Do Concreto ao Alimento: Mutirão Transforma Reservatório Abandonado em Horta Comunitária no Complexo do Alemão [IMAGENS]

Parte dos participantes do Mutirão de Plantio da Dona Josefa no Complexo do Alemão ao final da atividade, que promoveu a manutenção do espaço, a construção de novos canteiros e o plantio de aproximadamente 600 mudas de hortaliças e de plantas floríferas. Foto: Bárbara Dias
Parte dos participantes do mutirão de plantio organizado pela Dona Josefa no Complexo do Alemão an final da atividade. O encontro realizou a manutenção do espaço, a construção de novos canteiros e o plantio de aproximadamente 600 mudas de hortaliças e de plantas floriferas. Foto: Bárbara Dias

Os canteiros da Horta Comunitária João Bosco, no Complexo do Alemão, recebeu o carinho de 30 voluntários no dia 8 de agosto para um mutirão de revitalização organizado pela Josefa Maria da Conceição, a inspiradora e muito querida Dona Josefa. A horta fica localizada em cima de um reservatório de água desativado e vem transformando uma área de concreto, antes improdutiva, em espaço de cultivo e produção de alimentos na favela.

Estiveram presentes na atividade coletivos que participam da Comissão do Meio Ambiente do Alemão, do Fórum do Plano de Ação Popular CPX, Telhado Verde Agroecológico, Verde Vale a Luta, Verdejar Socioambiental, Associação de Moradores do Reservatório, além de integrantes da Rede Favela Sustentável (RFS)* e aliados técnicos do MUDA – Mutirão de Agroecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Visão CoopO mutirão integrou a Agenda Coletiva da RFS.

Dona Josefa, educadora ambiental, agricultora agroecológica no Complexo do Alemão e integrante da Comissão do Meio Ambiente do Alemão, capitaneou os trabalhos com a disposição e conhecimento de matriarca do território: 

“O objetivo é fortalecer esse espaço e também fortalecer o trabalho do Denner. A gente não pode ficar parada e trabalhar sozinha. E sim juntar o povo também para trabalhar junto conosco… A gente, como faz parte do Fórum do Plano de Ação Popular CPX e também da Comissão do Meio Ambiente do Complexo do Alemão, todo mês faz uma reunião. E aí, viemos fortalecer esse espaço logo no início.”

Dona Josefa Maria, educadora ambiental, agricultora agroecológica do Alemão, segura uma sementeira com mudas de alface. Foto: Bárbara Dias
Dona Josefa, educadora ambiental, agricultora agroecológica do Alemão, segura uma sementeira com mudas de alface. Foto: Bárbara Dias

Denner Noia, cria do Complexo do Alemão, artista, ambientalista, mobilizador, educador popular e parte da equipe do Visão Coop, também integra a Comissão do Meio Ambiente do Alemão, além de ser o responsável pela Horta Comunitária João Bosco. Ele falou sobre a ocupação da parte de cima do antigo reservatório e sobre o nome da horta, homenagem feita a um morador que, pioneiramente, já havia realizado um trabalho de plantio no mesmo local: 

“A gente tem esse reservatório de escala industrial, esse espaço gigantesco, que, por muito tempo, ficou abandonado. E aí, a gente tinha uma relação de espaço baldio mesmo, o pessoal descartava lixo aqui… A gente fez um mutirão primeiro para limpar o espaço, depois para roçar tudo. E deu início à horta que antigamente tinha um morador, um cria, que tocava sozinho. E a colheita, ele retornava para a comunidade: era o senhor João Bosco. Então, quando o presidente da associação me procurou para a gente fazer uma horta comunitária aqui em cima, todo mundo com quem eu conversava citava o senhor João Bosco, falava do trabalho dele. A gente procurou a família dele, conversou sobre o projeto, e eles autorizaram. Gostaram da homenagem, a gente colocou o nome dele na horta.”

As atividades do dia se iniciaram com um café da manhã coletivo e colaborativo. Depois da refeição, o mutirão se focou na roçagem do terreno, limpeza, manutenção dos canteiros e plantio de aproximadamente 600 mudas de hortaliças—entre elas, alface, rúcula e cebolinha, além de algumas plantas floriferas.

