Quais São as Propostas dos Candidatos a Governador para as Favelas Fluminenses?

O Rio de Janeiro tem nove candidatos(as) ao governo do estado nas eleições 2026. Montagem: <em>RioOnWatch</em>

Esta matéria faz parte de uma série sobre as eleições de 2026, com enfoque nas perspectivas das favelas do Grande Rio.

O Rio de Janeiro chega às eleições de 2026 com problemas que estão longe de ser apenas números nas contas do governo. A crise fiscal, as dificuldades na prestação de serviços básicos e os conflitos nos territórios afetam diretamente a vida da população, sobretudo nas favelas e periferias.

É nesse cenário que nove candidaturas disputam o Palácio Guanabara, apresentando propostas diferentes para áreas que têm impacto direto nesses territórios, como segurança pública, saneamento e habitação. 

Nesta reportagem, o RioOnWatch analisou os planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para identificar o que cada candidatura propõe para as favelas, quais problemas reconhece e quais soluções apresenta. Também foram consideradas declarações públicas e ações anteriores dos candidatos relacionadas a esses temas.

As propostas registradas na Justiça Eleitoral não obrigam o futuro governo a executá-las, mas deixam um registro público das prioridades apresentadas durante a campanha e podem servir como instrumento de acompanhamento e cobrança após a eleição.

Abaixo, os perfis dos candidatos ao governo do estado do Rio de Janeiro, na ordem de popularidade, segundo as pesquisas mais recentes:

Candidato / partido Perfil político e trajetória Patrimônio declarado (2026) Observações
Eduardo Paes (PSD/55) Prefeito da cidade do Rio de Janeiro por quatro mandatos, deixou a prefeitura em março de 2026 para disputar o governo do estado. Vice: Jane Reis (MDB) R$ 189.210,63 Em 2024 declarou R$ 185 mil. Principal bem informado: veículo Tiguan e aplicações.
Douglas Ruas (PL/22) Ex-inspetor de Polícia Civil, deputado estadual, secretário de cidades de Cláudio Castro e presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) desde a prisão de seu antecessor e aliado Rodrigo Bacellar em abril de 2026. R$ 1.467.687,88 Maior patrimônio declarado entre os candidatos na apuração. Inclui aplicações, imóveis e cotas de capital.
Anthony Garotinho (Republicanos/10)

 

Ex-governador do Rio (1999–2002), ex-secretário de segurança pública do governo Rosinha Garotinho, família política tradicional de Campos dos Goytacazes, jornalista, radialista e locutor. Vice: Major Elaine (DEM) R$ 167.500,00 Patrimônio declarado em queda em relação a anos anteriores. Informou imóvel em Campos dos Goytacazes.
William Siri (PSOL/50) Economista; vereador do Rio eleito em 2020 e reeleito em 2024. Vice: Juliana Carvalho. R$ 120.000,00 Patrimônio composto, segundo o registro citado, por participação acionária em empresa.
André Marinho (Novo/30) Apresentador, humorista e influenciador; 32 anos; primeira eleição majoritária. Vice: Ten. Cel. Erigreyce. R$ 407.503,55 Inclui apartamento, quotas de capital e poupança, conforme a apuração.
Coronel Busnello (Missão/14) Coronel da Polícia Militar do RJ, com trajetória em operações especiais e segurança pública ostensiva. R$ 950.000,00 Patrimônio informado em queda em relação ao declarado em 2022.
Cyro Garcia (PSTU/16) Aposentado e militante de esquerda; 71 anos; participa de disputas eleitorais desde 2004. Vice: Perciliana Costa. R$ 385.400,00 Declara apartamento e veículo Celta, segundo os dados reunidos na reportagem.
Juliete Pantoja (UP/80) Educadora popular; militante do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB). Já disputou o governo em 2022 e a prefeitura em 2024. Vice: Bia Martins. R$ 0,00 Não registrou bens no registro citado. Em 2022 havia declarado saldo de R$ 203,99.
Luan Monteiro (PCO/29) Comerciante e estudante, 30 anos; disputa a quarta eleição pelo partido. R$ 0,00 Sem patrimônio declarado no registro citado. Não havia declarado receitas ou despesas de campanha até a apuração.

Quais Serviços Voltados para Favelas Ficam na Mão do Governador?

O Rio de Janeiro tem mais de 2,1 milhões de moradores vivendo em 1.724 comunidades, segundo dados do Censo Demográfico do IBGE. As favelas concentram uma parcela expressiva da população e estão diretamente afetadas por decisões do governo estadual, especialmente em quatro áreas: segurança pública, saneamento básico, habitação e urbanização. 

