Mutirão Agroecológico com os Povos das Águas Reúne Coletivos para Plantio e Inauguração da Feira da Praia do Remanso em Suruí, Magé

"Cuidar do seu território é cuidar da saúde, é cuidar do meio ambiente, é cuidar também do ecossistema que está à nossa volta."

Participantes do Mutirão Agroecológico com os Povos das Águas em Magé, Suruí na Praia do Remanso. Apesar da distância da capital, o evento contou com a participação de aproximadamente 30 pessoas vindas de diversos territórios do Grande Rio. Foto: Bárbara Dias
Participantes do Mutirão Agroecológico com os Povos das Águas em Magé, Suruí na Praia do Remanso. Apesar da distância da capital, o evento contou com a participação de aproximadamente 30 pessoas vindas de diversos territórios do Grande Rio. Foto: Bárbara Dias

O Mutirão Agroecológico com os Povos das Águas, realizado na sede da Associação dos Pescadores da Praia do Remanso (APAR) em Suruí, Magé, município da Baixada Fluminense, reuniu moradores, pescadores, ativistas e educadores ambientais para a construção da horta comunitária na sede da APAR e inauguração da Feira do Remanso. O encontro fez parte da Agenda Coletiva da Rede Favela Sustentável (RFS)* e proporcionou um espaço de articulação entre diversos coletivos, como o Coletivo Manga, Bora com Queiroga, Edixe Acessórios, Horse Love Terapias, Horta Pedagógica Ana Alice, Instituto Mirindiba, Aldeia Maracanã e Movimento Baía Viva.

Andre Luiz, pescador artesanal e presidente da APAR, explica a importância da reunião dos coletivos nesse dia de atividades na sede da associação:

“É muito importante o nosso trabalho aqui em Magé para fortalecer as pessoas locais, o comércio e a consciência socioambiental que a gente está lutando para preservar cada vez mais. O nosso terreno, o nosso quintal, de onde a gente tira o sustento. Eu também sou pescador artesanal e a gente precisa da Baía de Guanabara, a gente precisa não poluir tanto, e que isso vá sendo reproduzido para muitas pessoas, para a gente poder salvar o nosso planeta. Porque o nosso planeta está morrendo, e não tem mais tempo a perder. É consciência ambiental 24 horas por dia.”

O dia começou com um café da manhã coletivo e preparativos para a construção da horta comunitária. Enquanto os participantes chegavam, uma mesa com materiais de educação socioambiental era montada na parte de frente da associação, onde aconteceu a roda de conversa. Apesar da distância em relação à capital do estado, o evento contou com a participação de 30 pessoas vindas de diversos territórios do Grande Rio.

Da esquerda para direita: Dario Jurema, Norma Bomfim, Andre Luiz, Sergio Ricardo Hortelão e Anderson Ribeiro, que fizeram a abertura do evento do Mutirão Agroecológico com os Povos das Águas em Magé. Foto: Bárbara Dias
Da esquerda para direita: Dario Jurema, Norma Bomfim, Andre Luiz, Sergio Ricardo Hortelão e Anderson Ribeiro, que fizeram a abertura do evento do Mutirão Agroecológico com os Povos das Águas em Magé. Foto: Bárbara Dias

Na abertura do evento, algumas falas introduziram as dinâmicas. Norma Bomfim, membro efetiva da Câmara Técnica de Educação e Meio Ambiente do Conselho Regional de Biologia (CRBio) e bióloga apoiadora do projeto na Praia do Remanso, contextualizou o propósito do evento para além do mutirão:

“Cuidar do seu território é cuidar da saúde, é cuidar do meio ambiente, é cuidar também do ecossistema que está à nossa volta. E é com esse propósito que nós estamos aqui. E para que, a partir desse encontro, dessas conversas, surjam propostas de melhorias, propostas de trabalho, propostas que agreguem e tragam soluções.”

Dario Jurema, da etnia Xukuru, guia de turismo, ator e apicultor da Aldeia Maracanã, fez uma fala representando a resistência dos povos originários que estiveram presentes no mutirão:

“É resistência, porque só da gente existir já é uma resistência. É contra todo o interesse do capital que passa por cima e padroniza todo mundo, bota na caixinha e faz aquele concretão, no asfalto, no chão e também na nossa mente, asfaltar nossas mentes, e a gente tenta fazer o contraponto. Estou aqui com o André porque a gente está desenvolvendo aqui um trabalho de turismo de base comunitária ajudando o pessoal da APAR, alcançando mais espaço para sua autonomia financeira e também dando uma visibilidade maior para o território… de uma maneira que as pessoas vejam a importância de estar preservando um bioma como esse aqui, que é o berço da Baía de Guanabara, da nossa vida. Aqui tem vida marinha, aves… E também de subsistência da própria população local.”

Sérgio Ricardo Hortelão, morador de Duque de Caxias, da Horta Pedagógica Ana Alice e do Coletivo Manga, alertou para a conscientização em relação à redução de consumo, reforçando a necessidade de se organizar em rede e de apoiar projetos locais:

“O mais importante de tudo, é a gente estar junto, a gente estar em rede. A gente vive um momento desafiador, né?… Talvez [seja] interessante a gente diminuir o consumo. Porque cada vez que a gente consome alguma coisa, alguma coisa foi destruída na natureza. Então, a gente tem que buscar consumir menos, estar cada vez mais juntos e buscar a periferia. O André e o pessoal da APAR estão aqui, sempre estiveram aqui… Eu estou aqui para contribuir e para dizer que essa iniciativa é muito boa.” 

