
Dez anos após a conclusão do período traumático de remoções olímpicas no Rio de Janeiro, que impactou 80,000 pessoas em toda a cidade, a comunidade Vila Autódromo, na Zona Sudoeste ao lado do Parque Olímpico, continua como referência de luta. Das 600-700 famílias que moravam no local antes das Olimpíadas de 2016, ao final permaneceram 3%, ou 20. E mais de 80% da área original hoje é coberta por capim e árvores, manutenção que cai sobre os moradores remanescentes.
Na manhã de sábado, dia 11 de abril, uma ação coletiva de cuidado—tradição de longa data—em uma área verde da comunidade evidenciou a mobilização em prol do local e do Museu das Remoções. O mutirão representa o cuidado com a memória do território e se coloca como uma resposta à falta de cuidados por parte da Prefeitura. Moradores, voluntários e parceiros se reuniram para garantir, com as próprias mãos, a manutenção do percurso expositivo do Museu das Remoções. A atividade integrou a Agenda Coletiva da Rede Favela Sustentável.*
“Em maio, a gente tem a comemoração de dez anos da permanência da comunidade. Dez anos dessa vitória da Vila Autódromo! A gente tem [também] a comemoração dos dez anos da criação do Museu das Remoções e a gente tem um percurso de memórias construído pelo museu, que é uma iniciativa premiada pelo IPHAN e visitada internacionalmente. Mas o percurso estava encoberto pelo mato, por falta de manutenção da Comlurb. Essa é uma forma de gerar uma sensação de abandono e de insegurança. [Por isso estamos aqui hoje capinando e limpando, para realizar a comemoração!]” — Sandra Maria
Nathalia Macena, moradora cria da Vila Autódromo, conduziu o grupo composto em sua maioria por mulheres. A distribuição de ferramentas, o alinhamento das tarefas e o deslocamento até a área que precisava de intervenção aconteceram às 9h, dando-se início ao trabalho. Em meio a muito capim e plantas invasoras, o esforço coletivo, o suor nos rostos e os sorrisos tornaram evidente o sentimento de realização.

Com enxadas e facões em mãos, as participantes iniciaram o corte do mato mais resistente para abrir caminho em trechos onde o acesso ainda era difícil. Força, repetição e precisão eram as habilidades presentes na capina, no revolvimento do solo e na remoção manual de todo o material orgânico. Aos poucos, o que antes era um campo tomado pelo mato, que encobria as placas do Museu, começava a revelar o chão de terra e a se tornar novamente um espaço de memória utilizável.
A biodiversidade sempre marcou o território da Vila Autódromo, assim como as dificuldades e o descaso na relação com o poder público. Somente de árvores frutíferas estão presentes abacate, manga, carambola, seriguela, tangerina, jamelão, goiaba, jambo, caqui, jenipapo, graviola, tamarindo, inclusive várias que sobreviveram dos jardins das casas demolidas. Com seu cultivo crescente de frutas a Vila hoje abastece moradores e visitantes. Além disso famílias de capivaras e a sua preservação sempre estiveram presentes nas ações ao longo dos anos.
“Durante o processo de remoção, a Prefeitura cortou 500 a 600 árvores, muitas protegidas por lei ambiental. Nossa rua de entrada da comunidade era toda arborizada com árvores frutíferas. Em dois dias, eles cortaram 200 árvores. Aí, você que morava num território verde, de repente se via num ambiente abafado, cinza, quente, sufocante, ensolarado porque não tinha mais sombra. No final, a gente se depara com um ambiente desmatado e começamos um processo de replantio. Aqui no meu quintal hoje eu tenho um limoeiro, uma graviola, pé de laranja, pitangueira, acerola, goiabeira, mamoeiro, jabuticabeira, ora-pro-nobis, abacateiro, mangueira, babosa, chia, açafrão, tomate e taioba. Em outros quintais, tem cana de açúcar, capim-limão, erva cidreira.” — Sandra Maria
Dentre as iniciativas dos moradores da Vila Autódromo com relação à preservação da biodiversidade local, o Museu das Remoções instalou duas placas nas entradas alertando os motoristas, ciclistas e pedestres a terem cuidado com os animais, especialmente com as capivaras—para que elas não sejam atropeladas, alimentadas e nem caçadas no território.
Luiz Claudio Silva, um dos principais responsáveis pelas recentes plantações de muda no território, destaca que o correto seria a subprefeitura instalar as placas de alerta, como faz em condomínios vizinhos. Por isso, os moradores se vêem obrigados a agir. E, mesmo quando a Prefeitura atende às demandas, demora-se muito.
“A Vila Autódromo sempre foi um território com muitas árvores, tanto nos quintais das casas que foram removidas, quanto nas ruas. Era uma área muito arborizada. Eu tenho, do período da remoção, documentos vindos da Prefeitura e da Secretaria de Meio Ambiente, com licença assinada pelo secretário autorizando o corte de 362 árvores em um documento apenas. Eles vinham para cortar e mostravam o documento e eu tirava foto. Eu tenho documentos de 100 árvores, 200 árvores. Quando [o que restou da] comunidade foi urbanizada, quase não tinha árvore aqui. Ficou aquele campo aberto e a gente no meio. Aí, começamos esse trabalho de reflorestamento. São muitas espécies, frutíferas e nativas.” — Luiz Claudio Silva
Ele também compartilhou a situação com relação à presença da Comlurb na Vila Autódromo.
“As praças [da comunidade] precisam de manutenção no máximo uma vez ao mês e eles vêm aqui a cada três, quatro meses. Eu tirei foto do mato cobrindo os brinquedos e com o mato maior do que a minha esposa na praça.” — Luiz Claudio Silva

