
Esta matéria faz parte da nossa série que reflete sobre os impactos dos megaeventos no Rio de Janeiro 10 anos após os Jogos Olímpicos Rio2016.
Enquanto avança o Rio AI City, complexo de data centers previsto a ser o maior da América Latina, desenvolvido pela Elea Data Centers, com a Prefeitura do Rio, na região do Parque Olímpico, a população se vê tendo que debater o projeto sem oportunidades de diálogo e entendimento com a Prefeitura. Dito “um dos primeiros distritos sustentáveis de IA” no mundo, a empresa declara capacidade energética inicial de 1,5 GW, com o RJO1 em operação e o RJO2 em construção, e afirma que o projeto utilizará sistemas de refrigeração sem uso de água. Mas será que um projeto deste porte não gerará custos para a população?
A chamada “nuvem”, a rede global de servidores que armazenam, gerenciam e processam todos os nossos dados na internet, depende de uma infraestrutura que ocupa espaços físicos: edifícios, servidores, cabos, subestações, sistemas de refrigeração e fornecimento contínuo de eletricidade.
O que essa base física pode significar para a água, a energia e os territórios brasileiros esteve no centro da roda de conversa “Impactos dos Data Centers na Segurança Hídrica do Brasil”, realizada em 25 de agosto, no Centro de Ciências Jurídicas e Políticas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), em Botafogo. O encontro reuniu Maria das Graças, do grupo de pesquisa Estado, Grupos Econômicos e Políticas Públicas (ECOPOL), vinculado ao Núcleo de Estudos e Pesquisas em Lutas Sociais (NELUTAS) da UniRio; Fabrina Furtado, professora do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); e Sandra Quintela, economista e integrante da coordenação da Rede Jubileu Sul Brasil. A mediação foi de João Roberto Lopes Pinto, professor da Escola de Ciência Política da UniRio e coordenador do ECOPOL/NELUTAS. A atividade foi promovida pela Rede de Vigilância Popular em Saneamento e Saúde e pelo Grito dos Excluídos e Excluídas.
A roda discutiu a infraestrutura física adicional significativa que se faz necessária hoje a partir do crescimento da inteligência artificial e seus possíveis efeitos sobre recursos e comunidades, especialmente em territórios que historicamente sofrem com falta d’água, de energia e de moradia.

Foi justamente a ideia de uma tecnologia aparentemente imaterial que abriu a discussão. Maria das Graças apresentou resultados de uma investigação sobre a “materialidade da nuvem” e comparou os data centers a um “chão de fábrica digital”: estruturas altamente automatizadas, com servidores em operação contínua e necessidade permanente de dissipar o calor gerado pelo processamento.
Na avaliação apresentada por ela, o Estado não aparece apenas como regulador. Políticas federais, estaduais e municipais vêm criando incentivos, regras e infraestrutura para atrair grandes empreendimentos. Maria questionou quais estudos prévios, contrapartidas sociais e garantias ambientais acompanham esse processo.
Ao trazer o debate para o Rio, ela contrapôs a necessidade de continuidade operacional dessas instalações à realidade de territórios que convivem com falhas de abastecimento e saneamento. Para a pesquisadora, a questão não se limita à tecnologia adotada dentro dos prédios, mas envolve também as prioridades estabelecidas no uso da infraestrutura pública e dos recursos.
“A nuvem não está no céu, está nos territórios.” — Fabrina Furtado
Segundo a pesquisadora da UFRRJ, olhar apenas para o consumo direto de água de um data center pode deixar de fora outras etapas da cadeia que sustentam a infraestrutura digital.
Ela citou a geração de eletricidade, a fabricação de equipamentos, a extração de minerais, a construção e a manutenção dos centros de dados. A pergunta, portanto, não seria apenas “quanta água” uma instalação utiliza, mas (de) onde e de que forma os recursos necessários à operação são mobilizados e quais populações convivem com esses processos.
A professora também questionou o uso de classificações como “verde” ou “sustentável” de forma isolada. O uso de eletricidade de fonte renovável ou de tecnologias mais eficientes, afirmou, não elimina a necessidade de observar como a infraestrutura energética foi produzida e quais conflitos territoriais podem acompanhá-la.
O Ceará apareceu como exemplo concreto. O Data Center Pecém, em Caucaia, região metropolitana de Fortaleza, integra um projeto associado à ByteDance, controladora do TikTok. Em maio, o Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) recomendaram adequações no licenciamento ambiental antes do início da operação. Os órgãos apontaram fragilidades na avaliação ambiental, cobraram consulta ao povo indígena Anacé, a outras comunidades tradicionais e pediram reforço no monitoramento hídrico, energético, arqueológico e socioambiental.
Para Fabrina, casos como o de Caucaia lembram que grandes empreendimentos não chegam a “territórios vazios”. Eles se instalam em lugares onde já existem comunidades, modos de vida, outras infraestruturas e conflitos anteriores.
Sandra Quintela ampliou o debate para efeitos percebidos por moradores no entorno de grandes instalações. Além de água e energia, citou uso do solo, planejamento urbano, ruído, vibração, lixo eletrônico e qualidade de vida. Segundo ela, essas dimensões tendem a ser discutidas e fiscalizadas por setores distintos do poder público, sem uma avaliação integrada dos efeitos cumulativos.

A economista mencionou mobilizações nos Estados Unidos contra a expansão de data centers e defendeu que experiências internacionais sirvam de alerta para o Brasil. Também relacionou a corrida por novos projetos à competição entre estados e municípios por investimentos, incentivos fiscais, terrenos e infraestrutura.
A promessa de geração de empregos foi outro ponto questionado na mesa. As participantes diferenciaram os postos de trabalho abertos durante a construção dos data centers, daqueles mantidos depois que instalações altamente automatizadas entram em operação. Elas defenderam maior transparência quanto às contrapartidas econômicas apresentadas pelos empreendimentos porque, afinal de contas, há poucos empregos duradouros relacionados a essas plantas.
A preocupação apareceu também na participação do público. Licinio Machado Rogério, presidente da Federação das Associações de Moradores do Município do Rio de Janeiro (FAM-Rio) e um dos coordenadores do Fórum de Mobilidade Urbana, defendeu que consumo de água e energia, ruído e geração efetiva de empregos sejam discutidos antes dos projetos serem apresentados à população apenas como sinal de desenvolvimento, como geralmente é feito.
Na parte final, as debatedoras voltaram à velocidade do avanço da inteligência artificial. Fabrina alertou que concentrar a responsabilidade no uso individual de ferramentas digitais pode deslocar a discussão da escala corporativa da tecnologia, das decisões de empresas e de governos sobre onde e em quais condições instalar a infraestrutura que a sustenta.
A roda terminou reforçando uma ideia que atravessou as apresentações: aquilo que aparece como imaterial nas telas depende de estruturas concretas e de escolhas sobre energia, água, território e investimento público. Para as participantes, essa discussão precisa acontecer antes que os projetos estejam consolidados.
“O que vem primeiro? A sede das máquinas ou a vida e o abastecimento das nossas populações?” — Maria das Graças
Sobre o autor: Felipe Migliani tem graduação em Jornalismo pela Unicarioca e pós-graduação em Jornalismo Investigativo e em Jornalismo de Dados. Atua como repórter e assessor de imprensa, tendo publicado matérias em veículos como Meia Hora, Estadão, Agência Lume, PerifaConnection, Ambiental Media, Gênero e Número, Olhos Jornalismo e ND Mais.