As favelas não são apenas territórios que concentram milhões de eleitores. Elas representam o principal termômetro da eficácia ou da falência das políticas públicas estatais no Rio de Janeiro. Historicamente, a relação do governo estadual com esses territórios têm sido mediada pela descontinuidade da oferta de direitos sociais e pela constância das operações policiais. 

Atualmente, o Estado enfrenta a expansão e o fortalecimento de grupos armados—facções do narcotráfico e milícias—que exercem controle territorial e influenciam diretamente a vida de quatro milhões de cidadãos. É o que afirma o levantamento contínuo elaborado pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) em parceria com o Instituto Fogo Cruzado.

Toda e qualquer intervenção do poder público nas comunidades e periferias do Estado do Rio de Janeiro encontra-se profundamente condicionada por limites institucionais. O primeiro é o Regime de Recuperação Fiscal (RRF), que limita a capacidade de endividamento e investimento direto do Estado, obrigando as campanhas a apresentarem engenharias financeiras radicais ou a proporem o rompimento com a União. 

O segundo é a transição regulatória do saneamento básico, que fragmentou os serviços da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE) e transferiu a distribuição de água nas favelas para consórcios privados. O Marco Legal revisado afirma que até 2033, 99% da população terá acesso à água potável, e 90% à coleta e tratamento de esgoto. Cerca de 54,8% do esgoto gerado no estado do Rio é efetivamente tratado, de acordo com o Painel Saneamento Brasil e dados consolidados pelo Instituto Trata Brasil. 

O terceiro, e talvez o mais sensível no debate eleitoral, é a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 635 (ADPF das Favelas) no STF, que impôs balizas à letalidade policial e tem sido alvo de duros ataques por parte das candidaturas conservadoras. 

Ao mesmo tempo, o próximo governo terá de lidar com restrições fiscais, com a atual estrutura de concessões do saneamento e com as regras estabelecidas pelo STF no debate sobre segurança pública nas favelas.

Moradores da Rocinha aguardam pouco tempo para votar no 2º turno das eleições de 2022. Foto: Alexandre Cerqueira/RioOnWatch
Moradores da Rocinha aguardam pouco tempo para votar no 2º turno das eleições de 2022. Foto: Alexandre Cerqueira/RioOnWatch

As Favelas Estão nos Planos de Governo?

A análise dos nove programas mostra diferenças importantes não apenas entre as propostas dos candidatos, mas também no grau de detalhamento. Há planos com medidas direcionadas a esses territórios e outros que tratam de infraestrutura, segurança ou desenvolvimento econômico de forma geral, sem apresentar um recorte específico para favelas.

É nesse contexto que os nove candidatos ao governo: André Marinho (Novo); Anthony Garotinho (Republicanos); Coronel Busnello (Missão); Cyro Garcia (PSTU); Douglas Ruas (PL); Eduardo Paes (PSD); Juliete Pantoja (UP); Luan Monteiro (PCO) e William Siri (PSOL) apresentam seus projetos aos eleitores em 2026.

O que aparece e não aparece nos programas de governo:

Candidatura Menciona favela? Segurança Saneamento/água Habitação/urbanização Metas ou medidas específicas
Eduardo Paes Não há seção específica Específica Específica Referências a políticas habitacionais Pouco detalhadas no plano
Douglas Ruas Não há recorte específico Específica Específica Predominantemente genérica Pouco detalhadas no plano
Anthony Garotinho Referências no debate de segurança Específica Não identificado Não identificado Não identificado
William Siri Específica Específica Reestatização Específica Medidas e programas definidos
André Marinho Específica Propostas territoriais Específica Regularização/titulação Fundo de R$ 700 milhões citado
Coronel Busnello Específica Específica Não identificado “Desfavelização” Diagnóstico e critérios previstos
Cyro Garcia Específica Específica Reestatização Medidas estruturais Medidas estruturais
Juliete Pantoja Específica Específica Reestatização Medidas estruturais Medidas estruturais
Luan Monteiro Não identificado Não identificado Não identificado Não identificado Não identificado

Eduardo Paes (PSD), da coligação Juntos Para Mudar, Coragem Para Reconstruir, apresentou um plano preliminar de oito páginas. O documento não tem uma seção específica dedicada às favelas e concentra-se em temas como reorganização da administração pública, desenvolvimento econômico e parcerias com o governo federal. As propostas mais específicas para esses territórios aparecem sobretudo no debate sobre segurança e em declarações públicas.

