
Na Zona Norte do Rio de Janeiro, sair de casa para ir à escola pode significar atravessar um território marcado pela incerteza. Em dias de operação policial ou confronto armado, o caminho até a sala de aula deixa de ser garantido—e, muitas vezes, sequer acontece.
É o que mostra o novo relatório Percursos Interrompidos, produzido pelo Instituto Fogo Cruzado em parceria com a UNICEF e o GENI/UFF. Ele revela que a violência armada tem impactado de forma sistemática o deslocamento de estudantes na cidade e o acesso físico deles à escola. Em muitos casos, quando os alunos já estão nas escolas, a violência policial impede que as aulas continuem e deixa estudantes, professores e funcionários presos nas instituições em meio a tiroteios.
“Entre janeiro de 2023 e julho de 2025, 377 dias letivos registraram ao menos um impacto sobre trajetos escolares, em um universo estimado de cerca de 520 dias. revelando que o problema não está restrito a episódios excepcionais ou concentrados em períodos específicos”, explica o relatório. Ao longo desse período, foram registrados mais de 1,02 milhão de trajetos escolares impactados.
Rotina Escolar Atravessada por Interrupções Longas
As interrupções não são apenas frequentes—elas são longas e ocorrem nos momentos mais críticos do dia. Mais de 52% dos episódios em dias escolares começam entre 6h30 e 8h, justamente no horário em que estudantes se deslocam para a escola. Em dias letivos, na média, as operações policiais duram 8 horas e 13 minutos, com mais de 78% ultrapassando duas horas e mais da metade excedendo quatro horas.
Na prática, isso significa que um único evento pode comprometer o funcionamento escolar do dia e a trajetória acadêmica dos alunos. É o que afirma a diretora de dados e transparência do Instituto Fogo Cruzado, Maria Isabel Couto:
“A instabilidade virou regra para uma parte significativa dos estudantes. Quando isso vira rotina em determinados territórios, estamos falando de um comprometimento sistemático do direito à educação.”
Esse cenário afeta diretamente o processo de ensino-aprendizagem. Como explica o psicopedagogo Rian França, que trabalha com crianças expostas rotineiramente às interrupções de suas rotinas pela violência do Estado, a quebra da continuidade pedagógica dificulta a consolidação da memória e a organização cognitiva:
“A criança aprende por meio da regularidade, previsibilidade e repetição. Interrupções constantes comprometem esse processo.”

Desigualdade Territorial e Racial no Acesso à Escola
Os dados mostram que os impactos da violência armada não se distribuem de forma uniforme na cidade. Dos 96 bairros com registros de interrupção, apenas dez concentram a maior parte dos episódios. A Penha lidera com 296 ocorrências, seguida por Jacarepaguá com 108 e Bangu, 89.
Esse padrão cria desigualdades profundas no acesso à educação. Enquanto em alguns territórios o acúmulo de interrupções chega ao equivalente a 88 dias letivos de paralisação, em aproximadamente 70 bairros não foram registradas ocorrências em horário escolar no período analisado.
“A violência armada não cria essa desigualdade, mas a aprofunda sistematicamente. Na prática, o que os dados mostram é que um estudante negro no Rio tem muito mais chance de ter sua rotina escolar comprometida.” — Maria Isabel Couto
Rian reforça que esse contexto reverbera impactos negativos duradouros, que persistirão por gerações. Ele também conta que “interrupções constantes comprometem o processo de ensino-aprendizagem e de vínculo com a escola.”
A exposição ao problema é ampla. Das 4.008 escolas municipais analisadas, 95,4% registraram ao menos uma interrupção no período. Ao mesmo tempo, cerca de 323.000 estudantes estão matriculados em escolas classificadas como de risco moderado, alto ou muito alto, onde os episódios são mais frequentes e prolongados.
Nesses territórios, o direito de ir e vir deixa de ser garantido. “A instabilidade virou regra para uma parte significativa dos estudantes cariocas”, reforça Maria Isabel ao destacar que essa interrupção cotidiana dos alunos moradores de favela deve ser entendida como uma violação de direitos, como um crime contra a criança e o adolescente. E essa sucessão de crimes gera efeitos emocionais e cognitivos irreversíveis na juventude favelada.
“O medo ativa o estado de alerta do cérebro, prejudicando funções essenciais para aprender. Isso pode resultar em ansiedade, queda no rendimento escolar, alterações no sono e, a longo prazo, eleva o risco de evasão escolar.” — Rian França

Sobre o autor: Felipe Migliani tem graduação em Jornalismo pela Unicarioca e pós-graduação em Jornalismo Investigativo e em Jornalismo de Dados. Atua como repórter e assessor de imprensa, tendo publicado matérias em veículos como Meia Hora, Estadão, Agência Lume, PerifaConnection, Ambiental Media, Gênero e Número, Olhos Jornalismo e ND Mais.
