Data Centers, IA e os Custos Sociais para o Rio de Janeiro: O Que Significa Se Tornar um Polo de Atração para as Big Techs na Prática?

Projeto Rio AI City, da empresa Elea Data Centers, proposta para o Parque Olímpico da Barra. Foto: Elea Data Centers
Projeto Rio AI City, da empresa Elea Data Centers, proposta para o Parque Olímpico da Barra. Foto: Elea Data Centers

Esta matéria faz parte da nossa série que reflete sobre os impactos dos megaeventos no Rio de Janeiro 10 anos após os Jogos Olímpicos Rio2016.

A Prefeitura do Rio de Janeiro vem promovendo o projeto Rio AI City para o Parque Olímpico, com a proposta de transformar a cidade em um dos maiores polos de data centers da América Latina. O argumento é de inovação no bairro da Barra Olímpica, na Zona Sudoeste, trazendo desenvolvimento econômico e inserção global na economia digital. Mas, por trás dessa narrativa, surgem perguntas importantes: que tipo de infraestrutura está sendo construída? Quem se beneficia dela? Quais são os impactos para quem já vive na cidade, especialmente em áreas com falta d’água, energia e moradia? Quais lições podemos aprender a partir de outras cidades que já passaram pela mesma situação? Os moradores foram ouvidos e considerados neste processo?

O Que São Data Centers e Por Que Eles Consomem Tanto?

Data centers, em português, centros de dados, são grandes instalações físicas que armazenam e processam informações eletrônicas produzidas por todos nós na internet. Eles guardam os dados necessários para realizar e armazenar tudo o que fazemos online: redes sociais (como Instagram e Facebook), serviços de streaming (como YouTube e Netflix), aplicativos (como WhatsApp e apps de banco) e, cada vez mais, inteligência artificial (conhecida como IA, contemplando ferramentas como ChatGPT e Gemini). Para que os data centers funcionem, eles precisam de três recursos críticos: energia constante (24 horas por dia), sistemas de resfriamento (que consomem muita água) e grandes estruturas físicas.

A IA em particular, que até então está avançando efetivamente sem questionamentos, controles ou regulamentação, demanda um aumento exponencial de recursos para seu processamento de dados, de eletricidade, água e terra. O consumo hídrico de um data center é equivalente a dezenas de milhares de residências.

Qual É a Escala do Projeto no Rio?

Segundo Piero Carlo Sclaverano dos Reis, pesquisador associado do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (GESEL) e do Programa de Planejamento Energético do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (COPPE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o projeto Rio AI City pode chegar a ter uma demanda energética no entorno de três gigawatts, o equivalente ao consumo de toda a cidade do Rio hoje. A quantidade de eletricidade consumida está na mesma escala da produzida por grandes usinas de energia. É menos da metade do que é gerado em Furnas, hidroelétrica mineira com uma das maiores represas artificiais do mundo (quatro vezes maior que a Baía de Guanabara) que produz cerca de 1,2 gigawatts.

E esse tem sido um padrão. Projetos semelhantes em outras áreas do Brasil já chegam a consumir cinco gigawatts, o equivalente ao consumo de cidades de milhões de pessoas. Não se trata de empreendimentos pequenos, mas de infraestruturas de escala, que podem influenciar negativamente na rotina das cidades brasileiras, como já visto em outras partes do mundo.

Essa Energia e Essa Água Vão Sair de Onde?

Essa é uma das perguntas menos respondidas. Em pedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), a Prefeitura do Rio não apresentou dados sobre: consumo de energia, uso de água, nem impactos ambientais dos data centers na cidade. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (SMAC) informou que esses dados não existem em seus sistemas e que produzi-los exigiria trabalho adicional. Já a Secretaria de Desenvolvimento Econômico indicou apenas links institucionais, sem detalhamento técnico. 

Na prática, não há informações públicas para entender como esse projeto será sustentado e como os cariocas serão afetados por ele. O que sabemos é que em outras regiões do mundo, quem está pagando a conta de luz dos data centers são os moradores dos municípios afetados. Através de dados analisados pela agência de notícias Bloomberg, chegaram a conclusão que “em áreas próximas a data centers com alta atividade, o custo da eletricidade por mês chegou a ser 267% maior do que há cinco anos.”

A Quem Servem Esses Data Centers?

Embora estejam sendo construídos no Brasil, esses centros fazem parte de uma infraestrutura global. Eles atendem grandes empresas de tecnologia, plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial, principalmente. Esses serviços não são voltados para uma população local. Além disso, embora frequentemente apresentados como motores de desenvolvimento, após a construção, os data centers tendem a gerar poucos empregos duradouros. Isso porque são estruturas altamente automatizadas e intensivas em tecnologia, que demandam pouca mão de obra para sua manutenção.

Por Que Empresas Querem Instalar Data Centers no Sul Global?

Estudos indicam um padrão de três fatores buscados por empresas de data centers: energia relativamente barata, garantia de água e leis mais flexíveis. Em relação aos países do Norte Global (EUA, Europa, etc.) os países do dito “Sul Global” (América Latina, África, e partes da Ásia) são mais baratos de se operar, muitas vezes com leis flexíveis ou maior potencial de corrupção.

Esse modelo dialoga com o conceito de colonialismo digital, discutido por pesquisadores como Deivison Faustino, professor de Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ele, países do Sul Global concentram os impactos ambientais e territoriais da infraestrutura tecnológica, enquanto os benefícios econômicos permanecem concentrados nos países-sede das Big Techs (as grandes empresas globais de tecnologia) no Norte Global.

O Mundo Está Indo Nessa Direção ou Freando?

