Ato Público Ambiental: ‘Por um Futuro Sustentável com Floresta Viva, Ar Puro, Água e Terra para Todos e Mobilidade Urbana Mais Humana’

Participantes do Ato Público Ambiental em Copacabana seguram uma réplica inflável do planeta Terra durante caminhada na Avenida Atlântica. Foto: Bárbara Dias
Participantes do Ato Público Ambiental em Copacabana seguram uma réplica inflável do planeta Terra durante caminhada na Avenida Atlântica. Foto: Bárbara Dias

Esta reportagem faz parte de uma série gerada por uma parceria com o Digital Brazil Project do Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias sobre direitos humanos e justiça socioambiental nas favelas.

Dando início à semana do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no dia 5 de junho, um Ato Público Ambiental foi convocado pelo Fórum Estadual de Meio Ambiente e Agricultura do Rio de Janeiro (Femaarj). Organizado na orla de Copacabana, na Zona Sul da cidade, no dia 31 de maio, reuniu cerca de 500 pessoas, entre ativistas, participantes de movimentos populares, mobilizadores de favelas, povos originários, comunidades tradicionais, pesquisadores e cientistas. 

O movimento foi construído coletivamente por 210 entidades. Além de participarem do ato, as organizações também elaboraram uma Carta Compromisso, disponível para assinatura. Jorge Cacá, do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE-RJ), fez a fala de abertura do ato:

“Esse ato é um ato de construção coletiva. É um ato de militantes socioambientais que vieram construindo [essa manifestação] desde janeiro, tendo em vista a necessidade que nós temos de articular o movimento socioambiental e sindical do Rio de Janeiro.”

No total, 210 instituições assinaram a construção do Ato Público Ambiental.
No total, 210 instituições assinaram a construção do Ato Público Ambiental.

Ainda na concentração, o microfone permaneceu aberto para que os presentes pudessem fazer falas, denúncias e divulgar projetos e iniciativas socioambientais relevantes. Laudicéia Basílio, da Rede Socioambiental de Reciclagem Solidária e Economia Circular de Catadoras e Catadores do Rio de Janeiro, falou sobre o trabalho, quase sempre invisibilizado, dos catadores de recicláveis

“Minha militância é sobre a economia solidária e circular e as questões voltadas ao protagonismo dos catadores que desempenham as atividades da coleta seletiva sem pagamento e sem reconhecimento dos governos. Deixando claro que nós fazemos esse trabalho de limpeza, de reaproveitamento dessa matéria-prima, trazendo para a nossa base a sustentabilidade.” 

Antônio Oscar, da Rede de Comitês de Monitoramento dos Planos Municipais de Resíduos, demonstrou preocupação sobre o não cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305, de 02 de agosto de 2010):

“Todo município precisa ter um plano de gestão integrada de resíduos. E este plano, na sua elaboração e no seu acompanhamento, tem que garantir a participação social. Então, cada município precisa ter um comitê de monitoramento. Ele vai fazer justamente esse acompanhamento. Primeiro, se o município está cumprindo a lei, ou seja, se ele tem um plano. E se tem um plano, como é que está garantida a participação social? A Rede de Comitês vem tentando fazer isso de maneira articulada… A partir do plano, nós vamos verificar qual é o índice de reciclagem que cada município tem, e estabelecer metas para que… sejam priorizadas a coleta seletiva e a inclusão dos catadores.”

José Miguel, da Associação Ecocidade de Duque de Caxias, denuncia que é lançado um bilhão de litros de chorume na Baía de Guanabara por ano, segundo dados do movimento Baía Viva:

“Isso é considerado por alguns pensadores como racismo ambiental, no sentido em que leva para as cidades mais pobres o resíduo e deixa um passivo. Desde 2012, fechou o Aterro de Jardim Gramacho, porém continua vazando chorume, como sempre vazou durante três décadas. Então, a gente quer chamar atenção para esse problema, que é o chorume que vaza para a Baía de Guanabara. O Comitê de Bacia da Baía de Guanabara criou um grupo de trabalho e vem acumulando conhecimento a respeito desse problema.”

