro, em móveis, alimentos e também para gatos, cachorros e aves. Material de limpeza e higiene e material de escritório. Tintas e materiais de construção. Consulte como você pode ajudar nos canais do Casarão da Cultura no Instagram e Facebook, ou entre em contato pelo WhatsApp +55 (21) 98126-5941.

Para apoiar financeiramente, doe através do Pix do ASTV-SOLIDÁRIA e Cultural Produções (CNPJ): 24.558.493/0001-48.

Sobre o autor: Fabio Leon é jornalista, ativista dos direitos humanos e assessor de comunicação no Fórum Grita Baixada.


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