
Esta matéria faz parte da nossa série que reflete sobre os impactos dos megaeventos no Rio de Janeiro 10 anos após os Jogos Olímpicos Rio2016.
Neste Mês dos Museus, a Vila Autódromo, comunidade onde 3% conseguiu resistir às remoções truculentas da Prefeitura, ditas para a realização dos Jogos Olímpicos de 2016, celebrou no dia 23 de maio os dez anos do Museu das Remoções e da permanência de 20 famílias no território da Zona Sudoeste. O evento reuniu moradores, artistas, ativistas e apoiadores em uma jornada de memória, cultura e afirmação do direito à cidade.
A programação teve início com o encontro mensal da Rede de Museologia Social (REMUS), que reuniu representantes de iniciativas museológicas de base comunitária para debater os caminhos da preservação da memória popular a partir dos próprios territórios. Mario Chagas, professor e diretor na Escola de Museologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), fez uma fala marcante durante o encontro:
“Esse ano são dez anos do Museu do Amanhã, dez anos do Museu das Remoções e 20 anos do Museu da Maré. Eu fico feliz de estar aqui e não estar no Museu do Amanhã, porque aqui é que está o amanhã. A possibilidade de uma transformação do mundo dos museus está aqui, não lá. Lá está o Museu Espetáculo. Tem lugar para o Museu do Amanhã? Tem lugar. Mas o que nós queremos garantir é o nosso lugar: queremos que esse lugar tenha espaço.”
Em seguida, o rapper Jef Rodriguez subiu ao palco com uma apresentação que mobilizou o público com letras carregadas de denúncia e afirmações de luta, relembrando a resistência da Vila Autódromo. A tarde seguiu com a energia lá em cima com o Skabloco, que animou os presentes ao tocar fanfarra com uma pegada de ska, misturando ritmos e arrastando moradores e visitantes.

Sandra Maria, moradora da Vila Autódromo há 30 anos, participante ativa na resistência contra as remoções e cofundadora do Museu das Remoções, fala da importância dos dez anos desde sua criação:
“Nós estamos comemorando os dez anos do Museu das Remoções, que nasce dentro desse processo de luta contra a remoção da Vila Autódromo. O Museu das Remoções é fundado como um instrumento de luta, uma ferramenta mesmo para a gente lutar contra as remoções que aconteciam naquela época e contra as ameaças de remoção em outros territórios. Hoje, também estamos comemorando dez anos de permanência da Vila Autódromo após as remoções. Porque cerca de 700 famílias foram removidas, mas 20 famílias conseguiram permanecer. Isso foi muito importante. A permanência dessas 20 famílias faz com que essa área, essa terra, esse território, continue sendo uma Área de Especial Interesse Social, que são terras destinadas à moradia popular. Então, isso é muito importante na luta pelo direito à moradia, pelo direito à cidade, pelo direito da população pobre poder habitar as áreas urbanizadas da cidade e acabar com essa coisa de quando a especulação chega, urbaniza a área, a região, valoriza de alguma forma, e a primeira coisa que eles fazem é remover a população pobre. Então, a permanência da Vila Autódromo é uma referência muito grande, fundamental, na luta pelo direito à habitação, pelo direito à moradia, pelo direito à cidade. E o Museu das Remoções é mais um instrumento nessa luta.”

Maria da Penha, uma das referências da luta contra as remoções na Vila Autódromo e co-fundadora do Museu das Remoções, relembrou também a luta e destacou a felicidade de ter permanecido em sua comunidade:
“Está sendo um dia maravilhoso, com muita esperança, com muito amor no coração, quando a gente faz a coisa certa, quando a gente luta por direito, que esse direito seja respeitado sempre. E hoje é um dia de festa… É um privilégio a gente estar aqui hoje com muitos amigos, com muitas pessoas maravilhosas, com os moradores que já moraram aqui. Então, eu me sinto muito privilegiada de ter ficado aqui e de estar continuando essa luta, porque a luta não acaba. A gente nunca sabe o dia de amanhã. Mas, enquanto a gente tá aqui, estamos vivendo com alegria e eu estou muito feliz porque estou no lugar que eu amo. E felicidade não tem preço!”

No Centro Cultural Vila Autódromo, uma reivindicação dos moradores finalmente completada pela Prefeitura, a exposição “Memória e Luta”, de Luiz Claudio e Ana Priscila, podia ser visitada com imagens e objetos que reconstituem a história da remoção da comunidade. Luiz Claudio, morador desde 1994, refletiu sobre a importância do Museu das Remoções em resposta à violência da Prefeitura, se tornando para além de um museu, um instrumento de luta popular:
“É um museu que surgiu no meio de um ato violento do Estado sobre uma comunidade legitimada pela lei, tanto é que estamos aqui até hoje e conseguimos fazer um enfrentamento contra um sistema opressor. Levamos essa luta até as vésperas das Olimpíadas, quando eles tiveram que se render e respeitar nossos direitos [dos que ainda permaneciam]. Então, para nós, tem uma importância muito grande a comemoração desses dez anos, porque nós travamos uma luta onde ninguém via possibilidade nenhuma da gente vencer [e alguns ficarem]. E foi uma coisa inédita, né? Tivemos apoiadores, que nos fortaleceram em cada momento de dificuldade. O Museu das Remoções é muito significativo não só para a Vila Autódromo; ele tem uma grande importância na luta popular: são várias as comunidades que sofrem ameaças de despejo quando há grandes empreendimentos.”

A dimensão teatral do evento ganhou um recorte militante com apresentações como a oficina de peteca, facilitada por Elihas di Jorge, que reuniu crianças e adultos na confecção do brinquedo de origem indígena, feito com materiais simples. Depois disso, Maria Madeira se apresentou ao público com uma contação de história acompanhada pelo teatro de formas animadas. Por último, a performance “Remoções”, de João Maturo, reproduziu artisticamente as memórias da violência sofrida pelos moradores, ressignificando a dor em linguagem artística. Em um trecho de fala de sua apresentação, Maturo, empunhando um megafone, disse ao público presente:
“É por isso que é preciso resistir, para que jamais aconteça de novo o que aconteceu aqui. Mais do que resistir: é preciso ocupar! A luta não está ganha… Precisamos resistir! Para que atos como esse nunca mais voltem a se repetir. Memória não se remove!”
A história da Vila Autódromo tem como cicatriz a remoção arbitrária de aproximadamente 700 famílias. Foi uma tentativa, perpetrada pela Prefeitura, de destruição de uma comunidade inteira e de suas memórias. A permanência das 20 famílias remanescentes no território e os dez anos do Museu das Remoções falam por si: sem luta não há vitória e a memória não pode ser removida.
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Sobre a autora: Bárbara Dias, cria de Bangu, Zona Oeste do Rio, é fotojornalista e fotógrafa documental desde 2016, com foco em direitos humanos, justiça socioambiental, religiosidades e territórios de favela. Comunicadora popular formada pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e graduanda em Jornalismo (UCAM), cofundou o Coletivo Fotoguerrilha (2016–2025). É licenciada em Biologia (UERJ), Mestre em Educação Ambiental (IFRJ) e professora da rede pública estadual.

