‘As Carolinas de Jacutinga’ Promovem Reciclagem, Dignidade Feminina, Arte, Educação Ambiental, Memória e Desenvolvimento Sustentável em Cinco Municípios da Baixada Fluminense

Inspiração Veio de Carolina Maria de Jesus, para quem material reciclável é ferramenta de emancipação

Marilza Reis Arariba, atual presidenta da Coopcampo, que dá origem Às Carolinas de Jacutinga. Foto: Fabio Leon
Marilza Reis Arariba, atual presidenta da Coopcampo, que dá origem Às Carolinas de Jacutinga. Foto: Fabio Leon

Esta reportagem faz parte de uma série gerada por uma parceria com o Digital Brazil Project do Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias sobre direitos humanos e justiça socioambiental nas favelas.

Neste Mês da Mulher e após o carnaval 2026, RioOnWatch foi a Mesquita conhecer o projeto As Carolinas de Jacutinga, criado em homenagem à Carolina Maria de Jesus, enredo da Unidos da Tijuca em 2026 e uma das maiores autoras da História brasileira, que era catadora de recicláveis, assim como essas moradoras de Jacutinga, que mudam a história de seu território através de uma cooperativa de reciclagem, arte, educação ambiental e memória.

‘Sou Carolina Maria de Jesus: Aquela que Venceu a Fome Reescrevendo o Brasil!’

A trajetória de Carolina Maria de Jesus encontrou eco nas ruas de Mesquita, na Baixada Fluminense. A literata que transformou sua vivência em meio à precariedade na favela do Canindé, às margens do Rio Tietê, em São Paulo, em um marco da literatura mundial com Quarto de Despejo – diário de uma favelada em 1960, inspira hoje o projeto As Carolinas de Jacutinga, que não apenas homenageia o nome da escritora, mas resgata sua essência ao organizar mulheres catadoras em uma rede de economia solidária, protagonismo social e cooperativismo.

Desde 2024, uma parceria com a Petrobras viabilizou a inauguração de um Centro de Memória Socioambiental aberto ao público, que funciona na sede da cooperativa em Mesquita. Além do território de origem, as Carolinas se mobilizam em mais quatro cidades da Baixada Fluminense: Belford Roxo, Nova Iguaçu, Nilópolis e São João de Meriti. Hoje, em Jacutinga, material reciclável é ferramenta de emancipação. A reciclagem possibilita que mulheres se retirem de situações de vulnerabilidade, enquanto assumem protagonismo na gestão de resíduos sólidos do Grande Rio.

Carolina Maria de Jesus, uma das maiores intelectuais do Brasil.
Carolina Maria de Jesus.

A história da cooperativa começa com um gesto de solidariedade. Em 1992, durante uma missa na Igreja Nossa Senhora do Carmo, em Mesquita, Hada Rúbia Silva, hoje diretora da cooperativa, aceitou o desafio lançado pelo padre: organizar a distribuição de legumes doados a mulheres que viviam em situação de extrema vulnerabilidade. O que era para ser uma tarefa comunitária pontual tornou-se o embrião da Coopcarmo, como é conhecida a Cooperativa de Trabalho e Coleta Seletiva de Mesquita—base estrutural do que, anos depois, daria vida ao projeto inspirado em Carolina Maria de Jesus.

“Hoje em dia, até que a situação aqui na Jacutinga mudou bastante. Mas naquela época era bem difícil. As mulheres viviam menos. Era um horror!” — Hada Rúbia Silva

A transição da caridade para o desejo de fomentar a autonomia marca o capítulo fundamental na história da Coopcarmo em Mesquita. Nos anos 1990, a realidade de Jacutinga era de precariedade, com mulheres vivendo às margens de valões e recorrendo às missas para suplicar pelo básico: botijão de gás, aluguel ou um prato de comida. Hada conta que, durante anos, essa rede de apoio foi sustentada pelo padre Nino Miraldi, um italiano, cuja dedicação aos vulneráveis foi tamanha que seu nome. Nome que hoje batiza o CIEP da região, sendo lembrado carinhosamente como o “pai dos pobres” de Jacutinga. Ele fundou diversas comunidades e promoveu iniciativas importantes, como a “Campanha do Quilo”, que arrecadava alimentos para os mais pobres.

