
No dia 23 de março, um dia após o Dia Mundial da Água, um ato organizado pela Rede de Vigilância Popular em Saneamento e Saúde levou representantes da sociedade civil e movimentos populares* a se manifestarem em frente à concessionária privada Águas do Rio, no Centro da cidade Rio de Janeiro, tendo como principal reivindicação o acesso à água e o saneamento como um direito humano fundamental.
Um Ato Repleto de Denúncias
Em frente a uma sede descaracterizada da Águas do Rio (não havia logotipo da empresa), com presença de ao menos dois carros de Polícia Militar e alguns funcionários da empresa, pessoas presentes no ato espalharam faixas pelo chão com frases como: “Pelo fim do contrato da Águas do Rio”; “Enquanto falta água, sobra lucro!” e “Reestatização das águas e do esgoto“. O tom de denúncia e de indignação marcou o protesto contra os serviços prestados pela concessionária Águas do Rio, onde atua na maior parte da capital e em alguns outros municípios fluminenses—e também contra a Iguá, responsável por água e esgoto em bairros da Zona Sudoeste e municípios do interior do estado; e Rio+Saneamento, concessionária de 24 bairros da Zona Oeste e de alguns municípios da região metropolitana, como Itaguaí e Seropédica.

A mobilização teve como foco denunciar a piora do acesso à água após a privatização dos serviços de distribuição de água e esgotamento sanitário, serviços anteriormente realizados pela concessionária pública, CEDAE. A privatização foi realizada pelo ex-Governador Cláudio Castro em 2021. Os manifestantes teceram críticas aos planos de concessão dos serviços para a Águas do Rio. De acordo com relatos de moradores de diversas favelas do Grande Rio, um medo que tinham se confirmou: o acesso a esses serviços piorou após a privatização.
O professor de Ciência Política da UniRio, João Roberto Lopes Pinto, contextualizou durante a sua fala, a importância da mobilização e sobre algumas irregularidades que a concessionária Águas do Rio tem cometido durante sua operação no estado. Essa denúncia é alvo de um inquérito aberto pelo Ministério Público Estadual que apura o envolvimento de governo do Estado, Águas do Rio e CEDAE, que ainda é responsável pela produção de água potável para o Grande Rio de Janeiro. Inclusive, sua Estação de Tratamento de Água (ETA) Guandu, localizada em Nova Iguaçu, é a maior estação de tratamento de água em produção contínua do mundo.
“Nós estamos aqui com uma movimentação pequena, mas a movimentação que a gente representa, as organizações, têm acumulado muito na discussão e na luta pelo direito humano à água e ao saneamento. E o que a gente quer dizer hoje para a Águas do Rio e para o governo Claudio Castro, que está renunciando exatamente neste momento, é que a gente está acompanhando de perto os indícios de irregularidade no contrato de concessão da Águas do Rio. A Águas do Rio alegou que houve um erro no contrato, e de que o indicador de esgotamento sanitário do contrato estava errado [gerando mais gastos para a empresa]. Pegaram um caso emblemático, de Magé, porque lá estava dito que havia uma cobertura de saneamento de 40% e no final das contas se verificou que esse número era 0%.
Então, a Águas do Rio está reclamando que precisa ser compensada, porque não foi só o caso de Magé, mas [houveram] vários outros casos [também]. Casos de superestimação dos indicadores de contabilidade sanitária. Ela está pedindo o reequilíbrio econômico-financeiro do contrato, um valor aproximado de R$1,3 bilhões. Agora, a pergunta que a gente faz para o Cláudio Castro, para a agência reguladora AGENERSA e para o BNDES que modelou o contrato: como é que passou esse erro?
