Pesquisar Também É ‘Nós Por Nós’! Lideranças e Jovens de 15 Comunidades Convidam para Coletiva de Imprensa e Lançamento do Relatório ‘Justiça Hídrica e Energética nas Favelas’ [RELEASE]

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16 de setembro de 2022—No mesmo ano em que o Censo do IBGE vem sendo realizado, após mais de uma década sem dados oficiais atualizados sobre o território nacional, surge o relatório, “Justiça Hídrica e Energética nas Favelas: Levantando Dados Evidenciando a Desigualdade e Convocando para Ação”, rico em dados frutos do curso “Pesquisando e Monitorando a Justiça Hídrica e Energética nas Favelas”, uma iniciativa da Rede Favela Sustentável e do Painel Unificador das Favelas com colaboração de oito instituições*. O relatório será lançado em coletiva de imprensa na próxima quinta-feira, 22 de setembro, às 14h no Zoom. Inscrições podem ser realizadas aqui.

Através do curso, 45 alunos de 15 favelas** realizaram entrevistas nas residências de 1156 famílias (4164 pessoas) entre maio e junho de 2022, produzindo uma pesquisa que retrata os desafios de acesso, qualidade e eficiência da água e luz nas suas comunidades e contempla cinco municípios do Grande Rio. A dedicação dos alunos, que driblaram diversos empecilhos, entre elas um período de intensas operações policiais, foi notável e fundamental para atingir tantas famílias com a pesquisa.

Entre tantos dados relevantes, destacam-se que 59,6% das famílias cumprem os requisitos para serem registradas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), um importante instrumento de coleta de dados e informações que objetiva identificar todas as famílias de baixa renda existentes no país para fins de inclusão em programas de assistência social e redistribuição de renda. Mesmo assim, praticamente metade (48,8%) dos que cumprem os requisitos ainda não se registrou.

Tratando-se do acesso à água, foi descoberto que 42,5% dos entrevistados sofreram para fazer a higiene básica durante a pandemia devido à falta de água. Além disso, quase metade (48,2%) dos entrevistados dependem de bombas para ter acesso à água, gerando um custo adicional nas já alarmantes contas de luz. Outra questão bastante destacada foi o problema dos alagamentos, que afetam a vida de mais da metade (51,5%) dos entrevistados. A perspectiva majoritária destes, com mais de 80%, é de que esse problema das enchentes piorou nos últimos dois anos.

Quanto aos dados coletados sobre luz, avaliando-se o peso desta no orçamento familiar, foi descoberto que 56,8% dos entrevistados vivem em situação de pobreza energética*** em nível moderado a grave. Igualmente preocupante foi a resposta de que quase 70% dos entrevistados gastariam mais com alimentos caso suas contas de luz fossem reduzidas, o que expõe novamente a grave crise de insegurança alimentar que a população vem enfrentando. Sobre os apagões, descobriu-se que 32,2% dos entrevistados sofreram com falta de luz nos últimos três meses e que para 43,4% demora mais de seis horas para retornar. Outros dados e as propostas criadas conjuntamente para mudar essa realidade serão divulgados na coletiva.

Dados Para as Favelas e Pelas Favelas

Historicamente, as favelas sofrem com uma política de negligência do Estado e consequentemente pelas concessionárias, sobretudo com respeito aos seus direitos mais básicos, incluindo até mesmo o direito necessário, à compreensão da favela, para a formulação de políticas públicas adequadas às suas realidades. Sem dados não há base para políticas públicas e isso acaba sendo um problema-chave a ser resolvido, pois a falta de dados se torna uma justificativa confortável para os governantes não agirem, alegando como álibi o desconhecimento da situação das comunidades.

Poste em chamas devido à explosão de um transformador durante o momento da pesquisa. Foto: Ivone Rocha, de Rio das Pedras participante do curso.