Nem todos os lugares estão se abrindo para a construção de data centers. Por conta dos seus altos custos para comunidades locais—perante a rede elétrica, segurança hídrica e prioridades urbanas para uso do solo—resistência está cada vez mais intensa logo no Norte Global, de onde nasceu a tecnologia. Na Irlanda e Holanda, governos locais chegaram a suspender a construção de novos data centers devido a pressão sobre redes elétricas, impacto ambiental e falta de planejamento das empresas. Nos Estados Unidos, o avanço dos data centers tem gerado debates sobre a necessidade de impedir sua expansão para compreender melhor seus impactos. Lá, são onze estados votando e mais de 100 cidades que já proibiram a construção de novos data centers. Em diferentes regiões do mundo, comunidades e especialistas apontam que essas estruturas vêm pressionando sistemas locais de água e energia, além de exigir adaptações significativas na infraestrutura urbana.

Já Temos Data Centers no Rio Que Mostram a Falta de Benefícios para a População Local 

O Rio AI City se propõe a ser o maior polo da América Latina, mas já há outros data centers no município, espalhados especialmente pela Zona Norte. A empresa Ascenty possui dois data centers localizados no bairro da Pavuna, na fronteira com a Baixada Fluminense. Um deles conta com dez megawatts de capacidade de energia e aproximadamente 7.000 m² de área total, enquanto o outro possui três megawatts de capacidade de energia e cerca de 3.500 m² de área total. Essa é uma área da cidade conhecida pela falta d’água e de luz, que atinge moradores do Complexo da Pedreira, Chapadão, Morro da Lagartixa e demais favelas do entorno.

A empresa Ascenty já possui dois data centers no bairro da Pavuna, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Foto: Ascenty
A empresa Ascenty já possui dois data centers no bairro da Pavuna, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Foto: Ascenty

Além desses, há um data center no bairro de Del Castilho, onde a empresa Equinix construiu o RJ2. Esta mesma companhia tem ainda um segundo centro de dados em Botafogo, na Zona Sul, o RJ1. E, no ano de 2025, inaugurou um terceiro, desta vez, no Grande Rio, na cidade de São João de Meriti.

Ainda na Zona Norte, mas no outro extremo, no limite com o Centro da cidade, há a empresa Cirion, no bairro de São Cristóvão. Nela, há os complexos RIO1 e RIO2 de data centers. O empreendimento, segundo a própria companhia, tem um potencial de consumo energético de 80 megawatts, no coração de uma região com favelas como Tuiuti, Barreira do Vasco e Caju, que historicamente sofrem com a falta de energia, de água e de saneamento.

Na empresa Cirion, no bairro de São Cristóvão, também na Zona Norte, há o Campus de data centers RIO1 e RIO2, com consumo de 80 megawatts. Foto: Site da Cirion
Na empresa Cirion, no bairro de São Cristóvão, também na Zona Norte, há o Campus de data centers RIO1 e RIO2, com consumo de 80 megawatts. Foto: Site da Cirion

Como esses são territórios da Região Metropolitana que já enfrentam cronicamente a falta d’água, problemas de energia elétrica, saneamento precário e mobilidade limitada, a chegada de projetos altamente demandantes de recursos nos territórios levanta preocupações e trazem o medo da pressão imobiliária e de preços, de novos impactos ambientais e da repetição de processos danosos do período pré-olímpico, como as remoções forçadas.

Mais do que tecnologia, o debate é sobre prioridades, inclusive se nós, como sociedade, queremos dar tanta corda para a IA. Investir em data centers significa decidir para onde vai a energia, quem usa a água e como o território da cidade é ocupado. Enquanto muitos cariocas sofrem com o déficit habitacional, a falta de infraestrutura básica e o acesso precário a serviços essenciais, por que garantir isso tudo aos data centers das Big Techs? Quais são nossas prioridades públicas: o direito dos moradores à sua cidade ou o lucro de empresas estrangeiras?

O Rio Está Preparado para Esse Tipo de Projeto?

Hoje, ainda não há resposta para essa pergunta. Não há dados públicos suficientes. Não há debate amplo com a população.

No entanto, é importante entender que este é um cenário em que o Rio e o Brasil se inserem em um debate mais amplo sobre o papel esperado dos países do Sul Global na economia digital.

A crescente instalação de data centers em países em desenvolvimento pode ser comparada, em certa medida, à dinâmica observada na década de 1990, quando nações mais ricas passaram a exportar lixo para países mais pobres. Em ambos os casos, há, por um lado, a lógica de deslocamento de custos e de impactos e, por outro, de concentração de lucros e dividendos. Enquanto alguns países concentram os benefícios econômicos e tecnológicos, as nações receptoras assumem ônus significativos, pressão sobre recursos naturais, aumento do consumo energético, impactos ambientais e dependência estrutural. Assim como o envio de resíduos era frequentemente justificado por promessas de desenvolvimento e geração de renda, a atração à instalação de data centers se apoia em discursos de modernização e inserção na economia global. Ambos reproduzem assimetrias históricas do sistema internacional predatório e colonialista.

Especificamente no caso brasileiro, esse movimento está sendo também justificado pela disponibilidade de energia hidrelétrica limpa, do ponto de vista de sua pegada de carbono, e pelo potencial de expansão da matriz renovável (solar e eólica). No entanto, a dependência de hidrelétricas e o uso intensivo de água torna o sistema vulnerável a períodos de seca. Durante a próxima crise hídrica, quem receberá os cortes de água e luz no Rio de Janeiro: Rio AI City ou as favelas e periferias?

Nesse contexto, a ausência de informações, transparência, escuta popular e planejamento integrado deixa evidente: é urgente parar e realizar uma cuidadosa deliberação ampla com definição coletiva sobre qual papel estas tecnologias terão no nosso Rio de Janeiro.

Editorial escrito em colaboração com Felipe Migliani.


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