Na Serrinha, Mulecada que Agita Continua o Legado de Gerações de Sambistas e Jongueiros e Passa a Visão [ENTREVISTA]

Parte dos alunos do projeto Mulecada que Agita na Casa do Jongo da Serrinha, em Madureira, Zona Norte do Rio. Foto: Rhuan Gonçalves
Parte dos alunos do projeto Mulecada que Agita na Casa do Jongo da Serrinha, em Madureira, Zona Norte do Rio. Foto: Rhuan Gonçalves

Neste Carnaval 2026, RioOnWatch foi ao Morro da Serrinha conhecer o projeto Mulecada Que Agita. Assim sendo, essa reportagem começa pisando nesse chão devagarinho e pedindo licença aos mais novos e aos mais velhos. 

Em meados de 2017, através da iniciativa do músico Jorge Quininho de 45 anos, foi fundado Mulecada que Agita, um projeto sociomusical que, hoje, atua na Casa do Jongo no Morro da Serrinha em Madureira, Zona Norte do Rio. Formar crianças ajuda a dar continuidade ao legado musical iniciado no Império do Futuro, a primeira escola de samba mirim, escola da comunidade.

É notório que o Morro da Serrinha forma artistas. O território de fundação do G.R.E.S. Império Serrano, na Rua Balaiada, é um eixo formador de bambas e jongueiros que enriquecem a memória afro-brasileira. Território exaltado nas obras de Fundo de Quintal, Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara, Mestre Darcy do Jongo e Wilson das Neves, entre outros.

Da mesma maneira que recebeu seu primeiro instrumento para integrar a bateria do Império do Futuro, através do Priminho (filho de Tia Ira Rezadeira, uma importante liderança religiosa e cultural, sobrinho do fundador do Império do Futuro), Quininho incentiva jovens e crianças da Serrinha (de onde é cria) a também terem contato com a música.

Um dos que iniciou sua vida musical com Quininho foi Lucas Badeco, de 23 anos, que, hoje, é percussionista e monitor do projeto do qual um dia foi aluno. Em 2017, Badeco e outros jovens, incluindo Derik Pagaio, de 24 anos, e William Mendonça, de 23 anos, se reuniram para aprender a tocar e formaram um grupo de percussão mirim, que posteriormente viria a ser nomeado como Mulecada que Agita.

 

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Durante três anos, o projeto desenvolveu suas atividades até a chegada da pandemia em 2020, quando, respeitando as normas da Organização Mundial da Saúde (OMS), precisou interromper as atividades. 

 

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Foi em 2024 que o projeto retomou suas atividades com parte dos alunos da primeira turma a frente do projeto, agora, como monitores, transmitindo o ritmo iniciado por Quininho para a nova geração de jovens e crianças. Além da música, o projeto trabalha com autoestima, oferece oportunidades no ramo musical e, sobretudo, perspectiva, passando a visão de diferentes possibilidades de futuro. E, pensando na criança e no jovem como um cidadão, um sujeito de necessidades para além da sala de aula, em todos os ensaios do projeto, é oferecida alimentação aos alunos e alunas. 

Professor Badeco conduz parte da bateria dos alunos do Mulecada Que Agita na Casa do Jongo da Serrinha. Foto: Rhuan Gonçalves
Professor Badeco conduz parte da bateria dos alunos do Mulecada Que Agita na Casa do Jongo da Serrinha. Foto: Rhuan Gonçalves

Para contar esta história, RioOnWatch subiu a Serrinha e entrevistou lideranças comunitárias fundamentais para a atuação e sucesso do projeto: Jorge Quininho, fundador do projeto, Lucas Badeco, William Mendonça e Derik Pagaio, ex-alunos, hoje, monitores (além do Pedro Zé, Jonas Venicius e Renato Souza), Suellen Tavares, professora da Casa de Jongo da Serrinha, e mães de alunos atendidos pelo projeto, como Pamela Oliveira e Luna Bouças. São registros potentes da mobilização comunitária e cultural em uma das favelas que ajudou a moldar o carnaval carioca.

RioOnWatch: Quininho, primeiramente obrigado por aceitar essa conversa com o RioOnWatch sobre o Mulecada que Agita, gostaria de te pedir pra se apresentar e falar um pouco sobre como surgiu o projeto.

