Cruzada São Sebastião: 70 Anos!

O programa da Cruzada São Sebastião baseava-se no tripé 'urbanizar, humanizar e cristianizar'

Favelas às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Fonte: Núcleo de Memória da PUC-Rio
Favelas às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Fonte: Núcleo de Memória da PUC-Rio

Entre as margens da Lagoa Rodrigo de Freitas e o bairro do Leblon existiu, durante grande parte do século XX, uma das maiores favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro: a Praia do Pinto. Ali, viveram cerca de 9.000 moradores até 1969, quando um incêndio destruiu grande parte dos barracos e marcou o fim da comunidade. Em sua maioria, eram trabalhadores da construção civil, dos serviços domésticos e das fábricas da região—homens e mulheres que, apesar de viverem em condições precárias, participavam ativamente da construção e do funcionamento cotidiano da cidade.

Junto com a Praia do Pinto, várias favelas se espalham às margens do espelho d’água da Lagoa: Pedra do Bahiano (onde hoje está o Shopping Leblon), Catacumba, Ilha das Dragas, Piraquê, Macedo Sobrinho e Largo da Memória.

A Praia do Pinto, em especial, expressava de forma evidente a profunda desigualdade social que caracterizava o Rio de Janeiro naquele período. Barracos de madeira, erguidos sem saneamento básico ou infraestrutura urbana, coexistiam ao lado de clubes, edifícios residenciais e áreas valorizadas que se multiplicavam com a expansão imobiliária do Leblon. No entanto, a precariedade da favela era socialmente construída, já que o Serviço Social da Fundação Leão XIII exercia um forte controle sobre as construções, proibindo expansões e construções em alvenaria. Segundo o historiador Rafael Soares Gonçalves, tratava-se de uma espécie de tolerância precária, ou seja, tolerava-se a favela, mas não a reconhecia como parte da cidade. Ela deveria manter seus aspectos precário e provisório e estaria fadada a desaparecer. A favela não poderia se consolidar.

Frequentemente retratada pelos jornais da época como espaço de “doença”, “desordem” ou “perigo”, a Praia do Pintos era um lugar de intensa vida coletiva e de fortes redes de sociabilidade: filas na bica d’água, lavadeiras trabalhando às margens da Lagoa, pequenos comércios, biroscas, terreiros, clubes sociais, festas, escola e blocos de carnaval faziam parte da paisagem social da favela. Ali, se construíam laços de solidariedade, estratégias de sobrevivência e formas próprias de organização da vida cotidiana. Longe de ser apenas um espaço de carência, a comunidade era um território de pertencimento e identidade para milhares de famílias.

Foi nesse contexto que, nos anos 1950, surgiram intensos debates sobre a questão da moradia popular e o futuro das favelas cariocas. Entre as iniciativas que buscavam responder a esse problema urbano estava a criação da Cruzada São Sebastião. Idealizada em 1955 por Dom Hélder Câmara, então bispo auxiliar do Rio de Janeiro, a Cruzada era uma instituição ligada à Igreja Católica, que pretendia enfrentar o chamado “problema das favelas” por meio de um projeto que combinava urbanização, assistência social e formação moral.

O programa da Cruzada São Sebastião baseava-se no tripé “urbanizar, humanizar e cristianizar”. A proposta era promover melhorias urbanas nas favelas e, ao mesmo tempo, incentivar formas de organização comunitária e valores inspirados na doutrina social da Igreja. O projeto tinha também um objetivo ambicioso: urbanizar as favelas do Rio de Janeiro até o quarto centenário da cidade, celebrado em 1965. Para viabilizar suas ações, a instituição contou com recursos provenientes de subvenções públicas, doações privadas e concessões de terrenos feitas pelo Estado.

Entre as diversas iniciativas promovidas pela Cruzada, a mais conhecida foi a construção do Bairro São Sebastião, no Leblon. O conjunto habitacional, hoje popularmente conhecido como simplesmente Cruzada, começou a ser erguido em 1955 e foi concluído em 1962. O projeto previa a construção de dez edifícios de sete andares, totalizando cerca de 900 apartamentos destinados ao reassentamento de famílias provenientes das favelas do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas, especialmente da Praia do Pinto.