Thaysa Santos (com microfone) e demais integrantes da Rede Favela Sustentável convocaram os presentes no ato a conhecerem a Carta Climática das Favelas. Ela convidou os presentes, a assinarem o manifesto, que pede que as favelas possam ser ouvidas na centralidade das questões climáticas. Foto: Bárbara Dias
Thaysa Santos (com microfone) e demais integrantes da Rede Favela Sustentável convocaram os presentes no ato a conhecerem a Carta Climática das Favelas. Ela convidou os presentes, a assinarem o manifesto, que pede que as favelas sejam centrais nas questões climáticas. Foto: Bárbara Dias

Thaysa Santos, integrante-ponte da Rede Favela Sustentável (RFS)* e mobilizadora da Terra Afetiva, convocou todos a conhecerem a Carta Climática das Favelas:

“Nós estamos aqui representando a Rede de Favela Sustentável, que escreveu em 2025 a Carta das Favelas. [Somos os] territórios menos assistidos. A gente levou essa carta para a COP30… A gente tem que, cada vez mais, pautar o saneamento dentro das favelas, porque é onde a gente está mais sofrendo com enchentes, é onde a gente não está conseguindo ter água potável para beber. São áreas onde temos que chegar com reivindicações, temos que pautar, pois… as favelas sofreram bastante com a questão do saneamento. Tem rios desnaturalizados que a gente precisa recuperar. Precisamos fazer incidência, para que a gente possa chegar ao poder público nas construções de políticas públicas.”

A Rede Favela Sustentável marcou presença junto aos movimentos socioambientais mobilizados em defesa da justiça climática e socioambiental. Com a presença de 30 integrantes, vindos de diversas favelas da região metropolitana do Rio de Janeiro, a principal reivindicação era de que as favelas fossem colocadas no centro das decisões climáticas. Claudia Queiroga, cozinheira social, idealizadora do Bora com Queiroga, uma cozinha escola no distrito de Nova Campinas, afirmou:

“É de importância colocar a RFS, as organizações e a favela no centro dessas discussões. É para isso que nós estamos aqui. Mobilizamos a rede para que coletivos integrantes estivessem aqui, dentro desse movimento. Porque só assim, a voz de dentro das favelas será ouvida. Nós temos que estar presentes para que possamos decidir juntos e levar essa discussão para dentro das favelas.”

Integrantes da Rede Favela Sustentável que participaram do Ato Público Ambiental em Copacabana reivindicam que as favelas sejam ouvidas e estejam no centro das decisões climáticas. Foto: Bárbara Dias
Alguns integrantes da Rede Favela Sustentável que participaram do Ato Público Ambiental em Copacabana reivindicam que as favelas sejam ouvidas e estejam no centro das decisões climáticas. Foto: Bárbara Dias

Após falas que abordaram diversos temas—saneamento precário, enchentes, falta de água e doenças de veiculação hídrica, além da urgência de retomar um planejamento urbano voltado à preservação de áreas verdes nas cidades, da reciclagem, da poluição do ar e da transição energética—o ato iniciou a marcha pela orla.

Ao final, a Carta Compromisso do ato foi lida. Estava subscrita por mais de 210 grupos socioambientais e sindicais do estado do Rio de Janeiro. Dentre as pautas, estava a transformação radical da governança ambiental do estado, que deve ser pautada pela justiça climática e pelo combate ao racismo ambiental.

Puxando a frente da marcha, lia-se a faixa: “Por um Futuro Sustentável com Floresta Viva, Ar Puro, Água e Terra Para Todos e Mobilidade Urbana Mais Humana”. Foto: Bárbara Dias
Puxando a frente da marcha, lia-se a faixa: “Por um Futuro Sustentável com Floresta Viva, Ar Puro, Água e Terra Para Todos e Mobilidade Urbana Mais Humana”. Foto: Bárbara Dias

No documento, há 23 reivindicações que podem ser divididas em nove eixos prioritários:

  1. A defesa da água como direito e não mercadoria;
  2. A transição energética justa baseada em fontes renováveis;
  3. O desmatamento zero nos biomas e nas cidades com restauração florestal urbana;
  4. A despoluição das baías de Guanabara e Sepetiba;
  5. O monitoramento da qualidade do ar nos 92 municípios do estado, conforme as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS);
  6. O fortalecimento dos órgãos ambientais com concursos públicos e fiscalização;
  7. A implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos com inclusão dos catadores;
  8. A agroecologia e a soberania alimentar; e
  9. A consulta prévia a povos originários, quilombolas e comunidades tradicionais.

Veja Mais Fotos no Álbum:

Ato Público Ambiental 2026, Copacabana, 31 de maio de 2026

Sobre a autora: Bárbara Dias, cria de Bangu, Zona Oeste do Rio, é fotojornalista e fotógrafa documental desde 2016, com foco em direitos humanos, justiça socioambiental, religiosidades e territórios de favela. Comunicadora popular formada pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e graduanda em Jornalismo (UCAM), cofundou o Coletivo Fotoguerrilha (2016–2025). É licenciada em Biologia (UERJ), Mestre em Educação Ambiental (IFRJ) e professora da rede pública estadual.


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