Sustentabilidade Para Quem e Para Quê? Sem Transição Econômica, Catadores Sofrem as Contradições Socioambientais do Discurso Verde em Jardim Gramacho, Bairro de Duque de Caxias

"Depois do fechamento do lixão, praticamente nada mudou… nada melhorou, só piorou."

Moradores de Jardim Gramacho convivem com materiais recicláveis e resíduos sólidos graças à negligência do Estado em meio ao fechamento do Lixão e a promessas não cumpridas. Foto: Joelma Araújo
Moradores de Jardim Gramacho convivem com materiais recicláveis e outros resíduos sólidos por conta da negligência do Estado em meio ao fechamento do lixão e promessas não cumpridas. Foto: Joelma Araújo

Esta reportagem faz parte de uma série gerada por uma parceria com o Digital Brazil Project do Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias sobre direitos humanos e justiça socioambiental nas favelas.

Jardim Gramacho, bairro localizado no município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, região do Grande Rio, materializa de forma concreta a contradição entre o discurso da sustentabilidade e a negação de condições dignas de vida às populações que vivem às margens do chamado “desenvolvimento sustentável”. Situado na beira da Rodovia Washington Luiz, na foz dos rios Sarapuí e Iguaçu, o território é circundado por uma extensa faixa de manguezais inseridos no bioma da Baía de Guanabara. Trata-se, portanto, de um território de elevada relevância ecológica e geopolítica, marcado pela presença de manguezais que desempenham papel essencial na manutenção da biodiversidade e no equilíbrio dos sistemas costeiros da baía.

Sua proximidade com o centro urbano do Rio de Janeiro intensifica as pressões sobre o uso e a apropriação desse espaço, evidenciando conflitos entre interesses econômicos, dinâmicas urbanas e a necessidade de preservação ambiental. A apenas oito quilômetros, em linha reta, do Centro da cidade do Rio de Janeiro, a proximidade física com uma das regiões mais valorizadas do país contrasta com a negligência do Estado, a precarização das condições de moradia e a ausência de infraestrutura adequada em Gramacho.

Imagine ter vergonha do lugar onde mora. Ser impedido de fazer um simples churrasco devido à insalubridade do ambiente. Trabalhar diariamente e, ainda assim, conviver com resíduos espalhados pelas ruas e com o chorume escorrendo à beira do quintal. Não conseguir realizar uma refeição sem a presença constante de moscas sobre o prato. Essa é a realidade do racismo ambiental enfrentado por moradores de Jardim Gramacho.  

Com o fechamento sem planejamento do Lixão de Gramacho, catadores tiveram que se virar, ao serem abandonados pelo discurso verde e pelo Estado. Foto: Joelma Araújo
Com o fechamento sem planejamento do Lixão de Gramacho, catadores tiveram que se virar, ao serem considerados só por um falso discurso verde e abandonados pelo Estado. Foto: Joelma Araújo

Existe Sustentabilidade Sem Justiça Socioambiental?

O território que abrigou o maior aterro sanitário da América Latina carrega marcas profundas de desigualdade socioambiental. Durante décadas, os resíduos produzidos pelo Grande Rio foram destinados ao bairro, delegando à população local a convivência cotidiana com impactos ambientais, riscos sanitários e estigmatização social. Enquanto relatórios oficiais e campanhas institucionais celebram metas sustentáveis, os moradores continuam enfrentando saneamento insuficiente, limitações de acesso a serviços públicos e restrições ao pleno exercício de direitos fundamentais.

Para Laiane Oliveira, 28 anos, moradora de Jardim Gramacho e batedora de material reciclável, “o que mais me afeta no dia a dia é a sujeira e o ar poluído. As ruas têm muito lixo, é muita sujeira mesmo”.

Já para Larissa Pacheco, 30 anos, assistente social formada pela UFRJ, moradora de Jardim Gramacho e filha de catador, “por muito tempo vivi sem acesso à água potável e, ainda hoje, vejo muitos moradores sem acesso a esse direito básico”.

A lógica que sustenta esse modelo perverso revela uma seletividade estrutural: o discurso verde é frequentemente mobilizado como estratégia de mercado, enquanto comunidades periféricas seguem tratadas como zonas de sacrifício. O discurso da sustentabilidade protege paisagens, mas negligencia pessoas.

“Quando eu ouço falar de sustentabilidade, penso que isso também tem que incluir a gente, incluir a nossa renda, o nosso sustento. Depois do fechamento do lixão, praticamente nada mudou… nada melhorou, só piorou.” — Laiane Oliveira

Milhares de catadores, que dependiam diretamente da atividade no aterro foram abruptamente privados de seu sustento com o fechamento em 2012. A ausência de uma transição econômica estruturada aprofundou vulnerabilidades já existentes.

