
Esta matéria faz parte da nossa série que reflete sobre os impactos dos megaeventos no Rio de Janeiro 10 anos após os Jogos Olímpicos Rio2016. Foi realizada em parceria entre o RioOnWatch e o Grupo CASA: Estudos Sociais Sobre Moradia e Cidade, sediado no IESP. A série integra um projeto de extensão da UERJ e inaugura seu esforço de divulgar, para um público amplo, os resultados de pesquisas acadêmicas realizadas por pesquisadores da rede do Grupo CASA. Com essa colaboração, o grupo espera constituir um arquivo por meio do qual possa seguir monitorando de modo crítico a implementação de políticas públicas na região metropolitana do Rio de Janeiro.
O bairro da Barra Olímpica foi oficializado pela Prefeitura do Rio de Janeiro em 2024, resultado do desmembramento de partes dos bairro da Curicica, Camorim e Barra da Tijuca. Como o próprio nome indica, a urbanização recente da região está fortemente ligada às Olimpíadas de 2016, quando grandes obras de infraestrutura foram executadas a fim de receber o evento. Entre essas obras, estava o condomínio Ilha Pura, um conjunto de 31 edifícios que seria lançado no mercado imobiliário após cumprir a função de hospedar os atletas que viriam para os jogos olímpicos.

Conversamos sobre o que aconteceu na região da Barra Olímpica dez anos depois das Olimpíadas com Lilian Amaral de Sampaio, autora da tese de doutorado em geografia “Uma análise da trajetória do setor imobiliário na produção do espaço metropolitano na Baixada de Jacarepaguá: o caso da Barra Olímpica”, defendida na PUC-Rio em 2024. A autora, que também foi uma das pesquisadoras do documentário “A Conquista do Oeste“, descreve a dinâmica de construção do bairro como um “fenômeno urbano de escala local que integra um processo global norteador da produção do espaço da metrópole contemporânea”. Ela explica também como os interesses capitalistas se relacionam com a dinâmica de novas construções na região.

A Barra e o Carvalho Hosken
Lilian lembrou que a urbanização da Barra da Tijuca e de Jacarepaguá foi guiada inicialmente pelo Plano Lúcio Costa, lançado em 1969. “Pretendia-se mudar a sede administrativa da cidade para onde hoje é o centro metropolitano. O arquiteto, então, traçou as primeiras vias, fez um mapeamento e manteve a borda das lagoas e a orla da praia livre de construções”. Segundo ela, o mercado imobiliário foi aos poucos desvirtuando esses aspectos de preservação da paisagem que eram fundamentais para o projeto: “No fim, o embate foi tão acirrado que o arquiteto desistiu do projeto e renegou o projeto da Barra como de sua autoria”.
Lilian lembra que a urbanização da Barra da Tijuca é indissociável da trajetória de uma empreiteira, a Carvalho Hosken, dona de grande parte das terras que vieram a se tornar a Barra da Tijuca. Com base em extensas entrevistas de história oral realizadas em 2014 e 2015 com seu fundador, Carlos Carvalho, Lilian conta que o empresário reconheceu que o terreno em que foi construída foi deixado ocioso por anos de propósito, esperando a valorização da região.
A região da Barra Olímpica se tornou mais interessante para o mercado imobiliário conforme as terras foram usadas para comercialização por conta da flexibilização da legislação urbana e das legislações de construção. Lilian esclarece: “Essa terra era um território em disputa porque a tendência era Jacarepaguá descer em direção à Barra. Carlos Carvalho queria uma Barra subindo, por isso ele segurou essas terras durante 50 anos até encontrar o momento exato para comercializar esse local guardado há tantos anos, e isso foi proporcionado pelo poder público municipal”.

A ocasião veio com as Olimpíadas de 2016, quando foram mobilizadas enormes quantias na implantação de Parcerias Público-Privadas (PPPs) para empreender as obras infraestruturais a fim de adequar o espaço urbano para o grande evento. Entre essas modificações na infraestrutura da Barra, é possível listar: a construção das vias de BRT—TransOlímpica e TransCarioca—a construção do Parque Olímpico e a construção do Ilha Pura. Lilian também esclarece como a preparação para a chegada das Olimpíadas transformou a região: “Essa área, então, recebeu um impulso por causa das Olimpíadas. Essa terra toda que foi comprada nos anos 1970 e que ficou guardada em estoque por quase 50 anos, por meio das Olimpíadas, da abertura da Linha Amarela, dos BRTs e com todas as obras feitas ali pelo poder público… tornou-se uma área viável de moradia para o tipo de público que a Carvalho Hosken pretendia. Aquela área é uma zona de transição entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá”.

Lilian explica que a construção foi realizada em um terreno grande em uma região que a princípio não tinha muita infraestrutura. “Foram construídos 31 prédios de cerca de 20 andares para receber os atletas das Olimpíadas. Depois, pretendia-se colocar o local no mercado para ser vendido”. De acordo com Lilian, a venda do condomínio no mercado “encalhou”. A imobiliária—Carvalho Hosken—portanto, tentou lançar os prédios aos poucos, mas não obteve o sucesso pretendido. Durante muito tempo apenas três edifícios encontravam-se habitados, e o condomínio vazio chegou a ser utilizado como locação para a primeira temporada da série “Os Outros”, da Globoplay.

Lilian relata que durante a pesquisa para sua tese, a situação dos apartamentos no Ilha Pura se mantinha. Contudo, no final de 2024, o BTG Pactual comprou o Ilha Pura, dobraram as apostas e estão realizando lançamentos de preços muito mais altos do que era vendido na época da Carvalho Hosken.

Privatização e Segregação
Essa virada recente no antigo fracasso do Ilha Pura reforça uma tendência de privatização da região. Obras que seriam de beneficio publico como o saneamento das lagoas não foram adiante. De acordo com Lilian, 60% do Parque Olímpico foi privatizado pela empresa, inclusive a iluminação e a sinalização pública. Alem disso, ela afirma que a Carvalho Hosken participou das obras de melhoria da Avenida Abelardo Bueno.

Lembrando a remoção da Vila União de Curicica e da Vila Autódromo, Lilian afirma que a segregação se ampliou na região depois das Olimpíadas e se aprofunda até hoje. “As favelas não foram urbanizadas, mas trataram de colocar uma pavimentação nelas,… uma maquiagem”, diz Lilian, em ironia. “O capital financeiro passou a tomar uma dimensão maior do que antigamente.” E com isso, uma cidade mais privatizada e segregada.

