Protagonismo Comunitário no Enfrentamento à Crise Climática Está Entre Principais Destaques do 3º Festival Favela Sustentável

Dona Josefa do Complexo do Alemão mostra como fazer um fogão solar. Foto: RioOnWatch
Dona Josefa do Complexo do Alemão mostra como fazer um fogão solar. Foto: RioOnWatch

Esta matéria faz parte de uma série gerada em parceria com o Digital Brazil Project do Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias sobre direitos humanos e justiça socioambiental nas favelas. 

Lideranças, educadoras e jovens compartilharam experiências de mobilização, mapeamento territorial e educação ambiental para enfrentar os impactos das mudanças climáticas e cobrar políticas públicas.

Tema comum à diversas de suas 180 ações, o 3º Festival Favela Sustentável debateu, no dia 17 de outubro, como as mudanças climáticas afetam o cotidiano das periferias e por que as soluções para enfrentá-las precisam considerar as particularidades de cada território. Com o tema “Favela no Centro das Soluções Territoriais”, o encontro reuniu mais de 1.200 lideranças comunitárias, educadoras, jovens e movimentos sociais na Fundição Progresso, no Centro do Rio de Janeiro, para compartilhar experiências, metodologias e discutir caminhos para a justiça climática.

A programação abordou as desigualdades que tornam os impactos de eventos extremos, como enchentes e ondas de calor, mais severos para quem vive em favelas e áreas vulnerabilizadas. Também discutiu como a falta de saneamento, as dificuldades de acesso à água, a redução das áreas verdes e a precariedade das moradias refletem o racismo ambiental.

Com rodas de conversa, cineclube, exposições, apresentações culturais e oficinas, o festival reforçou o protagonismo das comunidades no enfrentamento à crise climática e destacou o papel da educação ambiental, da preservação da memória e da organização coletiva na construção de soluções.

Moradora da Vila Sahy Alerta sobre Negacionismo Climático e Importância do Voto

Para alertar sobre os riscos de novos eventos extremos e a urgência de ações preventivas, o movimento União dos Atingidos, da cidade de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, fez questão de viajar seis horas para fazer presença no festival. Lá, três integrantes do grupo e aliados mostraram seu documentário e realizou um debate, além de uma exposição fotográfica sobre a tragédia que atingiu o bairro Vila Sahy em fevereiro de 2023. 

Cosme Vitor da União dos Atingidos apresentando exposição fotográfica 'A Noite em Que Tudo Mudou'. Foto: Bárbara Dias
Cosme Vitor da União dos Atingidos apresentando exposição fotográfica ‘A Noite em Que Tudo Mudou’. Foto: Bárbara Dias

Na ocasião, a região registrou 680mm de chuva em apenas 24 horas, um volume recorde no país. Ao todo, 64 pessoas morreram e mais de 1.000 ficaram desabrigadas. Desde então, o movimento promove conversas e palestras para conscientizar a população sobre os riscos climáticos e fortalecer a mobilização comunitária. 

“A gente está tentando alertar as pessoas sobre o El Niño, sobre justiça climática, sobre o que vai acontecer no mundo. Em São Sebastião, no bairro Vila Sahy, a gente perdeu 64 pessoas. Eu conhecia cada um deles.” — Rosilene de Jesus Santos, moradora da Vila Sahy e integrante da União dos Atingidos

Ela também criticou o negacionismo climático entre governantes e defendeu que a população considere esse posicionamento na hora de votar:

“A gente tem que se ligar em quem votar. Porque, se a gente vota em uma pessoa que é negacionista climática, o que vai ser da gente? Nada vai ser feito!”

Rosilene reconhece que a organização popular precisa de articulação com o poder público e outros parceiros para avançar. Ressaltou a importância de envolver as novas gerações no debate:

“Cada vez mais eu vejo, em cada local que eu vou, que a gente precisa conversar com os adolescentes.”

