
Esta reportagem faz parte da série #OQueDizemAsRedes, que traz pontos de vista publicados nas redes sociais, de moradores e ativistas de favela sobre eventos e temas que surgem na sociedade. E também faz parte de uma série gerada em parceria com o Digital Brazil Project do Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias sobre direitos humanos e justiça socioambiental nas favelas.
Após mais de 20 dias consecutivos de chuva, na segunda-feira (09/02), por volta das 18h, uma forte chuva atingiu diversos pontos do Grande Rio, causando enchentes e deslizamentos. Segundo registros compartilhados nas redes sociais por moradores de favelas, a rapidez da precipitação invadiu as casas, derrubou encostas e formou enormes bolsões d’água, interditando vias e ilhando moradores dentro e fora de suas casas.
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Segundo levantamento feito pelo Centro de Operações e Resiliência (COR-Rio), as regiões mais atingidas foram a Zona Norte e as cidades da Baixada Fluminense e do Leste Fluminense. No entanto, o que os dados do COR-Rio não mostram é que as favelas são as mais atingidas pelos eventos climáticos extremos. E isso não é uma coincidência.
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Infelizmente, este quadro não é novo. RioOnWatch se vê no compromisso, ano após ano, de publicar sobre os efeitos nefastos das chuvas e outros eventos climáticos extremos em favelas, como em: dezembro 2013, fevereiro 2019, abril 2019, março 2022, abril 2022, janeiro 2023, fevereiro 2023, fevereiro 2023, março 2023, março 2023, janeiro 2024, janeiro 2024, fevereiro 2024, março 2024, dezembro 2024, março 2025 e abril 2025.
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Na favela de Acari, na Zona Norte do Rio, Ryan Barreto que gravou a própria casa submersa durante enchente e denunciou promessas não cumpridas de melhorias do saneamento da região em que mora.
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O coletivo Fala Akari fez um post com um compilado de cenas mostrando diversos pontos da comunidade completamente embaixo d’água.
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Voz das Comunidades denunciou em um de seus posts que moradores de Acari perdem tudo meses depois de anúncio de investimentos milionários na drenagem da comunidade. Obras aguardadas há décadas que ainda não saíram do papel.
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No bairro vizinho de Coelho Neto, na Comunidade Guaxi, os moradores tiveram suas ruas e casas tomadas pelas águas da chuva.

Em vídeo compartilhado por liderança local, é possível ver o nível e a violência da água, atravessando ruas e bairros inteiros.
Ainda em Coelho Neto, as fortes chuvas atingiram a Ocupação Dandara e a Terra Prometida, localizada na Rua Senador Mozart Largo, 251. Casas alagadas, perda total de móveis, roupas e alimentos assolaram a ocupação.
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Ainda na Zona Norte, vídeo feito por uma vizinha no bairro do Jacaré, mostra uma mulher tentando entrar em casa com água no nível do peito. Ela se depara com todo o estrago causado pela chuva em sua casa logo após chegar do trabalho.
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Ali perto, na passagem da Rua Viúva Cláudio, na altura no número 55, mais conhecida como Buraco do Lacerda, no Jacarezinho, ficou completamente submerso.
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Ainda no Jacarezinho, ruas ficaram completamente alagadas e com correnteza.
RioOnWatch recebeu vídeos por grupos de mensagem que mostram água dentro da sala da casa de uma família no Jacarezinho.
Na mesma área, em Manguinhos, uma moradora gravou de casa outros moradores transitando pelas ruas com água na cintura. E, até mesmo, em barcos, que navegavam sobre as ruas submersas da comunidade.
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É possível ver a mesma cena de outro ângulo. O que mais marca, infelizmente, é o desespero dos moradores.
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Um outro registro na comunidade mostra o estado de calamidade. Em alguns becos, a água alcançou o nível de comportas construídas nas entradas de algumas residências, justamente para impedir inundações. Desta vez, no entanto, faltou muito pouco para que algumas casas fossem invadidas.
