Entre Memórias e Abandono, Moradores, Ativistas e Estudantes Reivindicam o Direito dos Rios no 3º Festival Favela Sustentável

Roda de conversa sobre os direitos dos rios durante a 3ª edição do Festival Favela Sustentável, na Fundição Progresso. Foto: Karen Fontoura
Roda de conversa sobre os direitos dos rios durante a 3ª edição do Festival Favela Sustentável, na Fundição Progresso. Foto: Karen Fontoura

Festival realizado no sábado, 17 de outubro, na Fundição Progresso, reuniu mais de 180 atividades ao longo da programação.

O som das águas embalando o sono, as lembranças de crianças tomando banho em rios antes limpos e a indignação diante de cursos d’água poluídos marcaram as discussões do 3º Festival Favela Sustentável. Em rodas de conversa e exposições, moradores, estudantes e organizações socioambientais debateram a degradação dos rios e seus impactos nas favelas.

Ao chegar ao festival, era inevitável perceber a conexão entre as águas e os territórios representados no evento. Essa relação aparecia tanto nas reivindicações dos moradores por melhorias no saneamento quanto nas diversas exposições distribuídas pelos dois andares do espaço.

Entre os trabalhos expostos no segundo andar, havia um quadro com desenhos de crianças sobre a relação com os rios chamava a atenção pelas cores vibrantes e pela criatividade presente em cada ilustração. Apesar das diferentes representações, os desenhos pareciam dialogar entre si, como se partissem de uma mesma orientação, destacando a importância dos rios para a vida de pessoas, animais e plantas.

Do outro lado lado no hall de exposições, banners e painéis do projeto de pesquisa Memória Climática das Favelas apresentavam histórias de diferentes favelas e suas relações com a água. As imagens retratavam desde os impactos das chuvas em territórios como a Rocinha, onde a geografia dos morros influencia o escoamento das águas da chuva, até situações cotidianas, como poças d’água que evidenciam problemas de saneamento nas comunidades. 

A feira livre também reunia barracas expositivas com fotografias e registros de diferentes territórios. Entre elas, estava a iniciativa Pedala Queimados, que apresentou a trajetória de um ciclista pelo Rio Doce, em Minas Gerais. Durante o percurso, ele documentou histórias de moradores afetados pelo rompimento da barragem em Mariana, registrando as marcas da tragédia nas vidas das pessoas e nos territórios atingidos.

Exposição de fotos 'A Rota do Rio Doce: De Mariana ao Mar" apresentada por Carlos Leandro do Pedala Queimados. Foto: Bárbara Dias
Exposição de fotos ‘A Rota do Rio Doce: De Mariana ao Mar” apresentada por Carlos Leandro do Pedala Queimados. Foto: Bárbara Dias

Uma das atividades da roda de conversa começou com a leitura da Declaração pelos Direitos do Rio Anil, elaborada por estudantes do 9º ano da Escola Municipal Canrobert Pereira da Costa, em Jacarepaguá. No documento, os alunos demonstram preocupação com a degradação do rio e reivindicam ações da prefeitura para sua preservação.

 

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A professora Jacqueline Guerreiro, da Escola Municipal Canrobert Pereira da Costa, no Anil, em Jacarepaguá, destaca a importância de desenvolver projetos contínuos de educação ambiental que aproximem os estudantes das questões socioambientais de seus territórios. Desde a década de 1990, a escola realiza ações relacionadas ao Rio Anil, que foram consolidadas, entre 2017 e 2018, com a criação do Observatório Escolar do Rio Anil. A iniciativa promove atividades interdisciplinares, como a elaboração da declaração pelos direitos do rio e ações voltadas às mudanças climáticas.

Para Jacqueline, aproximar questões ambientais globais da realidade local ajuda os estudantes a compreender as conexões entre os ecossistemas e a reconhecer o próprio papel na construção do conhecimento. Ela também ressalta que o protagonismo dos alunos fortalece a autoestima e incentiva a participação em novos projetos:

“Quando a gente traz para o local, para o rio da aldeia deles, na região de moradia, eles conseguem fazer essa articulação. A autoestima deles como construtores do próprio saber auxilia também nas próximas etapas, nas próximas ações, e próximos projetos, é uma responsabilidade passada de turmas mais antigas para turmas mais recentes.”

Na atividade Vozes da Bacia do Canal do Cunha, os participantes compartilharam memórias positivas e negativas dos rios próximos de suas casas. Entre os relatos, surgiram problemas como o descarte irregular de resíduos, a presença de animais mortos e a falta de iniciativas para recuperar esses ambientes.

Moradores do entorno do Canal do Cunha, no Complexo da Maré, e ativistas também resgataram a história do rio e denunciaram o abandono e a negligência do poder público em relação à sua preservação. O canal é um dos mais poluentes entre os que desaguam na Baía de Guanabara e enfrenta graves problemas de poluição e saneamento, que afetam as populações que vivem em suas proximidades.

Durante a atividade, também foram levantadas críticas à atuação das empresas responsáveis pelo abastecimento e pelo tratamento de água e esgoto—Águas do Rio, Rio+Saneamento e Iguá—diante dos desafios de garantir o acesso ao saneamento e à proteção dos recursos naturais. Os participantes destacaram a necessidade de políticas públicas mais eficazes e de maior compromisso dos governantes com a recuperação ambiental no Rio de Janeiro.

