
Esta matéria faz parte de nossa série que apresenta veículos de comunicação comunitária.
Criado em 2013, o jornal Fala Roça é um portal de comunicação comunitária da Rocinha, Zona Sul do Rio de Janeiro, que tem como foco atender às demandas diversas da maior favela do Brasil. Através de suas ações, promove uma maior integração na Rocinha, o que, devido à sua magnitude territorial e rotatividade de moradores, é um grande desafio. Em seus 13 anos de existência, o Fala Roça construiu um importante legado, aprofundando a interconexão, gerando melhorias e contribuindo com a cidadania de seus habitantes.

O Fala Roça foi oficialmente por meio de uma formação oferecida pela Agência de Redes para Juventude, que apoia e capacita projetos liderados por jovens no Rio de Janeiro. Entre eles estava o embrionário Fala Roça, que recebeu um aporte financeiro para alavancar o projeto.
Sua primeira edição, inaugurada em 13 de maio de 2013, saiu apenas no impresso, formato utilizado até hoje—junto ao site e as redes sociais—com o intuito de democratizar o acesso ao jornal, como conta o produtor executivo do portal, Osvaldo Lopes. Nem toda a favela tem acesso ao letramento digital e aos aparelhos que mediam esse uso.
“É muito importante porque ainda existe uma parte da população que não está no digital. Quando a gente fala da Rocinha, a gente tá falando de uma população que, muitas vezes, é semianalfabeta ou analfabeta. Então, quando a gente foca muito no digital, a gente acaba excluindo essa galera que não só não sabe mexer nos aparelhos tecnológicos, mas, mesmo se souber, não vai saber consumir aquele tipo de notícia de uma forma adequada. Às vezes, também acontece da gente precisar ler para um morador [para] chegar de fato nele. Às vezes, ele mora lá na parte mais alta da Rocinha e não sabe o que acontece na parte de baixo ou só assiste televisão, mas só vai passar a Rocinha [no programa de TV] quando tiver tiroteio. Quando chega um jornal como o Fala Roça trazendo boas notícias sobre várias coisas que estão acontecendo no morro, ele até se surpreende. É por isso que a gente acredita muito que o jornal impresso não vai morrer.” — Osvaldo Lopes
Da Roça à Rocinha: A História da Favela
Por trás do nome do jornal, está o resgate da própria memória da comunidade. Diferente dos dias atuais, a populosa favela, repleta de comércios e edifícios, já foi uma ampla e íngreme região agrícola conhecida como Fazenda Quebra Cangalha, de posse dos irmãos portugueses Castro Guidão, segundo o Mapa Cultural da Rocinha. Uma curiosidade sobre o passado da região é que ela era repleta de passagens de madeira, chamadas de cangalhas, que se quebravam facilmente durante o trânsito de animais.
No entanto, a característica fazendeira deu lugar ao loteamento das terras a partir da década de 1930, através de determinação da administração federal à época, estimulando pessoas de diversos lugares a ocuparem a região, constituindo o formato atual desta favela.
“Apesar de ter vendido alguns lotes, a companhia Castro Guidão faliu em 1938. muitos moradores não quitaram as dívidas e a população começou a ocupar os lotes da empresa porque diziam que as terras não tinham donos. O asfaltamento da Estrada da Gávea contribuiu ainda mais para a ocupação do morro.” — Trecho do texto no Mapa Cultural da Rocinha

No ano de 2015, o Fala Roça foi reconhecido como Patrimônio Cultural da Cidade do Rio de Janeiro, através do edital Ações Locais, em comemoração aos 450 anos do município. Neste mesmo período, lançou o Mapa Cultural da Rocinha, que levantou mais de 150 iniciativas culturais da comunidade. Este mapeamento viabilizou a aproximação entre as diferentes atividades culturais da comunidade e seus moradores.

Uma Ferramenta de Vigilância Popular, de Morador para Morador
O Fala Roça exerce um importante processo de vigilância popular sobre o poder público. Em uma de suas reportagens, questionou a regularidade da instalação de um tomógrafo em uma igreja evangélica na comunidade durante a pandemia, fato que ganhou visibilidade suficiente para a realocação adequada do equipamento, posteriormente implantado na UPA da Rocinha.
Uma outra reportagem sobre a falta de vacinas na comunidade, também nessa época, possibilitou a chegada da segunda dose no território, contribuindo para a prevenção do contágio de milhares de famílias pelo coronavírus.

