
Esta matéria faz parte de uma série sobre as eleições de 2026, com enfoque nas perspectivas das favelas do Grande Rio.
Em Como Nasce um Miliciano?, a jornalista Cecília Olliveira constrói uma narrativa baseada em uma investigação jornalística vigorosa que, segundo ela, levou duas décadas para ser conduzida. Rodando todo o Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense, Cecília entrevistou especialistas, ativistas, moradores de favelas, agentes das mais variadas instituições repressivas do Estado e autoridades.
Como Nasce um Miliciano é uma arqueologia das milícias no Rio de Janeiro. Publicado em 2025, o livro retrata o projeto de poder miliciano, seus tentáculos e sua participação cada vez maior nas eleições fluminenses.
A Vida e a Morte de Cabo Bené: Como Nascem os Milicianos?
Cecília traça uma análise histórico-política das milícias fluminenses desde os anos 1960. Afinal, a milícia é um fruto dos grupos de extermínio. Esses grupos justiceiros formados por policiais se proliferaram especialmente na Baixada Fluminense nos anos 1970 e 1980.

No entanto, em vez de escolher contar essa história de maneira abstrata, com marcos e informações genéricas, Cecília escolhe contar a história das milícias a partir da trajetória de Carlos Eduardo Benevides Gomes, o Cabo Bené. Assim, ela demonstra que o miliciano não surge como um “desvio” individual ou uma aberração isolada: ele é produto da engrenagem institucional, política e econômica que articula agentes do Estado, mercados ilegais e controle territorial.
“O objetivo de grandes operações [policiais] não é necessariamente desmantelar a estrutura criminosa, mas reorganizar o cenário do poder dentro das milícias e reforçar a autoridade do Estado sobre esses grupos, estabelecendo novos acordos e consolidando alianças políticas.” — José Cláudio Souza Alves

Essa escolha de Cecília não é à toa. Mais do que narrar a história de um personagem, ela usa o Bené como fio condutor para a análise de um modo de violência estatal. Contando sua história, ela fala sobre a precariedade da segurança pública, alianças escusas entre policiais e quadrilhas, sua infiltração na política, negócios e outros temas.
Isso permite ao leitor acompanhar, em escala humana, de maneira encarnada, a metamorfose de um policial militar em um miliciano. Ela se pergunta: como uma pessoa que entra na corporação através de um concurso público concorrido, estuda por anos na Academia de Polícia, se torna um assassino cotumaz, uma liderança miliciana?


Essa escolha narrativa atribui ao texto um ritmo de reportagem, mas também confere ao livro uma densidade sociológica. Bené não aparece apenas como indivíduo, fonte ou interlocutor: é a síntese de um sistema.
A ascensão de Bené revela os mecanismos pelos quais a experiência nas corporações policiais, o domínio armado do território, as redes de lealdade e o trânsito entre a legalidade e o crime se combinam para fabricar o poder miliciano.
Cabo Bené entrou para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) no início dos anos 2000, integrando o curso de formação de soldados em 2002. Segundo Cecília, esse momento é decisivo porque insere Bené não apenas numa carreira pública, mas em um universo institucional marcado pela lógica da guerra, pela valorização da virilidade tóxica armada, além de redes de sociabilidade entre policiais que extrapolam o serviço formal.
Depois de formado, Bené foi lotado no 27º BPM, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, onde conheceu Antônio Carlos de Lima, o Toinho, que se tornaria seu parceiro na milícia. A autora usa esse início para mostrar que a passagem de Bené pela polícia não foi um simples antecedente biográfico: foi ali que ele adquiriu treinamento, prestígio, acesso a armas, circulação territorial e conexões que mais tarde seriam fundamentais no mundo miliciano.
Foi por meio dessa rede de relações que Bené começou a se aproximar mais diretamente da dinâmica miliciana na região de Itaguaí e Santa Cruz. Em 2009, ele acabou expulso da PM, após ser preso por policiais civis num bar em Campo Grande por posse e porte ilegal de armas, além de outras infrações.
A expulsão, contudo, não representou uma ruptura com o universo policial. Ao contrário, marca o momento em que o capital acumulado dentro da corporação passa a ser convertido mais abertamente em capital criminoso.
Fora da PM, Bené se firma ainda mais como liderança miliciana, ao lado de Toinho. E essa parceria ajuda a explicar a mutação das milícias fluminenses nas décadas de 2000 e 2010.
Em vez de atuarem apenas como grupos armados de “segurança” e extermínio, as milícias passam a funcionar como estruturas empresariais de dominação territorial. Como verdadeiros, escritórios do crime, explorando mercados clandestinos e serviços essenciais: cobrança de taxas de proteção, controle de transporte alternativo, venda de gás, internet clandestina, entre outros.
