Em abril de 2026, o ambientalista, líder comunitário e ativista barbudano John Mussington visitou o Rio de Janeiro para o Intercâmbio Global de Termos Territoriais Coletivos, organizado pelo Projeto Termo Territorial Coletivo*, a convite do Rondo Community Land Trust, TTC de Minnesota nos Estados Unidos, e do Centro Internacional para Termos Territoriais Coletivos, com o apoio da Fundação Robert Wood Johnson. O evento, com duração de uma semana, reuniu mobilizadores comunitários do direito à moradia de vários cantos do mundo para trocar ideias sobre gestão coletiva da terra e estratégias para enfrentar a especulação imobiliária e as remoções de moradores de seus territórios. Ao longo do intercâmbio, os participantes visitaram favelas, ocupações urbanas, cooperativas habitacionais e comunidades que vêm resistindo no Rio de Janeiro.
Integrante do Comitê de Direitos e Recursos Fundiários de Barbuda, John Mussington vem, há décadas, defendendo o sistema de terras comunitárias de Barbuda, uma ilha singular no Caribe que mantém a terra sob posse coletiva e protege da venda privada. Biólogo marinho de formação, tornou-se ativista trabalhando na realização de avaliações de impacto ambiental no país Antígua e Barbuda, onde testemunhou a destruição ambiental associada ao turismo e aos empreendimentos imobiliários de luxo na ilha vizinha de Antígua.
Desde que o furacão Irma atingiu Barbuda em 2017, John tem se manifestado amplamente contra as iniciativas que se aproveitaram do impacto para tentar privatizar as terras barbudanas e transformar a ilha em um mercado imobiliário de luxo.
Após vários dias visitando as favelas do Rio e participando de discussões sobre a gestão coletiva da terra, John Mussington concedeu a entrevista a seguir. Ao longo da conversa, ele transitou com fluidez entre lembranças de sua infância navegando entre Antígua e Barbuda, explicações sobre práticas agrícolas tradicionais e reflexões sobre como os barbudanos desenvolveram uma forte cultura de autossuficiência ao longo de gerações.
De forma ponderada, John foi ligando as histórias locais de Barbuda a questões mais amplas sobre o colonialismo e a relação da humanidade com a Terra. Ao longo da entrevista, traçou paralelos entre as lutas de Barbuda e as que observou nas favelas do Rio de Janeiro, retornando a uma ideia central:
“Nós pertencemos à terra. A terra nos pertence.”
Abaixo, compartilhamos trechos da nossa entrevista com John Mussington, bem como o imperdível vídeo completo de 13 minutos acima, de sua apresentação durante um intercâmbio entre lideranças locais e globais que atuam com direito fundiário e TTCs, no Raízes do Brasil, em Santa Teresa, em 14 de abril de 2026. Ao assistir, não esquece de ativar as legendas.

RioOnWatch: Onde você nasceu? Pode nos contar um pouco sobre o vilarejo ou local?
John: Eu sempre começo dizendo que sou barbudano, porque essa afirmação, por si só, já tem um certo significado. Sou de Barbuda, que compõe o nação das ilhas gêmeas de Antígua e Barbuda. No contexto do resto do mundo, algumas pessoas as consideram ilhas pequenas, minúsculos pontos no oceano. Mas, para mim, como barbudano, a experiência de viver naquela pequena ilha traz muitas lições sobre como sobreviver em circunstâncias difíceis.
Meu pai era construtor naval em Antígua. Ele construía barcos. Então, eu cresci nesse ambiente, perto do mar, de ferramentas, de barcos. Uma das primeiras coisas que ele nos ensinou foi a nadar. Vestiu coletes salva-vidas na gente, foi até a parte mais funda do cais e nos jogou na água. A gente aprende muito rápido a se adaptar à vida. Como seres humanos, somos programados para sobreviver.
Em todos os períodos de férias, especialmente no verão, nós íamos para Barbuda no pequeno veleiro de madeira do meu pai. Saíamos por volta das três ou quatro da manhã e chegávamos a Barbuda quando o sol estava nascendo.
Comparada a Antígua, Barbuda era totalmente diferente. Antígua era mais urbanizada, com cidade e comércio. Barbuda era mais rural. Espaços abertos, praias, natureza selvagem. Assim, desde muito cedo, desenvolvi um apreço pelo mar, pela natureza selvagem e por um estilo de vida intimamente ligado à terra.