O projeto possuía uma característica que o diferenciava de muitas políticas urbanas implementadas posteriormente na cidade. Em vez de remover os moradores para áreas distantes da Zona Sul, a Cruzada defendia a permanência dessas famílias na mesma região onde já viviam e trabalhavam. Segundo Dom Hélder Câmara, aproximar classes sociais distintas seria uma forma de enfrentar as desigualdades urbanas e reduzir os conflitos sociais que marcavam a cidade.

Documento sobre o bairro São Sebastião. Fonte: Núcleo de Memória da PUC-Rio
Documento sobre o bairro São Sebastião. Fonte: Núcleo de Memória da PUC-Rio

A seleção das famílias que ocupariam os apartamentos foi realizada pelo Serviço Social da Cruzada em parceria com a Fundação Leão XIII. Uma vez instalados no novo conjunto habitacional, os moradores passaram a ser acompanhados por assistentes sociais e por iniciativas comunitárias promovidas pela Cruzada. O trabalho social desenvolvido buscava orientar a organização da vida doméstica e comunitária, incentivando padrões de comportamento considerados adequados pela instituição.

Nesse sentido, o projeto habitacional da Cruzada não se limitava apenas à construção de moradias. Ele também refletia uma tentativa de promover uma transformação social e moral dos moradores. Inspiradas nos valores católicos e na disciplina do mundo do trabalho, diversas iniciativas pedagógicas foram implementadas no conjunto habitacional. Regras de convivência e orientações voltadas para homens, mulheres e crianças faziam parte desse esforço de formação de novos hábitos considerados compatíveis com a vida urbana formal: Decálogos das Legionárias de São Jorge para mulheres; Cavalheiros de São Sebastião para homens e Pequeninos de São Cosme e Damião para crianças.

Interior dos apartamentos da Cruzada São Sebastião. Fonte: Acervo Núcleo de Memória da PUC-Rio
Interior dos apartamentos da Cruzada São Sebastião. Fonte: Acervo Núcleo de Memória da PUC-Rio

Os apartamentos construídos no Bairro São Sebastião foram vendidos às famílias por meio de prestações mensais que variavam de 8% a 15% do salário mínimo. O pagamento seria realizado ao longo de 15 anos, ao final dos quais, os moradores deveriam receber o título de propriedade de suas unidades habitacionais. Para muitas famílias, a possibilidade de se tornarem proprietárias de um apartamento em um dos bairros mais valorizados da cidade representava uma mudança significativa em relação às condições de moradia anteriores.

Entretanto, a promessa de acesso à propriedade não se concretizou no prazo previsto. Após o pagamento das prestações, os moradores descobriram que não poderiam registrar seus apartamentos em cartório, pois o terreno onde o conjunto havia sido construído nunca foi formalmente transferido pelo governo federal à Cruzada São Sebastião. Essa situação de insegurança jurídica permaneceu por décadas. A regularização começou a ser resolvida apenas nos anos 1980, quando o governo do estado do Rio de Janeiro, durante a gestão de Leonel Brizola, incluiu o conjunto habitacional no programa de regularização fundiária Cada Família um Lote. A iniciativa permitiu, finalmente, a emissão dos títulos de propriedade para os moradores, garantindo o reconhecimento legal de suas moradias.