“A falta de dados nas favelas reflete na ausência de políticas públicas estruturantes e sobre a importância de produzir dados sobre a realidade da favela através de como ela é percebida pelos próprios moradores.” — Alan Brum, Raízes em Movimento (Complexo do Alemão)

Durante a pandemia da Covid-19, essa realidade se destacou, revelando uma importância existencial de que as próprias favelas coletassem dados sobre suas realidades. Os inúmeros problemas de acesso, qualidade e eficiência da água e da luz nestes locais, apesar de amplamente noticiados e conhecidos por seus impactos negativos na prevenção da Covid-19, jamais foram tratados como prioridade pelo poder público. Foi no âmbito das discussões desses temas e suas consequências na vida dos moradores, que os integrantes do Painel Unificador Covid-19 nas Favelas tiveram a ideia de realizar um curso de pesquisa voltado às questões de água e luz nas favelas, que ano a ano vem tornando seus territórios cada vez mais desamparados.

O curso foi construído com o objetivo de desmistificar o processo de coleta e compreensão de dados e garantir o controle na geração de dados pelos próprios territórios, mirando a incidência política. Para tal, foram selecionados 30 jovens e 15 lideranças de 15 favelas espalhadas pelo Grande Rio. As comunidades participantes, no município do Rio de Janeiro foram: Cidade de Deus, Complexo da Pedreira, Itacolomi, Jacarezinho, Morro dos Macacos, Pavão/Pavãozinho/Cantagalo, Providência, Rio das Pedras, e Vila Cruzeiro; e na Baixada: Coréia/Mesquita, Cosmorama/Mesquita, Dique da Vila Alzira/Duque de Caxias, Edem/São João de Meriti, Engenho/Itaguaí, e Jacutinga/Mesquita. Estas 15 comunidades, no seu total, contam com mais de 500.000 moradores, segundo fontes locais.

Territórios representados no curso.

O curso, realizado entre março e setembro de 2022, percorreu os seguintes módulos: (1) a importância de pesquisa por e nas favelas, (2) o que é justiça energética e hídrica em relação aos temas de acesso, qualidade e eficiência, (3) a definição dos indicadores de acordo com prioridades dos territórios, (4) a coleta de dados em campo, (5) a análise e compreensão de dados e identificação de dados-chave, (6) como incidir politicamente com os dados coletados, (7) como realizar a relatoria, tanto popular quanto técnica, e (8) como comunicar os dados para os devidos fins de incidência política e conscientização popular. A finalização do curso acontecerá com a coletiva de imprensa, quando os próprios alunos apresentarão os dados e fomentarão discussões sobre os mesmos.

Um Chamado Urgente pela Situação Hídrica e Energética nas Favelas

Apagões, alagamentos, fios de luz soltos, água imprópria para consumo e contas absurdas sem qualquer retorno de qualidade são realidades constantes na vida da favela. Como consequência, eletrodomésticos são perdidos, casas destruídas, acidentes causados, infecções contraídas e bolsos esvaziados, tornando a situação insustentável para muitos moradores. Em muitos casos, quando falta água ou luz, o outro tem problemas. E vice-versa. Entre eles, existem efeitos diretos.

“Energia e água são dois recursos intrinsecamente dependentes. Especialmente no Brasil e, especialmente, em comunidades de baixa renda.” — Amanda O’Hara (Instituto Clima e Sociedade)

Em 2021, a interdependência entre a água e a luz no Brasil tornou-se gritante devido ao aumento de ambas as contas gerado pela crise hídrica nacional. Com baixos índices de pluviosidade, as barragens esvaziaram, reduzindo a capacidade das usinas hidrelétricas em gerar eletricidade.

Da mesma forma acontece com os recursos hídricos: eles dependem da luz, já que é necessário ter energia para bombear a água até os pontos de consumo, ocasionando falta frequente de água na moradia de milhares de pessoas. Para aqueles que moram no alto, como em muitas favelas, a situação é ainda pior, pois ainda mais energia é necessária para as bombas mandarem água até as torneiras e chuveiros das casas.