RioOnWatch: Como começou a sua história como ativista?
John: Eu me lembro vividamente da primeira vez que coloquei uma máscara no rosto e mergulhei a cabeça na água. Aquilo me expôs a um universo completamente diferente. Me despertou. Decidi então me especializar em biologia, mais especificamente em biologia marinha. Mesmo antes de concluir minha graduação, um dos meus primeiros trabalhos foi como estagiário fazendo avaliações de impacto ambiental (AIA).
A ideia toda por trás das AIAs era a de orientar o desenvolvimento: garantir que a área selecionada para um empreendimento fosse adequada, analisar os impactos sobre o meio ambiente e encontrar formas de evitar esses impactos.
Mas o que eu descobri foi que muitos governos só estavam realizando AIAs para cumprir uma formalidade. Você fazia aquele trabalho todo, elaborava as recomendações e os relatórios eram simplesmente enfiados em alguma gaveta.
Estávamos perdendo praias. As áreas úmidas estavam sendo destruídas. As coisas estavam ficando realmente drásticas! Isso abriu meus olhos para o grande número de coisas [prejudiciais] que estavam acontecendo do ponto de vista ambiental.
Eu me lembro de uma vez em Barbuda, em que o consultor principal estava minimizando os perigos de um projeto durante uma consulta pública. Então, eu me levantei na audiência e me manifestei. Eu disse: “Olha, isso é um erro. Estas são as razões pelas quais não se pode fazer isso…”
Meu chefe ficou muito bravo e não me pagou, mas eu não liguei. Minha reputação valia mais do que cometer esse tipo de fraude.
Acho que foi mais ou menos nessa época que eu tomei a decisão consciente de não permitir que o conceito de avaliações de impacto ambiental fosse usado de forma indevida. Então, comecei a me manifestar contra as coisas que estavam acontecendo.

RioOnWatch: Poderia explicar como funciona o sistema de terras comunitárias de Barbuda e qual sua origem histórica?
John: Como cidadão de Barbuda, ao completar 18 anos, por lei, você tem direito à terra. Não precisa de banco algum. Você passa a ter direito à terra para três fins: residencial, agrícola e comercial.
Quando você recebe um terreno para construir a sua casa, ele se torna seu e você pode passá-lo para os seus filhos e netos. A terra agrícola já funciona de forma diferente. Enquanto você a estiver produzindo, ela é sua. Quando terminar, ela volta para o fundo comum.
É assim porque Barbuda não foi administrada como uma plantation (nome dado pelos ingleses para os latifúndios escravistas de monocultura para exportação) mas como posto de abastecimento para outras grandes propriedades escravistas. Os barbudanos tinham permissão para manter suas estruturas familiares, tinham suas próprias casas e áreas de cultivo. Como não eram alimentados pelos senhores de escravos, precisavam se sustentar sozinhos.
Dada a nossa ancestralidade africana, como no caso de muitos povos indígenas, não era nosso esse conceito de que a terra é uma mercadoria que se compra e vende. O conceito que temos é de que somos parte da terra. Usamos a terra para o nosso sustento. Nós pertencemos à terra. A terra nos pertence. Dessa forma, [dentro da nossa crença] simplesmente não se vendia a terra.
Barbuda nunca foi uma plantation pelo simples fato de que o cultivo intensivo de cana-de-açúcar ou tabaco não era possível ali. O local era muito seco, o solo era muito raso, então não era viável. Assim, durante o período da escravidão, tínhamos pessoas vivendo em Barbuda para abastecer o restante das plantations da família Codrington em Antígua, assim como no resto do Caribe. Barbuda era uma importante área de criação de gado e nós fornecíamos carne fresca e mantimentos para as plantations. Em termos de cultivo, usávamos a técnica chamada “corte e queima” [no Brasil, a técnica indígena milenar da coivara], e incorporamos o biocarvão [um poderoso condicionador de solo], ambos muito semelhantes aos sistemas de produção de alimentos usados em outras civilizações da bacia amazônica. Trouxemos esse conhecimento da África, o que faz parte de nossas origens e do nosso autossustento.