Bené aparece, nesse contexto, como um operador importante dessa expansão em Itaguaí, município estratégico da Baixada Fluminense e da zona de influência da Zona Oeste.
“O Porto de Itaguaí [é fundamental porque chegam nele] um dos mais importantes e lucrativos itens para prestação de serviço da milícia: a TV Box, aparelho que libera, sem autorização, canais pagos e plataformas de streaming, uma evolução do ‘gatonet’.” — Cecília Olliveira
Ao longo da ascensão de Bené, ele deixa de ser apenas um executor local e passa a ocupar uma posição mais relevante no rearranjo das milícias da região. Segundo o livro, ele participou de um momento em que esses grupos já operavam de maneira mais sofisticada, inclusive, em regime de “franquia”, expandindo áreas de controle e articulando alianças políticas e econômicas.
A autora mostra que Bené não saiu simplesmente da legalidade para o crime. Ele transitou por uma zona cinzenta em que a formação policial, o uso da força, as redes de proteção e a exploração econômica do território se reforçavam mutuamente, até sua morte em 15 de outubro de 2020. Junto a outros onze homens, às vésperas das eleições municipais de 2020, Cabo Bené foi morto em uma operação policial em Itaguaí.
A morte de Bené foi apresentada como um golpe contra a milícia local. No entanto, ela funciona como prova de que a milícia é maior do que seus chefes individuais. Está enraizada em redes duradouras de proteção policial, interesses políticos, negócios territorialmente baseados e controle armado da vida cotidiana.
Várias Milícias, Novas Alianças: Uma História de Fragmentação e Hierarquia Robusta
Segundo Cecília, a primeira grande inflexão do processo histórico das milícias fluminenses foi a passagem de grupos dispersos para uma rede articulada. Isso culminou na formação da Liga da Justiça, que reuniu chefes milicianos da Zona Oeste e deu escala a um modelo antes mais fragmentado e instável.
A Liga é importante porque marca a transição da milícia como arranjo local para uma estrutura de coordenação entre territórios, interesses econômicos e proteção política. Sob esse guarda-chuva, a milícia expande seu repertório de negócios e passa a disputar não só comunidades, mas também votos, contratos públicos e influência institucional.
Ao mesmo tempo, a própria força da Liga carregava em si o germe de futuras cisões. De acordo com Cecília, a consolidação de um bloco miliciano hegemônico gerou disputas por sucessão, por arrecadação e por autonomia dos comandos locais. Em outras palavras, a “unificação” miliciana da Zona Oeste não eliminou totalmente a fragmentação, somente a reorganizou no entorno de uma hierarquia mais robusta.

O segundo momento decisivo é a ascensão da família Braga, especialmente com Carlinhos Três Pontes e, depois, Wellington da Silva Braga, o Ecko. Eles transformam essa herança da Liga em algo mais parecido com um conglomerado criminal. É aqui que Cecília Olliveira situa a passagem para um sistema de “franquias”: milícias menores ou independentes deixam de existir apenas como bandos autônomos e passam a ser absorvidas, subordinadas ou pressionadas a se integrar a uma estrutura maior, que fornece proteção, know how bélico, apoio logístico e chancela política em troca de lealdade e repasse de lucros.
A expansão para áreas como Itaguaí, Santa Cruz, Campo Grande e partes da Baixada não se deu de forma linear, mas por meio de anexações, pactos e guerras. O Bonde do Ecko torna-se, assim, um marco na história das subdivisões milicianas porque centraliza o poder, mas, ao mesmo tempo, multiplica “frentes” locais de atuação, cada uma com sua liderança, sua arrecadação e seu grau de autonomia.
Segundo Cecília, acompanhar Bené foi acompanhar a transformação de um PM em comandante de uma franquia do Bonde do Ecko. Sua atuação ao lado de Toinho mostra como o modelo das grandes milícias dependia de chefes intermediários capazes de tocar a guerra territorial e a administração dos negócios locais. Bené é, portanto, um elo entre a “grande marca” da milícia e a sua capilarização pelo Grande Rio.
Bené encarna o momento em que a subdivisão das milícias deixa de ser apenas geográfica e passa a ser também funcional, com chefes regionais responsáveis por impor a autoridade do conglomerado em áreas estratégicas. A partir daí, a história das milícias no Grande Rio é também a história de seus rachas. O caso mais emblemático é o das tensões entre Ecko e Tandera.
Hoje, no Grande Rio, há um ecossistema de facções milicianas em disputa, embora ainda estejam ligadas pela mesma lógica de negócios e pela relação com o Estado. O legado da Liga da Justiça, do Bonde do Ecko, de Tandera e outros permanece, na forma de um mercado territorializado, que combina extorsão, serviços monopolizados.