“Falar de sustentabilidade também é reconhecer o trabalho dos catadores, que ainda são muito desvalorizados. Para muitas famílias, o lixão era o sustento, então, o encerramento [sem transição e planejamento] não foi algo positivo.” — Larissa Pacheco

Paralelamente, movimentos sociais formados por moradores, catadores, lideranças comunitárias e instituições locais passaram a protagonizar processos de resistência e reivindicação. Suas ações fortalecem redes de apoio, promovem formação política e reafirmam a identidade territorial e pertencimento. Contudo, a responsabilidade pela transformação estrutural de Jardim Gramacho não pode ser transferida para a sociedade civil. 

O povo de Jardim Gramacho se pergunta sustentabilidade para quem e para quê, enquanto vive a vulnerabilidade socioambiental. Foto: Joelma Araújo
Enquanto vive a vulnerabilidade socioambiental o povo de Jardim Gramacho se pergunta: sustentabilidade para quem e para quê? Foto: Joelma Araújo

Discurso Verde vs. Realidade em Jardim Gramacho

Após o fechamento do lixão, foi anunciado pelos governos um projeto de revitalização do território. Entre as medidas previstas, estavam a criação de cooperativas de reciclagem estruturadas, construção de conjunto habitacional, implementação de creches, instalação de polo de cursos preparatórios e qualificação profissional, além de melhorias significativas na infraestrutura urbana.

“Foram feitas muitas promessas, como a revitalização do território, mas não se concretizaram na prática.” — Larissa Pacheco

Conforme afirmado pela moradora, a materialização dessas promessas ocorreu de forma parcial. A instalação da estação de biogás, construída em uma área superior a três hectares, tornou-se um dos principais marcos do pós-aterro. O empreendimento passou a operar aproveitando os gases gerados pelos resíduos acumulados ao longo de décadas, transformando passivos ambientais em ativos econômicos. Entretanto, enquanto a dimensão produtiva foi consolidada, a reparação social permaneceu insuficiente: “Ainda há muitas mudanças necessárias, principalmente em infraestrutura, saúde e acesso a direitos básicos,” completa Larissa.

Infográfico Discurso Verde vs A Realidade de Jardim Gramacho. Feito por: Joelma Araújo com auxílio do Gemini
Infográfico Discurso Verde vs. A Realidade de Jardim Gramacho. Feito por: Joelma Araújo com auxílio do Gemini

Mesmo com instrumentos legais e investimentos previstos, os “projetos de revitalização” não foram implementados. Isso deixa dúvidas sobre onde os recursos estão sendo aplicados. Para a comunidade só restou discurso de sustentabilidade calcado na repressão, como na Operação Barreira Sanitária da Baía de Guanabara.

Sem a infraestrutura prometida pelo Estado, sobram a sabedoria popular e a improvisação para o povo de Jardim Gramacho. Foto: Joelma Araújo
Sem a infraestrutura prometida pelo Estado, sobram a sabedoria popular e a improvisação para o povo de Jardim Gramacho. Foto: Joelma Araújo

Promessas Não Cumpridas de Transição Econômica: Catadores Perderam Autonomia

Além das promessas não cumpridas e do fechamento do aterro sem uma transição econômica efetiva para os catadores, a partir de 2012 observa-se também a intensificação da desvalorização dos materiais recicláveis. Esse processo está diretamente relacionado à forma desigual como se estrutura a cadeia produtiva da reciclagem no Brasil, na qual os catadores ocupam a base, vendendo materiais a preços baixos para os depositistas, que concentram maior parte do valor agregado, tornando esses trabalhadores altamente vulneráveis às oscilações do mercado.

No contexto de Jardim Gramacho, essa desvalorização foi agravada por uma mudança concreta na relação entre oferta e demanda. Enquanto o aterro sanitário ainda funcionava, havia grande circulação de resíduos, chegando a 8.000 de toneladas diárias, e uma intensa concorrência entre depósitos locais, que estruturavam um verdadeiro arranjo produtivo no entorno do aterro. Os depositistas subiam até a rampa para disputar diretamente o material coletado, oferecendo melhores valores aos catadores, que tinham maior autonomia sobre sua produção e renda. Com o encerramento das atividades do aterro, essa dinâmica foi desestruturada: reduziu-se drasticamente, e também o número de depósitos compradores, o que enfraqueceu o poder de negociação dos catadores.