Com o falecimento de Miraldi, o trabalho social enfrentou um hiato, preenchido posteriormente pela chegada de outro sacerdote católico, o padre Obertal Xavier. O novo pároco, um conhecedor das dinâmicas da Baixada Fluminense, trouxe consigo uma filosofia de transformação. Sob essa nova diretriz, Hada Rúbia Silva, que já organizava a distribuição de legumes e a sopa comunitária trazidos na velha Kombi da paróquia, assumiu um protagonismo crescente na conversão do assistencialismo em um projeto de economia solidária. Entretanto, de início, a ideia não foi bem recebida.

“A repercussão não foi nada boa. Quando ele falou, na reunião, que havia possibilidade de fazer esse trabalho com lixo aqui, a maioria daquelas mulheres falou: ‘Ah, não, isso é inviável. Isso aí não vai dar certo. Como é que você vai colocar aquelas mulheres que vivem totalmente na miséria para catar e vender lixo? Isso não vai dar certo’.” — Hada Rúbia Silva

O conceito de reciclagem era um estrangeirismo distante das mulheres da comunidade. O foco não era a preservação do planeta, mas o combate imediato à fome e ao desemprego que assolavam mães solo e famílias invisibilizadas de Jacutinga.

‘Desenvolvendo Ações de Arte, Educação Ambiental e Memória’

Sem infraestrutura ou conhecimento técnico, a cooperativa precisou se reinventar. Elas perceberam que a capacidade operacional da Coopcampo carecia de praticamente tudo: pessoal qualificado para gerenciar os materiais recicláveis, estruturar o local com equipamentos adequados, padronizar o armazenamento e transformar o material reciclável em ganho financeiro. Para isso, padre Obertal viajou para a Alemanha e Bélgica, onde contactou ONGs especializadas na criação, organização e capacitação de iniciativas de reciclagem e agroecologia no Sul Global. Uma junta de especialistas viajou até Mesquita e, através de uma imersão que durou semanas, o grupo de mulheres começou sua trajetória na economia solidária.

Em 2010, aconteceu a legalização da Cooperativa, que teve de passar pelos ajustes burocráticos necessários, como a obtenção de contrapartidas trabalhistas direcionadas às cooperadas, incluindo abertura de contas em banco e adesão ao sistema previdenciário brasileiro.

Somando-se a isso, uma parceria com a Prefeitura de Mesquita ajudou a detalhar as especificidades técnicas e permitiu que, em 2011, a cooperativa obtivesse uma prensa hidráulica e um caminhão próprio para ajudar na coleta e transporte do material a ser reciclado. Estes bens foram adquiridos através de edital publicado pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que investiu na inclusão social por meio de ações de saneamento e saúde ambiental com Organizações da Sociedade Civil. 

Caminhão da cooperativa adquirido via edital público. Foto: Fabio Leon
Caminhão da cooperativa adquirido via edital público. Foto: Fabio Leon

Algum tempo depois, o grupo ficou sabendo de uma exposição da escritora e musa inspiradora, Carolina Maria de Jesus. Movidas por esse incentivo, decidiram cruzar a Via Dutra rumo a São Paulo. O destino era o Instituto Moreira Salles (IMS) na Avenida Paulista. 

“A gente simplesmente foi”, relembra a educadora ambiental Fabiana Oliveira, uma das voluntárias do projeto. Com R$5.000 obtidos de um edital do Sebrae e passagens doadas, elas desembarcaram na metrópole paulista. No encontro com os educadores do museu, a surpresa: as mulheres da Baixada sabiam tudo sobre Carolina. 