Quininho, fundador do projeto Mulecada que Agita, em 2017, cria da Serrinha e músico profissional, diz sempre ter entendido a importância dos projetos sociais. Foto: Rhuan Gonçalves
Quininho, fundador do projeto Mulecada que Agita, em 2017, cria da Serrinha e músico profissional, diz sempre ter entendido a importância dos projetos sociais. Foto: Rhuan Gonçalves

Quininho: Meu nome é Jorge Quininho. Eu comecei na música — e costumo dizer que cheguei na música tarde, porque primeiro eu fiz um montão de coisa. Com vinte e poucos anos, só me restava a música. Eu precisava mudar de vida, e olhei ao meu redor: só tinha a música. Daí, eu entendi que, se eu comecei com 20 e poucos anos e estava ali, no lugar onde eu estava, se eu falasse pros moleques que vêm depois de mim para começarem muito mais novos do que eu, a vida deles ia ser muito melhor que a minha.

Isso abriu minha mente pra ter um projeto. Na verdade, não pra eu “ter”, mas pra continuar o que eu recebi, porque eu sou fruto de projeto social também. Quando eu cheguei, quem fazia acontecer era o Priminho, o Tio Careca, da família da Tia Ira e eu comecei com eles. Desde muito novo, eu entendi a importância do projeto social.

O meu primeiro instrumento, quem me deu foi o Priminho, porque eu saía na bateria da Escola de Samba Mirim Império do Futuro só que não tinha instrumento do meu tamanho e o Priminho decidiu comprar um instrumento do meu tamanho. Eu lembro da sensação que foi ter um instrumento, porque aquilo mudou minha vida. Eu passei um ano inteiro indo pros ensaios, discutindo com meu irmão porque eu queria tocar surdo. Só que o surdo era muito grande e eu não dava conta — não conseguia levantar, não conseguia tocar sem encostar no chão. Quando o instrumento encosta no chão, o som não sai, e meu irmão ficava irritado comigo porque eu queria tocar a terceira, e não podia por causa do meu tamanho. Aí o Priminho, vendo aquela confusão, comprou um instrumento pra mim. Um dia antes do carnaval, ele me chamou e falou: “Comprei um presente pra tu”. Engraçado é que eu era o cara que mais irritava o Priminho. Eu tinha prazer em irritar ele! Lembro bastante dessa época — ele começava a cuspir pra caramba quando ficava irritado e enquanto ele não cuspia, a gente não parava. Era sempre assim: eu era o cara que ele mais dava moral e, ao mesmo tempo, o que mais perturbava. 

Então, eu entendi, desde cedo, a importância do projeto social, de uma bateria de escola de samba, de ter um caminho. Alguns anos depois, eu vi o Badeco e o Fofão (Hamilton Fofão, cria da Serrinha e músico), que é tio do Badeco. Ele tinha um projeto lá no morro, onde ensinava cavaquinho. Aí eu falei pra ele: “Tô junto contigo pra qualquer parada”. Acho que ele tinha uns dez alunos e eu dei um jeito de arrumar dez cavaquinhos pra ele, mas em um determinado momento ele se mudou e acabou ficando apertado de tempo, então, o Fofão teve que parar com o projeto e aí, só quem ficou perto da música foi o Badeco, que estava lá, meio perdido.

Chamei o Badeco e o Jonas e falei: “Bora aprender? Vamos aprender a ler partitura?”. Eles toparam. A gente ficou uns dois meses estudando. Foi um calor danado, verão, mosquito pra todo lado. Caramba… lembrei disso agora. Eu fechei meu ciclo quando eles começaram o projeto sem eu precisar fazer nada. Quando eles tocaram o projeto por conta própria, eu falei: “Eles entenderam tudo”. Aí, eu disse: “Olha, eu não consigo mais, só vinha aqui por causa de vocês. Agora tô indo embora”. E eles continuaram o projeto. Agora, vendo eles lá, estou feliz demais. Deu certo!

RioOnWatch: Como se deu o início do projeto Mulecada que Agita?

