Eleições 2026: Especialistas em Segurança Pública Apontam Prioridades para Solucionar Décadas de Políticas Fracassadas

Policial militar presta continência. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Policial militar presta continência. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Esta matéria faz parte de uma série sobre as eleições de 2026, com enfoque nas perspectivas das favelas do Grande Rio.

Uma preocupação que ganha mais força a cada eleição é a segurança pública. Da sensação de insegurança nas ruas ao combate ostensivo à criminalidade, passando por décadas de propostas de endurecimento e combate fracassados, o tema assume protagonismo nas plataformas de candidatos a deputados federais e estaduais, respectivamente, ao Congresso Nacional e à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), ao Senado, ao Palácio da Guanabara e também ao Palácio do Planalto.

Para fornecer um painel amplo sobre os vários aspectos da violência que rondam o Grande Rio, bem como suas possíveis soluções, RioOnWatch traz a perspectiva de cinco especialistas em segurança pública sobre o que precisa ser feito e o que não pode mais se repetir.

A Economia Política da Violência 

A socióloga Nalayne Pinto, integrante do grupo de pesquisa Observatório Fluminense e professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), estuda a atuação de grupos criminosos na Baixada Fluminense. Ela ressalta que a região assiste, há três décadas, à participação de agentes públicos na contravenção, cuja participação ajuda a eleger políticos para todos os níveis de poder. Ela expressa que “quem faz a proteção desses agentes públicos são policiais contratados, de forma irregular, fora do serviço”.

Segundo ela, o fortalecimento e, às vezes, a união entre facções do tráfico de drogas, milícias e policiais civis, militares e bombeiros militares trouxeram profissionalismo à organização, à produção do crime e da violência. Graças ao caráter expansionista dessas quadrilhas, aumentam as populações sob cerco e surgem novos mercados que precisam ser explorados. 

“Há um interesse econômico em jogo, todo[s estes grupos] quer[em] lucrar através da venda de mercadorias legais e ilegais, pagamento de propina, na ‘proteção’ de comércios e na obtenção de ganho de forma geral. Isso tudo interessa a muita gente, inclusive, a grandes comerciantes e empresários locais.” — Nalayne Pinto

A professora explica quais seriam os caminhos possíveis:

“Destaco a necessidade de pesquisa e planejamento baseado em evidências para diagnosticar as violências mais graves como o homicídio, homicídio doloso, desaparecimentos, desaparecimento forçado, feminicídio, violência doméstica, roubo, furto, etc.: uma política pública para cada tipo de violência. Em seguida, envolver a participação efetiva das secretarias de educação, de esporte, de cultura, de lazer, de saúde, de assistência social, todas as secretarias. Sejam municipais ou estaduais, precisam estar juntos nos territórios.”

Conquistar e Nunca Dividir 

Carolina Grillo é coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI/UFF) e pesquisadora associada ao Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU/UFRJ). O Grupo produziu recentemente mapeamentos que revelam uma dinâmica implacável de expansão e reconfiguração territorial dos grupos armados no estado do Rio de Janeiro. 

A pesquisadora explica que existem duas diferentes formas de expansão dos grupos armados: conquista e colonização. A colonização é quando um grupo avança sobre territórios que antes não estavam sob controle de grupo armado algum. A conquista é quando um grupo armado avança sobre o território antes controlado por outro grupo rival. 

“A colonização foi a principal forma de expansão dos grupos armados, principalmente das milícias. Mas também o próprio Comando Vermelho (CV), que é o grupo mais caracterizado por conquista, também teve, ao longo da série histórica, a colonização como sua principal forma de expansão. Porque é justamente ocupando, passando a atuar em territórios que antes não estavam sob domínio de grupo armado algum, que esses grupos se expandem.” — Carolina Grillo

Carolina observa que o que chama de processo de colonização é muito relevante em regiões da cidade do Rio de Janeiro, como em bairros da Zona Oeste e Sudoeste, mas também em outras áreas do Grande Rio, como em São Gonçalo e Itaboraí, no Leste Fluminense, além de diversas cidades da Baixada Fluminense. De acordo com a pesquisadora:

“A gente tem o crime organizado se beneficiando da coerção para impor monopólios, controlar e extorquir uma série de serviços de infraestrutura urbana de comércios. Ou seja, quem mora num território controlado, muitas vezes já vai pagar mais caro em um botijão de gás, que é uma mercadoria tabelada. Existem agências regulatórias como a Agência Nacional do Petróleo (ANEEL), que são responsáveis pela gestão e fiscalização desses mercados, além de outras instituições de Estado que não são propriamente instituições de segurança pública, que não estão atuando na regulação desses mercados, porque dependem de suporte operacional das forças policiais. É preciso um trabalho de investigação e inteligência para identificar, no interior das instituições de Estado, pessoas aliadas dessas organizações. E de todo um trabalho de captura de bens, de capitais, de identificação de fluxos financeiros, de lavagem de dinheiro, porque essas organizações que extorquem a população mais pobre, que oferecem serviços de baixa qualidade a preços altos, movimentam quantias muito elevadas de dinheiro, que não estão lá escondidos embaixo do colchão, eles circulam no mercado financeiro.”