Depois de três anos, o governo do Claudio Castro diz para Águas do Rio que ‘a CEDAE vai pagar’. Bota na conta da CEDAE, e já garante o reajuste tarifário [que ocorreu] no final do ano passado. Ou seja, o governo Claudio Castro bota a conta sobre a população e sobre a empresa pública CEDAE, comprometendo as contas da empresa pública… E agora está discutindo a venda do que sobrou da CEDAE. E quem está querendo comprar? A Aegea, a Águas do Rio, quer assumir agora a produção da água.” — João Roberto Lopes Pinto

Suelen Souza, integrante da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), puxou um jogral que uniu a todos que estavam presentes numa só voz:
“Hoje, dia 23 de março de 2026, nós, movimentos sociais e organizações da sociedade civil estamos em frente à sede da Águas do Rio para denunciar os abusos cometidos pela empresa em conluio com o governo Cláudio Castro.
Após quatro anos de concessão, os problemas se multiplicaram e quem sente no peito é o povo. Aumento abusivo das tarifas 24% acima da inflação. A conta que já era pesada ficou impossível de pagar. Tem gente que precisa escolher entre comer e beber água.
E mesmo pagando essa fortuna, a água vive faltando. As adutoras vivem estourando.
A empresa já acumula mais de 100.000 processos no Tribunal de Justiça, 70 por dia, 70 famílias por dia entrando na justiça contra a Águas do Rio. Enquanto isso, os quatro diretores da empresa, cada um deles, recebe R$368.000 por mês, quase R$400.000. Enquanto o povo passa necessidade, eles nadam em dinheiro.
Há graves indícios de corrupção. A Aegea, controladora da Águas do Rio, pagou R$70 milhões em propinas em seis estados, inclusive aqui no Rio.
O contrato de concessão foi assinado com erros, erros que só beneficiaram a empresa. E agora, o povo vai pagar a conta: R$1,2 bilhão de compensação pra Águas do Rio, tirado da Cedae, ou seja, do nosso dinheiro, do dinheiro público.
A AGENERSA, que devia defender a população, virou advogada da empresa. Em vez de multar, passa a mão na cabeça. Em vez de proteger o povo, protege quem explora o povo.
E os recursos da outorga, o dinheiro que entrou com a concessão, foram usados por Cláudio Castro pra contratar 27.000 cabos eleitorais.
A Águas do Rio só nada de braçada. Lucrou R$1,7 bilhão em três anos, 70% desse valor foi pros acionistas: Itaú, Fundo de Singapura, Equipav, gente que nem mora aqui levando nosso dinheiro, enquanto a água falta na torneira do povo.
Agora o governo quer vender o que restou da Cedae justamente pra Águas do Rio? Se fizerem isso, a empresa vira dona de tudo. Monopólio privado da água e daí pode preparar o bolso porque a tarifa vai subir mais ainda e o serviço que já é ruim vai piorar.
Por tudo isso, nós não vamos aceitar. Não vamos nos calar. Exigimos a imediata rescisão do contrato com a Águas do Rio. Exigimos a reestatização do saneamento no estado do Rio de Janeiro.
Fora Águas do Rio! Fora Cláudio Castro! Água não é mercadoria. Água é direito do povo. É saúde, é dignidade, é vida. E a vida do povo não está à venda.”
Nas Favelas e Periferias, “O Buraco É um Pouquinho Mais Embaixo”
Rejany Ferreira dos Santos, geógrafa e pesquisadora do Observatório da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha, falou sobre a dificuldade das famílias de favelas e periferias arcarem com as contas de água, cada vez mais caras. Nesse contexto ela apontou a reestatização da distribuição e do saneamento como solução para aumentar o acesso a essas famílias, inclusive citando a questão de gênero como um agravante, pois, mulheres e meninas são mais afetadas por desigualdade no acesso à água.
“A água e esgoto precisam ser reestatizados. Principalmente, porque tem uma população, que é a população favelada e periférica, que não vai ter o acesso, principalmente ao tratamento do esgoto da forma adequada. A gente sabe que o aumento da tarifa impacta a vida da população, principalmente a vida das mulheres, de famílias uniparentais. Quando há um aumento da tarifa, isso impacta diretamente o orçamento dessa família. E nós sabemos que, se não tem água, não tem comida. Então, é essencial reestatizar para que essa população favelada e periférica tenha o serviço da forma adequada. E, nesse sentido, precisamos falar do mínimo vital de água.Tem uma parcela da população que não tem condições de pagar as tarifas, mas não existe vida sem água.” — Rejany Ferreira dos Santos, Observatório da Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha
Clara Sacco, diretora executiva do DataLab, evidencia que quase sempre em relação aos territórios de favela e periferias, as concessionárias prestam um serviço de baixa qualidade, o que leva muitos moradores à escassez ou mesmo ao não acesso ao serviço de distribuição de água e saneamento.
