
Neste carnaval 2026 carioca, RioOnWatch destaca as duas únicas rainhas de bateria oriundas das favelas de suas escolas, cargo que, ano a ano, tem sido cada vez menos ocupado por moradoras locais. Conheça Mayara Lima, do Paraíso do Tuiuti, e Evelyn Bastos, da Estação Primeira da Mangueira.
No tradicional desfile na Sapucaí, existem diversas funções e posições ocupadas por mulheres, seja nas escolas de samba ou na organização da festa, seja na Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), que organiza os desfiles das escolas do Grupo Especial, ou na Liga RJ, organizadora das apresentações da Série Ouro. Porém, um dos papéis mais associados às mulheres é o de rainha de bateria.
Rainhas de Favela
Nos anos 1970 se criou o papel das rainhas de bateria, através de convites de carnavalescos, patronos e dirigentes das escolas ou de concursos para dar visibilidade às passistas e musas mais talentosas da comunidade. Essas mulheres eram vinculadas às agremiações e parte de sua comunidade de base, morando nas favelas e periferias que eram o berço das escolas de samba que iriam representar. A principal missão das rainhas de bateria era entreter e animar a bateria e a comunidade da agremiação, através do samba, nos ensaios e no desfile na Sapucaí.
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Nesta mesma época, foi criado o cargo de madrinha de bateria. Ele era oferecido a mulheres famosas e economicamente afluentes, que bancavam as fantasias, roupas, manutenção dos instrumentos, churrascos e comemorações da bateria.
Com o passar do tempo, houve uma fusão entre esses cargos e, hoje, muitas rainhas de bateria são escolhidas por sua capacidade de atrair financiamento para o desfile das escolas, apesar do papel ter surgido para destacar potências locai. Recentemente, vemos artistas famosas e influenciadoras digitais, comumente brancas e ricas, as vezes até desligadas do mundo do samba e das comunidades que representam na Avenida. Eventualmente, elas nem sabem sambar.
Uma breve pesquisa reflete bem essa questão: prevalecem imagens de celebridades desligadas das comunidades representadas na Sapucaí.

Neste carnaval de 2026, das 12 rainhas de bateria que irão desfilar no Grupo Especial, apenas duas são de favelas e vêm representando suas comunidades: Mayara Lima, do Paraíso do Tuiuti, cria do Morro do Tuiuti, e Evelyn Bastos, da Estação Primeira de Mangueira, cria do Morro de Mangueira. Ambas foram formadas ali desde a ala das crianças ou das escolas mirins.
Nos últimos anos, as redes sociais contribuíram para que algumas musas com samba no pé viralizassem, gerando pressão do público para que as escolas agissem.
Mayara Lima, Rainha do Paraíso do Tuiuti
Um desses exemplos é Mayara Lima, do Paraíso do Tuiuti, que viralizou em um vídeo no início de 2022.
Ela é cria da comunidade do Tuiuti, em São Cristóvão, bairro da Zona Norte do Rio, e ganhou destaque por sua sintonia com a bateria e carisma. Começou sua trajetória como passista aos dez anos de idade na escola de samba mirim Aprendizes do Salgueiro. Em 2011, foi convidada por Salgueiro e depois pelo Tuiuti para compor suas alas de passistas. No Tuiuti, em 2017, foi destaque de chão, em 2020 virou musa, em 2021 princesa de bateria e, em 2022, por aclamação popular, se sagrou rainha de bateria do Paraíso do Tuiuti, cargo que ocupa até hoje.
Nos ensaios para o desfile de 2026, Mayara tem reafirmado sua realeza, com uma das coreografias mais aclamadas do pré-carnaval, acompanhando a Bateria Super Som tocando um dos sambas mais populares de 2026, cantado por Pixulé: Lonã Ifá Lukumi. A Rainha de São Cristóvão já foi eleita a Melhor Rainha de Bateria de 2025 pelo Grupo Especial e é forte candidata a repetir o título em 2026.
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Para ela, estar neste posto foi fundamental para se tornar a artista que é hoje.
“Existem várias meninas que se espelham e sonham em ser rainha de bateria. Quando você transforma uma menina da comunidade em rainha, ela vê que é possível que um dia ela também consiga alcançar esse objetivo… É uma grande responsabilidade, porque eu trago comigo o legado de muitas outras que abriram um caminho para que hoje eu pudesse estar aqui, realizando meu sonho, fazendo o meu trabalho e também representando todas as meninas que estão aí. Fiquei durante dez anos compartilhando o meu talento junto com outras passistas maravilhosas e aprendi sobre união, sobre disciplina, respeito, trabalho em equipe e isso foi muito importante para a construção de quem eu sou hoje. Fico muito feliz de ter construído a minha trajetória dentro do Tuiuti, porque é uma escola que faz parte da minha vida e que me deu oportunidade de estar ali à frente da Bateria Super Som, representando, resgatando o samba no pé.” — Mayara Lima
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Evelyn Bastos, Rainha da Estação Primeira da Mangueira