Douglas Ruas (PL) apresentou o Plano Rio Real, com 51 páginas. O documento prioriza capacitação profissional e menciona a necessidade de garantir a livre circulação por meio das forças policiais. Na infraestrutura, porém, as propostas são apresentadas de forma mais geral, sem detalhar intervenções específicas para a realidade das favelas.

André Marinho (Novo) apresentou um plano de 140 páginas. Entre as propostas, estão a desregulamentação urbanística e a concessão de títulos de propriedade individuais. Na área do saneamento, o plano prevê um fundo de R$700 milhões financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para obras de esgotamento e macrodrenagem em 80 grandes favelas.

Coronel Busnello (Missão) utiliza o conceito de “desfavelização“. Seu plano de governo prevê que, depois de uma etapa de estabilização tática, o Estado faça um diagnóstico das áreas e leve infraestrutura definitiva às favelas, com realocação de famílias apenas em situações de risco geológico extremo.

William Siri (PSOL) propõe o Programa Habita Rio com veto a remoções forçadas, além da ampliação da Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social. 

Juliete Pantoja (UP) e Cyro Garcia (PSTU) associam o déficit habitacional e a precarização das favelas à especulação imobiliária e propõem, entre outras medidas, o uso de imóveis estaduais ociosos para moradia popular.

Na Segurança Pública: O Que Muda para as Favelas?

O debate eleitoral ocorre em um contexto marcado pela Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 635 (ADPF das Favelas), julgada pelo Supremo Tribunal Federal, e pela disputa sobre os limites das operações policiais em favelas. A realidade nos territórios, contudo, demonstra a resiliência da violência letal. Alguns candidatos criticam as restrições impostas às operações policiais no âmbito da ADPF 635. Segundo o relatório De Olho na ADPF 635, em 2024, por exemplo, ocorreram 42 dias de operações policiais que resultaram em 20 mortes e forçaram a paralisação de escolas e postos de saúde, somente no Complexo da Maré.

Assim sendo, é importante conhecer as posições de cada candidato sobre a segurança pública nas favelas:

Candidato Doutrina Principal para Favelas Posição sobre Letalidade, ADPF 635 e Operações Controle Externo e Corregedoria
Eduardo Paes “O Estado tem que entrar para ficar”. Oposição à ADPF, retórica de confronto às facções criminosas. Defende uso de tecnologia de monitoramento, incluindo câmeras integradas e biometria facial, associado à atuação policial. Unificação das polícias para mitigar a ingerência parlamentar sob uma única Secretaria de Segurança Pública, absorvendo as atuais Secretaria de Polícia Militar e Secretaria de Polícia Civil.
Douglas Ruas Policiamento Ostensivo e Expansão do “Segurança Presente”. Oposição à ADPF; forte defesa das operações táticas massivas. Contrário ao uso de câmeras corporais para punir policiais.
Anthony Garotinho “Bope 2.0” (5.000 homens) para cerco e ocupação permanente. A morte é o último recurso (“polícia é para prender”); foco em inteligência. Não priorizado no discurso primário. Foco no apoio das Forças Armadas.
William Siri Desmilitarização e inteligência nas fronteiras e portos. Cumprimento das metas de direitos humanos; foco no fluxo de armas, não na favela. Câmeras corporais totais e criação de Corregedoria Externa civil.
Cyro Garcia Dissolução da Polícia Militar. Zerar operações com viés letal e confronto em comunidades. Submissão das forças ao controle social popular.

Frente a este quadro, é importante destacar que há várias lacunas estruturais que perpassam a maioria dos programas sobre segurança pública. É marcante como o debate está massivamente fixado no patrulhamento ostensivo, uso da força e ocupação territorial, negligenciando o fortalecimento da investigação, da perícia e da inteligência. O uso de câmeras corporais, apesar de declarado como obrigatório pelo STF, ainda enfrenta resistência entre policiais e emerge como um dos pontos de contraste entre as candidaturas às Laranjeiras.

No plano de Eduardo Paes, a retomada de territórios aparece como prioridade. O candidato defende o uso de tecnologia de monitoramento, incluindo videocâmeras integradas e biometria facial, associado à atuação policial. Em declarações públicas, também criticou as restrições impostas pelo STF às operações.