Participantes do mutirão agroecológico participaram de uma roda de conversa e apresentações na Praia do Remanso. Foto: Bárbara Dias
Participantes do mutirão agroecológico participaram de uma roda de conversa e apresentações na Praia do Remanso. Foto: Bárbara Dias

Anderson Ribeiro, morador de Magé e membro do Instituto Mirindiba, um coletivo que pauta justiça climática e combate ao racismo ambiental nas favelas e periferias, faz uma fala sobre pensar em contrapontos e disputar os espaços de poder:

“Hoje, ter a horta sendo construída aqui na APAR é mostrar que nós, enquanto comunidade, temos a obrigação de promover tecnologias socioambientais para a sociedade e para a nossa subsistência. Sejam hortas comunitárias, sejam biodigestores, seja telhado verde ou qualquer outra tecnologia que a gente coloque no nosso espaço de construção… Eu gosto sempre de lembrar que em Magé, a lei orçamentária no último ano, passou de um bilhão de reais. Eu quero saber quanto disso foi destinado para a comunidade pesqueira? Quanto disso foi destinado para a agroecologia? Porque aí a gente consegue pautar qual é a necessidade do debate financeiro? É muito legal a gente falar sobre comunidade, café da manhã compartilhado, horta comunitária, mas a gente precisa cobrar também quem está no poder, quem está no espaço de decisão.”

Após a roda de conversa, o mutirão agroecológico foi desde o preparo da terra e construção dos canteiros, ao plantio das mudas. Foto: Bárbara Dias
Após a roda de conversa, o mutirão agroecológico foi desde o preparo da terra e construção dos canteiros, ao plantio das mudas. Foto: Bárbara Dias

Após a apresentação de todos os presentes sobre seus fazeres e projetos em seus territórios, ocorreu a inauguração oficial da Feirinha do Remanso, com uma roda de cânticos e rezas dos povos originários, saudando a terra, as forças das matas e das águas, encerrando o primeiro momento do evento. O trabalho do mutirão de construção da horta ocorreu logo em seguida, com o preparo da terra, montagem dos canteiros para que as mudas de hortaliças e ervas medicinais fossem plantadas.

À tarde, após o almoço coletivo realizado com apoio de um restaurante local, houve a visita à Praia do Remanso e ao manguezal. De acordo com Norma Bomfim, são feitos mutirões periódicos de manutenção do espaço por moradores e aliados, recolhendo, em sua maioria, plástico das águas da Baía de Guanabara.

Após o mutirão, o grupo fez uma visita à Praia do Remando para conhecer o ecossistema do fundo da Baía de Guanabara e seu manguezal, sob guiamento e orientação de Norma Bomfim. Foto: Bárbara Dias
Após o mutirão, o grupo fez uma visita à Praia do Remanso para conhecer o ecossistema do fundo da Baía de Guanabara e seu manguezal, sob guiamento e orientação de Norma Bomfim. Foto: Bárbara Dias

Norma sintetizou, em sua fala, as atividades realizadas ao longo do dia na Associação dos Pescadores da Praia do Remanso:

“Hoje, nós fizemos uma atividade aqui na APAR, que é o fortalecimento e a estruturação do quintal produtivo com mutirão de plantio. Tivemos uma roda de conversa com as diversas instituições locais onde houve uma troca de conhecimento, uma troca de saberes e a presença que nos abrilhantou que foi a dos povos originários. Tivemos o apoio da Agenda Coletiva da Rede de Favela Sustentável, que fortaleceu essa atividade. Nós já estamos no terceiro mutirão aqui na Praia do Remanso e essas atividades têm contribuído para a educação ambiental, para levantar as questões socioambientais desse território e para futuros projetos e propostas das demandas do território, que é um território também vulnerável, embora seja um território paradisíaco.

É um território que tem as suas demandas e dificuldades. Tem a questão da poluição da Baía de Guanabara, tem a questão da vulnerabilidade dos pescadores, que têm que buscar outras alternativas… Então, esse é o propósito aqui: fortalecer os pescadores, a comunidade pesqueira e as mulheres dessa comunidade, as pescadoras da comunidade. Fizemos o lançamento de uma feira artesanal e o propósito da feira é que as pescadoras e pescadores usem a cultura, o seu artesanato como outra fonte de renda e também como fonte de mostrar o seu trabalho, mostrar a sua cultura e mostrar o que esse povo que vive aqui há muitos e muitos anos faz no seu território.”

Veja Mais Fotos no Álbum:

Mutirão de Plantio e Educação Socioambiental na Praia do Remanso (Magé), realizado pela Associação dos Pescadores da Praia do Remanso (APAR), na Agenda Coletiva da Rede Favela Sustentável, 11 de julho de 2026

*A Rede Favela Sustentável e o RioOnWatch são ambas iniciativas realizadas pela organização sem fins lucrativos, Comunidades Catalisadoras.

Sobre a autora: Bárbara Diascria de Bangu, Zona Oeste do Rio, é fotojornalista e fotógrafa documental desde 2016, com foco em direitos humanos, justiça socioambiental, religiosidades e territórios de favela. Comunicadora popular formada pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e graduanda em Jornalismo (UCAM), cofundou o Coletivo Fotoguerrilha (2016–2025). É licenciada em Biologia (UERJ), Mestre em Educação Ambiental (IFRJ) e professora da rede pública estadual.


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