
Esta matéria faz parte da nossa série que reflete sobre os impactos dos megaeventos no Rio de Janeiro 10 anos após os Jogos Olímpicos Rio2016.

Conceição Queiroz, 51, foi uma das últimas moradoras a serem removidas da Vila Autódromo, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, comunidade localizada na Barra Olímpica, ao lado do Parque Olímpico. Ela lutou por sua permanência, mas, no final, se viu obrigada a sair de sua comunidade—que virou um território símbolo da luta contra o processo de remoções pré-olímpicas.
Em 2026, dez anos depois, Conceição conversa com o RioOnWatch e reflete sobre como tem sido sua vida desde que se mudou para o Parque Carioca, junto com outros milhares de moradores removidos da Vila Autódromo.
RioOnWatch: Conceição, primeiramente, você pode dizer por quanto tempo a senhora morou na Vila Autódromo? Como era a sua vida lá?
Deve ter sido por uns 15, 20 anos. Não tenho muita certeza, quando fui [do Maranhão] pra Vila Autódromo, minha irmã estava grávida. Eu fui pra lá cuidar do meu sobrinho quando ele nasceu. Ele nasceu e eu fui ficando. Arranjei um serviço. Aluguei uma kitnet lá. Arranjei um namorado, casei. Criei raiz na Vila Autódromo assim, né?
Meu sobrinho, hoje, já tá com 29 anos! A prova tá aí, 29 anos que cheguei na Vila Autódromo. Só que a gente veio pra cá [para o Parque Carioca] já vai fazer 10 anos, né? [Então, fiquei quase 20 anos lá].

RioOnWatch: Quais são as lembranças da Vila Autódromo que a senhora tem?
Tenho lembranças boas da época em que eu morava lá. Eu sempre amei a Vila Autódromo porque, como fui criada num sítio, no interior, a Vila Autódromo pra mim era como se eu estivesse morando num sítio. Era tudo pequeno, todo mundo se conhecia, era pé no chão, quitalzinho, pezinho de goiaba. Todo mundo ali tinha seu quintal. Então, era uma cidade grande, mas, quando eu chegava lá, parecia que não estava mais na cidade: era como se fosse um sítio. Eu me sentia em casa.
Eu, até hoje, amo muito a Vila Autódromo. Todo mundo se conhecia lá. É uma família mesmo. Era botar a cadeira na porta pra conversar com os vizinhos quando chegava do trabalho. As pessoas mais velhas estavam tudo na porta conversando. Não tinha como você chegar e não falar com um, não falar com outro: ‘Ah, entra aí, vamos tomar um café, um pãozinho’. A Vila Autódromo é inesquecível.

RioOnWatch: Desde as remoções para as Olimpíadas, grande parte da área que era a Vila Autódromo não foi desenvolvida, ficou abandonada. Como a senhora se sente em relação a isso?
A Prefeitura queria aquela área completa, só que ela não teve acesso porque a briga foi muito grande. E aí, as pessoas que ficaram realmente lá conseguiram o direito [de permanecer]. Eles fizeram 20 casas, inclusive, uma das casas estava no meu nome. Eu ia ficar lá. Eu fiquei firme lá. Eu fui a penúltima pessoa a sair na briga das remoções.
Eu realmente não fiquei até o fim porque teve muito negócio de dinheiro. Eles [a Prefeitura] estavam dando apartamentos e mais um dinheiro [aos moradores que aceitassem sair da Vila Autódromo]… A Prefeitura pressionava as pessoas com dinheiro, fazendo ofertas mesmo: ‘Eu te dou R$100.000 mais um apartamento’, ‘Eu te dou R$100.000 e mais dois apartamentos’. E aí, sabe como é a população, né? Queriam sair, queria melhorar sua vida.
O meu ex-marido resolveu: ‘Ah, eu não quero ficar, então, você tem que vender a sua parte’. A gente já não estava bem no relacionamento quando começou esse negócio de remoção. Sempre teve muitos problemas na Vila Autódromo na época da remoção.
E aí, na época, meu marido falou: ‘Não, eu não quero mais ficar, eu quero sair daqui. Eu quero ganhar meu apartamento. Quero mais dinheiro. É a única oportunidade que eu tenho de fazer minha vida. Onde eu vou ver R$100.000 na minha vida?’. Eram R$100.000 na mão e mais um apartamento. Ele me pressionou.
Aí, eu falei com a minha família, que falou: ‘A casa é de vocês dois, não tem como dividir a casa. Como é que você vai dividir uma casa? A metade pra Prefeitura e a metade pra você? Então, vocês têm que ter um acordo. Dá a parte dele e você fica com a sua parte’.
Aí, a gente se separou. A Prefeitura me deu esse imóvel aqui e mais R$100.000 e deu outro apartamento pra ele e mais R$100.000. Eu só saí de lá mesmo porque eu fui pressionada, né? Tive que abrir mão. Porque, se dependesse de mim, ainda estaria morando na Vila Autódromo, porque pra mim, a minha família tá lá. E tem a Igreja. Lá ficou bonito com as casinhas, as ruas, a igreja. Só não tem mercado, mas as pessoas vendem as coisas lá. Graças a Deus, alguém ganhou essa luta. A Vila Autódromo não acabou, não saiu do mapa. Ainda existe a Vila Autódromo, com assistência do Luiz, da Penha e de todo mundo que lutou pela Vila Autódromo.