Douglas Ruas, com trajetória na Polícia Civil e passagem pela Secretaria de Estado das Cidades (SECID), do governo Cláudio Castro, defende operações para desmontar barricadas e ampliar a atuação do programa Segurança Presente. O candidato também se posicionou contra determinadas restrições às operações policiais.

Anthony Garotinho propõe o chamado “Bope 2.0”, com a formação de um contingente de 5 mil agentes para ocupação permanente das comunidades consideradas liberadas, com apoio logístico das Forças Armadas. Em declaração pública, afirmou que o papel da polícia é prender, e não matar.

Coronel Busnello também faz parte de uma estratégia de presença policial e estabilização territorial antes da implementação de outras políticas públicas.

Nas candidaturas de esquerda, o foco é diferente. William Siri defende que a segurança não trate a favela como território inimigo e propõe deslocar parte do esforço operacional para portos, aeroportos e rodovias, com investimento em inteligência e na Baía de Guanabara.

Cyro Garcia propõe a dissolução da hierarquia militar das polícias e o fim das incursões armadas. Juliete Pantoja defende mudanças na estrutura das instituições de segurança e o fim do atual modelo de operações.

Uma lacuna estrutural que perpassa a maioria dos programas — especialmente os de perfil conservador — é a ausência de uma distinção clara e estratégica entre os papéis da Polícia Militar e da Polícia Civil. O debate está massivamente fixado no patrulhamento ostensivo, uso da força e ocupação territorial (competências da PM), negligenciando propostas sólidas para o fortalecimento da investigação, da perícia e da inteligência (competências da Civil).

Ao ignorar o aparelhamento investigativo necessário para seguir o rastro do dinheiro, combater a corrupção estatal e desarticular a estrutura logística e política de facções e milícias, os planos de governo limitam-se a propor o confronto bélico contínuo. Nos territórios, isso se traduz na concentração das propostas em medidas de policiamento ostensivo, sem jamais desidratar o poder real do crime organizado.

Água e Esgoto: O Que os Candidatos Querem Fazer com a CEDAE?

Na área de saneamento, a principal diferença entre os programas está no futuro das concessões e da CEDAE. Após os leilões dos blocos da companhia, empresas privadas passaram a operar a distribuição de água em diferentes regiões, enquanto a CEDAE permaneceu responsável pela captação e pelo tratamento em grandes mananciais. A Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio de Janeiro (AGENERSA), atua na regulação.

Eduardo Paes, Douglas Ruas e André Marinho defendem a permanência dos contratos privados, acompanhada de fiscalização e regulação. Já William Siri, Juliete Pantoja e Cyro Garcia defendem a revogação dos contratos de concessão e a reestatização dos serviços, com recomposição de uma CEDAE pública e integrada.

Outro ponto que afeta diretamente moradores de baixa renda é a tarifa social. Na tarifa social, os valores citados na apuração variam entre R$27,45 e R$30,46 para a faixa inicial de consumo de até 15 metros cúbicos em 2024, além de modelos específicos criados pelas concessionárias para facilitar a regularização de moradores.

Organizações da sociedade civil questionam, porém, se o modelo atual garante acesso à água para famílias em extrema pobreza. O DataLabe e outros coletivos movem a Ação Civil Pública nº 0833043-81.2023.8.19.000, defendendo que o fornecimento não pode ser condicionado exclusivamente à capacidade de pagamento. A ação defende que famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) tenham direito ao fornecimento gratuito de até 25 mil litros de água por mês.

Nos planos dos candidatos, o tema da tarifa social aparece com menos detalhamento do que o debate sobre o modelo de concessão.

O Complexo da Maré, inundado pela chuva, convive com projetos de saneamento ineficientes há décadas, bem como muitas favelas fluminenses. Foto: Elisangela Leite/Casa Fluminense
O Complexo da Maré, inundado pela chuva, convive com projetos de saneamento ineficientes há décadas, bem como muitas favelas fluminenses. Foto: Elisangela Leite/Casa Fluminense

Habitação e Urbanização

A habitação aparece de formas diferentes nos programas. A Companhia Estadual de Habitação do Rio de Janeiro (CEHAB-RJ) pode atuar em políticas de urbanização e construção de moradias, mas a apuração aponta que a companhia historicamente teve sua atuação esvaziada.

Eduardo Paes aposta em parcerias com o governo federal e em programas habitacionais. William Siri e Juliete Pantoja defendem uma reestruturação da política estadual de habitação, com obras de contenção de encostas e reformas nas moradias. As propostas de Siri também incluem assistência técnica para habitação de interesse social.

