Favelas? Assentamentos Informais? Basta Chamá-las de ‘Homegrown’

Livro Argumenta que Áreas Urbanas Não Planejadas, Moldadas por Seus Moradores, Podem Ser Modelos

No bairro de Dharavi, em Mumbai, na Índia, novos arranha-céus residenciais se erguem sobre construções mais antigas. Fotógrafo: Dhiraj Singh/Bloomberg
No bairro de Dharavi, em Mumbai, na Índia, novos arranha-céus residenciais se erguem sobre construções mais antigas. Fotógrafo: Dhiraj Singh/Bloomberg

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Leia a matéria original por Feargus O’Sullivan, em inglês, na Bloomberg aqui. O RioOnWatch traduz matérias do inglês para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar temas ou análises cobertos fora do país, que nem sempre são cobertos no Brasil.

Em representações de cidades em desenvolvimento, uma imagem marcante se repete: uma paisagem urbana onde arranha-céus reluzentes se justapõem a moradias improvisadas em territórios precarizados. A foto pode ter sido tirada em São Paulo, Mumbai ou Jacarta, mas os contrastes que ilustra são os mesmos em todo o mundo: entre a cidade moderna, rica e organizada e as favelas sujas e caóticas, no que parece ser outra época, que ameaçam sufocá-la.

Embora seja inquestionável que tais lugares existam, os contrastes que ilustram podem ser enganosos e até nocivos, argumentam os autores de um novo livro. Em The Homegrown City: Reclaiming the Metropolis for its Users (A Cidade ‘Homegrown’: Reivindicando a Metrópole para seus Usuários), Matias Echanove e Rahul Srivastava refletem sobre 18 anos de atuação como cofundadores do escritório de design urbz, com sede em Mumbai, que tem se dedicado a abordagens participativas e lideradas por cidadãos para o aprimoramento urbano em Mumbai e em outras cidades globais.

Homegrown = termo afetivo em inglês para algo cuidadosamente cultivado a partir da própria terra ou território, surgido organicamente.

Capa do livro 'The Homegrown City: Reclaiming the Metropolis for its Users' (A Cidade 'Autoconstruída': Reivindicando a Metrópole para seus Usuários). Fonte: Verso Books
Capa do livro The Homegrown City: Reclaiming the Metropolis for its Users (A Cidade ‘Homegrown’: Reivindicando a Metrópole para seus Usuários). Fonte: Verso Books

Em vez de serem inerentemente caóticos e indesejáveis, o livro sustenta que bairros informais—um termo que os próprios autores rejeitam—possuem um complexo equilíbrio. Longe da ausência de planejamento, são, na verdade, microplanejados—com edifícios e tecido urbano sujeitos a ajustes e revisões constantes, à medida que as necessidades e circunstâncias dos moradores mudam. Embora frequentemente careçam de infraestrutura ou segurança de posse, sua acessibilidade econômica e adaptabilidade dão a seus moradores um ponto de apoio na cidade—o que, de outra forma, não teriam. Além disso, esses territórios fornecem serviços sem os quais os arranha-céus que se impõem sobre eles teriam dificuldade para funcionar. Em vez de serem removidos, esses bairros poderiam fornecer modelos globais para um urbanismo mais humano e sustentável.

Recentemente, Bloomberg CityLab conversou com Echanove e Srivastava para discutir o livro, o trabalho da urbz e o porquê de a Mumbai contemporânea se assemelhar muito mais à Paris do século XVI ou ao Japão do pós-guerra do que imaginamos. A conversa foi editada para maior concisão e clareza.

O termo “slum” vem sendo cada vez mais rejeitado como forma de descrever os bairros urbanos de baixa renda e sem planejamento formal, como aqueles com que a urbz costuma trabalhar, por ser pejorativo e altamente subjetivo. Vocês também rejeitam o mais ameno “bairro informal”, preferindo chamá-los de “homegrown” [termo em inglês para algo cuidadosamente cultivado a partir da própria terra ou território, surgido organicamente]. Por quê?

Rahul Srivastava:Slum” incorpora um julgamento por parte de quem usa o termo. Trata-se, na verdade, de perceber um lugar como desordenado, caótico ou problemático e, em seguida, insinuar um desejo de apagá-lo e substituí-lo por algo diferente. Usar a palavra “informal” remove uma camada do preconceito embutido no termo, mas ainda carrega a problemática suposição de que essas áreas são desorganizadas e precisam ser removidas para dar lugar a algo “formal”, ao mesmo tempo que deixa incontestado o conceito de formalidade.

