
O Morro do Preventório e o Mapeamento Popular
Realizado no dia 6 de julho, o Encontro de Mapeamento Popular Dados, Mapas e Cartografias reuniu cerca de 20 pessoas na Estação Periférica de Pesquisa no Morro do Preventório, comunidade localizada em Charitas, na cidade de Niterói, no Leste Fluminense, para uma oficina formativa sobre mapeamento popular em favelas e sua importância para a adaptação climática.
De acordo com o Dicionário de Favelas Marielle Franco, o Morro do Preventório é a maior favela da cidade de Niterói, com uma população estimada em mais de 5.000 habitantes:
“Sua história remonta ao século XIX, quando o governo imperial construiu um casarão, conhecido como Preventório, para isolar pacientes com doenças contagiosas, como tuberculose, vindos de navios que chegavam ao Rio de Janeiro. Com o tempo, a área ao redor foi ocupada por trabalhadores e famílias, especialmente vindas do Nordeste, dando origem à comunidade que existe hoje.”
O mapeamento colaborativo ou popular é aquele em que a própria comunidade registra sua realidade e identifica potências e vulnerabilidades. Esse levantamento gera autonomia na parte dos moradores, maior compreensão da sua realidade e difusão de conhecimento local. É uma ferramenta de transformação social, auxiliando na identificação de possíveis soluções para os desafios vivenciados, e driblando o déficit de dados sobre favelas. Efetivamente, documentando as necessidades reais, os próprios moradores garantem dados qualificados para que o poder público possa investir de forma realmente útil e precisa.
Geração Cidadã de Dados para a Adaptação Climática das Favelas
O encontro de julho foi a primeira etapa da iteração mais recente de um trabalho de longo prazo na comunidade, cuja versão anterior fazia parte da pesquisa URBE Latam. O novo projeto, denominado Pesquisa Participativa para Análise de Clima e Saúde nas Favelas e Comunidades Urbanas (PACHA), também coordenado pelo professor João Porto Albuquerque, é composto por uma parceria entre organizações comunitárias, universidades brasileiras e do Reino Unido, e poder público local e nacional.
O mapeamento do projeto, uma forma de geração cidadã de dados (GCD), é estruturado para compreender como as mudanças climáticas impactam a saúde dos moradores de favelas; identificar os fatores que determinam a vulnerabilidade climática; e desenvolver formas participativas de produção de dados capazes de subsidiar políticas públicas de adaptação.
“A gente identifica que há a possibilidade de gerar dados que alimentem programas já em curso, como Vida Nova no Morro, esperamos fazer isso de forma que os investimentos [destes programas] sejam os mais efetivos possíveis, reduzindo impactos [climáticos] e atendendo as necessidades das comunidades.” — João Porto Albuquerque
O treinamento consiste em promover a formação da equipe local, fazer um levantamento manual da região, listando os locais, suas potencialidades e vulnerabilidades e, por fim, inserir as informações na plataforma OpenStreetMap, um mapa digital colaborativo gratuito, e no aplicativo Nós no Mapa, desenvolvido em parceria com o Mapa das Periferias da Secretaria Nacional de Periferias.

Para Alessandra Figueiredo, cria do município vizinho de São Gonçalo, estudante participante do mapeamento anterior da URBE LATAM no Morro do Preventório, a importância desse trabalho reside também na possibilidade de mudar as perspectivas de moradores sobre a favela.
“Esses projetos são importantes pra não olhar para o local que você vive só pela vulnerabilidade. Não é só [um lugar] que tem operação policial ou um monte de pontos de lixo, não. Aqui também é o lugar onde eu cresci, que vou em festas, quadra de futebol, a associação, igreja… Olhar mais as coisas boas é um impacto muito positivo… Isso faz com que essas pessoas se sintam mais pertencentes a esse lugar.” — Alessandra Figueiredo
‘A Gente Traz Voz Porque a Gente Tá Vivendo Aqui’
Dentro do cronograma do projeto, as primeiras comunidades a serem mapeadas serão o Morro do Preventório e Jurujuba, ambas em Charitas, a partir de agosto, com previsão de apresentarem amostras iniciais já em outubro. Além do Rio de Janeiro, o projeto está em implementação em outros dois estados: Rio Grande do Norte, na cidade de Natal, e Paraná, em Curitiba, já tendo sido realizado o mapeamento piloto de dez favelas. O projeto tem expectativa de ter duração total—desde o mapeamento, até a análise dos dados—de três anos.
Camila Leal, consultora da Secretaria Nacional de Periferias, conta que a ideia é que o mapeamento possa ganhar escala a nível nacional:
“Essa ferramenta [Nós no Mapa] vem sendo desenvolvida desde 2024 com dez territórios mapeados pelo Brasil e mais de 1.000 pontos de potências e vulnerabilidades indicados pelas próprias comunidades. A ideia é disponibilizar a ferramenta em outubro para uso público geral. Estar no Mapa das Periferias é justamente para ter uma base única nacional, com informações pra subsidiar políticas públicas mais coerentes com as realidades desses lugares.”

Ao final do encontro, os participantes puderam ter contato prático com as plataformas, fazendo um rápido mapeamento na comunidade. Para a atriz e cria do Preventório, Ana Nery, a iniciativa potencializa a voz dos moradores:
“A gente traz voz [informação, dado] porque a gente tá vivendo aqui, as necessidades e riscos. Pra gente poder crescer [melhorar], precisa saber o que tá acontecendo e mostrar pra quem pode ajudar [o Estado].”
Já Fael Faustino, presidente da Associação de Moradores do Preventório, espera conseguir multiplicar o aprendizado para a região:
“É a primeira vez que participo [disso]. É uma experiência, uma coisa nova pra nossa comunidade. O mapa pode ajudar a identificar muito local de risco e também [agregar] conhecimento.”

Os interessados na formação podem acompanhar o projeto pelo portal Mapa das Periferias e acessar também o Guia de Mapeamento Popular, com o passo a passo para realizar o mapeamento local em suas comunidades.
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Estiveram presentes a Associação de Moradores do Morro do Preventório e Banco Preventório, e moradores do Morro do Preventório e de comunidades vizinhas, como Jurujuba, e também representantes da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Universidade de Glasgow, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Petrobras, Prefeitura de Niterói e Secretaria Nacional de Periferias.
Sobre a autora: Amanda Baroni Lopes é formada em jornalismo na Unicarioca e foi aluna do 1° Laboratório de Jornalismo do Maré de Notícias. É autora do Guia Antiassédio no Breaking, um manual que explica ao público do Hip Hop sobre o que é ou não assédio e orienta sobre o que fazer nessas situações. Amanda é cria do Morro do Timbau, no Complexo da Maré.