Quininho e Badeco, antes professor e aluno, hoje ensinam juntos as crianças da Serrinha no projeto Mulecada que Agita. Foto: Rhuan Gonçalves
Quininho e Badeco, antes professor e aluno, hoje ensinam juntos as crianças da Serrinha no projeto Mulecada que Agita. Foto: Rhuan Gonçalves

Badeco: Meu nome é Lucas, mas meu nome artístico é Lucas Badeco e tenho 23 anos de idade, sou integrante do Mulecada que Agita e é isso. Foi por volta de 2017, quando o Quininho mandou uma foto dos instrumentos dele, lá da casa dele em Cascadura e falou: “Escolhe um instrumento aí”. Eu escolhi um tantã vermelho de onze, do tamanho desse aqui. Ele (Quininho) disse: “Se tu pegar o instrumento e estudar duas horas por dia, tu vai ficar mais ou menos. Três horas, vai ficar melhorzinho. Cinco, sete, oito horas…aí tu vai começar a ficar bom. Vai começar a ganhar dinheiro. Vai viver disso”.

Foi isso que abriu minha mente. Eu já tocava cavaquinho, já fazia as paradas, mas na minha cabeça era coisa de criança: “Ah, eu já toco cavaquinho, então, não preciso estudar”. Mas a partir do momento em que ganhei o instrumento, comecei a estudar e tudo mudou. Aí, chegou o Derik, chegou o William e os demais alunos, formando uma turma de quase 50 jovens e crianças ensaiando na Casa do Jongo até a chegada da pandemia. 

Com a pandemia, todo mundo deu uma dispersada. Criança no morro, sem muita coisa pra fazer, sem aquele ensaio toda semana que a gente tinha. Olhei pra minha mãe em casa, sem folga nenhuma. Até hoje, ela trabalha um dia sim, um dia não. Quando pensa em descansar, tem que resolver outras coisas. Eu pensei: “Não quero essa vida pra mim.” Aí eu peguei o instrumento e comecei a estudar três horas por dia, depois quatro, depois cinco. Quando eu saía da escola, ficava tocando no mármore enquanto os moleques jogavam bola. Comecei a ganhar calo na mão, foi aí que eu vi o bagulho andar.

Da esquerda para a direita, William, Badeco, Quininho e Derik são os monitores que tocam Mulecada que Agita na Serrinha. Foto: Rhuan Gonçalves
Da esquerda para a direita, William, Badeco, Quininho e Derik são os monitores que tocam Mulecada que Agita na Serrinha. Foto: Rhuan Gonçalves

RioOnWatch: Quininho, conte um pouco do impacto da música em sua vida enquanto cria da Serrinha e sua trajetória profissional.

Quininho: A gente vive no morro. Até a rua principal, a gente entende, mas dali pra baixo até a Edgard Romero é outro mundo. Do outro lado da estrada, a gente já não entende mais nada e sair desse quadrado, então, é difícil. Mas quando alguém do morro consegue sair e ver que aqui embaixo as coisas são diferentes—não que seja fácil, mas dá pra viver melhor—, a cabeça muda. Quando eu cheguei na música, já cheguei no auge. Eu não sofri como meu irmão Pretinho da Serrinha, que vinha do centro com o surdo no ônibus, brigando com o trabalhador. 

Quando eu entrei, ele já tocava com o Seu Jorge, estourado. Então, a primeira banda que toquei foi a do Seu Jorge no auge. A gente já tava num lugar muito grande, mas olhava pro lado e só via a gente e eu pensava: “Esses moleques pegam isso num estalar de dedos”. Eu quis que eles entendessem isso, porque era a única coisa que podia mudar a vida deles: ter a ânsia da conquista. Mas como é que alguém vai ter vontade de conquistar o que não conhece? Se o moleque nunca saiu do morro, ele nem sabe o que tem depois. Então, eu precisava abrir a mente deles e não tinha outro jeito a não ser estar ali. Eu ia no morro sempre arrumado, de carro, de moto, pra eles entenderem que não é só o bandido que consegue.

RioOnWatch: William, Derik e Badeco, vocês também são professores do Mulecada que Agita. Conte pra nós um pouco sobre sua trajetória e o impacto do projeto nas vidas de vocês.

William Mendonça, de 23 anos, trabalha mais na parte administrativa, que permite com que Mulecada que Agita aconteça. Foto: Rhuan Gonçalves
William Mendonça, de 23 anos, trabalha mais na parte administrativa, que permite com que Mulecada que Agita aconteça. Foto: Rhuan Gonçalves

William: Pô cara, eu comecei na música bem cedo em um projeto de música lá no Morro da Serrinha que se chamava Projeto Herdeiros: Cadu, Fernandinho, Flavinho, Maria Julia e outros. 