Rahul e Matias. Foto: Quentin Chevrier
Rahul e Matias. Foto: Quentin Chevrier

Matias Echanove: As qualidades incorporadas ao conceito de “homegrown” não se limitam a assentamentos pobres. Vemos o “homegrown” em qualquer lugar onde o crescimento é gradual e com raízes locais. Na verdade, isso reflete a propensão humana de criar nossos próprios habitats. Por exemplo, os centros históricos das cidades europeias são, em grande medida, homegrown. Hoje, o processo de criação e formação do nosso próprio habitat é ativamente reprimido na Europa e nos EUA, onde os departamentos de planejamento urbano e o mercado imobiliário nos transformaram em consumidores passivos de casas e ambientes urbanos.

Por que chamar esses lugares de “homegrown” quando na verdade são erguidos por profissionais?

ME: Isso é algo que pessoas de fora não costumam saber—que construções em contextos como este em Mumbai e em outros lugares são, de fato, projetadas e construídas por profissionais, mesmo que estes o façam sem elaborar suas plantas no papel. A grande diferença do desenvolvimento urbano de cima para baixo, no entanto, é que esses construtores estão totalmente inseridos em suas comunidades e conhecem bem as condições locais, do que seus clientes precisam e suas expectativas. Essas regiões, portanto, ainda são em grande parte criadas pela própria comunidade e dentro dela.

O que vocês chamam de bairros homegrown estão frequentemente reservados para futura demolição e reconstrução. Um exemplo é o distrito de Dharavi, em Mumbai, onde vocês trabalham há muitos anos, que em breve poderá se tornar a maior área de reurbanização em terreno já ocupado da Índia, com a demolição e substituição de casas. Embora vocês reconheçam que essas áreas muitas vezes enfrentam sérios desafios em termos de infraestrutura e serviços, consideram processos como esse destrutivos. Por quê?

RS: Projetos de desenvolvimento grandiosos e centralizados contrariam o instinto de muitas comunidades onde, historicamente, as pessoas tomaram as rédeas da construção de suas próprias casas, independentemente dos sistemas habitacionais maiores nos quais estavam inseridos serem controlados pelo Estado, por uma empresa ou por um rei. Não é só o grau de passividade que isso impõe: considerando nosso atual estado de crise financeira e ambiental permanente—ligado à superexploração de recursos—demolir e reconstruir são processos extremamente dispendiosos e prejudiciais, envolvendo gastos desnecessários com materiais e energia.

Pedestres num mercado de Mumbai na Índia. Foto: Dhiraj Singh/Bloomberg
Pedestres num mercado de Dharavi em Mumbai na Índia. Foto: Dhiraj Singh/Bloomberg

ME: O fato de estarmos alienados do nosso habitat também pode tornar o ambiente tóxico para a nossa saúde mental, contrariando a nossa necessidade humana básica de nos conectarmos com o outro. Não queremos afirmar que as pessoas em lugares como Dharavi sejam mentalmente mais saudáveis ​​do que em outros lugares, mas na cidade homegrown existe um pouco mais de espaço para autonomia, o que proporciona um ambiente de vida mais saudável. Nosso trabalho em Dharavi e em outros lugares consiste em reconhecer esse potencial e libertá-lo.

Como você observa, a autonomia e a margem de adaptação nos bairros homegrown frequentemente vêm acompanhadas de limitações significativas em infraestrutura e serviços essenciais. É realista pensar que essas deficiências possam ser corrigidas sem comprometer o DNA essencial de um bairro homegrown?

ME: Com certeza. Usamos Tóquio como modelo—um lugar que se reconstruiu em grande parte de forma homegrown após a Segunda Guerra Mundial. Quando tentaram melhorar os bairros em Tóquio, adaptaram a infraestrutura ao que já existia, em vez de decidirem que o que estava ali precisava ser eliminado para que a infraestrutura pudesse ser implantada. Isso reflete o que Patrick Geddes, que nos influenciou profundamente, quis dizer ao descrever a adaptação urbana eficaz como uma “cirurgia conservadora”. Às vezes é preciso intervir, abrir as coisas para consertá-las e melhorá-las—instalando encanamento, por exemplo, ou melhorando a ventilação. Mas é vital ter cuidado e não destruir o corpo inteiro.

Seus exemplos de boas e más práticas abrangem muitos casos relevantes de cidades asiáticas. Essas questões têm paralelos na Europa e na América do Norte?

