
Esta matéria faz parte da nossa série que reflete sobre os impactos dos megaeventos no Rio de Janeiro 10 anos após os Jogos Olímpicos Rio2016 e foi republicada com permissão e em colaboração com o Centro Internacional para Termos Territoriais Coletivos.
Na América do Norte, de Los Angeles a Toronto, Termos Territoriais Coletivos de cidades-sede da Copa do Mundo vêm protegendo seus bairros da especulação imobiliária. No mês que antecede a Copa do Mundo FIFA 2026, perguntam: quem se beneficia com este torneio?
28 de maio de 2026 — Nas semanas que antecedem as atividades da Copa do Mundo FIFA 2026 em 16 cidades da América do Norte, algo previsível já vem acontecendo nas comunidades anfitriãs: aluguéis subindo, investidores rondando e moradores antigos assistindo seus bairros serem reprecificados para a celebração dos outros.
Prevê-se que as tarifas dos hotéis aumentem em até 300% durante os jogos de abertura. Em alguns bairros das cidades-sede, diárias no Airbnb já ultrapassam US$6,000 (aproximadamente R$30 mil). Estima-se que 6,5 milhões de visitantes desembarquem na América do Norte ao longo das seis semanas do campeonato—uma mina de ouro para especuladores imobiliários e um alerta preocupante para o resto da população.
Mas em cada uma das cidades anfitriãs, as comunidades locais têm feito muito mais do que assistir caladas. De Los Angeles a Toronto, Termos Territoriais Coletivos de cidades-sede da Copa vêm mostrando o que acontece em seus bairros quando a questão da terra deixa de ser tema de qualquer debate sobre moradia digna—por meio de uma solução permanente e coletiva.

O que é um Termo Territorial Coletivo?
Um Termo Territorial Coletivo (TTC) é uma organização sem fins lucrativos de governança comunitária que adquire terras e as mantém sob gestão coletiva de forma permanente. As casas construídas nessas terras podem ser compradas e vendidas, mas a terra sob elas permanece nas mãos da comunidade, mantendo os preços acessíveis por meio de contratos de arrendamento de longo prazo. O resultado: nada de disparada de investimentos, nada de especulação imobiliária, nada de remoções.
O modelo surgiu em 1969, dentro do Movimento pelos Direitos Civis nos EUA, a partir da New Communities, Inc., em Albany, Geórgia—uma organização fundada por agricultores e mobilizadores negros que precisavam de acesso a terras que ninguém pudesse lhes tomar. Hoje, existem mais de 600 TTCs operando em todo o mundo, de acordo com o Mapa e Lista Global de TTCs do Centro Internacional para Termos Territoriais Coletivos. As quatro organizações apresentadas neste comunicado estão entre elas: todas enraizadas em cidades-sede da Copa do Mundo e realizando esse trabalho muito antes da chegada das câmeras.
Houston: Termo Territorial Coletivo de Houston
A relação de Houston com a Copa do Mundo tem sido complicada desde o início. Embora a cidade tenha abraçado o torneio com genuíno entusiasmo—o futebol está profundamente enraizado na cultura de Houston, e o time da casa, Dynamo, conta com uma torcida local apaixonada—a realidade de sediar o evento já se faz evidente. Recursos públicos e filantrópicos foram direcionados para projetos de infraestrutura e empreendimentos comerciais em preparação para os jogos, mas grande parte desse investimento se concentrou em áreas onde a gentrificação e as remoções já estavam em curso. Para os moradores mais vulneráveis de Houston, que já enfrentam altos custos de moradia, esses empreendimentos contribuirão para preços ainda mais altos muito depois do apito final. Enquanto isso, muitos proprietários de baixa renda que esperavam lucrar alugando suas casas durante o torneio descobriram não ter condições de arcar com os custos e a complexidade de anunciar seus imóveis, deixando os maiores ganhos para investidores.
“Os proprietários atendidos pelo Termo Territorial Coletivo de Houston estão em boa situação. Seus custos com moradia estão estabilizados, então estão razoavelmente protegidos contra remoções causadas pelos empreendimentos impulsionados pela Copa do Mundo. Mas uma única casa ou proprietário não constituem uma comunidade inteira. Se outras pessoas correm o risco de ser expulsas de seus bairros por causa de um evento de curta duração, precisamos nos perguntar: isso realmente vale a pena para alguém?” — Ashley Allen, Diretora Executiva do Termo Territorial Coletivo de Houston