Hoje, as milícias atuam com: grilagem de terras, sobretudo em áreas de proteção ambiental; extração ilegal e mineração de areia; setor de combustíveis; negócios fraudulentos para lavagem de dinheiro; monopólio do comércio de gás, dos serviços de televisão a cabo e internet; loteamentos, exploração de aluguéis, e incorporação imobiliária; tráfico de drogas, práticas de curral eleitoral, controle armado dos territórios, cobrança de taxas de proteção, controle de transporte alternativo, assassinatos por aluguel, uso sistemático da violência como princípio regulador do mercado e de assassinatos como incidência política. Tudo isso em simbiose com o Estado e seus agentes.
Milícia Não É Poder Paralelo: É o Estado em Funcionamento
Cecília Olliveira faz questão de assentar várias vezes ao longo do livro: milícia não é um poder paralelo. É um fenômeno que cresce dentro do Estado, a partir de seus agentes, valendo-se da estrutura estatal, além de sua legitimidade simbólica. Não é à toa que as milícias já foram chamadas de polícia mineira e contavam com apoio público explícito de políticos e autoridades.
“A milícia não é um poder paralelo—é o próprio Estado funcionando em benefício de grupos criminosos, muitas vezes formados por pessoas legalmente eleitas. Não é coincidência que cinco ex-governadores do Rio tenham sido presos ou que vereadores e deputados mantenham ligações diretas com esses grupos. O que vemos não é uma falha no sistema, mas sim ele operando exatamente como foi projetado para funcionar.” — Cecília Olliveira
Por isso, Cecília e outros intelectuais se posicionam contra categorias que esvaziem a principal característica definidora de uma milícia. Esse é o caso do termo “narcomilícia”.
“Isso é uma grande mentira. A ideia de que existe uma narcomilícia é equivocada. Os militares graduados não desapareceram, eles apenas se mantêm em segundo plano por uma estratégia própria, garantindo sua permanência no sistema. O que realmente importa para esses oficiais é manter sua carreira funcional e o direito ao porte de arma, pois isso lhes permite transitar livremente por diferentes esferas da sociedade.” — José Cláudio Souza Alves
Isso demonstra uma das principais potências da jornalista: conseguir promover discussões conceituais profundas sobre categorias e seus impactos no debate sobre milícias sem soar complicada demais ou muito academicista. Outro mérito do livro está justamente em recusar explicações simplistas.
Cecília mostra que a milícia é uma forma específica de poder, sustentada por uma combinação de ethos policial, autoritarismo social, mercado ilegal e capital político. Nesse sentido, o título do livro é particularmente feliz: Como nasce um miliciano? Não remete apenas ao momento em que um policial vira bandido, mas a um processo social e institucional mais profundo, em que as fronteiras entre legalidade e ilegalidade já estão corroídas antes mesmo da adesão explícita de algum agente público ao crime.
O miliciano nasce de uma cultura de guerra e de impunidade, da masculinidade tóxica, precarizada e armada, de redes de proteção institucionais e sociais, além de um Estado que terceiriza, tolera e participa diretamente da violência, com fins também de auferir lucros. O resultado é um retrato em que a milícia aparece não como uma anomalia externa ao Estado, mas como uma atualização, que transforma o repertório de coerção estatal em um modelo de negócios e de governança territorial extremamente rentável.
Cecília Olliveira deixa como reflexão central do livro que, se a milícia é um subproduto do próprio aparato estatal, então, combatê-la exige mais do que operações policiais espetacularizadas em favelas. É preciso ir aos condomínios da Barra da Tijuca, aos gabinetes e às secretarias de Estado. Revisar a formação das polícias, os mecanismos de controle do aparato repressor do Estado, a supervisão sobre a incidência pervasiva das milícias nas eleições, sobre a infiltração das milícias nas mais diversas instâncias do Legislativo, Executivo e Judiciário, transformar a arquitetura da segurança pública, a economia política dos territórios periféricos e as alianças entre violência, voto e mercado.
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Sobre a autor: Julio Santos Filho é bacharel em Relações Internacionais (UFF) e mestre em Sociologia (IESP-UERJ), trabalha desde 2020 como editor no RioOnWatch. Em 2021, foi editor do Enraizando o Antirracismo nas Favelas, projeto medalha de prata no The Anthem Awards na categoria Diversidade, Equidade e Inclusão, como Melhor Programa de Conscientização Local, e ganhador do Prêmio Megafone Ativismo de melhor Reportagem de Mídia Independente e de duas moções de louvor e reconhecimento da Comissão Especial de Combate ao Racismo da Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