Membros e aliados da União dos Atingidos após sua apresentação no Festival Favela Sustentável. Foto: RioOnWatch
Rosilene de Jesus Santos e demais membros e aliados da União dos Atingidos após sua apresentação no Festival Favela Sustentável. Foto: RioOnWatch

Mapeamento Comunitário na Cidade de Deus

Na Cidade de Deus, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, essa perspectiva orienta o trabalho da EcoRede, vinculada ao Alfazendo. Atualmente, uma equipe de 70 jovens percorre sete áreas da comunidade para fazer um mapeamento socioambiental. O objetivo é levantar dados sobre a estrutura das moradias, o acesso ao saneamento e à água potável, a presença de ventiladores ou ar-condicionado e a frequência das quedas de energia, para compreender como essas desigualdades afetam diretamente a saúde e o cotidiano dos moradores. 

Essa investigação de campo parte de uma ferramenta já consolidada na comunidade. Como explica a professora Iara Oliveira, integrante da organização, a metodologia dos mapas referenciais é utilizada há 28 anos pelo Alfazendo, que acumula um histórico de ações de alfabetização, pré-vestibular popular e formação de educadores.

“O mapa referencial ajuda a entender como você se localiza no seu próprio território. Às vezes, você tem uma ideia muito legal para um projeto, mas não conhece outras iniciativas que já acontecem ali e com as quais poderia fazer parcerias. Há também pessoas que moram no mesmo lugar e não se conhecem. Então, a importância do mapa referencial está em trabalhar a ancestralidade e a relação com o território, porque o território não é só o lugar: são as pessoas também.” — Iara Oliveira, Alfazendo, Cidade de Deus

Mapa referencial da Cidade de Deus. Foto: Kelly Ribeiro
Mapa referencial da Cidade de Deus. Foto: Kelly Ribeiro

A metodologia tem sido compartilhada com outros territórios, como o Morro do Salgueiro, na Zona Norte do Rio, podendo ser adaptada conforme a singularidade de cada local.

O Alfazendo busca ainda exercitar a consciência cidadã e o senso crítico dos jovens, incentivando-os a refletir sobre as disparidades do lugar em que vivem, reconhecer oportunidades e entender que o meio ambiente abrange também condições dignas de vida e laços comunitários. É como contou Iara:

“As relações sociais também são meio ambiente. Como eu cuido do lugar, como cuido das pessoas, isso interfere na maneira como eu entendo o que é desenvolvimento. A favela é construída por gente, mas ainda temos casas sem banheiro, sem esgoto ou pessoas morando em barracos. Como fica essa relação? É assim que a gente faz.”

Iara Oliveira apresenta o mapeamento afetivo no Festival Favela Sustentável. Foto: Bárbara Dias
Iara de Oliveira apresenta o mapeamento socioambiental no Festival Favela Sustentável. Foto: Bárbara Dias

Educação é Fundamental para a Justiça Climática

O papel da educação também foi debatido na roda de conversa Mulheres Negras por Justiça Climática, organizada pela Frente Mulherista de Favelas Antirracistas e ONG Criola a partir do Complexo da Penha.

Em sua fala, uma participantes, a docente e pesquisadora da Fiocruz, Flávia Mendonça, destacou que a educação, dentro e fora das escolas, contribui para preservar a memória, fortalecer a autonomia das comunidades e formar pessoas capazes de reconhecer os problemas socioambientais e propor soluções. Ao citar o bairro de Irajá, na Zona Norte do Rio de Janeiro, a pesquisadora abordou a relação entre os efeitos das mudanças climáticas e a infraestrutura urbana. O aumento das construções, o desmatamento e a expansão do asfalto e do concreto reduzem as áreas permeáveis, dificultam o escoamento da água da chuva e contribuem para a elevação das temperaturas.

“Esse processo de ‘cimentificação’ está fazendo com que a água da chuva não tenha para onde correr e o calor excessivo não tenha para onde se dissipar. A educação, a sala de aula—seja de um pré-vestibular, de uma escola ou em espaços informais, como este aqui—não pode deixar de pensar em estratégias. Estratégias de plantio, de telhado verde, etc. Nos lugares mais periféricos, tem também a falta d’água. É o famoso ‘oito ou oitenta’: quando chove, você tem enchente, e quando tá muito calor, não tem água.” — Flávia Mendonça

Para Flávia, compreender a crise climática exige olhar para as desigualdades que determinam como cada território é afetado. Uma tempestade, por exemplo, não produz os mesmos impactos em uma favela com infraestrutura precária e em uma rua que conta com escoamento adequado através de sistemas de drenagem.