Literatura: a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus durante noite de autógrafos do lançamento de seu livro "Quarto de Despejo", em uma livraria na rua Marconi, em São Paulo (SP). (São Paulo (SP), 09.09.1960. Foto: Acervo UH/Folhapress
Literatura: a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus durante noite de autógrafos do lançamento de seu livro “Quarto de Despejo”, em uma livraria na rua Marconi, em São Paulo (SP). São Paulo (SP), 09.09.1960. Foto: Acervo UH/Folhapress

A identificação com a escritora que viveu do lixo e o transformou em literatura foi imediata e profunda. Daquele encontro surgiu uma parceria com o IMS e uma nova identidade. As Carolinas não eram mais só catadoras, tornaram-se mulheres que se reinventam através de três pilares: arte, educação ambiental e memória

Hoje, a sede da cooperativa abriga, além do Centro de Memória, da prensa e do galpão, uma inovadora fábrica de papel artesanal: a Repapel. Um dos grandes diferenciais é a parceria com a vizinha Nova Iguaçu, cidade que não possui cooperativa própria e que envia o seu material reciclável para Jacutinga—cerca de 20 toneladas mensais.

Entre os materiais recebidos, um se destaca pela ousadia tecnológica: a bituca de cigarro. Considerada um resíduo altamente poluente devido à nicotina e metais pesados, a bituca demora até cinco anos para se decompor. Porém, através de uma tecnologia desenvolvida pela Universidade de Brasília (UnB), as bitucas recolhidas em Nova Iguaçu passam por um processo de descontaminação e retornam para a cooperativa como massa celulósica pura.

“Isso aqui é o filtro do cigarro descontaminado”, mostrando a matéria-prima que agora compõe cadernos artesanais. “O projeto já produziu mais de 1.000 unidades, que vêm sendo aperfeiçoadas desde 2019. O que antes tinha capa de papelão comum, agora, ganha a textura e o valor de um papel feito à mão, carregado de história”, explica a professora Fabiana. 

Recentemente, em uma oficina no Festival Favela Sustentável, as artesãs descobriram o potencial do agave—uma planta invasora que tem uma fibra resistente, similar a do sisal. O plano agora é substituir o plástico das encadernações por fios do vegetal, fechando o ciclo de um produto 100% ecológico. “A ideia é tornar esse caderno cada vez mais sustentável e melhorar nossa apresentação”, explica Fabiana. 

Da esquerda pra direita; Fabiana, Hada Rubia e Marilza, atual presidenta da Cooperativa. Foto: Fábio Leon
Da esquerda pra direita; Fabiana, Hada Rubia e Marilza, atual presidenta da Cooperativa. Foto: Fábio Leon

Mesmo com a Legalização, Desafios Continuam

De lá pra cá, foram muitas vitórias em sequência: implantação de uma unidade produtiva de papel artesanal com reaproveitamento de resíduos, ações formativas em colagem, pintura, encadernação, mosaico e design utilizando materiais recicláveis, encontros interativos que abordam reciclagem, consumo consciente, território como espaço educativo, oficinas de memória e escrita, além de círculos de partilha e autocuidado, incluindo encontros com foco no bem-estar emocional, pertencimento e fortalecimento coletivo em rede.

No entanto, nada é fácil para as cooperadas da Carolinas de Jacutinga. Mesmo sobrevivendo com dignidade, superando dificuldades econômicas mais impactantes, ainda têm trajetórias marcadas pela convivência com os limites. 

Aos 60 anos, Márcia Rodrigues Conceição, moradora de Nova Iguaçu, conta que sua história na cooperativa começou há 18 anos, em um momento de incerteza. Desempregada e vinda de uma experiência difícil como faxineira em um condomínio—onde enfrentava longas distâncias e a violência—ela encontrou na reciclagem, uma nova vida. 

Mesmo sendo analfabeta e admitindo que, no início, se sentia “meio perdida”, Márcia não recuou. Sob o acolhimento de Hada, a quem Márcia descreve como “uma mãe de coração gigante”, ela passou pelo período de experiência e nunca mais saiu.