A urna eletrônica, símbolo das eleições, representa o espaço de escolha e disputa de projetos que estarão em debate em 2026, entre eles, os caminhos para a Segurança Pública. Fernando Frazão/Agência Brasil
A urna eletrônica, símbolo das eleições, representa o espaço de escolha e disputa de projetos que estarão em debate em 2026, entre eles, os caminhos para a Segurança Pública. Fernando Frazão/Agência Brasil

Apagamento de Dados, um Grave Problema na Segurança Pública 

Pablo Nunes é pesquisador em segurança pública, tecnologia e dados abertos, além de modelos de policiamento, análise de índices criminais e coordenador da Rede de Observatórios da Segurança. Uma de suas grandes preocupações é a quantidade considerável de apagamento e manipulação de dados oficiais de violência, incluindo subnotificações de homicídios e a maquiagem de estatísticas de confrontos. Um exemplo é o Rio de Janeiro, que, como outros estados, simplesmente não divulga dados sistemáticos sobre operações policiais, mesmo sendo tão centrais na política de segurança pública atual.

“Essa não produção de dados é um mecanismo para afastar a possibilidade de questionamento da sociedade. O esvaziamento de campos essenciais: cor, raça e idade em branco em parte dos registros, algo que mostramos nos relatórios Pele Alvo. O efeito prático é que a gente discute política de segurança sem dados confiáveis, muitas vezes. São mais de 6.000 mortes cometidas por policiais registradas no país, quase 15% de todas as mortes violentas. E esse número parte de bases que o próprio Estado admite serem incompletas.

Sem microdado confiável, nenhuma avaliação robusta de política é possível: não se sabe qual batalhão mata mais, em que horário, sob que tipo de operação, com que resultado em apreensão de armas.” — Pablo Nunes

Diante desse cenário de escassez de dados confiáveis e do uso irrisório da tecnologia, Pablo analisa que a primeira mudança é estrutural, não tecnológica. Para ele, uma solução seria retirar a produção de dados da cadeia de comando policial:

“Isso significa institutos estaduais de dados com orçamento próprio, corpo técnico de carreira e obrigação legal de publicar, além de um padrão nacional mínimo de microdado desagregado por raça, sexo, idade, unidade policial e território. Segundo, a transparência precisa alcançar a tecnologia e o contrato. Avaliação de impacto prévio, cláusula de auditoria externa, publicação de taxa de erro e relatório periódico de resultados. São elementos mínimos para inclusão de tecnologias tão danosas no serviço público. Terceiro, os dados precisam ter consequência institucional. Publicar planilha sem vincular a meta é decoração. Além disso, redução de letalidade como critério de avaliação de gestores, manifestação obrigatória do Ministério Público sobre cada morte decorrente de intervenção policial, órgãos de controle, defensorias e advogados com acesso automático a imagem de câmera corporal e registro.”

Protesto contra a violência policial: para Pablo Nunes, dados sobre criminalidade e letalidade policial são fundamentais para compreender a segurança pública e cobrar transparência dos governos. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Protesto contra a violência policial: para Pablo Nunes, dados sobre criminalidade e letalidade policial são fundamentais para compreender a segurança pública e cobrar transparência dos governos. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

O Calibre do Perigo 

Roberto Uchoa é advogado especialista em criminalidade organizada pela Academia Nacional de Polícia (ANP) e membro do Conselho de Administração do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Um estudioso do controle de armas de fogo, ele atuou diretamente na regulação do mercado de armas na Polícia Federal. Em 2022 e 2023, integrou o Grupo Técnico de Justiça e Segurança Pública na equipe de transição do governo federal, sendo peça-chave na análise e revisão das políticas de armamento brasileiras, que foram flexibilizadas durante o governo Jair Bolsonaro.

“A ampliação inédita dos limites de compra de armamentos e munições, incluindo calibres de uso restrito, como fuzis, reduziu os custos de transação do crime. Em vez de depender exclusivamente de rotas complexas de tráfico transnacional, organizações criminosas passaram a recorrer ao mercado interno formal por meio de ‘laranjas’ e desvios planejados, convertendo o mercado legal em uma fonte direta e de baixo custo de abastecimento bélico.” — Roberto Uchoa

Para Roberto, essa fragilização de gestão dos últimos anos teria também tornado a fiscalização uma tarefa quase impossível:

“O domínio territorial exercido por facções e milícias exige fluxo constante de munições e poder de intimidação. A explosão no número de registros civis combinada à ausência histórica de integração entre os sistemas Sinarm (Polícia Federal) e Sigma (Exército) e a uma fiscalização frouxa criou uma cortina de fumaça regulatória. Com estoques dispersos e residenciais de milhares de armas e milhões de cartuchos, a auditoria tornou-se impraticável. O crime organizado explorou essa brecha de controle.”

