
Esta matéria faz parte da nossa série que reflete sobre os impactos dos megaeventos no Rio de Janeiro 10 anos após os Jogos Olímpicos Rio2016.
Quando publiquei meu primeiro artigo no RioOnWatch, em julho de 2016, minha intenção era muito simples. Eu queria registrar a indignação de um pai que via seus filhos perderem uma das raras áreas de lazer existentes em Ramos para a construção de uma via relacionada aos Jogos Olímpicos. Naquele momento, eu acreditava estar escrevendo sobre uma praça. Não imaginava que aquela pequena história se transformaria em uma investigação de quase dez anos sobre quem realmente foi incluído—e quem foi excluído—do legado olímpico da cidade.
Naquele mesmo período, vivi uma experiência que mudaria completamente minha forma de enxergar o Rio de Janeiro. Durante os Jogos, recebi em Ramos jornalistas de diversos países interessados em conhecer uma cidade diferente daquela mostrada nas transmissões internacionais. Muitos procuravam histórias que escapassem dos cartões-postais e das arenas esportivas. Alguns desses encontros acabaram dando origem a reportagens na imprensa estrangeira sobre um Rio praticamente desconhecido do restante do mundo, onde bairros de classe trabalhadora conviviam com a degradação de seus espaços públicos e com um legado olímpico que parecia passar ao largo de suas necessidades.
Eles conheciam o Rio das praias, das montanhas e da paisagem exuberante da Zona Sul. Conheciam também o Rio das favelas, que havia ocupado grande espaço na cobertura internacional durante os anos que antecederam os Jogos, impulsionada pelas UPPs, pelas políticas de segurança pública e pelos inúmeros documentários produzidos sobre esses territórios. Mas praticamente nenhum deles conhecia os subúrbios cariocas.
Essa constatação me impressionou profundamente. Durante décadas, a imagem internacional do Rio de Janeiro foi construída quase exclusivamente sobre duas realidades muito importantes, mas insuficientes para representar a cidade como um todo. De um lado, estavam os bairros da Zona Sul, onde vivem apenas 9% da população carioca. De outro, as favelas, onde moram mais de 25% dos moradores da cidade. Entre essas duas narrativas, desaparecia justamente o território onde vive a maioria dos cariocas: os subúrbios.

Os jornalistas se surpreendiam ao descobrir bairros inteiros de classe trabalhadora, formados ao longo das linhas férreas, com intenso comércio popular, clubes centenários, hospitais, universidades, escolas, igrejas, estações ferroviárias, antigas áreas industriais e uma vida urbana completamente diferente daquela mostrada ao mundo. Era um Rio vibrante, diverso, densamente povoado e absolutamente desconhecido para quem chegava de fora.
Mas havia outro aspecto que chamava ainda mais a atenção deles. Ao percorrer esses bairros, percebiam rapidamente que aquela invisibilidade também produzia consequências concretas. Não era apenas uma ausência nas reportagens ou nos roteiros turísticos. Era uma ausência nas prioridades da cidade: praças degradadas, poucas áreas verdes, arborização insuficiente, calçadas deterioradas, equipamentos públicos envelhecidos e espaços de convivência escassos revelavam um processo de sucateamento lento, quase silencioso, que parecia acompanhar a invisibilidade dos subúrbios. Enquanto outras regiões concentravam investimentos públicos permanentes, essa parte da cidade envelhecia sem que sua deterioração despertasse a mesma atenção política ou midiática.

Naquele momento, eu ainda acreditava que esse abandono era apenas consequência de sucessivas administrações municipais incapazes de distribuir investimentos de forma equilibrada. Hoje, percebo que havia algo muito mais profundo. A destruição da pequena praça onde meus filhos brincavam me levou a investigar não apenas uma obra, mas a própria lógica que orientou o planejamento dos Jogos Olímpicos.
Essa investigação resultou em um segundo artigo publicado pelo RioOnWatch. Quanto mais pesquisava, mais evidente ficava que bairros suburbanos como Ramos, Bonsucesso, Olaria, Penha e tantos outros permaneciam praticamente ausentes da narrativa oficial do legado olímpico. Sofriam impactos das obras, conviviam com mudanças viárias e intervenções urbanas, mas dificilmente apareciam entre os territórios que receberiam benefícios permanentes.
Alguns anos depois, encontrei uma reportagem publicada por O Globo que ajudou a responder a uma pergunta que me acompanhava desde 2016. O jornal recuperava a história da candidatura Rio 2004 e trazia depoimentos de integrantes da equipe responsável pelo planejamento do projeto olímpico. Ali, aparecia uma informação reveladora: a proposta original previa que o principal eixo esportivo dos Jogos Rio 2004 fosse instalado na Ilha do Fundão. Cercada por bairros populares da Zona Norte, servida por importantes corredores de transporte e integrada à maior universidade federal do país, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a localização teria potencial de irradiar investimentos para uma região da cidade historicamente negligenciada pelo poder público. No entanto, essa proposta foi abandonada.