Rainha de bateria da Mangueira desde 2014 e cria da comunidade, Evelyn Bastos iniciou sua trajetória no samba ainda na infância, na escola mirim Mangueira do Amanhã, que preside desde 2022. É filha e neta de sambistas. Conquistou vários títulos no mundo do carnaval, como: Rainha Mirim em 2004, aos onze anos; Musa do Carnaval em 2012; e Rainha do Carnaval do Rio em 2013.
Recebeu em 2019 a Medalha Pedro Ernesto, e em 2024, assumiu o papel de Diretora Cultural da Liesa. Em 2025 tornou-se reitora da Universidade Livre do Carnaval, projeto pioneiro de qualificação da indústria carnavalesca. É licenciada em História, professora de Educação Física, empreendedora e ativista pelos direitos das mulheres. Passista da verde e rosa por anos, é filha da ex-rainha de bateria da Mangueira, Valéria Bastos, e continua o legado de sua mãe e de seus ancestrais.
Em uma entrevista à FM O Dia, Evelyn reforça que ocupar esse lugar foi e ainda é um importante trabalho de autoestima para as meninas que vêm de favelas.
“Sempre acreditei muito em legado. Só cheguei nesse cargo de rainha de bateria, que já foi o cargo da minha mãe no final dos anos 1980 por conta do legado e por acreditar que mulheres como eu poderiam alcançar a coroa maior nas escolas de samba. Então, se não fosse essa crença, essa fé de me enxergar [como] rainha, talvez essa esperança no coração da ‘menina Evelyn’ de dez anos de idade teria morrido. Por isso, em todas as oportunidades que eu tenho, eu falo da importância [da representatividade]. Então, preparar essa geração, colocar essa esperança no coração dessas meninas é também mostrar para elas que essa representatividade existe não só no discurso. A imagem da Lorena Raíssa da Beija-Flor, da Mayara do Tuiuti, da Bianca da Portela, são representatividade imagética. As meninas das comunidades das escolas de samba conseguem [se] enxergar. Exemplo se faz com atitudes, não só com palavras.” — Evelyn Bastos
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Rainhas do Subúrbio e da Baixada Também Resistem às Famosas e às de Fora das Comunidades
Além das rainhas de favela, também existem rainhas de outras periféricas e da Baixada Fluminense, que representam suas comunidades, como Lorena Raissa, da Beija-Flor de Nilópolis, cria de Nilópolis, e Bianca Monteiro da Portela, cria de Osvaldo Cruz e Madureira.
Dentre as famosas, a cantora Iza é rainha de bateria da Imperatriz Leopoldinense e cria de Olaria, bairro do subúrbio da Leopoldina, região de base para a agremiação verde e branca.
As outras sete escolas, ou seja, a maioria das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro em 2026, contam com artistas famosas que não são crias ou moradoras das comunidades ou regiões que representam no desfile.
Esta falta de representatividade não se dá por falta de opção dentro das comunidades. Segundo o especialista em profissionalização de passistas, Leonardo Prazeres, um caminho para a mudança efetiva desse quadro começa pela mobilização do chão das escolas. A comunidade deve, em conjunto, reforçar a importância do papel de representatividade de passistas crias para o carnaval.
“A escola de samba é uma máquina de fazer gente talentosa e de preparar passistas mirins para se tornarem rainhas. O grande lance [fundamental para essa mudanças] é que essa comunidade acolha essa criança, que tá crescendo, a empodere e a faça abraçar cada vez mais suas raízes, que estão ali. É muito importante que a gente valorize o trabalho dessa comunidade. Elas vão dar conta do recado porque são importantes pra escola. Material humano para ocupar esse cargo a gente tem, mas a gente vive num tempo em que o valor das pessoas está sendo medido ou pelo dinheiro ou pela quantidade de seguidores. Então, é uma tarefa da comunidade mostrar o porquê aquela mulher que não é tão seguida no Instagram representa muito mais a essência daquilo que tá sendo feito [pela escola] do que qualquer outra [famosa ou rica].” — Leonardo Prazeres

Sobre a autora: Amanda Baroni Lopes é formada em jornalismo na Unicarioca e foi aluna do 1° Laboratório de Jornalismo do Maré de Notícias. É autora do Guia Antiassédio no Breaking, um manual que explica ao público do Hip Hop sobre o que é ou não assédio e orienta sobre o que fazer nessas situações. Amanda é cria do Morro do Timbau, no Complexo da Maré.
