Eleições 2026: Comunicadores de Favela Combatem Desinformação e Vulnerabilidade Digital

‘A Comunicação Comunitária Tem uma Tarefa Crucial Para a Democracia’

Na pandemia, teorias falsas sobre as vacinas afetaram a tomada de decisão de moradores de favelas. Foto: José Cruz/Agência Brasil
Na pandemia, teorias falsas sobre as vacinas afetaram a tomada de decisão de moradores de favelas. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Esta matéria abre uma série sobre as eleições de 2026, com enfoque nas perspectivas das favelas do Grande Rio.

A desinformação é uma epidemia silenciosa, suas consequências concretas e imediatas. Nas favelas brasileiras, não é diferente. A pesquisa Fake News: a epidemia que invade as periferias, realizada e divulgada pelo Data Favela em julho de 2024, revelou que 89% dos moradores de comunidades—cerca de 94 milhões de pessoas—eram vítimas de fake news.

A desinformação atinge moradores de favelas de várias formas: disseminando dados falsos sobre a venda de produtos ou serviços (65%); nas áreas das políticas públicas de educação, saúde e vacinação (64%); sobre economia e impostos (58%); no que se trata à segurança pública e leis (52%); e questões ambientais, científicas ou educacionais (49%).

O problema vai além de simples boatos: notícias falsas já afastaram moradores dos postos de saúde em plena pandemia. Geram pânico durante operações policiais e influenciam decisões políticas importantes. A combinação do limitado acesso a fontes confiáveis e a velocidade com que as mensagens se espalham, por aplicativos de mensagens e redes sociais, cria o cenário perfeito para a desinformação em favelas no Brasil. 

Letícia Pinheiro, mobilizadora de Acari, na Zona Norte do Rio, mestra em Serviço Social e integrante do Fala Akari, coletivo de comunicação comunitária, direitos humanos e educação popular, destaca como vídeos com informações distorcidas se espalham rapidamente em momentos críticos—como enchentes ou operações policiais—justamente quando a população mais necessita de informações. 

“Circulam vídeos que distorcem a realidade local, espalhando informações falsas sobre a comunidade. Isso intensifica o temor entre os moradores, especialmente em momentos críticos, como situações de calamidade—seja por [efeitos das] crises climáticas, como enchentes, ou [crises] sanitárias, como a pandemia da Covid-19—e durante operações policiais. Esses são momentos de grande emergência em que as pessoas buscam informações urgentemente, mas, muitas vezes, acabam recebendo dados incorretos, como em um ‘telefone sem fio’.” — Letícia Pinheiro

O morador do Lins de Vasconcelos e assistente social, Rafael Souza, criador de A Voz do Lins, canal de mídia comunitária que atua há 10 anos, conta como uma informação falaciosa sobre um caso de estupro, em 2020, quase condenou uma pessoa inocente.

“Havia realmente ocorrido um crime de violência sexual contra uma menina aqui [no Lins] e um rapaz teve sua foto e dados pessoais divulgados em grupos de WhatsApp como sendo o autor [do crime]. Ao apurarmos estas informações, também fomos contactados pela família da vítima, que nos informou que, apesar do rapaz parecer muito com o acusado, não era ele [o criminoso]. Simplesmente alguém conseguiu fotos e dados de um desconhecido e compartilhou, através de um áudio, o que tinha ocorrido. Para evitar uma retaliação injusta, o inocente teve que fazer um boletim de ocorrência e gravar um vídeo, que foi divulgado na grande imprensa, pra esclarecer que não era ele.” — Rafael Souza

Rafael alerta os motivos pelos quais isso acontece, e como esse tipo de informação pode colocar famílias inteiras em situação de desespero.