Coalizão de Termos Territoriais Coletivos de Los Angeles
Comunidades de diversos bairros de Los Angeles, historicamente marcados por práticas discriminatórias de crédito imobiliário, desinvestimento e exclusão, encontram-se na linha de frente das remoções impulsionadas pela especulação imobiliária ligada à Copa do Mundo e às Olimpíadas de 2028. Há décadas, Termos Territoriais Coletivos de Los Angeles vêm trabalhando para adquirir terras, construir moradias permanentemente acessíveis e proteger inquilinos de remoções, ancorando a estabilidade comunitária em locais como South LA, Boyle Heights e outros ainda. Em resposta às crescentes pressões do mercado, que colocaram os aluguéis e a compra da casa própria fora do alcance de muitos moradores, a coalizão vem construindo um ecossistema mais amplo de habitação social e propriedade comunitária, baseado na gestão coletiva e na acessibilidade de longo prazo. Após os recentes incêndios florestais, a coalizão também vem promovendo políticas para conter a aquisição especulativa de imóveis durante a recuperação, incluindo a defesa das TOPA/COPA [legislações que ajudam a priorizar a compra de imóveis por inquilinos ou organizações sem fins lucrativos, ainda não aprovadas em muitas cidades], de um banco público de terras e de restrições à compra de imóveis por empresas para manter as terras nas mãos da comunidade. Esses esforços refletem uma estratégia proativa para garantir que a recuperação em caso de desastres naturais e investimentos globais não ocorram às custas das mesmas comunidades que sustentam Los Angeles há gerações.
“Acessibilidade permanente significa que, independentemente de quantos megaeventos cheguem a Los Angeles, nossas comunidades não serão expulsas para dar lugar ao lucro—significa que moradores poderão permanecer, construir e transmitir estabilidade, mesmo enquanto investimentos globais continuarem a reconfigurar nossa cidade.” — Coalizão de Termos Territoriais Coletivos de Los Angeles

Toronto: Termo Territorial Coletivo de Kensington Market (KMCLT)
Toronto está entre os mercados imobiliários mais inacessíveis da América do Norte, e a chegada da Copa do Mundo acelerou a especulação em torno de aluguéis por temporada em bairros já sob forte pressão—como Kensington Market, um bairro eclético e socialmente diverso que há muito vem servindo de ponto de chegada para novos imigrantes. Kensington Market é uma comunidade vibrante de inquilinos, polo de empreendedorismo e destino para mentes criativas e turistas—exatamente o tipo de lugar que a especulação ameaça esvaziar. Em meio às crescentes remoções de inquilinos da classe trabalhadora, o Termo Territorial Coletivo de Kensington Market vem oferecendo aos moradores e pequenas empresas um porto seguro: o KMCLT detém coletivamente três edifícios de uso misto com 40 espaços residenciais e 17 comerciais para aluguel, e está construindo 78 unidades de custo extremamente acessível.
“O KMCLT luta há anos contra hotéis-fantasma sem regulamentação. Um lugar especial como Kensington Market é feito daquele delicado equilíbrio entre destino turístico e vida comunitária. Embora aluguéis por temporada sem nenhuma regulamentação e megaeventos ameacem esta equação, o KMCLT se mantém firme ao lado da comunidade.” — Dominique Russell, Codiretora do Termo Territorial Coletivo de Kensington Market (KMCLT)

Vancouver: Hogan’s Alley Society
A Hogan’s Alley Society (HAS) é uma organização sem fins lucrativos de liderança negra. Seu nome é uma homenagem a Hogan’s Alley, primeiro bairro negro de Vancouver, destruído pelas políticas de revitalização urbana e pela construção dos viadutos Georgia e Dunsmuir na década de 1970. A HAS lidera iniciativas voltadas ao bem-estar de afrodescendentes por meio de moradias inclusivas, programação culturalmente referenciada e empreendimentos impulsionados pela comunidade. A organização é guiada por um compromisso legítimo com a revitalização de Hogan’s Alley e com a articulação junto a outras comunidades que lutam pela justiça coletiva.
Embora o Hogan’s Alley Block continue sendo seu principal projeto, a HAS vem expandindo seu trabalho por meio do Termo Territorial Coletivo Hogan’s Alley Society (HASCLT), uma iniciativa focada na criação de moradias e espaços comunitários culturalmente enraizados e permanentemente acessíveis em toda a região metropolitana de Vancouver. Por meio da educação pública, de passeios a pé e de iniciativas de assistência comunitária, como seu próprio programa de apoio à moradia, a HAS se empenha para garantir que comunidades negras tenham um lugar duradouro no futuro da cidade. Em uma cidade onde a rígida regulamentação sobre aluguéis por temporada já fez disparar os preços das acomodações muito antes da Copa do Mundo—agravando uma crise de acesso à moradia que já vinha se aprofundando há anos—esse trabalho nunca foi tão urgente.
“Na HAS, nossos esforços contra novas remoções vão muito além de combater apenas a perda de estruturas físicas. Quando comunidades são expulsas, perdemos pontos de encontro, relacionamentos, memória cultural e o tecido social que permite às pessoas se sentirem enraizadas e amparadas. Numa cidade como Vancouver, sobretudo em momentos de desenvolvimento acelerado ligados a eventos globais como a Copa do Mundo, é essencial que a gestão da terra seja comunitária porque ela abre caminhos para que comunidades continuem presentes, conectadas e autodeterminadas pelas próximas gerações. O Termo Territorial Coletivo Hogan’s Alley Society é uma das formas pelas quais passamos da sobrevivência temporária para a construção de um pertencimento de longo prazo.” — Djaka Blais, Hogan’s Alley Society, Vancouver