Se analisarmos a questão sob a perspectiva da mentalidade europeia, esse sistema de propriedade comunitária da terra seria considerado singular. Mas, da perspectiva dos povos indígenas e tribais, é o sistema mais lógico. Os europeus trouxeram esse conceito de terra como mercadoria que pode ser comprada e vendida. Contudo, em toda a América Latina e Caribe, povos indígenas e comunidades quilombolas praticavam e continuam a praticar a propriedade coletiva.
Os Kalinago na Dominica ainda usam esse sistema. Os Maroons jamaicanos usam esse sistema. O povo saramacano no Suriname usa esse sistema. Onde quer que encontremos povos indígenas, esse é o sistema que usam. Nós enxergávamos a terra não como algo a ser explorado para enriquecimento pessoal, mas como algo que sustenta a vida.
Essa ideia toda de imóveis e de compra e venda de propriedades é uma construção ocidental, disseminada pelo colonialismo.
RioOnWatch: Poderia explicar a situação atual em Barbuda?
John: Desde o desastre do furacão de 2017, o povo de Barbuda passou a perceber que o governo central [em Antígua] vem se articulando para abolir o nosso sistema fundiário.
Após o furacão, fomos evacuados da ilha com a desculpa de que outra tempestade estava a caminho. Enquanto estávamos fora, o primeiro-ministro começou a declarar publicamente que a propriedade comunitária da terra era um mito. Mas nós sabemos que isso é absurdo, porque a propriedade comunitária da terra existe no mundo todo.
O desastre proporcionou ao governo uma oportunidade de revogar a Lei de Terras de Barbuda e iniciar um processo de transformação de Barbuda em uma ilha particular voltada principalmente para o estilo de vida de milionários. O primeiro-ministro de Antígua e Barbuda, Gaston Browne, admitiu publicamente que pretendia criar um mercado imobiliário de luxo em Barbuda. Disse que Barbuda ia virar “uma Jumby Bay turbinada”. Jumby Bay é uma das ilhas costeiras de Antígua pertencentes a milionários. Ninguém vai lá a menos que seja dono de um imóvel e faça parte dessa classe milionária.
O que aconteceu depois do furacão se chama capitalismo de desastre. Nós percebemos que existem pessoas ricas no mundo que acreditam ter direito às partes ainda intocadas da Terra e que podem usar dinheiro para comprar acesso a esses lugares.
Acreditamos firmemente que, sem acesso equitativo aos recursos e sem o nosso sistema de terras comunitárias, não podemos continuar a existir como barbudanos. A razão pela qual conseguimos sobreviver ao furacão de 2017 com apenas uma morte foi a resiliência da nossa ilha. Nossas casas foram construídas com solidez porque investimos nossos recursos em materiais de construção de boa qualidade em vez de pagar hipotecas. Nossos manguezais estavam intactos e saudáveis, assim como as nossas praias e recifes de coral. Estes sistemas nos proporcionaram proteção. E eles funcionaram porque são de propriedade coletiva e porque todos nós compartilhamos de uma intensa responsabilidade de mantê-los assim. Essa é uma lição importante sobre as vantagens de um sistema de propriedade de terras comunitárias.
Assim, a luta continua.

RioOnWatch: O que diria aos jovens de Barbuda que se sentem desiludidos?
John: Uma das coisas que dizemos aos jovens é o seguinte: pensem no que vocês comem e em como sobrevivem. Vocês conseguem ter alguma dessas coisas sem terra? Outra coisa que explicamos é como o mercado imobiliário funciona no mundo real.
Se você é um jovem recém-formado em qualquer outro lugar do mundo, talvez precise de um financiamento imobiliário de 25 ou 30 anos para ter uma casa. Se enfrentar dificuldades depois de passar anos pagando, o banco pode tomar a sua propriedade. Como barbudanos, vocês têm direito à terra por lei. Não precisam de banco algum. Na verdade, vocês estão entre os jovens mais ricos do mundo porque têm terra.
Muitos dos nossos jovens viajam, conhecem o mundo lá fora. Mas, no fim das contas, valorizam o que Barbuda tem para oferecer: poder passar dias na praia pescando, nadando, caçando, simplesmente vivendo ao ar livre. Para o jovem de Barbuda, isso é o paraíso.
E isso é algo que ensinamos a eles conscientemente. Existe uma diferença entre isto e o mundo acelerado lá de fora, que vocês têm a liberdade de explorar e aproveitar. Mas, quando vocês se cansarem e precisarem voltar para o paraíso, nós estaremos aqui e vocês fazem parte da garantia de que o paraíso continue a existir, porque vocês são coproprietários desta terra.
