
Esta matéria faz parte de uma série gerada em parceria com o Digital Brazil Project do Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias sobre direitos humanos e justiça socioambiental nas favelas.
O mutirão na Horta dos Prazeres, no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, na região central do Rio, reuniu cerca de 30 pessoas no dia 5 de setembro. Além da revitalização e manutenção do espaço, o evento contou com uma programação que incluiu oficina de iscas para abelhas sem ferrão, produção de brotos, troca de sementes, prática de yoga para mulheres, atividades com crianças e um lanche colaborativo. Estiveram presentes alguns coletivos que atuam no território do Morro dos Prazeres: Saberes da Natureza, Raízes dos Prazeres, Favela-Parque RJ e Instituto Evolux. O evento fez parte da Agenda Coletiva da Rede Favela Sustentável (RFS)*.
Antes dos trabalhos começarem, houve uma breve roda de apresentação do projeto da Horta dos Prazeres, com algumas falas de lideranças e pessoas diretamente envolvidas no trabalho no local. Wellington Fyah, MC e cantor, culinarista na Indústria Vital de Alimentos e agricultor na Horta dos Prazeres, iniciou sua fala explicando a importância da reconexão com os saberes ancestrais, como o plantio de alimentos:
“A gente tá resgatando esse conhecimento, que a gente vem com o tempo perdendo… um conhecimento milenar e ancestral, que é a tecnologia mais antiga do mundo, que é colocar a semente na terra, ter a paciência, o cuidado e se alimentar dela. Então, é um momento de resgate. E a horta, para mim, simboliza isso… Eu acho que o reconhecimento do lugar onde você habita é muito importante, seja a gente se reconhecer quando a gente tiver dentro da nossa casa ou com o que tem ao redor. Acho que as plantas trazem isso. Elas trazem essa questão da gente se olhar [através delas]. Olhar uma planta é a gente se ver. Ver o crescimento do que a gente plantou é ver o nosso crescimento também.”

Gey, estudante de ciências ambientais, coidealizadora da Horta dos Prazeres e coordenadora do projeto Yoga das Mulheres, voltado para mulheres nos Prazeres, em sua fala, reiterou a importância de relembrar os aspectos ancestrais, mas também sobre a necessidade de voluntários para manutenção da horta, que já tem cinco anos de funcionamento:
“A gente está aí na luta, já vai fazer cinco anos, na resistência no território, que é muito difícil de trabalhar. Eu acredito que principalmente no trabalho coletivo, hoje em dia, as pessoas sempre deixam para a última hora, não têm tempo. ‘Ah, isso aí é um hobby’… E é difícil achar pessoas comprometidas, pessoas que vão acordar cedo no sábado para estarem aqui. Então, a gente está sempre nessa busca para ativar isso em vocês e na gente. A gente precisa estar na presença, no olho no olho, relembrando os nossos propósitos.”

Cris dos Prazeres, criadora do Instituto Evolux, sua mais recente instituição de atuação em três décadas morando e trabalho na comunidade, acompanhou todo o processo de construção não só da Horta dos Prazeres, mas de outros projetos pioneiros de hortas na favela. Ela conta um pouco dessa história, que inclui sua participação no ReciclAção:
“Eu acho que eu acompanhei o projeto da Horta dos Prazeres ainda quando era ReciclAção, porque a gente começou fazendo alguns mutirões e a incentivando a comunidade a plantar. E a gente queria plantar mudas da Mata Atlântica… O Dio, que é um cara muito da hora, pegou uma área ali em cima que a gente chama de Pocinho, que é o pico dos Prazeres, uma área que tem nascente. Tinha um lixão muito grande: a gente fez uns quatro mutirões lá… E começou a virar uma horta: a Horta do Pocinho. Isso criou [nos moradores dos Prazeres] essa característica de olharem e dizerem ‘ah, é uma horta!’.”

Ela explica que já havia o interesse de utilizar o espaço onde atualmente é a Horta dos Prazeres:
“Eu já tinha namorado esse espaço aqui há muitos anos, com o desejo de fazer uma agrofloresta… Porque isso aqui é uma área da Prefeitura: é o quintal do Casarão dos Prazeres. Você imagina isso aqui cheio de coisa para comer, cheio de flores, cheio de frutas, ai que sonho! Pensei: ‘vou chamar a Orefeitura!’ O [atual prefeito] Eduardo Cavaliere era Secretário de Meio Ambiente e a gente começou [a tentar contato]. Carolzinha, que é uma super parceira nossa, começou a mandar foto para o gabinete do prefeito: ‘olha, essa galera quer uma horta, eles querem crescer essa hortinha que está aqui. A Hortas Cariocas tem que chegar lá… Vambora fazer pressão pra ter o projeto Hortas Cariocas!’ Então, isso aqui é um sonho de um coletivo.”
O Programa Hortas Cariocas da Prefeitura do Rio foi criado em 2006 para incentivar a agricultura urbana em comunidades e escolas, aproveitando áreas ociosas para o cultivo de alimentos. A iniciativa busca promover segurança alimentar, soberania alimentar, educação ambiental e acesso a alimentos saudáveis em territórios vulneráveis.

Após o momento inicial de troca, as atividades tiveram início e os participantes se dividiram em frentes de trabalho. Ao longo do dia, um grupo ficou responsável pelo preparo do solo e pela capina dos canteiros, enquanto outro realizou o plantio e a manutenção das áreas já cultivadas. O mutirão resultou em um trabalho coletivo de manutenção e revitalização da horta no centro da cidade.
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*A Rede Favela Sustentável e o RioOnWatch são ambas iniciativas realizadas pela organização sem fins lucrativos, Comunidades Catalisadoras.
Sobre a autora: Bárbara Dias, cria de Bangu, Zona Oeste do Rio, é fotojornalista e fotógrafa documental desde 2016, com foco em direitos humanos, justiça socioambiental, religiosidades e territórios de favela. Comunicadora popular formada pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e graduanda em Jornalismo (UCAM), cofundou o Coletivo Fotoguerrilha (2016–2025). É licenciada em Biologia (UERJ), mestre em Educação Ambiental (IFRJ) e professora da rede pública estadual.