Quando eu entrei no Mulecada que Agita, em 2017, Quininho estava dando aula de partitura pro Badeco e pro Jean. Eu e o Zé Galinha sempre andamos juntos, somos irmãos também. Ficamos sabendo dessa parada e nos interessamos até porque também a gente já tinha feito do Herdeiros. De duas pessoas, virou quatro. Depois, chegou também o Biel e foi chegando cada vez mais gente. Então, o Quininho falou: “pô, cara, não dá pra ser um grupo de pagode. Não tem como, tem muita gente. A parada precisa evoluir”.

Hoje, eu fico mais na parte operacional também. Acho que a maioria das pessoas, todos, né? Todos aqui trabalham na parte operacional e administrativa. Vamos nos ajudando, o que tu não sabe aqui, o outro já sabe e te ajuda e assim vai. Tá um complementando o outro. Nosso projeto é formado hoje por todos os integrantes que faziam parte antes do projeto Mulecada (2017 – 2020), quando era o Jorge (Quininho) dando aula pra gente, todos nós estamos fazendo o projeto.

Badeco: E hoje a gente continua assim. Não temos muitas informações sobre as coisas, mas é isso, Derik tem mais facilidade de mexer com a internet, entende mais as coisas. Aí eu falei: “então, é isso, o Derik fica com o Instagram, tá ligado? O William fica com a chamada, o Chico já chega agitando as crianças todas, o Jota (Jonas) já chega olhando os instrumentos, já chega pra receber as crianças”.

Tem um moleque lá, o Anthony, que toca tamborim. Vai ser o próximo. O bom é que a mãe dele gosta que ele toque. Não tem outro brinquedo pra ele que não seja um instrumento. Ele é da família do Priminho e da Tia Ira, como era de se esperar, tá levando o nome pra frente.

Professor Badeco durante aula do Mulecada Que Agita na Casa do Jongo. Foto: Rhuan Gonçalves
Professor Badeco durante aula do Mulecada Que Agita na Casa do Jongo. Foto: Rhuan Gonçalves
Derik Pagaio, de 24 anos, ex-aluno e monitor do Mulecada que Agita. Foto: Rhuan Gonçalves
Derik Pagaio, de 24 anos, ex-aluno e monitor do Mulecada que Agita. Foto: Rhuan Gonçalves

Derik Pagaio: Eu nunca tive muita ligação com a música. A minha ligação com a música era quase zero. Até eu conhecer o Badeco. Cresci na família que era evangélica. Em 2016 eu conheço o Badeco. Na verdade, eu e o Badeco já nos conhecíamos do morro, eu ia para o Cajueiro porque meu pai morava no Cajueiro. E o Badeco também ia porque tinha o primo dele lá, o Bitocão. A gente já se via, acabou que a gente caiu na mesma sala da escola e o santo logo bateu de cara.

Um belo dia, Badeco vira pra mim e diz: “Eu faço aula de cavaquinho com o meu tio, quer ir lá fazer?” Eu respondi para ele e pensei: “Cavaquinho? Já é, eu vou”, mas não fui na primeira semana. Até que teve um dia que o Badeco falou para mim: “Mano, tu vai, eu vou na tua casa e tu vai atravessar comigo, não tem por onde correr, então, bora”. Fomos. Fiz a aula de cavaquinho, gostei, mas não levei nada muito a sério até porque não tinha a dimensão do que era a música para mim era só…“Vou aprender a tocar esse instrumento para quê? Não vai me levar a lugar nenhum”.

Passou o tempo e a gente continuou firme com a amizade até que chegou um dia que ia rolar a festa de um parceiro nosso que também toca, o Fabiano. Eu ia para o curso, mas Badeco me mandou mensagem: “Vai para a festa do Fabiano com a gente”. Quando eu chego na festa, estão William e Zé Galinha também. Todo mundo participava do projeto que estava rolando no meu morro na época: o Herdeiros. 

Fomos lá na festa, daqui a pouco, eles foram tocar e eu fiquei encantado, mano. Eu lembro que o Zé Galinha (responsável por escolher o nome Mulecada que Agita) estava tocando surdo de terceira e ele sempre foi franzininho, pequenininho. Cara, o que o Zé Galinha tá fazendo com a terceira? Pensei comigo: “Como pode esse moleque miúdo desse tamanho?” Falei, “eu quero fazer isso aí. Eu quero tocar!”, então, Badeco me convidou pra ir ao ensaio lá na Casa do Jongo na terça. Quando chegou a bendita terça-feira, quando eu chego no Jongo, quem está lá? Eles ensaiando dentro do teatrinho com o Quininho.

