
Esta reportagem faz parte de uma série gerada por uma parceria com o Digital Brazil Project do Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias sobre direitos humanos e justiça socioambiental nas favelas.
O Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, é uma das regiões da cidade afetadas cada vez mais pelo calor extremo, tendo se tornado uma grande ilha de calor. Estudos indicam que a sensação térmica pode ultrapassar 60 °C, devido ao alto grau de asfalto, ausência de áreas verdes (com a rara exceção do Parque Ecológico Cadu Barcelos), degradação ambiental e materiais e arquitetura das casas, que influencia no aumento do calor.
Além do calor extremo, há outros riscos associados às mudanças climáticas nas favelas e periferias. Dependendo da favela, os moradores podem enfrentar riscos de alagamentos ou deslizamentos durante chuvas intensas, falta d’água regular (sobretudo no verão), baixa qualidade do ar, incêndios florestais e das redes elétricas, níveis altos das marés, entre outros. E quando estes eventos climáticos extremos atingem as favelas, as pessoas com deficiência estão entre as que mais sofrem.

Interseccionalidade: Capacitismo Climático nas Favelas
Ana Raquel de Almeida Rocha, 37, membro do grupo Especiais da Maré, compartilha, por exemplo, que é muito difícil sair de casa com sua filha Eloá de Almeida Villela Ezedim, 6, sobretudo em dias de chuva:
“Na condição de cadeirante, [já] é mais difícil de sair com Eloá. Precisamos planejar. Se chove, não dá para sair com ela, e se precisar sair com ela, tem que se planejar e ter o dia livre só para cuidar dela… Eu já perdi muita consulta para ela por causa de ônibus [em dias de] chuva.”

No cenário cada vez mais crítico da crise climática, à vulnerabilização ainda maior de Pessoas com Deficiência (PCDs) dá-se o nome de capacitismo climático. Enchentes, ondas de calor, secas, falta d’água, deslizamentos, baixa qualidade do ar e outros eventos climáticos extremos afetam desproporcionalmente mais as PCDs. Portanto, a falta de políticas de adaptação, de mitigação e de resposta rápida a desastres reproduz e aprofunda discriminações contra pessoas com deficiência de favela.
A normalização do fato de sempre terem que se virar do jeito que podem, às vezes em condições de risco, é parte do capacitismo cotidiano ao qual as famílias de pessoas com deficiência moradoras de favela estão expostas.

O capacitismo climático se manifesta quando planos de evacuação, sistemas de alerta, abrigos emergenciais, infraestrutura urbana e estratégias ambientais são concebidos sem considerar as necessidades e a participação das pessoas com deficiência. Assim, o termo evidencia a intersecção entre injustiça climática e negligência do Estado ao não garantir os direitos constitucionais das pessoas com deficiência, nem implementar políticas ambientais inclusivas e acessíveis.
Flávia de Lima Andrade, 52, conta sobre a condição de falta de mobilidade da filha, Juliana Andrade do Prado, 21. Seu relato pondera como isso é um fator complicador importante em situações de emergência climática na favela. Portadora de Atrofia Muscular Espinhal (AME), Juliana é obrigada a viver restrita ao segundo andar de sua casa. Essa medida visa protegê-la em casos de enchentes que inundem o primeiro andar da residência da família.
“É mais confortável e seguro para ela e para nós, ela ficar no segundo andar… é difícil, mas a gente se acostuma e dá um jeito. [Também] temos ajuda de amigos e vizinhos… Ela fica no segundo andar da casa para, em momentos de chuva [que inunda o primeiro andar], a gente não ter dificuldade de transportar ela para cima.” — Flávia de Lima Andrade

De acordo com o Censo Populacional da Maré, produzido pela Redes da Maré, a população mareense é de aproximadamente 140.000 habitantes, dos quais, 1.670 domicílios (3,5% do total) contam com pessoas com deficiência. E, com a população negra constituindo 72,9% das favelas brasileiras, segundo dados do Censo 2022 do IBGE, é também essa a população mais afetada pelo capacitismo climático.
A nível mundial, estudos mostram que 15% da população global vive com algum tipo de deficiência, cerca de 1,3 bilhão de pessoas. Estima-se que 80% dos PCDs vivam em países com menores níveis de renda e consequentemente mais expostos às mudanças climáticas.
Desafios, Rotinas e Estratégias de Sobrevivência
Diante das condições impostas pelo racismo estrutural e falta de políticas públicas de saneamento, urbanismo, adaptação, acesso à saúde, educação pública, garantia de trabalho e renda, e transporte, entre outras, famílias atípicas da Maré resistem às múltiplas facetas do capacitismo climático.