“A gente tem se falado desde que começou o processo de privatização. Dialogando… com os companheiros da Rede Favela Sustentável… [é evidente que em] territórios de favela e periferia, o buraco é mais embaixo. [São] territórios difíceis de serem enxergados pelas concessionárias. Enquanto organizações [da sociedade civil], estamos pensando na própria gestão desses territórios. Você vê que não têm obras estruturais [necessárias acontecendo] em territórios com uma infraestrutura defasada… No DataLab, a nossa luta é para que os dados sobre água, sobre saneamento básico sejam minimamente representativos da realidade. A gente tem que olhar para as prioridades das concessionárias nesses territórios, a gente tem que lembrar quais informações estão sendo produzidas, [pois] é a informação que vai embasar a tomada de decisão [das concessionárias], e temos que cobrar transparência enquanto essas empresas estiverem operando esses serviços.” — Clara Sacco

A Rede Favela Sustentável marcou presença no ato com a reivindicações da Carta COP das Favelas, que está levantando assinaturas do mundo todo e insiste na importância do protagonismo das favelas nos espaços de decisões sobre o clima. Nélio Lopes, responsável pelo Projeto Socioeducativo Sustentável Haroldo de Andrade (PSSHA) em Barros Filho, falou sobre as dificuldades de acesso à água nas favelas.
“Quando a gente fala de água não tem como a gente não lembrar de ancestralidade. É como diz aquele samba ‘lata d’água na cabeça: lá vai Maria‘. Então, a gente que mora na favela, a gente tem até hoje essa dor, de ver nossas avós e nossos antepassados carregando água, pegando água de poço, bebendo água de qualquer jeito… Eu moro no Complexo de Terra Nostra, ali em Barros Filho, que tem o terceiro pior IDH do município do Rio de Janeiro. O pessoal [da Águas do Rio] está colocando hidrômetro num lugar que não tem saneamento básico, as pessoas não têm caixa d’água, as pessoas não têm colégio, pois a guerra lá é todo dia… Então, as lideranças comunitárias estão de mãos atadas, não conseguem mais levar a água para o morador, porque tudo depende da Águas do Rio, e as pessoas estão sem água… Não tem educação ambiental, não tem uma oportunidade de emprego… Nosso pedido é que olhem para as comunidades.” — Nélio Lopes

Ao final do ato, os manifestantes fizeram uma caminhada, empunhando suas faixas e entoando palavras de ordem, passando em frente à sede da concessionária Águas do Rio, em um movimento de indignação coletiva contra a empresa.
Veja Aqui o Álbum Completo do Ato do Dia Mundial da Água:
*Estiveram presentes no ato representantes da Faculdade de Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), Observatório do Canal do Cunha, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, Fórum Popular do Orçamento, Ong Fase, Faculdade de Serviço Social da Univeridade do Estado Rio de Janeiro (UERJ), Fiocruz Mata Atlântica, FAM Rio, Data Labe, Rede Favela Sustentável (RFS) e Secretaria de Mulheres da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Também marcaram presença os mandatos parlamentares do Deputado Federal Tarcísio Mota, Deputada Estadual Marina do MST, Vereador William Siri e Vereadora Mônica Benício.
A Rede Favela Sustentável (RFS) e o RioOnWatch são articulados pela Comunidades Catalisadoras (ComCat).
Sobre a autora: Bárbara Dias, cria de Bangu, possui licenciatura em Ciências Biológicas, mestrado em Educação Ambiental e atua como professora da rede pública desde 2006. É fotojornalista e trabalha também com fotografia documental. É comunicadora popular formada pelo Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC) e co-fundadora do Coletivo Fotoguerrilha.