A música mudou minha vida, literalmente, porque eu era um moleque que antes de tocar música, andava com outra rapaziada, tá ligado? Tinha um ar ruim que me rondava, assim, tá ligado? Eu falava “Cara, o que eu tô fazendo aqui, mano?”. Eu nem gosto desse bagulho, tá ligado? E quando eu conheci a música, foi o que me afastou desse lado e eu comecei a andar com os moleques (músicos do Herdeiros e Mulecada que Agita). E pensei: “Pô, essa aqui é minha rapaziada, tá ligado?” Uns moleques tranquilos, responsas. Quando eu chego do lado deles, eu já tinha vivido coisas que eles não tinham vivido, tá ligado? Em relação a várias coisas, tá ligado? Então, eles me ensinavam o lado, a gente pode dizer assim, mais puro, e eu passava o lado mais sagacidade pra eles, tá ligado? Então, a nossa amizade sempre foi assim, é um complementando o outro no que pode.

Turma de alunos do Mulecada que Agita se prepara para a aula. Foto: Rhuan Gonçalves
Turma de alunos do Mulecada que Agita se prepara para a aula. Foto: Rhuan Gonçalves

RioOnWatch: Como foi a retomada do projeto Mulecada que Agita após a pandemia?

Derik: A gente resolveu voltar com o projeto, porque a gente sentiu que o morro perdeu um pouco da nossa cultura, tá ligado? Antigamente, a rapaziada da antiga vivenciou isso, pô, o morro pulsava Império Serrano! 

Badeco: Houve um tempo que alguma coisa tava acontecendo na Serrinha com música, uma dança, capoeira, qualquer coisa. 

Derik: Hoje, a gente não sente tanto essa parada. E aí essa missão é nossa, né? Porque nós somos a geração atual. Então, voltamos com o projeto. A gente, a princípio, não queria ir pra Casa do Jongo, voltamos com os ensaios no Campo da Balaiada. Mas aí tem uma hora que a gente se olha e diz, “não tem jeito, tem que ir pro Jongo!”, porque tem drone jogando granada na cabeça de todo mundo, tá ligado? Não quer saber se tu é morador.

Professor Jota orienta aluna Vivian Milena durante aula do Mulecada Que Agita na Casa do Jongo. Foto: Rhuan Gonçalves
Professor Jonas orienta aluna Vivian Milena durante aula do Mulecada Que Agita na Casa do Jongo. Foto: Rhuan Gonçalves
Suellen Tavares durante entrevista ao RioOnWatch na Casa do Jongo da Serrinha. Foto: Rhuan Gonçalves
Suellen Tavares durante entrevista ao RioOnWatch na Casa do Jongo da Serrinha. Foto: Rhuan Gonçalves

Nesta altura da conversa, Suellen Tavares, de 38 anos, cria da Serrinha, professora de Jongo e representante da Casa, interveio e contou um pouco sobre sua proximidade com o projeto Mulecada que Agita. Ela diz: “Vi a formação do projeto acontecer, vi como as coisas foram começando e a necessidade que o Quininho viu das crianças terem uma profissionalização, mas um direcionamento mais técnico, no sentido percussivo. Conheci o projeto, quando ainda era embrionário, não tinha nem nome! Só tinha mesmo a vontade de fazer”. Segundo ela, isso é comum na Serrinha: fazer muito com poucos recursos e muita vontade.

RioOnWatch: Na sua visão, como você vê o Mulecada que Agita com a mudança de grupo? Alguma observação sobre a retomada com a segunda geração pós-pandemia ? O que você enxerga a respeito disso?

Suellen: Eu acho que, primeiramente, a gente precisa pensar em legado. É um projeto muito recente, se a gente for parar pra analisar—um projeto de 2017—a gente já tem uma primeira geração formando uma segunda geração. Eu digo isso porque, por exemplo, no Jongo eu sou a quarta geração: pensando que vovó Maria Joana, mestre Darcy e tia Maria — Delia — são a terceira geração, a minha é a quarta. É um grupo que tem 60 anos. Já no Mulecada que Agita eles estão indo para a segunda, daqui a mais cinco anos já vai ter a terceira. Então, pensar essa coisa do legado, de fato, de ir passando diariamente, acho que isso é o mais importante: o legado da Serrinha ser passado adiante.