Esse é o caso de Rosane Garcia do Espírito Santo, 44, mãe de Raphael, 11, que chama atenção para como o capacitismo climático reforça as barreiras à saúde e ao transporte, mas, sobretudo, ao acesso à educação.
Seu filho é autista, tem Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e deficiência intelectual. As dificuldades existem dentro e fora de casa. Rosane explica que, por conta do autismo e do TDAH do Raphael, muitas vezes ele tem dificuldade de se concentrar em meio ao calor extremo da escola, que não está adaptada:
“Fazer o quê? Faz parte sentir muito calor… Quando tem um problema respiratório a gente corre para conseguir um medicamento, pede ajuda da nossa rede de apoio. Se chove e alaga a rua, a gente não pode sair.
Às vezes, ele se estressa com o calor, não presta atenção na aula e o professor não dá atenção. Ele fica sem o conteúdo e desanimado. Depois, cobram que o aluno não vai para a escola… Quando está muito calor, muito barulho, ele começa a ficar irritado [e perde completamente o foco]. Ele se concentra em muita coisa ao mesmo tempo, o que deixa ele agitado.”
Já Antônia Maria Souza Pirangi, 46, paraplégica, é a única gestora com deficiência do Especiais da Maré. Natural do estado da Paraíba, Antônia veio morar no Rio de Janeiro aos sete anos de idade com sua mãe e seus dois irmãos. O caso de Antônia tinha tratamento, mas a família não tinha dinheiro e o Sistema Único de Saúde (SUS) não conseguiu oferecer uma alternativa de qualidade para ela. Antônia explica como já é difícil ter uma deficiência e morar na favela:
“Pessoas com deficiência física, autistas, cadeirantes, pessoas com mobilidade reduzida, pessoas acamadas: nós que vivemos em comunidades e, na maioria das vezes, moramos no segundo, terceiro, quarto andar, precisamos do suporte de outras pessoas. São lugares com becos e vielas muito estreitos, muito batente e escadas. Se não temos suporte nas situações de chuva forte, se a pessoa com deficiência mora em alguma rua que alaga, ela corre o risco de ser abandonada… Nós só conseguimos ter acesso à nossa própria casa porque temos o suporte de alguém. Eu só consigo acessar a minha casa ou a minha rua, porque eu tenho o suporte do meu irmão.”
Já Jéssica Cerqueira, 27, tem xeroderma pigmentoso, uma condição rara na pele que causa extrema sensibilidade ao sol, aumentando o risco de câncer de pele, problemas oculares e neurológicos.
Sua mãe Aline Cerqueira, 45, lembra que, nos primeiros anos da filha, toda vez que elas iam para o ponto de ônibus, Jéssica tentava se esconder do sol como podia e não conseguia ficar com os olhos abertos por conta da fotossensibilidade.
Quase não existem abrigos de ônibus e Jéssica sofre com os sintomas de sua deficiência agravados pelo capacitismo climático. Geralmente, com poucos minutos de exposição ao sol, aparecem queimaduras graves, sardas e manchas no rosto, braços e pernas.
“A minha filha é uma pessoa noturna. Ela até pode sair de casa, mas os riscos dela com o sol e o calor são extremos. A gente não podia ter nem luz amarela em casa, por conta da luz e do calor da lâmpada.” — Aline Cerqueira
Recentemente, Jéssica teve que fazer uma operação para retirar o nariz por conta do câncer na pele. Pessoas com deficiência sentem os efeitos cumulativos do capacitismo climático devido à falta de investimento público e planejamento urbano adequado.
Aline também compartilha sobre os danos causados pela falta de informação e recursos mínimos para prevenção particular entre moradores de baixa renda nas favelas:
“No início da descoberta do diagnóstico da Jéssica, eu não sabia de nada e fui me informando. Existem roupas e óculos específicos para proteção, mas eles são caros. Os mais baratos custam no mínimo R$200, além de protetor solar e outros itens de proteção pessoal.”
Aline conta que a médica de Jéssica disse que sua filha tinha direito a remédios, roupas de proteção e passe livre nos transportes públicos. Contudo “durante todo esse tempo eu só consegui o passe livre”.
O caso de Jéssica revela como o capacitismo climático combinado com a negligência do Estado pioram a qualidade e diminuem a expectativa de vida de PCDs de favela no Rio de Janeiro.
Um consenso entre as pessoas ouvidas pela reportagem é que o capacitismo climático impacta diretamente no direito de ir e vir. É difícil para PCDs saírem da favela de ônibus, vans ou mototaxis, mas também se locomover por dentro da favela, mesmo a pé.

Os veículos estão sempre em péssimas condições, são muito barulhentos e raramente têm ar condicionado funcionando. Isso significa que o capacitismo climático também afeta o direito à cidade e o direito à favela. O debate sobre o capacitismo climático nas favelas é fundamental para a qualidade de vida de PCDs de favela.

Viver sob o capacitismo climático faz com que as rotinas sejam marcadas pela incerteza e pela negação de direitos. Diante de uma realidade em que o poder público oferece pouco ou nenhum suporte, resta às redes de apoio e aos projetos sociais, como o Especiais da Maré, assumir esse papel como podem.
Sobre o autor: Ramon Vellasco é fotojornalista e repórter freelance, cria da Vila da Penha. Atua em temas sobre direitos humanos, cultura, educação, diversidade e grupos sociais em situação de risco. Trabalha a partir de territórios periféricos, favelados e suburbanos.