“Se eu utilizar bomba para puxar água, eu tenho que ter luz para ter água. Acaba ficando uma coisa muito puxada. O problema é interligado.” — Domênica Ferreira (Morro dos Macacos)

Vivências da Pesquisa

A partir dos temas definidos e discutidos amplamente nos primeiros módulos do curso, um questionário de pesquisa foi desenvolvido através de uma metodologia de cocriação e cogestão em sua montagem entre os alunos e os coletivos realizando o curso, a fim de que possuísse perguntas realmente pertinentes aos territórios de estudo.

“O curso representa um impacto, me ajudou a conseguir mudanças em alguns jovens do meu território. Quero levar isso para a vida para encontrar uma solução. E expor os problemas apresentados.” — Matheus Botelho (Coréia/Mesquita)

Os resultados da pesquisa serão divulgados no relatório “Justiça Hídrica e Energética nas Favelas: Pesquisadores dos Territórios Levantam Dados Evidenciando a Desigualdade e Convocando para Ação”, que será lançado na coletiva de imprensa. Além dos resultados, serão expostas as propostas de melhoria com base fundamentada nos dados levantados. Estas propostas, também desenvolvidas em conjunto, serão levadas posteriormente a outras formas de incidência política, a fim de demandar ações concretas ao poder público e concessionárias, além de conscientizar a população sobre seus direitos.

“Através do curso eu posso levar esse entendimento para as pessoas daqui, que elas podem fazer mais pela comunidade, que elas podem inclusive economizar na casa delas, que a gente pode buscar os nossos direitos, que a gente tem o dever de buscar os nossos direitos, que tem sim como economizar, tem sim como fazer as coisas para a nossa comunidade, por mais que pareça que não pode.” — Domênica Ferreira (Morro dos Macacos)

CONTATO PARA IMPRENSA

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Imagens para uso. Atribuição: Painel Unificador das Favelas.

Vídeo abaixo para uso. Atribuição: Painel Unificador das Favelas.

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International/English: press@catcomm.org / +55-21-991976444

*A Rede Favela Sustentável, o Painel Unificador das Favelas e o RioOnWatch são iniciativas realizadas pela organização sem fins lucrativos, Comunidades Catalisadoras (ComCat). O curso “Monitorando e Pesquisando a Justiça Hídrica e Energética nas Favelas” foi realizado de forma coletiva pelas seguintes organizações: Raízes em Movimento, ICICT e EPSJV (Fiocruz), Instituto Clima e Sociedade, CLASP, LabJaca, DataLabe, e Casa Fluminense.

**As organizações comunitárias que participaram do curso e da pesquisa foram: Alfazendo (Cidade de Deus/Rio de Janeiro), Associação Centro Social Fusão (Jacutinga/Mesquita), Associação de Mulheres de Atitude e Compromisso Social (Dique da Vila Alzira/Duque de Caxias), Associação de Mulheres de Edson Passos (Cosmorama/Mesquita), Associação de Mulheres de Itaguaí Guerreiras e Articuladoras Sociais (Engenho/Itaguaí), Centro Comunitário Raiz Vida (Morro dos Macacos/Rio de Janeiro), Cooperativa Transvida (Vila Cruzeiro/Rio de Janeiro, LabJaca (Jacarezinho/Rio de Janeiro), Movimento de Mulheres Maria Pimentel Marinho (Itacolomi/Rio de Janeiro), Museu de Favela (Cantagalo, Pavãozinho e Pavão/Rio de Janeiro), Núcleo de Educação Social Popular em Economia Solidária (Coréia/Mesquita); Projeto Inclusão (Edem/São João de Meriti), Projeto Moleque (Pedreira/Rio de Janeiro); Projeto Social Semeando Amor (Rio das Pedras/Rio de Janeiro), SOS Providência (Providência/Rio de Janeiro).

***Segundo recomendações oficiais, a conta de luz que representa mais de 10% da renda familiar mensal é considerada como um caso de ‘pobreza energética grave’; entre 6,9% e 10% é moderado e menor que 6,8% da renda familiar mensal é recomendado.


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