E o especialista conclui: 

“Não se trata de escolher uma medida isolada, mas de integrar três eixos estratégicos:

  • Governança e centralização: Consolidação da autoridade civil de controle e fiscalização, com unificação e interoperabilidade total dos bancos de dados, retirando a opacidade do sistema;
  • Inteligência patrimonial e rastreamento: Investigação financeira e balística orientada à asfixia das cadeias de suprimento e lavagem de capitais que financiam o armamento pesado, articulada à cooperação internacional para coibir o tráfico de peças e componentes;
  • Controle rigoroso dos arsenais públicos: Modernização dos protocolos de custódia, marcação e auditoria das armas das forças de segurança, estancando os vazamentos institucionais.”
Controle de acesso e circulação de armas de fogo é um dos desafios no enfrentamento à criminalidade organizada. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Controle de acesso e circulação de armas de fogo é um dos desafios no enfrentamento à criminalidade organizada. Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Ainda Estou Aqui

Augusto Perillo é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Ele é autor do livro Onde os Corpos Desaparecem (2025), um estudo sobre a proliferação de valas clandestinas, ocultação de corpos por grupos armados na Baixada Fluminense e desaparecimentos forçados de pessoas, no qual ele demonstrou que esses crimes funcionam como uma engrenagem de controle territorial.

“O desaparecimento é documentado em depoimentos de torturadores nas Comissões Estaduais da Verdade como um método eficaz de causar dor no inimigo, porque, além da dor em si, o desconhecimento sobre o paradeiro das vítimas despertava desespero em outros militantes de esquerda. Na democratização, as sólidas engrenagens dos aparelhos de repressão não desaparecem. O inimigo deixa de ser o militante e passa a ser o negro favelado.” — Augusto Perillo

Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) informam que 2025 foi o ano em que o Brasil bateu o recorde de pessoas desaparecidas, contabilizando mais de 84.000. E por que isso acende uma luz vermelha? Porque o desaparecimento não é contabilizado como homicídio. Segundo o pesquisador, ao desaparecer com o corpo, os agentes estatais mascaram a dimensão real do problema e se autoprotegem de investigações.

Augusto também tem destacado que o controle armado regulado pela morte impõe severos limites ao exercício da própria democracia nas favelas e periferias. A rotina de terror imposta pelo medo de sumir sem deixar vestígios paralisa a organização comunitária. 

“É muito comum ouvirmos dos nossos interlocutores que uma das características do desaparecimento forçado de corpos é o impedimento dos familiares acessarem o corpo da vítima. Ou seja, os criminosos matam a sua vítima, alguém denuncia aos familiares o ocorrido, mas eles não conseguem acessar os restos mortais. Mesmo acionando o Estado, ele pouco se mobiliza, visto que a maioria das vítimas é pobre.” — Augusto Perillo

Segundo ele, trata-se, em última instância, da negação do direito ao luto. Muitas mães adoecem, familiares entram em depressão e famílias são esgarçadas devido à falta de respostas sobre seu ente querido. É impossível falarmos sobre democracia e cidadania com milhões de pessoas que precisam lidar diariamente com a morte, o desaparecimento e o terror.

“Os estados precisam de interlocução com o governo federal. Os dados sobre pessoas desaparecidas não são sistematizados e nem produzidos de maneira eficaz. No Brasil, nós temos poucos dados sobre os desaparecidos e praticamente nenhum sobre os reaparecidos. É uma inoperância muito grande dada a urgência do tema.” — Augusto Perillo

Assim sendo, nas eleições 2026, o debate sobre segurança pública não pode se limitar ao aumento do policiamento ostensivo ou ao endurecimento das leis. As entrevistas apontam para um problema mais amplo, que envolve a expansão territorial de grupos armados, a circulação de armas, a fragilidade na produção e transparência de dados, a participação de agentes públicos em redes criminosas e o desaparecimento forçado de pessoas.

Diante desse cenário, os especialistas ouvidos concordam quanto à necessidade de políticas baseadas em evidências, investigação e inteligência, controle das armas e dos fluxos financeiros, integração entre instituições e produção de dados confiáveis. Além da presença, nos territórios, de políticas articuladas de educação, saúde, cultura, assistência e lazer.

Mais do que respostas imediatistas, o desafio colocado para os próximos governos é enfrentar as estruturas que sustentam a violência e garantir que segurança pública signifique proteção de direitos, transparência, cidadania e democracia e não mais armas, operações com tiroteiros e chacinas em favelas.

Sobre o autor: Fabio Leon é jornalista, ativista dos direitos humanos e assessor de comunicação na Associação Fórum Grita Baixada.


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