Presente no mutirão com sua filha e neto, Sandra destacou a importância da união dos moradores de favela. Durante uma pausa no trabalho, afirmou ver como fundamental haver mais oportunidades de ações coletivas realizadas por moradores de favelas de toda a cidade, organizados em rede.
“O mutirão foi importante por várias situações. Primeiro, pela união do movimento social mesmo, pela importância desse trabalho que a Rede Favela Sustentável realiza que une as favelas, que possibilita essa conexão, trabalho coletivo. Isso quebra aquele isolamento [ao qual] as favelas são submetidas pelo Estado e pelas realidades sociais. A sociedade tem medo das favelas. Fora as dificuldades sociais, econômicas que a população favelada é submetida, é uma correria, uma luta diária pela sobrevivência. Ficamos muito empenhados em sobreviver e como que a gente se organiza dentro disso, né?
Nós tivemos aqui pessoas que vieram de muito longe, pessoas que vieram da Ilha do Governador, de Sepetiba, pra apoiar nosso território, nossa luta. Então, isso é maravilhoso. Nós vivemos num território que o poder público tenta manter abandonado a todo custo. A área que está vazia, onde antes moravam 600 famílias, que foram removidas de forma violenta, hoje, está abandonada pelo poder público, coberta de mato, com uma proliferação muito grande de árvores e espécies invasoras que destroem as nativas.” — Sandra Maria

Sandra também cita a Comlurb como uma das entidades públicas a negligenciar a comunidade:
“A gente tem uma situação com a Comlurb, que deveria fazer a manutenção desse território e não faz. A área [da comunidade] próxima ao hotel [Courtyard da Marriott que fica em uma área originalmente da comunidade] é [mantida] limpa, mas depois das casas [da comunidade] é uma área que, para eles limparem, a gente precisa colocar vários ofícios, reclamar, ir lá, exigir, conseguir contatos dentro da Comlurb. É um trabalho muito desgastante, cansativo e que nem sempre a gente consegue fazer.”

Entre memórias de luta pela permanência no território, o mutirão ganhou um significado que foi além da ação coletiva naquele sábado. Para Sandra, ações como essa conectam passado, resistência e o sentido do trabalho coletivo realizado hoje. Com três gerações de sua família capinando sob forte sol, Sandra, com seu facão na mão, conta:
“Eu posso dizer que participar da resistência, dessa luta criou um marco na minha história de vida e como pessoa. Existe uma mulher antes das remoções e uma mulher depois das remoções. Isso mudou a minha forma de ser mulher e as relações com a minha família, de lutar por esse território, pela casa… Foi um aprendizado familiar e eu sinto que a mensagem que foi passada para minhas filhas foi uma mensagem de força, de uma mulher que luta e que é possível vencer, porque nós estamos aqui. A realidade da mulher é algo muito difícil, a gente sabe disso. A gente vive numa sociedade machista, patriarcal, todos os direitos que as mulheres possuem foram conquistados a partir de muita luta: até mesmo com a vida de muitas… Eu que tenho três filhas, fica uma sensação de dever cumprido. Não devemos aceitar que nos tirem nossos direitos, os silenciamentos, mas sim arregaçar as mangas, lutar e conquistar nossos espaços, a nossa vida e a nossa liberdade.”

Sandra chama atenção para as mulheres da Vila como as principais responsáveis pela luta pela permanência no território:
“A liderança visível das mulheres é maravilhoso e faz parte, inclusive, do histórico de luta da Vila Autódromo. Na resistência no período da remoção era algo que já chamava atenção, era muito forte. Sempre foi uma característica dessa luta ter um número de mulheres muito significativo. Na luta pelo direito de habitação, de alguma forma, elas são maioria, [por estarem] mais conectadas com a família e esses direitos.”

Nathalia Macena, responsável pela coordenação do mutirão, compartilha os resultados e os próximos passos da ação. Para ela, o mais importante é que o trabalho continue. Exibindo o material orgânico organizado para descarte, ela fala:
“O mutirão foi bem produtivo, apesar de não termos conseguido realizar o plantio de mudas. O mais necessário era fazer a capina do mato, que cresce muito rápido e, infelizmente, não conseguimos mantê-lo baixo sozinhas. Com frequência, solicitamos que a Comlurb realize a poda do mato. Normalmente, eles fazem [só] na área mais próxima do hotel. A área que fizemos o mutirão fica mais esquecida, não é limpada com a frequência necessária, por isso, o mato fica alto demais, colocando a segurança das pessoas em risco, tanto dos moradores da Vila, quanto dos pedestres que caminham na ciclovia… Foi bacana receber pessoas de outras comunidades e voluntários que ficaram sabendo do nosso mutirão e vieram somar conosco. Trocamos experiências, o que gera novos aprendizados. Apesar do mutirão ter sido uma atividade pontual, ele não termina ali.”
*A Rede Favela Sustentável e o RioOnWatch são ambas iniciativas realizadas pela organização sem fins lucrativos, Comunidades Catalisadoras.
Sobre o autor: Alexandre Cerqueira, morador do Lins, Zona Norte, é formado em Relações Internacionais e desenvolve projetos de educação básica nas favelas a partir da fotografia e produção de vídeo como ferramentas de linguagem.