ME: Sim. Nos antigos bairros industriais de Nova York, como Williamsburg ou Red Hook, há algum tempo que as pessoas vêm transformando tudo em seus edifícios, com exceção da fachada. É o mesmo processo de apropriação, transformação e evolução—embora ali o processo tenha sido menos orgânico e mais invasivo, com o novo crescendo por cima do que já existia. Da mesma forma, pesquisadores americanos já observaram que a chamada informalidade está por toda parte nos subúrbios americanos, porque as pessoas vão moldando seus próprios quintais, muitas vezes à margem das regulamentações, já que estas eram restritivas e caras demais para serem cumpridas.

Na matéria sobre o livro publicada no Bloomberg CityLab: imagem mostrando partes de cidades como Nápoles, antigamente vistas como favela. Imagem embutida na matéria original por Marco Bottigelli/Getty
Na matéria sobre o livro publicada no Bloomberg CityLab: imagem mostrando partes de cidades como Nápoles, antigamente vistas como favela. Imagem embutida na matéria original por Marco Bottigelli/Getty

ME: Na Europa, também existe um movimento na França que defende o direito dos proprietários de promover a densificação, dividindo suas casas ou construindo em quintais. Há uma consciência, em muitos lugares, de que esses processos podem abrir espaço para um enorme potencial, de maneira que nosso argumento não é necessariamente antimercado ou antipropriedade.

Vocês são praticantes ativos da renovação urbana—entre outros projetos, estão atualmente envolvidos em um projeto no bairro costeiro de Koliwada, em Mumbai, frequentemente descrito como favela. Como a proposta de vocês difere do tipo de reurbanização total que criticam no livro?

ME: Nós nunca acreditamos na reurbanização total de lugar nenhum. Koliwada tem uma economia enraizada e uma vida social forte. Qualquer grande reurbanização corre o risco de destruir esses investimentos e a identidade do lugar. Nós basicamente invertemos o processo de planejamento: em vez de começarmos com um plano e depois implementá-lo, aceleramos iniciativas já existentes e revelamos o potencial latente. O plano emerge do processo ou, como gostamos de dizer, “a forma segue o processo”. Por exemplo, reconstruímos uma antiga Casa da Alfândega britânica que estava em ruínas há mais de 30 anos. Trabalhamos com representantes da comunidade e um grupo de jovens que acharam que ela deveria ser usada como sala de estudos para crianças.

“Em vez de começarmos com um plano e depois implementá-lo, aceleramos iniciativas já existentes e revelamos o potencial latente.”

Ruas estreitas são típicas nos bairros das partes mais antigas de Dharavi. Foto: Matias Echanove
Ruas estreitas são típicas nos bairros das partes mais antigas de Dharavi. Foto: Matias Echanove

A equipe da urbz também está construindo um parque em Dharavi, Koliwada, em um local usado para guardar riquixás. Estamos instalando energia solar para alimentar alguns postes de iluminação e trabalhando com a comunidade para criar um novo sistema de drenagem sob medida para as ruas estreitas do bairro.

Vocês observam que moradores de bairros homegrown vivem em desvantagem porque suas casas estão sob constante ameaça de remoção por projetos de reurbanização, tornando impossível qualquer sentimento duradouro de propriedade. Mas, paradoxalmente, essa situação pode trazer algumas vantagens. Quais são elas?

RS: Quando a única forma das pessoas acumularem riqueza é possuindo uma moradia, isso se torna problemático porque o desenvolvimento econômico passa a estar ligado à especulação imobiliária, o que acaba gerando ambientes urbanos precários. Não é incomum que as pessoas tenham acesso a capital privado na forma de propriedade de terra ou moradia em um ambiente extremamente deteriorado. Em uma cidade como Mumbai, por exemplo, as pessoas estão apegadas à ideia de investir em suas casas como forma de gerar riqueza. No entanto, há pouca preocupação com as implicações da especulação para a qualidade de vida ou o meio ambiente.

ME: O nosso não é, automaticamente, um argumento antimercado ou antipropriedade, porque às vezes o senso de propriedade é o que permite às pessoas projetar e adaptar. Estando fora desse sistema, uma casa homegrown só vale tanto quanto os usos que pode ter—como moradia, local de trabalho, armazenamento e assim por diante—e, por isso, ela é moldada às necessidades de seus moradores. Nenhum espaço fica vazio enquanto os proprietários esperam os preços dos imóveis subirem. O valor de uso é tudo. O que torna tão interessante e inspirador caminhar por ruas homegrown é como essa autoadaptação evita a repetição e a monotonia do que chamamos de “urbanismo de planilha”. O homegrown está sempre integrado às realidades locais. E esse é o seu poder.


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