RioOnWatch: Acha que a Prefeitura realmente teve planos para a área ou só queria tirar as pessoas?

A minha opinião é que o prefeito [Eduardo Paes], quando tem um evento, tem uma área pobre e eles querem fazer uma coisa bonita, investir um dinheiro ali pra mostrar para as pessoas, eles não querem que tenha uma favela do lado de onde vão vir milhões de pessoas de fora. Então, pra mim, a briga era mesmo pra tirar a comunidade que tava atrapalhando, meio que fazendo feio do lado de uma obra gigante. Mas como a mídia foi grande demais, foi no mundo inteiro, eu dei muita entrevista quando tavam removendo as pessoas.
Eles tiravam uma pessoa de casa e aí rapidinho vinha um trator e derrubava a casa. E ficava aquele monte de entulho. E realmente, na minha visão, foi chocante porque parecia com esses lugares que a gente vê em guerra, onde tem terremoto. Então, é uma coisa muito terrível ainda na minha mente.
Até que, então, teve uma época [depois da luta de aliados] dos direitos humanos, que, além de derrubar as casas, eles teriam que tirar o entulho, porque estava se tornando perigoso para as pessoas que ainda moravam lá.

RioOnWatch: Como a senhora descreveria sua mudança para o Parque Carioca? As pessoas no seu novo local de moradia já criaram um senso de comunidade?
Aqui não é nada comparado à Vila Autódromo. Aqui, você chega e não vê seus amigos… Falar dessa parte…. eu sempre choro, porque é muito triste [Conceição fala enquanto chora]. Pra mim, é muito triste ter saído da Vila Autódromo e ter vindo morar aqui. Alguns amigos meus nem vieram pra cá. Foram para outros lugares, pegaram o dinheiro, voltaram pra Paraíba, para as suas terras. E aqui, não veio todo mundo da Vila Autódromo. Vieram muitas pessoas de outros lugares que a gente não conhecia. Muitas pessoas de idade que eu conhecia, que vieram pra cá, não passaram nem um ano: todos eles faleceram. Tiveram depressão e morreram. Muitas senhorinhas que eu conhecia de lá não tinham pra onde sair e não viam os amigos quando chegavam do trabalho.
Aqui, fica um no Lote Um, outro no Lote Dois, outro no Lote Três. Ficaram todos abandonados. As famílias não cuidaram. E não tinha aquela mesma coisa de ver o amiguinho, né? Foram morrendo um atrás do outro.

Então, eu achei isso muito triste, porque as pessoas de idade realmente não queriam sair. Mas os filhos se impressionaram muito [por causa do dinheiro], brigavam com seus pais e com seus avós para receberem o dinheiro e saírem [da Vila Autódromo]. Nem pensavam no próprio pai, na mãe. É muito triste o que o dinheiro faz com as pessoas.
Levou muito tempo para fazer minha casinha lá. Trabalhei muito pra fazer a minha casinha do jeito que eu queria. Só para ser demolida por um trator. Foi um ato terrível quando derrubaram a minha casa. Uma sensação de… não sei nem explicar, você fez a sua casinha, você levou anos pra construir e, do nada, é muito rápido, só fica o chão.
Assisti a demolição, então fica na minha mente, aquele trator. Leva tantos anos [pra construir,] pra acabar em minutos! Eu vi muitas casas sendo demolidas. Todo dia eu chegava do trabalho e tinha uma casa no chão. Tinha muita polícia, muito trator, muita caçamba. É a parte mais triste da [história da] Vila Autódromo.