Segundo os próprios entrevistados, os subúrbios da Zona Norte não poderiam funcionar como a “sala de visitas” da cidade. O eixo olímpico migrou para a Barra da Tijuca, alterando completamente a geografia dos investimentos públicos.
Ao ler aquela reportagem, compreendi que a exclusão dos subúrbios não havia sido uma consequência inesperada das obras. Ela fazia parte da própria concepção da cidade que se pretendia apresentar ao Comitê Olímpico Internacional (COI) e ao restante do mundo. O Rio exibido durante os Jogos foi cuidadosamente selecionado. A cidade onde mora a maior parte da população simplesmente não fazia parte dessa vitrine.
Meu bairro acabou permanecendo em um limbo. Era suficientemente próximo para sofrer os impactos do evento, mas distante demais para receber seus benefícios. Essa percepção motivou um novo artigo publicado no RioOnWatch, mostrando Ramos entre as áreas afetadas pelas intervenções, mas praticamente excluído da distribuição do legado prometido.
Os anos seguintes acrescentariam outra dimensão a essa história. As investigações da Operação Lava Jato revelaram que parte significativa das obras olímpicas estava contaminada por esquemas de corrupção. A condenação do secretário municipal de obras demonstrou que recursos destinados a transformar a cidade haviam sido desviados por uma estrutura criminosa que operava justamente durante o período das grandes intervenções urbanas.
Quando a Justiça autorizou que dezenas de milhões de reais recuperados desses desvios fossem utilizados pela Prefeitura do Rio, imaginei que finalmente existia uma oportunidade para corrigir parte dos danos causados aos bairros que haviam perdido equipamentos públicos em nome dos Jogos. Pensei que aqueles recursos poderiam financiar novas áreas verdes, recuperar praças, ampliar a arborização ou construir equipamentos esportivos justamente nas regiões que haviam permanecido à margem do legado. Mas isso nunca aconteceu. O dinheiro recuperado jamais retornou aos territórios que haviam pago essa conta.

Ao mesmo tempo, tornava-se cada vez mais evidente que o legado olímpico seguia um caminho diferente daquele prometido. Ainda antes dos Jogos, já se alertava que a maior parte dos investimentos públicos acabaria favorecendo grandes empreendimentos imobiliários e interesses privados, especialmente na Barra da Tijuca. Dez anos depois, essa previsão parece ter se confirmado.
O Parque Olímpico, construído sobre uma extensa área pública e apresentado como patrimônio dos cariocas, caminha para consolidar-se como um grande complexo de tecnologia e entretenimento voltado à exploração comercial, cercado por condomínios privados e destinado principalmente a quem pode pagar por essa experiência.
A ironia talvez seja ainda maior quando se olha para o Fundão hoje. O lugar que originalmente receberia instalações esportivas de padrão internacional vê estudantes da Escola de Educação Física enfrentarem dificuldades para ter aulas por falta de infraestrutura, comprometendo, inclusive, projetos voltados às comunidades vizinhas.

Enquanto isso, ali perto, Ramos continua figurando entre as regiões menos arborizadas e mais quentes do Rio de Janeiro, como demonstram os próprios mapas ambientais da prefeitura. Apesar dos anúncios recentes de criação de novos parques, a realidade é outra, muito aquém, e o investimento e distribuição das áreas verdes continua reproduzindo desigualdades históricas e pouco altera a realidade justamente dos bairros onde esses investimentos fariam maior diferença para a saúde, o conforto térmico e a qualidade de vida. Essa discrepância tem sido apontada por diferentes análises sobre a política ambiental da cidade.
As Olimpíadas do Rio foram frequentemente comparadas à experiência de Barcelona, onde os Jogos serviram para investir em áreas historicamente esquecidas e renovar a cidade. No Rio de Janeiro, porém, a oportunidade acabou reforçando uma lógica que a cidade conhece há muito tempo: a concentração de investimentos nos territórios já valorizados, enquanto os subúrbios permaneceram fora da fotografia oficial.
Ao longo dessa década, compreendi que a praça onde meus filhos brincavam nunca foi apenas uma praça. Ela representava uma escolha de cidade. Uma escolha que definiu quais territórios seriam apresentados ao mundo e quais permaneceriam invisíveis; quais bairros receberiam investimentos permanentes e quais continuariam acumulando décadas de abandono; quais regiões seriam consideradas vitrines internacionais e quais continuariam servindo apenas como áreas de passagem. Hoje, percebo que o maior legado das Olimpíadas talvez não esteja nas arenas nem nas obras realizadas. Está na cidade que o mundo não viu.
Sobre o autor: Hugo Costa é formado em geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), blogueiro e morador do bairro de Ramos.
