Eleições 2026: O Que Está em Jogo para a Favela Quando Digitamos Nossos Votos na Urna?

O voto termina em poucos segundos, mas a disputa por direitos continua todos os dias

Moradores aguardam pouco tempo para votar no 2º turno das eleições de 2022. Foto: Alexandre Cerqueira
Moradores aguardam pouco tempo para votar no 2º turno das eleições de 2022. Foto: Alexandre Cerqueira

Esta matéria faz parte de uma série sobre as eleições de 2026, com enfoque nas perspectivas das favelas do Grande Rio.

A cada eleição, o ritual se repete nas escolas públicas e associações que viram seções eleitorais nas favelas e periferias fluminenses: filas sob o sol, panfletos pelo chão e a promessa recorrente de mudança. Em 2026, os brasileiros vão às urnas para escolher deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e presidente.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Brasil registra, em 2026, o maior eleitorado de sua história, com mais de 158,7 milhões de pessoas aptas a votar. No estado do Rio, são mais de 12,8 milhões de eleitores.

De acordo com o Censo Demográfico do IBGE, o Rio de Janeiro é o estado com a segunda maior população favelada do Brasil: mais de 2,1 milhões de moradores em 1.724 comunidades.

É gente suficiente para influenciar o resultado de qualquer eleição—mas que vota de formas bem diferentes entre si, a depender de interesses, cultura familiar e local, renda, religião e até de quem controla o território, seja milícia, tráfico ou nenhum dos dois, entre inúmeros outros fatores.

“Favela não é sinônimo de pobreza. É claro que tem sobreposição de renda, território, raça, desigualdade de acesso a serviços públicos, mas é uma população que varia muito em termos de renda, em termos de raça, em termos de desigualdade de acesso e mesmo em termos de ocupação do território. Isso faz com que o termo favela possa expressar várias realidades distintas.” — Mayra Goulart, professora do departamento de Ciência Política do PPED/UFRJ e coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom)

Com cartazes em protesto contra o serviço prestado pela concessionária Águas do Rio, cerca de 130 moradores de favelas do Rio e de municípios da Baixada Fluminense se manifestaram e acompanharam a Audiência Pública. Foto: Patricia Schneidewind
Com cartazes em protesto contra o serviço prestado pela concessionária Águas do Rio, cerca de 130 moradores de favelas do Rio e de municípios da Baixada Fluminense se manifestaram e acompanharam a Audiência Pública. Foto: Patricia Schneidewind

Por Que o Voto de Quem Mora na Favela Importa?

Por um lado, quem mora em uma favela é exatamente quem mais depende de uma série de serviços que são definidos por políticas públicas. E o voto é que decide quem ocupará os espaços de decisão e, a partir daí, quais propostas, prioridades e políticas terão mais força.

Por outro lado, para quem mora nas favelas e convive todo dia, geração após geração, com o esgoto a céu aberto, a incerteza no transporte e o medo durante operações policiais, votar pode parecer irrelevante. Afinal, durante tantos anos temos visto que o voto não garante que uma obra será feita, que uma escola será construída ou que uma operação policial deixará de acontecer.

Mas para se ter potencial de transformação, favelados precisam justamente romper esse ciclo e assumirem um papel de protagonismo, analisando os candidatos e entendendo o que de fato eles representam, votando nos que representam chances reais de transformar o sistema.

“Quem sai da favela todos os dias depende de transporte público, escolas, creches, hospitais, segurança, iluminação, saneamento e emprego. As decisões políticas ajudam a determinar quanto será investido nessas áreas. Por isso, votar também é pensar naquele trabalhador que enfrenta horas de transporte, na mãe que precisa de uma creche, no jovem que busca estudar.” — Ilsimar de Jesus, 49, moradora de São João de Meriti e integrante da Rede de Mães e Familiares Vítimas da Violência de Estado da Baixada Fluminense

E além do voto, temos que acompanhar as promessas de quem for eleito, questionar suas propostas, participar de audiências públicas, procurar parlamentares e cobrar respostas. Especialmente, nas Assembleias Legislativas—como a ALERJ.

Diante de tantos desafios imediatos—trabalhar, garantir comida na mesa, cuidar da família, driblar a falta de serviços básicos—é muito a esperar, este engajamento todo. Mas é justamente por conta destes desafios que temos que buscá-lo.