José Franklin da Silveira, cordelista e morador do Alemão, também integrante da Comissão do Meio Ambiente do Alemão, rega os canteiros revitalizados durante o mutirão na Horta Comunitária João Bosco. Foto: Bárbara Dias
José Franklin da Silveira, cordelista e morador do Alemão, também integrante da Comissão do Meio Ambiente do Alemão, rega os canteiros revitalizados durante o mutirão na Horta Comunitária João Bosco. Foto: Bárbara Dias

Como atividade cultural, houve a leitura do cordel Horta Comunitária no Reservatório do Complexo do Alemão, de autoria de José Franklin da Silveira, cordelista e morador do Alemão, também integrante da Comissão do Meio Ambiente do Alemão, que contou um pouco da história de como o reservatório foi se transformando em horta:

“Comemorando a semana do tal meio ambiente. 
Com uma turma trabalhadora.
Eu estava ciente, resolvi ajudar,
Mesmo sendo inexperiente 
Era para reativar uma horta comunitária 
Chamada João Bosco, de criação solidária 
Pois nada aqui funciona de maneira solitária. 

Madrugando para ir, fui por curiosidade 
Ver o pessoal do verde, eles cuidando de verdade 
Eu gosto dos que protegem essa parte da cidade
E agora eu também faço parte dessa comissão 
de meio ambiente do Fórum do Complexo Alemão 
Em conjunto aceitaram rápido a minha adesão. 
[…]

O lugar da atividade se chama reservatório.
No passado tinha água de modo satisfatório
Para nosso povo e fábricas dispersas no território. 
Ninguém concordou, porém achei que bem feito o prédio. 
Mas quando funcionava o som espantava o tédio. 
Houve mortes e fecharam. Foi esse o único remédio. 
A caixa d’água virou um estacionamento.

A frente foi ocupada para policiamento. 
Então, na laje aterrada, fizemos o belo evento 
Nossa função foi cuidar e novas mudas plantar.
Oito meses sem ninguém ir ao local capinar…
Desta vez, é coisa firme, não vamos abandonar, 
Refizemos uma ilha e mais outra nós criamos. 
Depois de uma capinada, árvores frutíferas plantamos.” 

Participantes do Mutirão de Plantio revitalizaram canteiros em cima do reservatório no Complexo do Alemão com o plantio de aproximadamente 600 mudas de hortaliças. Foto: Bárbara Dias
Participantes do mutirão de plantio revitalizaram canteiros em cima do reservatório no Complexo do Alemão com o plantio de aproximadamente 600 mudas de hortaliças. Foto: Bárbara Dias

Pedro Torres, geógrafo da UFRJ, extensionista universitário do projeto MUDA, explica como funciona a parceria da universidade com o território:

O primeiro passo é visitar e, principalmente, conhecer as pessoas, ver o que elas querem, o que elas esperam, quais são os desejos, onde elas querem estar. E aí, depois, eu continuo ouvindo, conversando e a gente olha o espaço, vê o que pode ser interessante, o que a gente acha que mais se aplica… Às vezes, tudo dá para ser feito. Então, ver o que as pessoas querem, quais são as dificuldades, o que vai ser mais fácil, o que vai ser mais difícil.”

Jéssica Devita, gestora do Telhado Verde Agroecológico, promove o reflorestamento e o cuidado com a Serra da Misericórdia. Também integrante da Comissão, explica como funciona o fortalecimento de iniciativas socioambientais no território por outros coletivos e grupos locais:

O mutirão, hoje, está acontecendo em função do calendário da Comissão do Meio Ambiente e do Fórum de Ação Popular do Complexo do Alemão para promover esses espaços, que são de grande potencial para a gente restaurar a nossa questão ambiental. A gente está sempre fazendo esses movimentos nos espaços dentro do Complexo do Alemão, e hoje, estamos nesse fortalecimento maior… para que a gente consiga, como uma equipe mesmo, um coletivo de um território, promover cada vez mais a educação ambiental.”

A Horta Comunitária João Bosco criou, no meio da favela, uma possibilidade de ocupação verde de um reservatório abandonado, que transformou uma área outrora improdutiva, em canteiros com muitas hortaliças e flores, num espaço para construção agroecológica de trabalho e sonhos coletivos.

Veja Mais Fotos no Álbum:

Mutirão de Plantio na Horta da Josefa no Complexo do Alemão, na Agenda Coletiva da Rede Favela Sustentável, 08 de agosto de 2026

*A Rede Favela Sustentável e o RioOnWatch são ambas iniciativas realizadas pela organização sem fins lucrativos, Comunidades Catalisadoras.

Sobre a autora: Bárbara Diascria de Bangu, Zona Oeste do Rio, é fotojornalista e fotógrafa documental desde 2016, com foco em direitos humanos, justiça socioambiental, religiosidades e territórios de favela. Comunicadora popular formada pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e graduanda em Jornalismo (UCAM), cofundou o Coletivo Fotoguerrilha (2016–2025). É licenciada em Biologia (UERJ), mestre em Educação Ambiental (IFRJ) e professora da rede pública estadual.


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