
Realizada na sede da ONU-Habitat em Nairóbi, no Quênia, de 21 a 24 de junho, a Conferência Innovate4Cities 2026 (I4C26) reuniu líderes municipais, pesquisadores, formuladores de políticas públicas, organizações da sociedade civil e representantes comunitários de todo o mundo para discutir soluções práticas para cidades mais resilientes às mudanças climáticas e mais equitativas. Coorganizada pela ONU-Habitat e pelo Pacto Global de Prefeitos pelo Clima e Energia, a conferência teve como foco traduzir pesquisas em políticas públicas e ações, abordando temas que variaram de habitação e infraestrutura à justiça climática, financiamento e governança multinível.
As observações a seguir foram proferidas por Debra Roberts, Professora Honorária da Universidade de KwaZulu-Natal (Escola de Ciências da Vida), na África do Sul, e Autora Coordenadora Principal do Relatório Especial sobre Mudanças Climáticas e Cidades (previsto para 2027) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC, bem como do Relatório sobre Ultrapassagem Climática do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (previsto para setembro de 2026). A apresentação foi feita durante o Painel de Alto Nível sobre Habitação e Infraestrutura, que explorou como sistemas de moradia e infraestrutura de baixo carbono e resilientes ao clima podem gerar múltiplos benefícios, desde a melhoria da saúde pública e a redução das emissões até o aumento da biodiversidade e da coesão social. A Professora Roberts também é especialista em como as cidades podem responder aos riscos cada vez maiores de vivermos em um mundo de ultrapassagem climática, conhecido em inglês como ‘overshoot‘—quando passaremos do limite de aquecimento de 1,5°C estabelecido pelo Acordo de Paris e, em seguida, retornamos a ele por meio de um processo de rápida redução das emissões e remoção de dióxido de carbono, acompanhado de medidas ambiciosas de adaptação.
Pesquisas recentes mostram que provavelmente ultrapassaremos 1,5°C de aquecimento global nos próximos quatro anos. O mundo mudará de forma fundamental. O mundo após 1,5°C é um mundo no qual nossa civilização jamais viveu. Sabemos que será um mundo de perdas irreversíveis, um mundo em que veremos um aumento na intensidade, frequência e duração de eventos extremos—o que tornará a vida dos pobres e vulneráveis que vivem em assentamentos informais muito mais difícil do que é hoje.
Isso desafiará a forma como construímos nossas cidades e onde implantamos a infraestrutura. Será um mundo em que teremos que implementar as medidas de mitigação e adaptação mais ambiciosas já adotadas, e em uma escala nunca antes vista.
Há apenas um cadinho no qual esse tipo de futuro pode ser forjado de uma forma que garanta algum nível de equidade e justiça para todos: as cidades do mundo. E a moradia é a espinha dorsal das cidades. Portanto, de muitas maneiras, esse futuro que vislumbramos em um mundo após 1,5°C terá que ser forjado por meio de uma nova abordagem para a habitação em nossas cidades. E por quê?

Nossa principal necessidade não é apenas a rápida redução das emissões, mas também a remoção do dióxido de carbono. A realidade é que agora vivemos em um mundo em que teremos que alcançar a meta de 1,5°C vindo de cima, e não de baixo. Isso significa remover carbono da atmosfera. Como vamos conseguir isso? Existem apenas dois grandes sistemas capazes de remover carbono da atmosfera na escala necessária.

Os dois grandes sistemas capazes de fazer isso são o ambiente natural e o ambiente construído. Pesquisas recentes mostram que o ambiente construído pode remover cerca de 16 gigatoneladas (Gt) de carbono da atmosfera a cada ano. Isso representa pouco menos da metade de nossas emissões atuais. Portanto, as cidades têm uma enorme oportunidade não apenas de reduzir as emissões, mas também de remover carbono da atmosfera. O novo desafio para as cidades é ir além das emissões líquidas zero e alcançar emissões negativas.
É claro que o ambiente natural também oferece uma oportunidade significativa para a remoção de carbono da atmosfera. Mas o ambiente natural também estará sob pressão em um mundo de ultrapassagem climática, pico e declínio [das temperaturas]. Mostramos, durante o sexto ciclo de avaliação do IPCC, que as primeiras perdas irreversíveis que poderemos detectar à medida que ultrapassarmos 1,5°C ocorrerão no mundo natural. Assim, muitas das Soluções Baseadas na Natureza que utilizamos atualmente em nossas cidades por serem economicamente viáveis e sustentáveis poderão deixar de ser adequadas em um mundo pós-1,5°C.
De muitas maneiras, estamos hoje olhando para o futuro. Buscamos lugares onde possamos implementar essa ambiciosa ação climática, mas a realidade é—e eu sei disso porque passei trinta anos atuando na administração pública local—que o mundo não gira em torno da narrativa das mudanças climáticas. O mundo real gira em torno de outras prioridades, como desenvolvimento, empregos, moradia e redução da pobreza, que é a maior pandemia que ainda não conseguimos vencer.

Dessa forma, é muito importante que essas soluções climáticas também tragam benefícios ligados ao desenvolvimento. E, mais uma vez, é aí que as cidades e a habitação passam ao primeiro plano. Podemos ampliar a equidade e a justiça por meio de moradias adequadas que enfrentem a crise do carbono, aumentem a capacidade de adaptação e criem oportunidades de assentamento mais justas e equitativas, especialmente para quem vive em assentamentos informais. Mas isso exige uma mudança nas estruturas de governança.
Portanto, o desafio que lhes lanço, do ponto de vista da ciência, é que precisamos repensar nossas cidades: a forma como as construímos, onde as implantamos e quem garantimos que esteja presente nas discussões. Precisamos nos preparar para o fato de que duas ou três gerações terão que viver em um mundo de ultrapassagem climática. O desafio é enorme. Na última década, removemos cerca de 2 Gt de dióxido de carbono por ano. Se aumentarmos esse número para cerca de 10 Gt por ano, isso significa que, para cada década de aquecimento na taxa atual — cerca de um quarto de grau Celsius — serão necessárias cinco décadas para reverter esse aquecimento. Assim, temos um longo futuro pela frente em um mundo de ultrapassagem climática. Esses são os desafios que enfrentamos agora.
Meu argumento é que as cidades são o cenário, o cadinho e o fogo que impulsionam a mudança de que precisamos, e essa mudança se concretizará pela abordagem que adotarmos para a habitação e a infraestrutura.
Sobre a autora: A Professora Debra Roberts é Professora Honorária da Universidade de KwaZulu-Natal (Faculdade de Ciências da Vida), na África do Sul, e ocupa a Cátedra Professor Willem Schermerhorn em Ciência Aberta sob a Perspectiva do Sul Global, na Faculdade de Ciência da Geoinformação e Observação da Terra da Universidade de Twente, na Holanda. Chefiou a Unidade de Iniciativas para Cidades Sustentáveis e Resilientes e o Departamento de Planejamento Ambiental e Proteção Climática do Município de eThekwini (Durban, África do Sul) entre 1994 e 2024. A Professora Roberts foi eleita Copresidente do Grupo de Trabalho II do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para o sexto ciclo de avaliação e é uma das Autoras Coordenadoras Principais do próximo Relatório Especial do IPCC sobre Mudanças Climáticas e Cidades, no âmbito do sétimo ciclo de avaliação.