“Quando a gente deixa de votar, a maioria das pessoas decide pela gente. Mas o voto é um direito constitucional que ninguém pode tirar da gente.” — Mariluce Mariá, 44, descendente de povos originários, moradora e arte-ativista do Complexo do Alemão

A Constituição de 1988 garante que “a soberania popular é exercida pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos”. Isto é: na urna, o voto de quem mora numa mansão é igual ao de quem mora numa favela. E é crítico que os moradores de favela pesquisem os candidatos e votem, se queremos mudar nossa realidade.

“Votar é se responsabilizar por um mundo melhor que ainda precisa ser construído para quem é favelado. A participação pode ajudar a interferir nos rumos da política estadual e federal ao eleger representantes comprometidos com os problemas reais das populações mais empobrecidas.” — Silvana Sá, 41, jornalista, cria do Conjunto de Favelas da Maré

O voto é o que define, na prática, quem vai decidir de onde entra e de onde sai o dinheiro público.

“O voto é a principal forma de pressionar os representantes, de atuar de maneira incisiva na política. É o principal instrumento a serviço da cidadania.” — Professora Mayra Goulart, coordenadora do Lappcom

E após as eleições, a pressão pode acontecer de diferentes maneiras: uma comunidade pode acompanhar as promessas de um candidato, questionar suas propostas, participar de audiências públicas, procurar parlamentares em seus gabinetes e agendas, além de cobrar respostas.

O Que Está em Jogo para as Favelas nas Eleições 2026?

Existe um paradoxo na disputa de votos nas favelas e periferias das metrópoles brasileiras: mesmo concentrando parcela expressiva do eleitorado, esses territórios seguem enfrentando a negação de direitos básicos, o que inclusive gera a dispersão do voto comunitário, pois deixa os moradores vulneráveis às práticas assistencialistas que fragmentam a organização popular bem na época em que ela mais faria diferença.

O voto articulado da favela poderia ter peso concreto para alterar a composição das casas legislativas e pressionar a agenda do Executivo.

“O poder público não ignora a favela enquanto agente político. Ele controla, abafa, age com violência. A forma como o poder público trata a favela diz muito sobre a força que o território tem—ou pode ter, se for organizado. Nesse sentido, o voto tem uma importância gigantesca.” — Silvana Sá, cria da Maré

Essa força é comprovada: um levantamento do Lappcom sobre a pré-campanha fluminense de 2026 mostra que os próprios partidos passaram a disputar ativamente lideranças de movimentos sociais—incluindo, nominalmente, “representantes de movimentos de moradia” e “populações periféricas”—para as chapas de deputado estadual e federal, justamente porque essas lideranças carregam “legitimidades construídas em lutas concretas, em territórios específicos”.

O voto também funciona como pressão direta, um jeito de mostrar ao poder público que existe gente atenta às pautas da favela.

“Nós vamos à urna agora em 2026 com a esperança de algo mudar, de algo melhorar em relação à educação, à saúde, programas sociais que funcionem… e que a favela não seja só vista como um depósito de pessoas aglomeradas, e sim como um local que tem pessoas trabalhadoras, crianças e adolescentes que estão crescendo e precisam ver outra realidade.” — Thaiana da Costa, 38, depiladora e moradora do Complexo da Penha

O que está em jogo Sem articulação do voto favelado Com articulação do voto favelado
Saneamento e infraestrutura Obras paliativas e interrupção de serviços essenciais. Regularização do abastecimento de água e drenagem contra enchentes.
Segurança pública Operações violentas e criminalização do território. Protocolos de redução de danos e investimento em inteligência policial.
Investimento local Verbas públicas direcionadas só para áreas nobres. Emendas orçamentárias destinadas diretamente às comunidades.

Por Que 2026 É um Ano Decisivo e o Que Cada Cargo Tem a Ver com a Favela?

Nessas eleições, vamos eleger presidente, governadores, senadores e deputados. Cada eleitor fará seis escolhas: deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e presidente. Ao todo, estão em disputa: 513 vagas de deputado federal, 1.035 de deputado estadual, 24 de deputado distrital, 54 de senador, 27 governos estaduais e a Presidência da República.