RioOnWatch: Quais questões a senhora enfrentou desde a remoção que a maioria das pessoas nem imaginaria?
Quando a Prefeitura vinha com essa equipe, com umas cinco, seis pessoas, sempre ia na sua casa. Vi muitas pessoas [sendo pressionadas e aceitando a proposta da Prefeitura] porque eu demorei mais a sair. Aí, a Prefeitura sentava com as pessoas e falava assim: ‘Você tem que sair’, mostrava o vídeo de como era o apartamento, de como seria morar lá e ter uma vida, digamos, estabilizada. Pra uma pessoa que tinha uma casa no barro, sem piso… fizeram um apartamento decorado, ‘olha como vai ficar seu apartamento’. Isso ficava na mente das pessoas… e a pessoa não pensava duas vezes.
Muitas pessoas não pensavam no que iam passar, no que estão passando hoje, nas consequências de sair da Vila Autódromo pra vir morar num apartamento. Lá, você tinha seu quintal, você podia plantar sua coisinha, ter seu pé no chão, ter seu vizinho perto. As pessoas não pensavam nisso quando aceitaram a proposta da Prefeitura. Pensavam só em ter um apartamento e dinheiro no bolso.
Então, quando chegou minha vez, eles foram na minha casa, eu e meu ex-marido, já separados há bastante tempo. Os dois donos da casa tinham que assinar pra Prefeitura poder pagar, senão, não conseguiria. Aí, eles vieram na minha casa e falaram: ‘Seu marido está de acordo. Já temos a assinatura dele, ele quer sair, ele não quer ficar. Então, você tem que vender sua parte’. Então, eu fui pressionada por eles, que ficavam sempre indo lá. Eles me pressionavam de um lado e o meu ex-marido pressionava do outro.
Aí, meu ex-marido falou: ‘Você vai ter que ir. Não vou parar a minha vida por sua causa. É a única oportunidade que eu tenho de crescer, de pegar esse dinheiro e ter minha vida. Não quero mais ficar com você’. Foi quando ele falou que já estava me traindo, que já tinha outra mulher. Aí, eu resolvi vender a minha parte: foram dois apartamentos e mais R$100.000 para cada. A gente veio pra cá. O apartamento dele é esse aí em frente ao meu.

RioOnWatch: Como a senhora descreveria a sua qualidade de vida hoje?
Acho que a minha qualidade de vida não melhorou não. Eu acho que a qualidade de vida é quando a pessoa se sente bem. Não é o dinheiro, não é onde você está morando, é o seu bem-estar mental. Eu quase entrei em depressão quando vim pra cá [Conceição fala enquanto chora], porque minha família não mora comigo. Então, não tenho mais amigos na minha casa. Lá, minha casa era cheia de vizinhos. Tinha mais pessoas pra ficar comigo, pra ir pra igreja, pra gente conversar. Então, qualidade de vida é quando você se sente bem, está feliz e com os amigos, com as pessoas do seu lado. E, aqui, eu não tenho isso. Sou do Maranhão e a minha família mora longe. Meu sobrinho está aqui hoje, mas ele mora em Cabo Frio—na Região dos Lagos. Então, a qualidade de vida pra mim não é boa.

