
No dia 18 de julho, em um sábado ensolarado, a comunidade de Acari, na Zona Norte do Rio de Janeiro, realizou o lançamento da pesquisa Retratos das Enchentes. O estudo foi produzido pelo Instituto Decodifica em parceria com coletivos de quatro favelas no Rio de Janeiro e Pernambuco, gerando dados sobre os impactos de chuvas nestas favelas.
O levantamento e lançamento de Acari foi realizado pelo coletivo Fala Akari. Em um processo de Geração Cidadã de Dados (GCD), nome dado à processos de pesquisa populares conduzidos pela própria população, sem depender de cientistas ou instituições acadêmicas, foram ouvidas 226 famílias ao longo de 2025, gerando retratos do cotidiano das favelas diante das enchentes, antes, durante e depois das ocorrências.
O lançamento* aconteceu no Espaço Cultural Mães de Acari e fez parte do Fórum Popular Retratos das Enchentes, etapa do projeto que consiste em apresentar os dados ao território mapeado o e, com isso, construir soluções junto à comunidade, a partir de suas principais demandas.

O Complexo de Acari e Sua Geografia
O Complexo de Acari se localiza na Zona Norte do Rio de Janeiro, possui mais de 160 km² e faz limite com cinco bairros: Pavuna, Costa Barros, Coelho Neto, Parque Colúmbia e Irajá. A comunidade se encontra inserida na região hidrográfica da Baía de Guanabara e é atravessada pelo Rio Acari, que dá nome à favela. Este curso d’água surge na Baixada Fluminense, na Serra de Gericinó, em Duque de Caxias, e corta São João de Meriti antes de chegar à cidade do Rio de Janeiro. Apesar de integrar a bacia de drenagem do Rio São João de Meriti, é diretamente influenciado pelo Rio Pavuna. Depois de percorrer parte da Baixada e da Zona Norte, ele deságua na Baía de Guanabara.
O território de Acari tem uma geografia peculiar: áreas que se encontram no mesmo nível da Baía de Guanabara e até abaixo dela, sendo, por isso, um local intensamente afetado por alagamentos e enchentes. Estas ocorrências fazem parte da rotina dos moradores há anos, e são frequentemente reportadas pela imprensa, inclusive, pelo RioOnWatch, como em 2023, 2025 e, mais recentemente, em 2026.
View this post on Instagram
O Que as Enchentes Levam?
Dados da pesquisa Retratos das Enchentes em Acari apontam uma realidade alarmante: para quase todos os moradores entrevistados—importante ressaltar que 75% foram negros e 24% brancos—a rua onde moram é sinônimo de alagamento.
Dos entrevistados, 96% costumam ver a água da rua ultrapassar um metro de altura e 84% afirmam já ter ficado com a água acima de um metro de altura dentro de sua residência.
Em função disso, metade da amostra afirma ter feito modificações estruturais, como reformas e obras, a elevação do térreo ou até deixado de ocupar o primeiro andar, como apontado pela mobilizadora e mapeadora popular do Fala Akari, Nathália Theodorino:
“Cada vez mais as pessoas estão deixando de morar no andar de baixo, passando a morar no segundo andar. Então, tem muita casa [no primeiro andar] abandonada. Isso diz muito do que a gente passa aqui. Tem lugares que a água chega acima de um metro de altura; em outros, a dois metros. E as pessoas estão tentando se adaptar para continuar aqui porque não têm pra onde ir, pra onde fugir.”
A perda de móveis e eletrodomésticos também entrou na conta. Segundo o levantamento de Acari, nos últimos anos foram contabilizados mais de 1.200 móveis perdidos e cerca de 600 eletrodomésticos danificados.
Ao todo, a pesquisa estima que foram R$3,8 milhões em prejuízos aos moradores nos últimos 30 anos. Segundo projeção dos dados, este valor seria capaz de pagar o salário de 90 garis por um ano ou possibilitar a construção de sete ecopontos simples na comunidade pelo mesmo período, temas que são demandas locais.
Além das perdas gerarem ansiedade climática, metade dos moradores já lida com o problema há tanto tempo que desistiu de repor o que foi perdido, comprando apenas o necessário ou itens de segunda mão por temer perder tudo novamente.
De acordo com a pesquisa, apenas 40% dizem receber algum tipo de aviso ou alerta prévio sobre enchentes. E, quando alertados, os principais pontos de apoio durante as tragédias estão na própria comunidade: casas de familiares, vizinhos, ONGs e espaços religiosos.
Ao longo do dia de evento, moradores compartilharam suas experiências em Acari, como Juciara Souza, 53 anos, que mora no primeiro andar e conta que há outros riscos trazidos pelos alagamentos e enchentes para além da própria água:
“Tem hora que começa dar choque na água. No meu portão é muito baixo o relógio de luz. Aí, [quando chove] quem tá lá dentro de casa não pode sair e quem tá fora não pode entrar. Tenho que pedir pro meu vizinho [que sabe mexer com eletricidade] pra poder desligar a corrente pro pessoal subir pra laje.”

