
Esta matéria faz parte de uma série sobre as eleições de 2026, com enfoque nas perspectivas das favelas do Grande Rio.
A democracia brasileira ainda convive com marcas profundas de exclusão que limitam a participação plena de determinados grupos sociais. Entre os desafios mais urgentes está a violência política de gênero e raça direcionada às mulheres negras, uma prática que tem se consolidado como uma das formas mais contundentes de silenciamento de mulheres negras no país.
Apesar de avanços pontuais na representatividade, mulheres negras seguem enfrentando barreiras estruturais que atravessam partidos políticos, instituições públicas e o próprio tecido social. Não se trata de episódios isolados, mas de um fenômeno sistemático, sustentado por raízes históricas de racismo estrutural e misoginia.
Misogynoir: Quando Racismo e Misoginia Se Entrelaçam
Dados recentes apontam um quadro alarmante: mulheres negras são desproporcionalmente alvo de ataques no ambiente político, tanto em espaços presenciais quanto nas redes sociais. A violência política que as atinge não é ocasional: é contínua, articulada e, muitas vezes, invisibilizada.
Esse tipo de violência opera por meio de ataques à credibilidade, à imagem pública e à legitimidade dessas mulheres, com o objetivo de afastá-las dos espaços de poder e decisão.
O conceito de misogynoir ou misogenia preta, desenvolvido pela pesquisadora Moya Bailey, ajuda a compreender a especificidade dessas violências. O termo descreve as formas únicas pelas quais mulheres negras são alvo simultâneo de racismo e misoginia.
Mais do que a soma dessas opressões, trata-se de uma força sinérgica que produz impactos mais profundos e violentos. Na prática, a misogynoir atua como um mecanismo de deslegitimação política e exclusão, reforçando a ideia de que determinados corpos não pertencem aos espaços de poder.
Novas Fronteiras da Violência que Ultrapassam a Política
Nas redes sociais, a violência política ganha novas dimensões. Discursos de ódio, campanhas coordenadas de desinformação, exposição de dados pessoais (doxing) e o uso de tecnologias como deepfakes (imagens falsas, porém realistas) compõem um ecossistema digital hostil.
O objetivo é claro: intimidar, desgastar emocionalmente e silenciar. Esse ambiente amplia o alcance dos ataques e intensifica seus impactos, atingindo não apenas a atuação pública, mas também a vida privada dessas mulheres.
As consequências dessa violência são profundas e multifacetadas. Mulheres negras na política relatam episódios de autocensura, adoecimento psicológico e, em muitos casos, o afastamento de cargos ou desistência de candidaturas. Conforme mostra a Pesquisa de Violência Política de Gênero e Raça no Âmbito Digital, publicado em 2025 pelo Instituto Marielle Franco, a violência política digital contra mulheres negras, “é um regime, não uma exceção”.

A trajetória da Vereadora Thais Ferreira ilustra de forma emblemática essa realidade. Mulher negra e periférica, ela ingressou na política após vivenciar racismo obstétrico, uma violência sem fronteiras que resultou na perda de seu filho aos nove meses de gestação.
Hoje, à frente da Comissão de Combate e Prevenção à Violência Política contra Mulheres, Thais utiliza seu mandato para denunciar as múltiplas formas de silenciamento enfrentadas por mulheres negras e periféricas. Sua experiência, no entanto, também evidencia o alto custo dessa atuação.
Após sofrer ameaças constantes, a vereadora relata impactos diretos em sua vida pessoal e familiar. O adoecimento de sua mãe, de seu companheiro e de seu filho que, ainda na infância, já vivenciou episódios de violência política no ambiente escolar, revela como esses ataques extrapolam o espaço institucional e atingem dimensões íntimas da vida.
Corpos negros nos espaços de decisão ainda são vistos como os que “não cabem”. Essa exclusão simbólica se materializa, inclusive, na dificuldade de acesso a financiamento de campanha, ampliando desigualdades já existentes entre negros e brancos e comprometendo as chances dos negros, especialmente das mulheres negras, no processo eleitoral.
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Racismo Institucional e Barreiras Invisíveis: Continuidade das Violências
O assassinato de Marielle Franco, em 2018, tornou-se um marco internacional da violência política contra a mulher negra. O crime expôs de forma brutal os riscos enfrentados por mulheres negras em posições de poder.

Outras parlamentares, como Erika Hilton e Renata Souza, seguem sendo alvos frequentes de ataques, evidenciando que essa violência não cessou, apenas se reconfigurou e se adaptou a novos contextos. Quase sempre, sem apoio das presidências e mesas diretoras das casas legislativas, as parlamentares se vêem sozinhas. É o que denunciou a Deputada Federal Talíria Petroni há poucos dias, depois de perder sua escolta da Polícia Legislativa. A justificativa dada pela Câmara é absurda: por entrar em favelas, como o Complexo da Maré, que, segundo a polícia do Congresso, são territórios de altíssimo risco [como se não fossem os locais de moradia de mais de 8% dos cidadãos brasileiros]. É dizer que a atuação da parlamentar não pode se realizar dentro de favelas do seu estado. A deputada recorreu da decisão à presidência da casa, que a acatou, reestabelecendo a escolta.
Portanto, a violência política se manifesta de forma estrutural: mulheres negras frequentemente enfrentam menor acesso a recursos financeiros, menos tempo de propaganda eleitoral e pouca proteção diante de ataques. Esse cenário revela a presença do racismo institucional, que naturaliza desigualdades e dificulta o enfrentamento efetivo dessas práticas.
Caminhos para o Enfrentamento: Uma Democracia Ainda Incompleta
Especialistas, como as articuladoras políticas do Mulheres Negras Decidem, movimento que atua no monitoramento da sub-representação de mulheres negras nos espaços de poder e decisão, apontam que o combate à violência política de gênero e raça exige ações integradas e estruturais. Entre as principais medidas estão:
- Fortalecimento de legislações específicas;
- Criação de mecanismos de proteção para candidatas e mandatárias;
- Responsabilização de plataformas digitais;
- Democratização do financiamento de campanhas e do fundo partidário; e
- Mudanças internas nos partidos políticos.
Sem o enfrentamento dessas desigualdades estruturais, a democracia brasileira permanecerá incompleta. Não há representatividade plena quando vozes são sistematicamente silenciadas. Garantir a participação segura de mulheres negras na política não é apenas uma pauta identitária, é uma condição essencial para o fortalecimento democrático. Afinal, nenhum poder é sólido quando se sustenta na exclusão e no silenciamento!
Sobre a autora: Ana Tobossi é mulher preta, nascida e criada no Complexo da Penha, Zona Norte do Rio. É defensora de direitos humanos, ativista antirracista, comunicadora e educadora popular. Integra a Rede Favela Sustentável, o coletivo Mulheres Negras por Justiça Climática, articulado pela ONG Criola, e coordena a Frente Mulherista de Favelas Antirracistas, atuando na defesa dos direitos, do cuidado e da justiça para mulheres negras nas favelas e periferias.