Eu peguei os R$100.000 que eles me deram e ajudei na saúde da minha mãe. Ajudei minha família no Norte. Mas, se perguntar: ‘Você quer voltar para a Vila Autódromo?’, eu ia falar que sim. Não tem mais todo mundo lá, mas ainda têm alguns amigos.
As pessoas reclamam muito aqui porque eles prometeram muito e muita gente veio embora pra cá. Uma promessa foi a de que teria uma creche, onde os moradores deixariam seus filhos para [poderem] trabalhar. Uma escolinha pras crianças, um parquinho. Não fizeram nada disso. Tem uma piscina ali, mas se você quiser usar, você tem que pagar. Não sei por que a pessoa tem que pagar para usar a piscina, se a piscina é uma área do prédio, pra ser livre para todos os moradores, né?
A piscina deveria ser paga com o condomínio que é arrecadado de todos os lotes, mas arrendaram a piscina pra uma outra pessoa, que botou um restaurante lá, que vende comida, bebida—bebida principalmente. Mas pra mergulhar na piscina você tem que pagar pra entrar. As pessoas reclamam muito disso porque é muito barulho. Quando fazem festa nesses trailers, é muito barulho, não consigo nem dormir quando estou em casa. É uma bagunça só. Então, muitas promessas não foram cumpridas.

RioOnWatch: A senhora sente que a vida melhorou no Parque Carioca desde o início, há dez anos? A Prefeitura tem mantido as instalações em bom estado? Houve alguma melhoria realizada pela Prefeitura?
Aqui, as caixas d’água deram problema, os pisos estão soltando. É direto problema com os prédios. Não estão sendo cuidados. Agora, eles começaram a vir aqui porque a eleição está chegando. Agora, a Prefeitura está vindo e prometendo creche. Eles estão prometendo, né? Mas a eleição é em outubro, você acha que dá tempo de construir uma creche até outubro?

A Prefeitura, eu também tô sabendo, passou por aqui e falou que vai entregar o documento dos apartamentos. Algumas pessoas têm, outras não. Eles vão fazer uma reunião aqui, acho que em setembro, pra entregar os documentos. As pessoas estão ansiosas pra ter os seus documentos em mãos, mas tem problema de infiltração, pisos arrancando, alguns prédios rachados e mato alto. E não fazem nada sobre isso.
RioOnWatch: A senhora volta à Vila Autódromo para visitar? Do que a senhora sente falta no Vila Autódromo?
Ah, eu volto sempre! Porque lá tem a Igreja [de São José Operário], eu sou católica, ajudei a construir aquela igreja. Todo mundo que morava lá ajudou. Eu sempre volto, vou lá visitar a Penha [Maria da Penha]. Sempre que tem pessoas como você que querem entrevista… eu sei o que eu passei, o que eles passaram. Então, eu sempre ajudo como posso.
Eu sinto falta de tudo. Eu sinto falta de acordar de manhã, porque lá tinha a padaria da nossa amiga Damiana, a única padaria. Fazia parte da igreja, a Damiana e a família dela toda. Ela não mora aqui, mora em Curicica hoje, mas está todo domingo com a família dela na Igreja. E, quando você acorda de manhã num lugar pequeno, você vê todo mundo: ‘Vai com Deus, bom dia! Vai com Deus, bom trabalho!’. Sempre, na chegada e na vinda. Então, isso é outra coisa que realmente me deixa muito triste [Conceição fala enquanto chora]. Eu não vejo ninguém pra dizer ‘bom dia’ ou ‘boa noite’ aqui. Eu sinto muita falta de chegar e ver os vizinhos na porta. Antes de entrar em casa, eu sempre parava em duas, três casas antes de chegar na minha: ‘Oi, como é que foi seu dia?’.
Então, realmente a Vila Autódromo é uma família, que eu sinto muita falta. Muita falta da vida que eu vivia lá porque era igualzinha à vida que eu tinha no Maranhão. Final de semana, todo mundo se reunia. Na festa junina, todo mundo pegava uma mesa, botava na rua e cada um levava um bolo, uma canjica, um negócio e a gente pegava pau pra fazer fogueira. E aí, a gente ficava até tarde. Realmente, lá eu me senti em casa. É o único lugar que eu sentia que era minha casa: a Vila Autódromo [Conceição fala enquanto chora]. Eu não gosto muito de dar entrevista por causa disso, as memórias voltam e não tem como não se emocionar.
Eles deveriam ter feito melhorias lá e ter deixado as pessoas morarem. Ter arrumado as casinhas, feito o esgoto. A Prefeitura ainda teria gastado menos se tivesse urbanizado [e não removido], né? Eu acredito que ia ficar muito arrumadinho, bonito.