“Estamos em um cenário muito preocupante”, afirmou a mediadora da atividade, integrante da Rede de Vigilância Popular de Saneamento e Saúde, articulação que reúne cerca de 50 integrantes, entre organizações, coalizões, mandatos e fóruns.

Para Carolina Niemeyer, da cooperação social da presidência da Fiocruz, o diálogo entre coletivos contribui para a construção de soluções, mas sua implementação exige compromisso político. “Você já tem um plano pronto, falta vontade política”, afirma, ao destacar a responsabilidade do poder público na efetivação das propostas.

A desigualdade ambiental também foi tema da roda da Associação Pedala Queimados. Carlos Leandro de Oliveira compartilhou sua experiência na Rota do Rio Doce, realizada em 2016 para conhecer os impactos do rompimento da Barragem de Fundão, na cidade de Mariana, no estado de Minas Gerais, e ouvir pessoas atingidas.

Participantes de uma das 32 rodas de conversa que compuseram a programação do 3o Festival Favela Sustentável, onde grande tema foi o direito à água. Foto: Bárbara Dias
Participantes de uma das 32 rodas de conversa que compuseram a programação do 3o Festival Favela Sustentável, onde grande tema foi o direito à água. Foto: Bárbara Dias

Carlos Leandro percorreu a Rota do Rio Doce, em 2016, para compreender os impactos do rompimento da Barragem de Fundão em Mariana, a partir das experiências dos moradores atingidos. A iniciativa buscava dar visibilidade às pessoas afetadas e conhecer de perto os conflitos ambientais e os desafios da reparação.

“Eu queria escutar aquelas pessoas que estavam invisibilizadas”, conta Carlos, ao explicar a motivação da viagem. Durante a trajetória, ele identificou semelhanças entre a realidade dos atingidos em Minas Gerais e a de moradores da Baixada Fluminense, especialmente em Queimados, onde enchentes e enxurradas se repetem anualmente.

“Muda a questão, muda o lugar, muda o impacto direto, mas as negligências são as mesmas”, avalia. Segundo Carlos, a repetição das enchentes afeta diretamente a vida dos moradores, que convivem com a possibilidade de perder seus bens a cada verão. “Tem pessoas em Queimados que deixaram de comprar materiais e móveis para suas casas, porque sabem que no verão seguinte vão perder”, relata.

Outro aspecto que o marcou foi perceber que, mesmo após a construção de novas moradias para as famílias atingidas pelo rompimento da barragem, ainda persistiam problemas estruturais e incertezas quanto à permanência da comunidade no local. Carlos também destaca que, anos após o desastre, há pessoas que ainda não foram reconhecidas como atingidas ou devidamente reparadas:

“Ao longo da Bacia [do Rio Doce], tu vai entendendo que tem pessoas que até hoje não foram reparadas e nem sequer foram reconhecidas enquanto atingidas por estar mais distante do foco central do desastre.”

Para Carlos, a bicicleta foi fundamental nesse processo, não apenas como meio de transporte, mas como ferramenta de aproximação e escuta. A convivência com os moradores permitiu construir relações de confiança para conhecer suas histórias. “A bicicleta aproxima as pessoas”, resume.

O material reunido durante a viagem seria utilizado em um documentário. Embora tenha perdido parte dos registros audiovisuais, Carlos pretende retomar o projeto, reunindo novos depoimentos para ampliar a visibilidade das histórias e das reivindicações das pessoas atingidas.

As discussões reforçaram que preservar os rios também significa garantir saneamento básico, prevenção de riscos e políticas públicas que protejam as comunidades, a partir de diversos olhares, seja do compromisso do poder público, seja do morador que está pensando na solução de limpeza do rio próximo à casa.

Integrantes da Rede de Vigilância Popular de Saneamento e Saúde durante o 3º Festival Favela Sustentável. Foto: Karen Fontoura
Integrantes da Rede de Vigilância Popular de Saneamento e Saúde durante o 3º Festival Favela Sustentável. Foto: Karen Fontoura

Leia abaixo a Declaração Completa dos Direitos do Rio Anil, 2023, feita pelos alunos do 9º ano no Observátorio Escolar do Rio Anil, da Escola Municipal Carrombé Pereira da Costa:

O Rio Anil é Patrimônio Ambiental de Jacarepaguá.
O Rio Anil deve ser preservado para as próximas gerações.
O Rio Anil é importante para um ambiente saudável da região de Jacarepaguá.
A História do Rio Anil deve ser conhecida pelos moradores e alunas e alunos das escolas de seu entorno.
A utilização do Rio Anil implica respeito à Lei.
O Rio Anil tem o direito de fluir.
O Rio Anil tem o direito de se regenerar.
O Rio Anil não deve ser poluído.
As margens do Rio Anil devem ser preservadas com plantio de mudas de árvores nativas.
O Rio Anil deve ser cuidado e conservado por ações da Prefeitura.

Sobre a autora: Karen Fontoura é estudante de jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), moradora da Rocinha e repórter do Jornal Fala Roça, onde coordena a comunicação institucional e de projetos da organização. Ela atua com produção audiovisual, reportagens e divulgação de iniciativas comunitárias.


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