“Essa filmagem é impressionante. Primeiro, mostra de dentro da casa como uma pessoa constrói uma comporta na entrada da casa dela, evidenciando como [este grau de enchente] é uma tragédia anunciada, a recorrência disso. E mesmo assim a água vai, pela altura e pelo desnível que é notório na imagem, entrando na casa. E aí você vê barata, a insalubridade total, mostrando que isso não é água, que isso é esgoto, trazendo todo o risco para a saúde da comunidade. Todo verão as inundações pegam os governos de surpresa no Rio de Janeiro. Diante das mudancas climáticas, o saneamento adequado não pode ser mais ser postergado.” – Alexandre Pessoa Dias, engenheiro sanitarista da Fiocruz
Comunicadores populares do Manguinhos Online e do Voz das Comunidades reportaram dos becos alagados da comunidade e denunciaram o racismo ambiental.
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Além disso, a enchente também fez uma vítima fatal em Manguinhos. Eliete Alexandre dos Santos, 67 anos, passou mal em casa, enquanto sua residência era atingida pela água. Devido ao alagamento, foi socorrida com atraso por moradores e levada para a UPA ainda com vida. Ela era hipertensa e faleceu no posto de atendimento da comunidade.
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Por isso tudo que a comunidade sofreu, a organização Manguinhos Solidário está arrecadando dinheiro para reverter em itens básicos necessários para os atingidos e outras articulações da instituição.
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Moradora de Jardim América denuncia inação e o eleitoralismo do Prefeito Eduardo Paes quando o assunto é infraestrutura da comunidade em que ela mora.
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Em outras comunidades, quadro parecido vem sendo denunciado nas redes sociais pelos moradores. No Complexo do Alemão, foi documentado de forma anônima o solo próximo a uma casa extremamente encharcado e apresentando risco de deslizamento.
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Através das redes, o líder comunitário e morador do Complexo do Alemão, Raull Santiago, comentou sobre o cenário enfrentado pela comunidade, reforçando que a necessidade da ação das autoridades competentes é urgente para auxílio da população atingida.
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Na favela da Chatuba, no Complexo da Penha, o deslizamento de terra se repetiu. Isso deixou várias casas vulneráveis, expostas a encostas instáveis e sem proteção. No Largo do Metralha, no vizinho Complexo do Alemão, a o deslizamento de uma encosta causou o desabamento de uma casa. Apesar de perder tudo e do trauma psicológico, nenhum membro da família se feriu.
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Ainda no subúrbio da Leopoldina, na Avenida dos Democráticos, localizada na altura da Saída 7 da Linha Amarela, o transbordamento dos rios Faria-Timbó—e também do Rio Jacaré e do Canal do Cunha—fez com que as vias que cortam a região desaparecessem.
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Em alguns pontos, chegando a encobrir quase que por completo o primeiro andar de residências ribeirinhas.
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Um ônibus da linha 371, que faz o itinerário Praça Seca X Praça da República, enguiçou perto deste mesmo local. Passageiros foram filmados precisando caminhar na água suja para buscar refúgio.
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Carros foram filmados boiando na enchente em Bonsucesso por moradores.
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Na Ilha do Governador, houve diversas ocorrências, mas, no Morro do Dendê, aconteceu um deslizamento de terra na parte de trás da casa de uma senhora. Em visita ao local, a Defesa Civil afirmou ser necessário a construção de um muro de contensão, para a segurança da casa.
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Ainda na região norte da cidade, em Rocha Miranda, um dos valões ganhou volume suficiente para formar uma forte correnteza.
Em uma localidade da Zona Norte, mas já próxima ao Centro, o líder comunitário Allen Martinez, morador da Barreira do Vasco denuncia ineficiência da obra do Programa Morar Carioca, que prometia resolver as enchentes da comunidade.
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A poucos quilômetros dali, na altura de Benfica da Avenida Brasil, pessoas transitavam pelas divisórias das pistas, sobre o muro, a parte mais elevada da via expressa, para não terem contato com a água contaminada do alagamento.
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Desta vez, as Zonas Oeste e Sudoeste foram menos atingidas. No entanto, ainda assim, foram registradas quedas de árvores, inclusive sobre fiação, deslizamentos de terra, quedas de muros, alagamentos e bolsões d’água.
Na Zona Oeste, na Vila Kennedy, as ruas desapareceram debaixo das águas.
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Expondo, inclusive, muitas crianças à contaminação.