Para Márcia, a cooperativa trouxe mais do que um salário: trouxe inclusão socioeconômica. Foi através desse trabalho que ela conseguiu ter, pela primeira vez, uma conta no banco e um cartão de débito. “Eu não tinha nada”. Nem mesmo a tragédia das enchentes, que assolou a região em 2023, levando quase todos os seus pertences, conseguiu desanimá-la. Com o apoio de benefícios governamentais e o suporte contínuo do seu trabalho na reciclagem, ela segue reconstruindo sua vida, tijolo por tijolo, no mesmo local onde mora, perto da linha do trem do ramal Japeri. O cargo de diretora de produção veio como uma surpresa emocionante. Márcia conta que descobriu a promoção durante uma reunião, ao ouvir seu nome ser anunciado. “Eu comecei a chorar ali, é uma coisa que a gente não espera”, diz.

Hoje, ela lidera uma equipe de dez pessoas. Sua rotina envolve garantir a organização do galpão, a triagem dos materiais que chegam de localidades como Austin, outro bairro de Nova Iguaçu, e a fiscalização do uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Apesar da responsabilidade, ela foge do estereótipo da “chefe brava”. Márcia prefere o diálogo e a descontração: “Eu levo tudo na esportiva, brinco mais do que outra coisa”.

‘Eu Comia Se Sobrasse’

Sônia Regina Narciso. Foto: Fábio Leon
Sônia Regina Narciso. Foto: Fábio Leon

Aos 69 anos, Sônia Regina Narciso, com um olhar que carrega a experiência de quem viu o projeto nascer, completa 25 anos de dedicação à triagem de materiais recicláveis. Mas, para além da separação de garrafas PET e papéis, a trajetória de Sônia é uma história de luta contra a fome e de busca incansável pela dignidade de seus filhos. 

Antes de se tornar cooperada, a realidade de Sônia era marcada pela incerteza dos “biscastes”. Criando quatro filhos sozinha, ela se dividia em faxinas exaustivas que mal rendiam R$300 por mês, valor que não garantia o básico. As lembranças desse período são duras. Sônia recorda-se de priorizar o prato dos filhos em detrimento do seu. “A comida que tem aqui é só para vocês”, dizia ela aos pequenos, escondendo a própria fome. Foi em um momento de desespero, ao pedir ajuda para comprar um botijão de gás para um padre local, que ela recebeu o conselho que mudaria sua vida: “Vai lá na Hada, que ela vai arrumar trabalho para você”.

A entrada na cooperativa não foi imediata. Sônia precisou insistir até conseguir sua vaga. Quando finalmente entrou, a mudança foi drástica: o trabalho na reciclagem permitiu que ela abandonasse o barraco de madeira onde vivia para erguer sua própria casa. “Onde era telha, hoje, é laje!”, orgulha-se.

Natural de São João de Meriti, mas moradora de Mesquita desde os 11 anos, hoje, Sônia enfrenta um novo tipo de pressão: o carinho excessivo dos filhos, que, já adultos e estabelecidos em suas próprias profissões, pedem que a mãe pare de trabalhar. Eles temem o desgaste físico, consequência natural do trabalho com materiais recicláveis.

Sônia, porém, resiste. Para ela, o galpão de reciclagem é mais do que um emprego: é o lugar onde ela se sente útil e ativa. “É melhor do que ficar em casa”, afirma, decidida a seguir no trabalho até a aposentadoria oficial.

Ao transformar o “quarto de despejo” em “sala de visitas”—nos termos de Carolina Maria de Jesus—as Carolinas de Jacutinga “mudaram sua história” e “tiraram dos versos a força pra vencer”, como canta a Unidos da Tijuca em 2026.

Tal como Carolina Maria de Jesus, essas mulheres utilizam o material reciclável para conquistar a autonomia, e fazem muito mais do que limpar as cidades: elas reconstroem a vida em seus territórios. Reescreveram sua dignidade com consciência ambiental, independência econômica e empoderamento feminino.

Assista ao desfile da Unidos da Tijuca 2026 e entenda mais sobre Carolina Maria de Jesus aqui:

Sobre o autor: Fabio Leon é jornalista, ativista dos direitos humanos e assessor de comunicação no Fórum Grita Baixada.


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