
Diversas iniciativas de turismo em favela, representantes do poder público e pesquisadores da área se reuniram no dia 23 de julho na Tijuca, no Colégio Estadual Antônio Prado Júnior, para a audiência pública “Turismo, Favela, Periferia e Cidadania: Caminhos para um Modelo Comunitário e Sustentável“. Promovida pela Comissão Especial de Favelas e Periferias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) em parceria com a Rota Favela Brasil, a reunião debateu o papel do turismo de base comunitária na preservação da memória, história e identidade das favelas e periferias do estado do Rio de Janeiro.
A escolha do colégio para a audiência, além de possibilitar participação popular ampla, se deu por ser sede do Curso Técnico de Guia de Turismo, desde 1974. Muitos dos presentes, guias locais de favelas, se formaram ali.
A deputada estadual Renata Souza, presidente da Comissão Especial de Favelas e Periferias, que presidiu a audiência, abriu o encontro:
“É importante dizer que, quando falamos de turismo em favelas, não estamos falando apenas de visitantes… com a lógica de um visitante fazendo um ‘safari’. Não é isso que a gente quer. O que a gente quer é fazer com que a cultura local, a memória local, os registros de identidade desses territórios possam ser reconhecidos e que também haja a possibilidade dessas mesmas pessoas contarem a sua história, a história do seu território. É o protagonismo dessas pessoas, que vão narrar a sua própria história a partir das suas experiências e das suas vivências… Produzir narrativa sobre a cidade faz o turismo de base comunitária. É também trazer aquilo que a gente reivindica tanto, a questão também da geração de emprego e renda do território, a possibilidade de sociabilidade, a possibilidade de reparação histórica.”
Na primeira mesa, “Favela Não é Paisagem: Turismo Comunitário, Memória e Direito à Cidade”, estiveram presentes Marcelo Freixo, ex-presidente da Embratur; Camila Maria dos Santos Moraes, professora de Turismo e coordenadora do Observatório de Turismo em Favela do Programa de Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio); Caroline Martins de Melo Bottino, professora do Departamento de Turismo da UERJ; Emerson Menezes, jornalista, mestre em Patrimônio Cultural e guia local no Morro do Salgueiro; e Sheila Souza, turismóloga, MBA e pós-graduada em Cultura Afro-Brasileira, guia do Santa Marta e representante da Rota Favela Brasil.
Os participantes compartilharam perspectivas sobre o papel do turismo comunitário. Emerson Menezes trouxe a importância do turismo carioca ir além da Zona Sul.
“Quando a gente fala de turismo, fica muito concentrado na Zona Sul… porque tudo que a Zona Sul nos traz, nos apresenta. Mas há cultura, há arte e há especificidades que a Zona Sul não tem e não acomoda. E isso está sim na Mangueira, isso está sim no Salgueiro, isso está sim no Turano, isso está na Formiga. A Formiga, por exemplo, na conjuntura da Grande Tijuca, tem quatro folias de reis, que são as mais preciosas do mundo.” — Emerson Menezes

Sheila Souza evidenciou que os moradores de favela que trabalham como guias de turismo local são protagonistas sobre a narrativa e memória de seus territórios.
“Somos nós o afroturismo, o turismo de base comunitária. A gente pela primeira vez se enxerga como protagonistas dessa [nossa] história, porque durante todo esse processo [histórico de turismo no Rio de Janeiro] a gente ainda não estava entendendo qual era o nosso papel, no desenvolvimento da nossa comunidade. Da importância que [tem o turismo] para o desenvolvimento da nossa história, da nossa memória e da nossa identidade. [Fazer o turismo de base comunitária] é muito mais do que comer uma fatia do mercado e levar para dentro da favela. Não é sobre isso… é sobre a nossa capacidade de contar as nossas histórias de uma forma muito bonita, muito genuína e maravilhosa, dentro do nosso território.” — Sheila Souza