Conjunto de prédios do Bairro São Sebastião. Fonte: Núcleo de Memória da PUC-Rio
Conjunto de prédios do Bairro São Sebastião. Fonte: Núcleo de Memória da PUC-Rio

Atualmente, cerca de 4.000 pessoas vivem na Cruzada. Ao lado de moradores que ainda pertencem às primeiras gerações vindas da Praia do Pinto, novas famílias passaram a ocupar o bairro ao longo das décadas. Por outro lado, parte dos apartamentos é alugada para estrangeiros atraídos pela localização privilegiada e por valores relativamente acessíveis para estadias temporárias. Segundo Joel Luiz Nonato, presidente da Associação de Moradores do Bairro São Sebastião do Leblon (AMORABASE), os aluguéis no conjunto variam atualmente entre R$ 1.200 e R$ 1.800. Já a compra de um apartamento pode custar entre R$200.000 e R$400.000, dependendo do tamanho e das características do imóvel. De qualquer forma, a maioria dos moradores ainda é composta por antigos moradores da Praia do Pinto e seus familiares.

Também é muito comum observar processos de ascensão interna no bloco. Isto é, moradores que se mudaram inicialmente para os apartamentos conjugados, depois compraram apartamentos com um ou dois quartos em outros blocos.

Nesse contexto de transformações sociais e permanência no território, a associação de moradores AMORABASE organizou, em novembro de 2025, uma festa para celebrar os 70 anos da Cruzada São Sebastião. A comemoração durou três dias e reuniu diversas atrações culturais e comunitárias. A abertura do evento foi marcada por uma procissão e pela instalação de uma estátua de madeira de São Sebastião em um oratório construído na entrada do conjunto pela Avenida Borges de Medeiros, em frente ao Jardim de Allah.

Tendo em vista que um dos principais objetivos da AMORABASE era valorizar a trajetória social e residencial de seus moradores e transmiti-la às gerações mais novas, que nem sempre estão familiarizadas com essa história, diversas atividades de memória da Cruzada foram realizadas em parceria com o Departamento de Serviço Social da PUC-Rio. Inicialmente, os pesquisadores Flavia Leone, Lohana Campos e Rafael Soares Gonçalves selecionaram fotografias da Cruzada São Sebastião e da Praia do Pinto, pertencentes ao acervo do Núcleo de Memória da PUC-Rio. Em seguida, foram organizados plantões para coleta de fotografias antigas preservadas pelos próprios residentes, em colaboração com os produtores visuais e residentes da comunidade, Alex Brito e Giulia Marinho. Esse trabalho de reconstrução da memória por meio da fotografia resultou em 12 painéis expostos nas entradas dos dez blocos do conjunto.

Painéis de fotografias para a festa dos 70 anos da Cruzada. Fonte: Acervo pessoal
Painéis de fotografias para a festa dos 70 anos da Cruzada. Fonte: Acervo pessoal

Ao longo da festa, moradores mais antigos se emocionavam ao relembrar suas trajetórias e histórias de vida, enquanto os mais jovens se surpreendiam com as transformações do bairro e com as imagens da antiga favela da Praia do Pinto. Além da exposição, um seminário foi organizado pelo laboratório de pesquisa LEUS, do Departamento de Serviço Social da PUC-Rio, reunindo pesquisadores e moradores da Cruzada em um espaço de troca sobre a história do conjunto, as experiências de moradia e os desafios de preservar a memória e o futuro da comunidade.

Mesmo após 70 anos de sua construção, a Cruzada São Sebastião permanece como um caso singular na História urbana do Rio de Janeiro. Ao contrário das políticas de remoção que historicamente expulsaram moradores de favelas—majoritariamente negros—para periferias cada vez mais distantes da cidade, a Cruzada representa uma rara fissura nessa lógica segregacionista: um conjunto habitacional popular situado no coração do Leblon, em uma das áreas mais valorizadas do país.

A mera presença dessa comunidade testemunha uma história de permanência no território e de reinvenção cotidiana da vida urbana. As iniciativas de memória e as celebrações organizadas pelos moradores mostram que a história da Cruzada não pertence apenas ao passado das políticas habitacionais da cidade, mas segue viva nas trajetórias de quem habita o lugar e continua a desafiar o imaginário dominante sobre quem pode ocupar determinados espaços da cidade do Rio de Janeiro.

Para saber mais, assista o programa “Remoção da Favela da Praia do Pinto” em quatro partes, produzido pela TV Brasil:

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

Parte 4:


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