A proposta de “desfavelização” de Coronel Busnello, a regularização e titulação defendidas por André Marinho e as propostas de desapropriação de imóveis estaduais ociosos apresentadas por candidaturas de esquerda mostram que o debate sobre habitação também envolve visões diferentes sobre permanência, urbanização e regularização dos territórios.

O Que Ficou Fora dos Planos?

Além das propostas apresentadas, a análise dos programas revela um padrão identificado na análise: a ausência quase absoluta de metas quantificáveis, prazos de execução e fontes orçamentárias. Em muitos casos, políticas fundamentais aparecem como declarações genéricas, sem indicadores de impacto.

O que salta aos olhos na leitura transversal dos documentos é a falta de engenharia financeira. Exceto por menções específicas, como o fundo garantido pelo BID proposto por André Marinho, os candidatos não explicam como financiarão as intervenções bilionárias prometidas em meio ao Regime de Recuperação Fiscal.

Sem cronogramas definidos e sem destinação de verbas detalhadas, as propostas para os territórios correm o risco de se tornarem apenas propostas cuja execução será mais difícil de acompanhar. Essa omissão importa profundamente: quanto mais inespecífica é uma política pública em um plano de governo, mais difícil se torna o monitoramento e a cobrança objetiva por parte dos moradores e da sociedade civil organizada após a posse da chapa eleita.

A comparação mostra, portanto, que as diferenças entre as candidaturas não estão apenas nas soluções defendidas, mas também no espaço dedicado às favelas dentro de cada plano e no nível de detalhamento apresentado.

Histórico de Atuação em Territórios Populares

Além das propostas atuais, o histórico de atuação dos candidatos ajuda a contextualizar suas posições sobre os territórios populares. Promessas atuais esbarram diretamente no legado deixado pelos candidatos nos territórios populares.

Eduardo Paes, com sua longa trajetória na prefeitura, tem um histórico marcado por diferentes políticas para as favelas. Se por um lado idealizou programas de infraestrutura como o Morar Carioca, por outro, liderou o período de maior número de remoções forçadas da história recente da cidade, alavancado pelas obras de megaeventos esportivos. A desestruturação de comunidades consolidadas, como a Vila Autódromo e o Morro da Providência, ainda reverbera como um alerta sobre como políticas urbanas podem atropelar o direito à permanência e à moradia.

Anthony Garotinho, que tenta retomar o protagonismo com foco em segurança, governou o estado com resultados e avaliações distintos ao longo do período. Embora sua gestão tenha ensaiado modelos precursores de policiamento comunitário (como o Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais – GPAE), seu mandato manteve índices elevadíssimos de letalidade policial e falhou estruturalmente em frear a expansão territorial de grupos armados, com medidas que tiveram diferentes alcances e resultados.

Douglas Ruas, por sua vez, carrega o peso da continuidade institucional. Como ex-secretário das Cidades da recente gestão de Cláudio Castro, integrou uma gestão estadual marcada por operações policiais de alta letalidade da história fluminense, como as operações com alto número de mortes do Jacarezinho e da Vila Cruzeiro, colocando sob duro escrutínio suas propostas de intensificação de incursões armadas.

Os Eleitores Devem Cobrar

Os nove planos analisados pelo RioOnWatch apresentam diferenças importantes na forma como tratam segurança pública, saneamento e habitação nas favelas. Enquanto algumas candidaturas detalham medidas específicas para esses territórios, outras concentram suas propostas em políticas gerais ou deixam determinados temas sem metas e ações definidas.

Os programas registrados no TSE não garantem que as propostas serão executadas, mas, para os eleitores das favelas fluminenses, esses documentos podem servir como instrumento de vigilância popular no acompanhamento da implementação de políticas públicas. Podem ser ferramentas para exercer pressão por serviços públicos melhores e cobrar o(a) próximo(a) governador(a) do estado do Rio de Janeiro.

Sobre a autora: Tatiana Lima é jornalista, comunicadora popular, editora e assessora de comunicação em direitos humanos. É Doutora em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e Mestra em Mídia e Cotidiano pela mesma instituição. Articuladora de Redes Populares, ela representa o Território Mídias Brasil no Rio de Janeiro e é colaboradora do Núcleo Piratininga de Comunicação. Feminista, negra, cria da Favela do Quitungo e do Morro do Tuiuti, hoje, é moradora do asfalto periférico do subúrbio do Rio.


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