“Há um primeiro aspecto, que não é exclusivo [nosso], mas é comum em favelas e periferias: as fake news generalistas que se propagam diariamente, principalmente através de grupos no WhatsApp. Essas mensagens carregam um tom alarmista, gerando medo e, muitas vezes, estão ligadas à deslegitimação de questões relacionadas ao governo federal ou a equipamentos públicos, como os de saúde e assistência social. Há um grande volume de desinformação sobre esses temas, o que contribui para a construção de um clima de medo dentro do território.” — Rafael Souza 

Letícia Pinheiro aponta que o tom alarmante que acompanha muitas fake news precariza também a saúde mental dos moradores.

“Crises de pânico, infartos e outros problemas surgem num território já marcado por violações constantes. É um jogo perverso onde as favelas são alvo por sua vulnerabilidade social e digital.” — Letícia Pinheiro

Letícia menciona as eleições de 2022, quando grupos de direita se aproveitaram do caos gerado pela pandemia para reproduzir discursos antivacina, desorientando a população.

“Durante a pandemia, a desinformação sobre vacinas [tornou muitos moradores relutantes] à imunização. Nas eleições, foram divulgadas teses que beiravam o absurdo, como a de que ‘vacinas transformam pessoas em jacaré’. Quando pensamos no impacto deste fenômeno no debate político, especialmente durante eleições, surge uma grande problemática: as fake news produzidas por setores da direita intensificaram a desinformação e afetaram diretamente as favelas e periferias. Esse impacto é grave porque a maioria da população dessas áreas tem dificuldade de acessar canais oficiais de informação. Muitos moradores têm acesso às redes sociais, mas não tiveram uma educação formal que os capacite a discernir se uma notícia é verdadeira ou falsa.” — Letícia Pinheiro

Moradores da Rocinha que participaram da formação em Comunicação em Saúde, uma iniciativa do programa Rede Fala Roça Informa. Foto: Acervo Fala Roça
Moradores da Rocinha que participaram da formação em Comunicação em Saúde, uma iniciativa do programa Rede Fala Roça Informa. Foto: Acervo Fala Roça

Karen Fontoura é cria da Rocinha e jornalista do Fala Roça, portal de notícias da comunidade. Ela reforça que a pandemia foi determinante para que este jornal iniciasse um combate mais intenso às fake news, já que a vacinação contra a Covid-19 era crucial para a sobrevivência dos moradores.

“[Enquanto] o Rio de Janeiro estava indo pra terceira dose da vacina, a Rocinha ainda não tinha recebido. As pessoas continuavam circulando. A Rocinha não parou—mesmo com a campanha ‘fique em casa’. Ônibus e vans continuavam lotados de trabalhadores porque eles não tinham essa opção, e as vacinas não chegavam. O impacto das notícias falsas ficou mais gritante na pandemia quando [surgiram] discursos de desvalorização do SUS e da vacina pelos próprios governantes. Eles ficavam fazendo discursos que influenciavam a baixa na procura da vacina, o que refletiu nas favelas. A gente entendeu que tinha que fazer um trabalho para reverter essa situação.” — Karen Fontoura

Segundo Letícia, a falha de comunicação não nasce nas favelas, mas na forma como o Estado não se responsabiliza pela difusão de informações na sociedade. Ela conta que, em Acari, já identificou pessoas com alto grau de escolaridade—inclusive juízes—acreditando em informações falsas.

“Há uma defasagem na comunicação pública… que não chega a essas comunidades de forma clara e confiável. Tudo isso contribui para um cenário em que a desinformação se espalha com facilidade, prejudicando não apenas a tomada de decisões no cotidiano, mas também o próprio debate democrático.” — Letícia Pinheiro

O Papel da Comunicação Comunitária no Combate às Fake News 

Apesar deste cenário, os coletivos destacam a resistência organizada para reverter ou amenizar os impactos da desinformação em suas comunidades.