Esta Não É a Primeira Vez
As cidades apresentadas neste release não são as primeiras a enfrentar esse tipo de pressão. Quando o Rio de Janeiro sediou a Copa do Mundo de 2014 e, apenas dois anos depois, as Olimpíadas de 2016, as favelas da cidade enfrentaram um intenso processo de remoções com a aceleração da especulação imobiliária antecedendo os dois eventos. Nos anos seguintes, a ONG Comunidades Catalisadoras (ComCat) trabalhou com moradores de favelas para adaptar o modelo de community land trusts, conhecido no Brasil como Termo Territorial Coletivo (TTC) ao contexto local, ajudando a lançar a primeira iniciativa de TTCs do país. Essa experiência é hoje uma referência para articuladores e TTCs de todo o mundo. Megaeventos oferecem a especuladores imobiliários uma oportunidade única que, em alguns casos, gera e, em outros, agrava crises habitacionais.
“80,000 pessoas foram despejadas de suas casas por causa do ‘estado de exceção’ criado pela escolha do Rio como sede das finais da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, inclusive em comunidades com concessões de uso de 99 anos garantidas pelo governo estadual. Isso sem falar daquelas que possuíam títulos de propriedade e que vivenciaram os primeiros processos de gentrificação de favelas na história do Rio. Nos dois casos, favelas estabelecidas, consolidadas e bem estruturadas foram privadas de seu direito à terra e da possibilidade de permanecer nas comunidades que elas próprias construíram. Depois de testemunhar isso lado a lado com nossos parceiros nas favelas, demos início ao Projeto Termo Territorial Coletivo. Hoje, cinco cidades brasileiras recomendam os TTCs em seus Planos Diretores. Esperamos lançar o primeiro TTC do país em breve.” — Theresa Williamson, urbanista e Diretora Executiva da Comunidades Catalisadoras

Um Movimento que Levou 57 Anos para Ser Construído
O que começou com uma organização em Albany, Geórgia, em 1969, hoje reúne mais de 600 TTCs em dezenas de países—com novas organizações sendo fundadas todos os meses, principalmente em cidades que enfrentam rápida gentrificação e vulnerabilidade climática. Em 15 de maio, a comunidade global de TTCs celebrou seu 5º Dia Mundial do TTC, um momento dedicado a celebrar os termos territoriais coletivos ao redor do mundo, conectar as comunidades que formam o movimento e ampliar a visibilidade do trabalho realizado em bairros como os apresentados aqui.
O Dia Mundial do TTC deste ano foi marcado pela primeira Cúpula Virtual Global de TTCs 2026, uma série gratuita de eventos online que acontece ao longo de seis semanas, entre os dias 5 de maio e 10 de junho. Concebida para reivindicar e honrar as tradições de lideranças negras e indígenas que deram origem ao modelo TTC, a Cúpula reúne profissionais, moradores, mobilizadores, pesquisadores e aliados de todo o movimento para compartilhar experiências, refletir sobre suas práticas e fortalecer a gestão comunitária de terras em todo o mundo. Organizada em parceria pelo Centro Internacional para Termos Territoriais Coletivos e pelo Termo Territorial Coletivo de Rondo, com apoio da Fundação Robert Wood Johnson, a Cúpula é gratuita e aberta a todos. Participe de um dos eventos ou acompanhe a série completa de seis semanas aqui.
O Centro Internacional para Termos Territoriais Coletivos, que mantém a lista global de TTCs e apoia o desenvolvimento de TTCs em todo o mundo, conecta profissionais de diferentes regiões e coordena a crescente infraestrutura global do movimento. As organizações aqui apresentadas não esperaram a Copa do Mundo para começar esse trabalho e não vão parar quando ela terminar.
Aprenda mais sobre Termos Territoriais Coletivos
Este release pode ser republicado livremente. Encorajamos os veículos de mídia a entrarem em contato diretamente com os representantes dos TTCs em suas respectivas cidades para obter perspectivas locais, citações adicionais e histórias de moradores.
Contatos para a Imprensa:
Houston: Ashley Allen, Termo Territorial Coletivo de Houston | E-mail: ashley@houstonclt.org | Telefone: +1 (832) 638-6763
Los Angeles: Jessica Melendez, T.R.U.S.T. South LA | E-mail: jessica@trustsouthla.org | Telefone: +1 (323) 233-4118
Toronto: Dominique Russell, Termo Territorial Coletivo de Kensington Market | E-mail: dominique@kmclt.ca
Vancouver: Djaka Blais, Hogan’s Alley Society | Email: djaka@hogansalleysociety.org| Telefone: +1 (778) 200-1003
Contexto brasileiro: Theresa Williamson, Comunidades Catalisadoras — imprensa@comcat.org | WhatsApp: +55-21-991976444
Contexto internacional: Ben Harris, Centro Internacional para Termos Territoriais Coletivos — ben@communitylandtrust.net | Telefone: +1 (706) 536-8603