A segunda mesa, “Turismo Comunitário e Justiça Territorial: Desafios e Oportunidades para as Favelas e Periferias”, contou com a participação de Antônio Carlos Firmino, do Museu Sankofa da Rocinha, guia local e mestre em memória social; Patrícia Ignácio, guia de turismo da Babilônia/Chapéu-Mangueira; Gilson Fumaça, guia de turismo; e Vilson Luiz, guia de turismo na Penha através do Inpenhado, todos integrantes da Rota Favela Brasil.
Os participantes discutiram os desafios e as potencialidades do turismo de favela e de base comunitária como possibilidade de valorização de memórias. Antônio Carlos Firmino contextualizou que as favelas foram sempre territórios de cultura, visitadas pelos demais moradores da cidade.
“As favelas sempre foram visitadas: quem é que não subiu o morro para ver os baluartes e as rodas de samba?… Então… nossos antepassados já vivenciavam a visita. Por que o turismo só se considera no Centro da cidade? Copacabana? Quem é que produz a cultura desse Brasil? Qual o maior espetáculo do mundo? Surge de onde? Das favelas! É o samba! Surge das favelas e a gente tem uma dificuldade de entender o quanto que nós somos potentes, o quanto que nós podemos colaborar com a transformação da cidade a partir do turismo.” — Antônio Carlos Firmino

Vilson Luiz propõe uma reflexão profunda.
“O território começa como aldeia. Depois, vieram os navios, trazendo as pessoas sequestradas de outro continente para cá. E aí, a gente descobre que, em algum momento, a gente ficou aprisionado… E aí, a gente começa as nossas revoltas, passando e transformando isso nos quilombos. E aí o quilombo dá lugar para um morro, que é dado para a gente como um lugar de viver. E a gente ocupa um morro. E a gente muda o nome do morro: transforma o morro em favela. A favela, de alguma forma, é vista como um lugar complexo. E a gente transforma tudo isso para território… Começou [tudo] lá atrás. Nós somos frutos desse processo de transformação; passamos e vivemos essa transformação.
Então, como que a gente pode, dentro da favela, criar possibilidades de geração de renda para… ter orgulho do lugar [de onde] a gente vem? Para que, quando as pessoas chegarem lá, entendam qual é a nossa realidade, qual é a história daquele lugar?” — Vilson Luiz

Gilson Fumaça destaca que os guias de turismo de favela e de base comunitária estão se organizando cada vez mais.
“No Rota Favela Brasil, a gente está pensando em um negócio social de pessoas, empreendedores de turismo de base comunitária, da gente de território, de favela, de periferia, de subúrbio, que é feito pelo morador, desenvolvido pelo morador, onde o morador deixa de ser apenas um figurante do turismo e passa a ser protagonista de sua própria história.” — Gilson Fumaça

Ao final, moradores de favelas e territórios periféricos puderam falar sobre suas realidades. E os integrantes do Rota Favela Brasil lançaram uma carta com reivindicações. São eles:
- Inclusão desses territórios e de seus empreendimentos nos mapas, guias, sites e eventos oficiais de turismo do Rio de Janeiro;
- Ampliação da divulgação dos roteiros comunitários;
- Garantia de participação em feiras e eventos nacionais e internacionais;
- Proteção e manutenção de equipamentos e estruturas de apoio ao turismo;
- Oferta regular de cursos, capacitações e mentorias para empreendedores;
- Criação de editais específicos para acesso a recursos financeiros e apoio técnico;
- Promoção de iniciativas localizadas em áreas da cidade que permanecem fora dos roteiros turísticos tradicionais, valorizando bares, restaurantes, projetos culturais, trilhas, parques e outros atrativos comunitários; e
- Realização de reuniões semestrais para monitorar o andamento e a implementação dessas ações.
Os políticos presentes se comprometeram a incorporar as reivindicações do documento aos encaminhamentos da audiência.
Assista à Gravação da Audiência Pública Aqui:
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Sobre a autora: Bárbara Dias, cria de Bangu, Zona Oeste do Rio, é fotojornalista e fotógrafa documental desde 2016, com foco em direitos humanos, justiça socioambiental, religiosidades e territórios de favela. Comunicadora popular formada pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e graduanda em Jornalismo (UCAM), cofundou o Coletivo Fotoguerrilha (2016–2025). É licenciada em Biologia (UERJ), Mestre em Educação Ambiental (IFRJ) e professora da rede pública estadual.