“Verificamos quem produziu cada vídeo [publicado em nossas redes, e] se é recente,… Cruzamos as informações com fontes oficiais. Essa mobilização em rede envolve acolher o que a população está compartilhando, avaliando a velocidade e a veracidade das informações. Utilizamos muito o WhatsApp e o Facebook, mas sempre com cuidado. Tudo que chega até nós é verificado. Muitas vezes as pessoas compartilham coisas sem ler direito. Nossa função é orientar, explicar quando algo é falso e fornecer fontes verdadeiras para que as pessoas possam ter a informação correta.” — Letícia Pinheiro

Além de implementarem técnicas consolidadas de reportagem, mídias comunitárias também oferecem formações para novos jornalistas como forma de combater as fake news. Em 2024, o Fala Roça realizou um curso sobre Comunicação em Saúde na Rocinha, onde problematizou a desinformação no âmbito da saúde comunitária.

 

Vis dette opslag på Instagram

 

Et opslag delt af Fala Roça (@jornalfalaroca)

Primeira turma do Novas Vozes, formação d’A Voz do Lins para garantir que ‘as notícias que importam cheguem corretamente’. Foto: Acervo A Voz do Lins
Primeira turma do Novas Vozes, formação d’A Voz do Lins para garantir que ‘as notícias que importam cheguem corretamente’. Foto: Acervo A Voz do Lins

“Apesar de termos iniciado essa abordagem de combate às fake news de forma mais intensa na pandemia, continuamos com outros temas a respeito da desinformação. Um [dos resultados foi descobrirmos] a falta de medicação para pessoas trans na Rocinha. Percebemos que não havia medicamentos para quem estava realizando uma transição de gênero. Quando estamos em comunidades vulneráveis, muitas vezes as pessoas não sabem dos seus direitos. Quando combatemos a desinformação, oferecemos a esses moradores a garantia desses direitos. Pensando na qualidade de vida e acesso a serviços que, muitas vezes, estão fora da comunidade.” — Karen Fontoura

Entre abril e agosto de 2025, A Voz do Lins promoveu o treinamento Novas Vozes, uma iniciativa em parceria com um grupo de pesquisa do Departamento de Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). O objetivo do treinamento, Rafael conta, foi formar novos comunicadores do Lins para atuarem junto ao portal, abordando temas como responsabilidade com a informação, com a averiguação de fatos e fontes reais dessas informações. Atualmente, cinco alunos que participaram desta formação trabalham com A Voz do Lins. “Ensinamos que nossa função não é só informar, mas garantir que as notícias que importam cheguem corretamente”, afirma Rafael.

Completando sua reflexão, Letícia explica que a desinformação sobre favelas sempre existiu, associando essas comunidades a estereótipos de criminalidade e marginalidade quando são, na verdade, lugares cujos moradores sofrem violações históricas e constantes de direitos. Por isso, ela ressalta a importância de mídias comunitárias construírem e consolidarem sua narrativa própria e factual.

“Entendemos que a comunicação comunitária tem uma tarefa crucial para a democracia do país e para o direito da população de acessar suas garantias de cidadania. Pensando nos valores democráticos, essa comunicação cumpre uma função fundamental. Quando atuamos com comunicação comunitária na favela, estamos mostrando que ela é um espaço plural e diverso, onde vive uma população que busca dignidade, direitos e a preservação de seus valores. Esse é um ponto fundamental: mostrar a existência e resistência do nosso território, porque se não formos nós a falar por nós mesmos, ninguém o fará.” — Letícia Pinheiro

Sobre o autor: Felipe Migliani é jornalista, com graduação em Jornalismo e Pós-Graduação em Jornalismo Investigativo e em Jornalismo de Dados. Atua como repórter e assessor de imprensa, tendo publicado matérias em veículos como Meia Hora, Estadão, Agência Lume, PerifaConnection, RioOnWatch, Ambiental Media, Gênero e Número, Olhos Jornalismo e ND Mais.


Apoie nossos esforços para fornecer apoio estratégico às favelas do Rio, incluindo o jornalismo hiperlocal, crítico, inovador e incansável do RioOnWatchdoe aqui.