Jovem do EcoRede da Cidade de Deus participando do debate em roda. Foto: Bárbara Dias
Jovem do EcoRede da Cidade de Deus participando do debate em roda. Foto: Bárbara Dias

Estudantes Reivindicam Direitos para o Rio Anil em Carta Escolar

A preservação ambiental e o envolvimento das novas gerações estiveram presentes na leitura da Carta do Rio Anil, elaborada por estudantes de uma escola de Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio. A iniciativa integra ações de educação ambiental desenvolvidas desde 2022 em parceria com o Observatório Escolar de Jacarepaguá.

A professora Jaqueline Guerreiro explicou que a carta começou a ser elaborada em 2023, quando parte dos estudantes ainda cursava o sexto ano do ensino fundamental. Em 2026, a iniciativa ganhou um novo marco com a publicação do documento, que reivindica o reconhecimento de direitos para o rio.

Durante o festival, os próprios estudantes fizeram a leitura dos compromissos propostos, que incluem a preservação das águas e das margens, o combate à poluição e a participação dos moradores e do poder público no cuidado com o rio.

“O Rio Anil tem direito de fluir”, diz um dos trechos da carta. O documento também defende que o curso d’água seja protegido para as próximas gerações e não receba lixo ou poluentes.

Jaqueline destacou que a elaboração do texto foi conduzida pelos estudantes, sem que os adultos da escola escrevessem seu conteúdo. A organização final na norma-padrão da língua portuguesa também foi feita por eles.

A roda de conversa reuniu o Grupo de Estudos em Educação e Meio Ambiente do Rio de Janeiro (da Praça Seca), o Observatório da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha da Cooperação Social da Fiocruzm e a Rede de Vigilância Popular em Saneamento e Saúde. 

Roda de conversa sobre Rios como Sujeitos de Direitos do Grupo de Estudos em Educação e Meio Ambiente do Rio de Janeiro/Praça Seca, junto de outras rodas sobre água. Foto: RioOnWatch
Roda de conversa sobre Rios como Sujeitos de Direitos do Grupo de Estudos em Educação e Meio Ambiente do Rio de Janeiro/Praça Seca, junto de outras rodas sobre água. Foto: RioOnWatch

Articulação Comunitária e Planos de Contingência para Enchentes

Na plenária, participantes questionaram como as organizações estão se mobilizando diante dos riscos associados ao El Niño. 

Em resposta à discussão, Rejany Ferreira, liderança socioambiental e integrante do Comitê de Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara, comentou sobre a elaboração de um plano de contingência para alagamentos e enchentes e de um plano de gerenciamento de riscos no âmbito do comitê. Segundo ela, o planejamento também depende da contribuição das prefeituras e da articulação entre diferentes instâncias de gestão.

“Temos limitações porque é preciso seguir a legislação, mas o que nós pudermos fazer enquanto comitê nós vamos fazer.” — Rejany Ferreira

O boletim divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontou 95% de probabilidade do fenômeno atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026, com previsão de chuvas acima da média e risco de cheias no Sul do país, além de seca e aumento do risco de incêndios em áreas do Centro-Norte. As temperaturas também devem ficar acima da média em quase todo o Brasil.

As experiências apresentadas ao longo do festival mostram que o enfrentamento das mudanças climáticas exige ações em diferentes escalas: do conhecimento produzido pelos próprios moradores à educação ambiental nas escolas, passando pela mobilização social e pela cobrança de políticas públicas.

Roda de conversa liderada por Carlos Leandro do Pedala Queimados sobre 'A Rota do Rio Doce de Mariana ao Mar: O Mesmo Rio'. Foto: RioOnWatch
Roda de conversa liderada por Carlos Leandro do Pedala Queimados sobre ‘A Rota do Rio Doce de Mariana ao Mar: O Mesmo Rio’. Foto: RioOnWatch

Sobre a autora: Kelly Ribeiro é jornalista e roteirista, com experiência em cobertura de temas relacionados à cultura, gênero, raça e direitos humanos, com perspectiva interseccional, e produção de narrativas sonoras e audiovisuais. Pós-graduada em Jornalismo de Dados no IDP Tech School e formada em Roteiro Audiovisual.


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