Mais recentemente, Fala Roça realizou a 3ª Conferência de Jornalismo de Favelas e Periferia, em parceria com a Agência Mural. Foi a primeira edição do evento a contar com a presença de quase 60 portais comunitários de todo o país.
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Ao longo dos anos, o jornal incluiu em suas atividades a produção de eventos, como o Viradão Cultural, que acontece todo ano, e a realização de formações voltadas à comunicação comunitária, como a Rede de Comunicação e Cultura nas Favelas e o Curso de Comunicação e Gestão Cultural, entre outras.
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Atualmente, o Fala Roça é composto por uma equipe de 27 pessoas, entre eles dez profissionais fixos e sete freelancers—colaboradores que, em sua maioria, são alunos das formações oferecidas pelo portal. Só em 2024, cerca de 300 pessoas passaram por esses cursos, workshops e seminários. Segundo Karen Fontoura, repórter, coordenadora de comunicação institucional e de projetos do jornal as bolsas são essenciais.
“A gente sempre tenta frisar que essas pessoas sejam de favelas. Pode ser daqui da Rocinha ou de outras do Rio. Sempre que a gente tem um edital que permite que a gente dê uma bolsa para quem está participando de uma das nossas formações, a gente também remunera, porque a gente entende que queira ou não, faz diferença. É R$200 ou R$300 que ajuda numa compra de mês, no transporte pra chegar até aqui.” — Karen Fontoura
O jornal alcança entre 25.000 e 35.000 leitores por mês e, em 2025, ultrapassou o marco de 100.000 exemplares distribuídos, um número que evidencia a expressividade do trabalho do Fala Roça e a demanda pelo serviço de comunicação comunitária. Além disso, atende a necessidades, muitas vezes, despercebidas pelo jornalismo de massa.
“Ainda existe uma barreira entre a grande mídia e o jornalismo favelado, só que, na verdade, o trabalho deles não existe sem o nosso. Eles sabem que, muitas vezes, não podem entrar no nosso território, mas a gente consegue fazer um trabalho de qualidade, incrível, mas não tem esse reconhecimento ainda. Muitas vezes, eles [grande imprensa] batem na tecla, [exigem] o diploma, mas o Fala Roça tá aqui [funcionando]. Todo mundo é profissional formado dentro das suas áreas e a gente mostra sim que o favelado pode. Ele é potente e ele vai continuar fazendo uma comunicação de igual pra igual [com a mídia]. Acho que a missão principal de cada pessoa aqui dentro é que a gente precisa reforçar a comunicação de nós para nós. Não precisa mais que venha um [jornalista] de fora pra dar notícia sobre a gente não. A gente é capaz de narrar o nosso presente e conseguir juntos um futuro de qualidade para as próximas gerações e para a que está aqui agora.” — Osvaldo Lopes
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‘Juntos A Gente Consegue Ser Mais Potente’
Apesar das conquistas já alcançadas, Osvaldo explica que há barreiras, ainda sem solução simples, como as operações policiais, que impactam a rotina do jornal.
“Um jornal pode estar funcionando, mas pode acontecer algum impasse dentro do território. O clima pode não estar tão [favorável]. Às vezes, outras favelas estão tendo um grande tiroteio, como que a gente vai publicar uma matéria feliz no nosso Instagram, enquanto todas as redes estão sendo bombardeadas com vídeos de operações policiais? Por vezes, seguramos um pouco determinado conteúdo porque a gente se solidariza. É um território igual ao nosso, então, isso também é um desafio diário. Apesar de tudo, a gente consegue resistir e continuar levando o que é necessário [de interesse para a favela], o que a gente acredita: uma senhora que viu o neto no jornal, um projeto social [da favela] que depois de uma matéria no Fala Roça teve uma nova perspectiva de continuidade… Todos esses são impactos, dos grandes aos pequenos. O que… [enfocamos] são os nossos [moradores da Rocinha] que estão ali do nosso lado.” — Osvaldo Lopes
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Apesar dos desafios, o Fala Roça segue ampliando a comunicação popular, a cidadania e a integração na Rocinha.
“Teve uma matéria com uma pessoa super conhecida aqui porque é o inspetor de uma escola próxima, o Petrô. Ele também fazia excursões para passeios, então, uma galera conhece ele, e ninguém sabia o motivo do apelido dele e a gente traz no jornal impresso essa história. Um menino leitor comentou: ‘Eu li a história dele e vi que ele começou a trabalhar com 12 anos igual a mim. Achei muito legal.’ As pessoas se sentem realmente representadas, o que não tem em outras [grandes] mídias. Pensamos também em como aumentar as formações, porque temos muito retorno [positivo], tanto de pessoas que moram [aqui], quanto de visibilidade [dentro da comunidade], que é fundamental pro Fala Roça. Temos esse intuito de falar com a comunidade e para o maior número de pessoas possível porque juntos a gente consegue ser mais potente.” — Karen Fontoura
Sobre a autora: Amanda Baroni Lopes é formada em jornalismo na Unicarioca e foi aluna do 1° Laboratório de Jornalismo do Maré de Notícias. É autora do Guia Antiassédio no Breaking, um manual que explica ao público do Hip Hop sobre o que é ou não assédio e orienta sobre o que fazer nessas situações. Amanda é cria do Morro do Timbau, no Complexo da Maré.