É incrível como, aqui na Serrinha, esses moleques aqui do Morro, já têm ritmo. É impressionante! As aulas duram duas horas e, em 40 minutos, eles já pegam uma bossa. Parece que a parada já está no sangue. É importante, nessa perspectiva, eles saberem de onde vêm. E aí, quando saem—ou melhor, deixam de morar aqui, como o Quininho, o Pretinho, o Fofão—sabem para onde voltar. Sabem onde se recarregar e fortalecer os seus, acho que essa é a grande parada. E tem a galera que ainda tá por aqui, fortalecendo.

Por isso, quando Badeco me ligou, eu falei: “Badeco, a casa é nossa”. O projeto retornou, mas já que foram acontecendo algumas coisas na Serrinha, ele queria ver se dava pra ocupar a Casa do Jongo.  Conversei com a coordenação e fiz a ponte. É um orgulho gigante ver essa potência. Fico muito orgulhosa.

Bateria formada pelos alunos do Mulecada que Agita. Foto: Rhuan Gonçalves
Bateria formada pelos alunos do Mulecada que Agita. Foto: Rhuan Gonçalves

Ao terminar a conversa com Suellen, RioOnWatch também pôde fazer, rapidamente, duas perguntas a duas mães de alunos do Mulecada que Agita sobre o impacto do projeto para seus filhos. Os trechos abaixo são da conversa com Pamela Oliveira, de 28 anos, mãe de Anthony Alfredo, de 7 anos, e Luna Bouças, de 43 anos, mãe de Victor Bouças, de 10 anos.

RioOnWatch: Qual é a importância do Mulecada que Agita para seu filho?

Pamela: Muito grande! Desde que o Anthony chegou no projeto, ele mudou bastante. A vontade de criar, de liderar, o comportamento tanto na escola, quanto em casa. Ajudou muito na timidez que ele tinha e nas relações com outras pessoas. 

Luna: O Mulecada que Agita é muito mais do que um projeto de percussão para o Victor: é um espaço onde ele expressa o amor dele pela percussão, onde ele se sente pertencente, acolhido e valorizado. Cada batida no tamborim é uma forma de expressão, cada ensaio é um momento de aprendizado e cada apresentação é uma conquista. O projeto ajuda o Victor a acreditar em si mesmo e a entender que, com dedicação e amor, ele pode ir muito longe. Mais do que formar ritmistas, o Mulecada que Agita forma cidadãos, fortalece valores como respeito, disciplina, amizade e trabalho em equipe, construindo um futuro mais bonito para ele e para tantas outras crianças.

RioOnWatch: Como o projeto contribuiu para a relação do seu filho com a música?

Pamela: O projeto contribui para além de música, que é o principal objetivo, eu sei, mas só de estar inserido dentro de um projeto social, com os “tio” que ele admira, contribui para a construção do homem e do futuro artista que ele quer se tornar.

Luna: O projeto permite ao Victor expressar o seu amor pela música. Através da percussão, ele aprendeu a ouvir, sentir e viver o ritmo, desenvolvendo sensibilidade, concentração e alegria. A música tornou-se uma fonte de amor, felicidade e expressão de sentimentos. Cada toque no instrumento é repleto de emoção, orgulho e esperança, reforçando a autoconfiança do Victor e evidenciando sua capacidade de brilhar, encantar e emocionar com seu dom.

Crianças do Mulecada que Agita pousam com seus instrumentos antes da aula na Casa de Jongo da Serrinha. Foto: Rhuan Gonçalves
Crianças do Mulecada que Agita pousam com seus instrumentos antes da aula na Casa de Jongo da Serrinha. Foto: Rhuan Gonçalves

As aulas do Mulecada que Agita acontecem todas as quartas, às 18h, na Casa de Jongo da Serrinha.

“Qualquer criança
Toca um pandeiro, um surdo e um cavaquinho
Acompanha o canto de um passarinho
Sem errar o compasso
Quem não acreditar
Poderemos até provar
Pode crer, porque
Nós não somos de enganar
Melodia mora lá
No Prazer da Serrinha!”
— Fundo de Quintal Prazer da Serrinha (1988)

Rhuan Gonçalves é natural de Macaé, cidade do Norte Fluminense, possui licenciatura em História pela PUC-Rio, é fotógrafo do acervo do Imagens do Povo, vinculado ao Observatório de Favelas, localizado no Complexo da Maré, e ritmista do Império Serrano e da Estação Primeira de Mangueira.


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