Paralelamente, a expansão dos lixões clandestinos instituiu uma nova lógica de controle, na qual o acesso à coleta de materiais recicláveis passou a ser mediado pelos donos desses espaços, que cobram para a catação e impõem preços mais baixos na revenda. Nesse cenário, além de perderem o acesso direto ao material, os catadores passaram a arcar com custos para trabalhar, além de terem passado a vender sob condições impostas. Este é o cenário enfrentado por catadores como Josias Silva, 50 anos:

“Quando a rampa existia, eu conseguia fazer o meu valor: eu conseguia fazer o meu sustento a partir do que eu determinava. Se eu quisesse ficar uma noite na rampa e catar 10 lonas de R$30 cada, eu conseguia. Hoje, eu não consigo fazer uma lona sem que eu tenha que ter esse valor reduzido. Essa lona já não é mais esses R$30, é o valor que o depositista quer pagar. Hoje, ficou muito mais difícil catar. A minha saúde tem ido embora, mas eu não tenho outra opção.”

A ausência de um ponto fixo de coleta reorganizou, de forma precária, a dinâmica do trabalho em Jardim Gramacho. Espalhados entre ruas e áreas de descarte irregular, moradores e catadores passaram a enfrentar maior instabilidade e menor poder de negociação.

Sem espaço adequado de trabalho, catadores são obrigados a guardar seus materiais recicláveis até nas calçadas de suas casas. Foto: Joelma Araújo
Sem espaço adequado de trabalho, catadores são obrigados a guardar seus materiais recicláveis até nas calçadas de suas casas. Foto: Joelma Araújo

Nesse contexto, a promessa de melhorias após o encerramento das atividades no antigo aterro não se concretizou para quem segue dependendo da reciclagem como principal fonte de renda. A precarização também se expressa nas condições de trabalho e na baixa remuneração, desproporcionais ao esforço exigido diariamente. Sobretudo diante das dificuldades, a permanência na atividade revela a escassez de alternativas concretas para esses trabalhadores.

“Foi prometido que iam ajudar os moradores, que ia ter melhorias, mas isso não aconteceu… [Hoje,] o pagamento é muito baixo pra quem trabalha no sol, na chuva, o dia todo em pé. Eu trabalho com reciclagem… é muito trabalho pra pouco retorno.” — Laiane Oliveira

A Pirâmide da Falsa Sustentabilidade

Na sequência dessa cadeia estão os chamados batedores, responsáveis por separar, classificar e organizar os recicláveis. Estes trabalhadores atuam sob sol e chuva, em meio a lixo, ratos e moscas, frequentemente sem equipamentos de proteção adequados. A atividade ocorre em condições precárias, com impactos diretos sobre a saúde e a expectativa de vida desses trabalhadores.

O material separado segue, de onde é revendido, muitas vezes, para fora do estado, agregando valor ao longo da cadeia produtiva nacional. É a partir desse processo que se consolida a tão celebrada reciclagem, apresentada como símbolo de responsabilidade ambiental e sustentabilidade. No entanto, esquecem-se dos catadores e da vulnerabilidade socioeconomica a qual eles e elas estão expostos. A reciclagem gera lucro, melhora indicadores ambientais e fortalece narrativas institucionais, mas continua assentada sobre desigualdades profundas.

Nesse contexto, evidencia-se a pirâmide da falsa sustentabilidade: na base, estão catadores e trabalhadores da reciclagem, expostos a condições precárias e a danos muitas vezes irreversíveis; no meandro, os donos de depósitos e depositistas, responsáveis pela concentração e comercialização dos materiais; e, no topo, as empresas que se beneficiam economicamente desse processo. A manutenção dessa estrutura revela que as irregularidades não são pontuais, mas parte de um sistema que se sustenta a partir da desigualdade.

Jardim Gramacho revela a face concreta das contradições do desenvolvimento sustentável no Brasil. Um território ambientalmente estratégico, socialmente vulnerabilizado e politicamente invisibilizado. Este caso mostra as consequências de se falar em sustentabilidade sem tratar de justiça socioambiental.

Materiais recicláveis guardados no quintal da casa de catadores. Foto: Joelma Araújo
Materiais recicláveis guardados no quintal da casa de catadores. Foto: Joelma Araújo

Sobre a autora: Joelma Araujo é graduanda em Geografia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), moradora de Jardim Gramacho, Duque de Caxias, mulher preta, mãe solo e filha de catador. Desenvolve pesquisas há mais de três anos sobre saneamento, lixões clandestinos e justiça socioambiental. É bolsista do Grupo de Estudos em Geodiversidade, Patrimônio e Educação na Baixada Fluminense (Geopart BF); integrante do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Baixada Fluminense (NIESBF), Movimento Negro Unificado (MNU) e do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB); fundadora da marca Dona Black Fotografias; e atua como coordenadora do Grupo de Trabalho de Meio Ambiente no Fórum Comunitário de Jardim Gramacho e no Fórum Municipal de Mulheres Negras de Duque de Caxias.


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