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Em Realengo, moradores, que carecem de aparelhos públicos de lazer de qualidade, nadaram no Viaduto de Realengo.
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Até se quisessem nadar no Parque Realengo, nadariam no esgoto. Pois o parque municipal inaugurado em junho de 2024 também ficou embaixo do esgoto e da água de enchente.
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Na Vila Militar, trabalhadores voltando para casa tiveram que botar o pé na água e caminhar em direção a Realengo, Magalhães Bastos e Bangu. O transporte público, em muitos casos, parou de rodar ou passou a funcionar com horários e trajetos irregulares, de acordo com onde era possível transitar.
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No ramal Santa Cruz, a circulação dos trens chegou a ser interrompida devido ao alagamento da via férrea.
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Já no ramal Belford Roxo, na altura da estação de Madureira, passageiros presos dentro da composição gravaram, preocupados com o risco de eletrocutamento, o trem sendo invadido pela água da enchente.
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Do outro lado da cidade, na Zona Sul, a favela da Rocinha e o Vidigal, conhecidas por sua geografia íngreme, não deixaram de ser atingidas. Os moradores viram suas ruas, becos e vielas se transformarem em verdadeiras “cachoeiras” de água da chuva misturada com esgoto e lixo.
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Em vídeo feito por Bruno Thierry, é possível ver os riscos de acidentes em postes de eletricidade e nas passagens de veículos, onde pedestres e motoristas tentavam escapar, sem sucesso, da enxurrada.
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Além do risco de choque, becos e vielas ficaram completamente alagados na maior favela do Brasil.
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Motocicletas regularmente são arrastadas pela força das águas. Em alguns casos, carros e até mesmo pessoas já foram arrastadas rua abaixo pela correnteza gerada pelas chuvas de verão na Rocinha.
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A proporção da chuva foi tão grande que, às 19h24, o COR-Rio decretou Estágio 3 de Risco. Na capital, foram acionadas 15 sirenes em nove comunidades de alto risco geológico. Foram elas: Arrelia e Jamelão, no Andaraí, Formiga, na Tijuca, Parque Silva Vale, em Tomás Coelho/Cavalcanti, Rua Brício de Moraes, em Tomás Coelho, Morro do Sapê e São Miguel Arcanjo, em Vaz Lobo, na região da Zona Norte, e as comunidades Comandante Luiz Souto, no Tanque e Espírito Santo, na Praça Seca, na Zona Sudoeste.
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As sirenes também ressoaram em localidades do Grande Rio, como no Morro do Estado e Boa Vista, em Niterói, cidade do Leste Fluminense.
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Houve também um deslizamento de terra que isolou alguns moradores de Jurujuba.
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Ainda no Leste Fluminense, na cidade de São Gonçalo, no Morro do Castro, uma encosta desabou, fechando vias e derrubando árvores e postes na região.
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Depois de dias seguidos de chuva constante, favelas como o Complexo do Salgueiro sofreram com os impactos. Lideranças e organizações, como o Espaço Gaia, se mobilizaram para ajudar os moradores atingidos.
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A Baixada Fluminense foi outra região duramente atingida. Em Duque de Caxias, um motociclista tentou resgatar a moto, após ser engolida pela água.
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Na altura da Praça Menezes Cortes, no centro de Caxias, a água invadiu vários estabelecimentos comerciais.
Ainda na cidade da Baixada, moradores foram gravados transitando pelas ruas do bairro de Campos Elíseos com água pelo peito.
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Indignadas, moradoras do bairro de Vila Maria Helena chegaram a postar vídeos nas redes sociais pedindo ajuda em meio à enchente. Elas exigiram que o prefeito Netinho Reis tomassse ações de mitigação e resiliência climática na cidade.
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Em outra grande cidade da Baixada, Nova Iguaçu, ruas foram cobertas pelo grande volume de água barrenta.
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Sobre a autora: Amanda Baroni Lopes é formada em jornalismo na Unicarioca e foi aluna do 1° Laboratório de Jornalismo do Maré de Notícias. É autora do Guia Antiassédio no Breaking, um manual que explica ao público do Hip Hop sobre o que é ou não assédio e orienta sobre o que fazer nessas situações. Amanda é cria do Morro do Timbau, no Complexo da Maré.