“Esse ano a eleição é muito importante. O Senado vai se renovar em dois terços. Temos chance real de escolher nomes que vão poder apoiar e votar políticas públicas para o nosso povo. Senadores fazem leis e essas leis podem ser boas ou ruins pra gente, que está na ponta.” — Silvana Sá

O comando do Executivo estadual, aliás, já mudou de mãos em 2026: o então Governador Cláudio Castro (PL), em março, renunciou, às vésperas de julgamento no TSE condená-lo por desvio de finalidade de cargos públicos usados para beneficiar sua reeleição em 2022. Pouco depois, o TSE cassou o mandato e o declarou inelegível por abuso de poder político.

Este quadro de incertezas é um retrato bem concreto da situação do Rio.

“A escolha das pessoas que vão entrar nos cargos, principalmente a pessoa que contém o poder de governador, é o cargo mais preocupante, porque tem o poder de colocar as pessoas como secretárias… A gente tem que saber qual é o planejamento de governo dessa pessoa e quem vão ser os secretários dela.” — Mariluce Mariá, Complexo do Alemão

Muitos pensam que o presidente é a escolha mais importante, no entanto, o poder do Presidente da República depende do apoio de um Congresso alinhado, o que torna a escolha de deputados e senadores tão decisiva quanto a da própria Presidência. Eleger candidatos comprometidos com as pautas de quem vive na favela é o que garante que essas questões cheguem à mesa de decisão.

Cargo Faz o quê Chega até a favela como
Deputado federal Vota leis federais e o orçamento da União, em Brasília. Verbas federais para habitação, saneamento e saúde; emendas parlamentares diretas.
Deputado estadual Legisla e fiscaliza o governador, na Alerj. Fiscaliza UPAs, hospitais e escolas estaduais; pode abrir CPI.
Senador (2 vagas) Representa o estado no Congresso por oito anos. Define reformas tributárias, leis trabalhistas e sociais de longo prazo.
Governador Chefia o Executivo estadual e as polícias. Modelo de segurança pública, trens/metrô, saúde e educação estaduais.
Presidente Chefia o Executivo federal e a economia. Minha Casa Minha Vida, salário mínimo, combate à fome, SUS.

Por Que o Cargo de Governador Pesa Tanto Para Quem Mora na Favela?

Porque boa parte das decisões que afetam diretamente o cotidiano dos moradores passa pelo governo estadual.

O estado tem responsabilidades centrais:

Por isso, é importante olhar não apenas para o candidato, mas também para o projeto de governo que ele apresenta.

“A gente tem que saber qual é o planejamento de governo dessa pessoa e quem vão ser os secretários deles.” — Mariluce Mariá

Isso porque escolher um governador também significa escolher, indiretamente, uma equipe de governo e uma orientação política para diferentes áreas da administração pública.

Depois do Voto: Como Cobrar o Que Foi Prometido?

O ato de votar é só o primeiro passo de um ciclo democrático que exige fiscalização contínua. Entregar o voto sem acompanhamento deixa o território vulnerável a promessas não cumpridas e a projetos que só aparecem em ano eleitoral.

“O voto não é um cheque em branco. É uma escolha e também uma responsabilidade. Se queremos mudanças, precisamos acompanhar quem recebe nosso voto e exigir que cumpra aquilo que prometeu ao povo. A favela não pode entregar o voto e desaparecer do debate político. Nosso voto precisa vir acompanhado de organização, participação e cobrança.” — Ilsimar de Jesus

Não se trata de imaginar que seis números digitados na urna vão resolver problemas históricos. Trata-se de reconhecer que quem ocupa o poder toma decisões que chegam de uma forma ou de outra até a favela.

Por isso, em 2026, votar pode ser o começo de uma pergunta ainda maior: depois que escolhermos nossos representantes, o que vamos fazer para acompanhar, cobrar e continuar participando? O voto termina em poucos segundos, mas a disputa por direitos continua todos os dias.

Sobre a autora: Tatiana Lima é jornalista, comunicadora popular, editora e assessora de comunicação em direitos humanos. É Doutora em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e Mestra em Mídia e Cotidiano pela mesma instituição. Articuladora de Redes Populares, ela representa o Território Mídias Brasil no Rio de Janeiro e é colaboradora do Núcleo Piratininga de Comunicação. Feminista, negra, cria da Favela do Quitungo e do Morro do Tuiuti, hoje, é moradora do asfalto periférico do subúrbio do Rio.


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