Um outro morador, Antonio Marcos da Costa, que se encontra em processo de aposentadoria, desabafa que compra móveis e eletrodomésticos de segunda mão por conta do problema. Ele reforça o quanto é importante criar medidas preventivas para poupar não só o bolso das famílias, mas também vidas:
“Foi como uma amiga aí falou, que acordou com a água subindo no quarto. Aqui na comunidade tinha que ter alarme. Se a gente não se comunicar [não consegue se salvar]. Agora, tudo meu é de segunda mão. Meu fogão foi R$60, minha geladeira foi R$250.”
Para Letícia Pinheiro, uma das diretoras do Fala Akari, a produção de dados ajuda a combater não só a defasagem de dados climáticos em favelas, mas também mudar a realidade dos seus moradores, prejudicados pelo racismo ambiental:
“Temos uma demanda constante de pensar políticas públicas que tenham protagonismo popular, que dialoguem com o que o território necessita. Dentro da favela a gente sabe muita coisa mas sem dados fica difícil. A gente tem uma visão de transformar essas dores em solução, em perspectiva de futuro.”

Uma Justiça Climática Criada por Quem Precisa Dela
Além de apresentar dados, o encontro também serviu para sistematizar soluções pensadas pelos moradores, com a priorização de ações estratégicas. Através de rodas de conversa, os moradores trouxeram propostas sobre três temas fundamentais voltados para a prevenção, mitigação e adaptação:
- Rio Acari e a Urbanização do Território, Antes e Durante as Enchentes;
- Comunicação, Sistemas de Alerta e Apoios Necessários Após as Enchentes; e
- Impactos Financeiros e Programas Governamentais.

Conheça as Ações Climáticas Prioritárias Definidas pelos Moradores de Acari
- Garantir limpeza e manutenção frequentes do Rio Acari (e não em períodos tão espaçados), com dragagem, desassoreamento dos pontos de estreitamento e revitalização dos bolsões de água que, hoje, não funcionam.
- Adotar a educação popular ambiental como eixo de prevenção, articulada com saúde, educação e meio ambiente, conscientizando os moradores diante da crise climática.
- Garantir que moradores de favelas participem das decisões sobre o rio e o território e que o poder público esteja presente de outras formas, enfrentando a discriminação e invisibilidade.
- Implantar um sistema de alerta integrado e ampliar os avisos sonoros da rádio comunitária para todos os blocos, retomando a divulgação antecipada dos eventos climáticos extremos.
- Definir pontos de encontro em locais elevados e pontos de apoio/convivência voltados prioritariamente a crianças, idosos, gestantes e PCDs, com alimentação adequada e cestas básicas suficientes para as famílias.
- Retomar a limpeza urbana efetiva, com mais garis, que, hoje, só vão na Rua Principal, cuidar do armazenamento de materiais de construção, realizar obras de revitalização e cuidar do Rio Acari para reduzir enchentes.
- Garantir o efetivo pagamento do auxílio financeiro justo e suficiente para compensar os prejuízos e construir moradias resilientes—os valores atuais são muito aquém do necessário.
Além disso, foi exibido Retratos das Enchentes: Depois que a Água Baixou, que trouxe relatos de territórios mapeados pelo projeto também em outros estados, mostrando como, apesar das diferenças regionais, a história se repete em favelas e periferias urbanas Brasil afora.
Assista ao documentário completo Aqui:
Os dados completos da pesquisa serão disponibilizados em breve nos canais dos projetos. Para acompanhar as atualizações, acesse o portal oficial do Instituto Decodifica e siga-o nas redes sociais, como o Instagram.
*Estiveram moradores, ONGs e organizações parceiras, sendo elas Criola, Asplande, Conselho Distrital de Saúde (CDS), Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ), Social Visão do Bem, Sagrada Esperança, Espaco Faveleira de Acari, Pré-Vestibular Popular Akari (Pvp Akari), Igreja Batista de Acari, Federação das Associações de Moradores do Município do Rio de Janeiro (FAM-RIO), Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, Observatório da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha, Respira Rio, Instituto Clima e Sociedade (ICS), Associação dos Moradores de Acari, Comunidades Catalisadoras (ComCat), Natural Resources Defense Council (NRDC), Cooperativa Vizinhos Parmalat e Clínica da Família Marcos Valadão, somando um total de 50 pessoas.
Sobre a autora: Amanda Baroni Lopes é formada em jornalismo na Unicarioca e foi aluna do 1° Laboratório de Jornalismo do Maré de Notícias. É autora do Guia Antiassédio no Breaking, um manual que explica ao público do Hip Hop sobre o que é ou não assédio e orienta sobre o que fazer nessas situações. Amanda é cria do Morro do Timbau, no Complexo da Maré.