RioOnWatch: O que acha que Barbuda pode oferecer para o mundo?
John: Um dos resultados positivos do desastre de 2017 foi a constatação de que outras comunidades [no Caribe] estavam passando exatamente pela mesma situação que nós. Então começamos a conversar uns com os outros e percebemos que tínhamos uma história em comum.
Juntos, nos demos conta de que o capitalismo de desastre é real. A mesma empresa que estava redesenhando ilhas nas Bahamas chegou em Barbuda tentando fazer a mesma coisa. É a mesma empresa, a Discovery Land Company, que atua na Escócia, na Califórnia e em Porto Rico.
Foi assim que acabamos criando a rede Stronger Caribbean Together [Caribe Mais Forte Junto], reunindo organizações comunitárias da Jamaica, Granada, Santa Lúcia, Belize, Ilha da Providência, na Colômbia, e de outros lugares do Caribe e da América Latina.
Existe um grupo de pessoas ricas no mundo que acredita ter direito às partes ainda intocadas da Terra e que pode usar dinheiro para comprar acesso a essas áreas.
Se as comunidades não identificarem as estratégias que estão sendo usadas contra elas, vão acabar perdendo esses lugares. A crise climática é resultado desse tipo de abuso.
Então, ao nos unirmos e compartilharmos nossas histórias, começamos a perceber que o que sofremos em Barbuda foi exatamente o mesmo que o povo Raizal sofreu na Ilha de Providência, na Colômbia, dois anos depois. Os granadinos também sofreram isso recentemente, e o mesmo aconteceu na Jamaica com relação à mineração de bauxita, assim como na Guiana e em Belize.
Se vamos sobreviver no planeta Terra, precisamos repensar seriamente quem são os verdadeiros guardiões da Terra.
Temos tido sucesso com a forma de viver de nossas comunidades e com nossa forma de resistir ao que está acontecendo no mundo. Precisamos disseminar essa mensagem amplamente para que as pessoas possam entender que outra forma de viver é possível.

RioOnWatch: Houve algo que inspirou você nas favelas do Rio e que levaria de volta para Barbuda?
John: Sim, com certeza. Enquanto eu escutava os debates e caminhava pelas favelas, fui me tornando profundamente consciente de que o direito à terra é, na verdade, um direito humano. As comunidades estão lutando apenas para ter acesso à terra e conseguir sobreviver.
Se ficarmos de braços cruzados e deixarmos que o que está acontecendo siga seu curso, tendo de lutar para comprar e controlar terras, quanto tempo vai levar até termos de comprar água? Em Barbuda, captamos água da chuva, mas, cada vez mais, em outros lugares as pessoas têm de comprar água. Você tem de comprar comida. De onde vem a comida? Da terra. E se você não tem terra, não tem como produzir a sua própria comida. Você fica refém de outra pessoa para obter essa comida.
Sentado ali, um pensamento me ocorreu. Quando chegaremos ao ponto em que teremos de comprar ar para respirar?
Pelo caminho que estamos seguindo, se não tivermos cuidado, este não vai ser um lugar onde vamos querer viver de modo algum.
Eu sinto que as nossas favelas têm resposta para a direção que precisamos tomar e nós precisamos fazer um lobby muito pesado para que o resto do mundo perceba que a única maneira de continuarmos a viver neste planeta Terra é se seguirmos os tipos de práticas que temos nessas comunidades.
Uma das coisas que realmente me impactou foi ver as crianças e me dar conta de que, apesar das condições nas favelas, se ouvem risos. Crianças se divertindo. De fora, você pensaria: como as pessoas podem viver nessas condições? Mas, pessoalmente, pelo que vi, pela forma como vivemos em Barbuda e pelas visitas que fiz a outras comunidades, como a que visitei na floresta tropical da Guiana, você percebe a conexão com a terra e com o planeta, e é disso que se trata a humanidade.
Então há esperança. Não dá para se deixar desmotivar demais pelo que está acontecendo. E é isso que me motiva todos os dias, especialmente depois de tudo o que passamos em Barbuda.

*O Projeto TTC e o RioOnWatch são ambas iniciativas gerenciadas pela organização sem fins lucrativos, Comunidades Catalisadoras.
